Quando o mundo moderno cessou, os reinos despertaram; e com eles, um jogo de poder onde casamentos valem mais do que batalhas. Entre ruínas, alianças decidiram destinos - e algumas vidas foram sacrificadas em nome de leis antigas que renasceram nas cinzas da civilização perdida.
O Fim da Era Moderna.
Há mais de dois séculos, o mundo era algo completamente diferente do que conhecemos hoje. Houve um tempo em que o céu era cortado por máquinas capazes de voar, grandes pássaros de metal que cruzavam continentes com facilidade quase arrogante. O solo vibrava sob veículos que percorriam distâncias imensas em poucos minutos, como se o próprio tempo se curvasse diante da tecnologia humana. As cidades brilhavam noite e dia, tomadas por luzes incessantes que transformavam a escuridão em mero detalhe, e o som dos motores substituía o silêncio de forma tão constante que poucas pessoas lembravam como era viver sem ele.
Homens, mulheres e crianças caminhavam segurando pequenos dispositivos que lhes permitiam falar com qualquer pessoa no planeta, ver rostos distantes, descobrir informações em segundos. Era como se o mundo coubesse dentro das mãos de cada um.
Essa era considerada a época do conforto, da tecnologia, do progresso - o auge da humanidade.
Até que o Norte se ergueu.
O início da guerra foi abrupto, tão inesperado que muitos acreditaram que seria apenas mais uma disputa passageira entre nações poderosas. Mas rapidamente ficou claro que aquilo não seria contido com diplomacia ou acordos frágeis. Uma crise global de recursos iniciou um conflito sem precedentes. O combustível, antes abundante, tornou-se escasso e valioso demais. E as nações do Norte, temendo perder o domínio sobre a energia que sustentava o planeta, decidiram que tomariam o que quisessem à força.
No começo, os combates eram travados com todo o poder do arsenal moderno. Tanques avançavam como criaturas blindadas; aviões rasgavam o ar, lançando destruição de cima; drones sobrevoavam as cidades como sombras silenciosas, espalhando caos com precisão mecânica. Mísseis recortavam o céu em trajetórias luminosas que terminavam em explosões devastadoras. A fumaça negra das batalhas tomou o horizonte, transformando dias em crepúsculos permanentes. O cheiro de pólvora e metal queimado tornou-se o perfume amargo daquela era.
A guerra durou anos. Civis foram engolidos pela destruição. Países caíram, um após o outro, incapazes de suportar o avanço implacável do Norte. Cada vitória deixava as nações nortistas ainda mais famintas. Parecia que, a cada território conquistado, mais crescia o desejo de dominação - um ciclo que jamais terminava.
No quinquagésimo ano de conflito, quando praticamente não havia mais esperança, surgiu um último plano. As principais nações do Sul, unidas ao Leste e ao Centro, tomaram uma decisão desesperada: sabotar as principais refinarias de combustível e centrais elétricas do planeta. Acreditavam que cortar o suprimento de energia enfraqueceria o Norte de forma definitiva.
O plano funcionou.
Mas seu impacto foi devastador demais.
Quando as refinarias pararam e as usinas cessaram, não foram apenas soldados que ficaram sem energia. O mundo inteiro mergulhou num silêncio mortal. Máquinas essenciais deixaram de funcionar. Sistemas colapsaram. Comunicações se apagaram. Veículos tornaram-se blocos inúteis abandonados nas estradas. Cidades inteiras ficaram às escuras, transformando metrópoles vibrantes em silhuetas fantasmagóricas.
Em poucos meses, a civilização moderna perdeu tudo que lhe dava forma.
Sem energia, sem comunicações, sem meios de transporte, a humanidade precisou renascer em meio ao caos. E o renascimento não foi gentil. Terras antes férteis se tornaram improdutivas, exigindo novas formas de cultivo. Famílias deixaram apartamentos altos e buscaram vilas menores, onde ainda era possível sobreviver.
O mundo regrediu séculos - não por escolha, mas por necessidade.
Cavalos e carroças voltaram a ocupar o lugar dos automóveis e trens. Navios a vela e remo substituíram motores. Espadas, lanças, machados, arcos e flechas retomaram o lugar de armas avançadas. Mensagens que antes atravessavam o planeta em segundos passaram a depender de pombos ou mensageiros, que enfrentavam estradas perigosas e demoradas. Estradas que, muitas vezes, jamais garantiam retorno.
Os soberanos das grandes regiões - Leste, Oeste, Sudeste e Centro - reorganizaram-se como reinos independentes, motivados pela sobrevivência, pelo medo e pela necessidade de união. Era uma aliança frágil, sustentada por pactos políticos e pela ameaça constante vinda do Norte. Mesmo enfraquecido pelo colapso, o Norte não recuou. Seus exércitos continuavam a avançar com brutalidade e frieza. Não buscavam apenas terras - buscavam subjugação completa. Sua liderança acreditava que apenas os fortes mereciam viver. Todos os outros, inevitavelmente, seriam esmagados.
Com o fim da modernidade, leis antigas renasceram e outras ainda mais severas surgiram. Entre elas, os casamentos arranjados tornaram-se novamente instrumentos essenciais da política. Famílias nobres voltaram a selar alianças através de seus filhos, oferecendo-os como símbolos de união, pagamento de dívidas territoriais ou formas de garantir acordos militares. Filhas e filhos da realeza aprenderam, desde cedo, que seus destinos não lhes pertenciam. Muitos cresceram sabendo que, ao atingirem determinada idade, seriam usados como peças necessárias para manter seu reino seguro. Uniões eram negociadas em conselhos fechados, decididas por homens e mulheres cujas prioridades jamais envolviam amor.
E, nessas decisões, gerações inteiras eram marcadas - algumas pela honra do dever cumprido, outras pelo peso de um futuro jamais escolhido.
Em diversas regiões, histórias de jovens obrigados a se casar para unir casas rivais ou para impedir guerras tornaram-se comuns novamente. Essas alianças forçadas muitas vezes salvavam um reino... ao custo de uma vida. E, por mais cruéis que fossem, eram consideradas necessárias diante do medo constante.
Mas, entre todas as leis antigas que ressurgiram, uma era particularmente cruel: a Lei do Levirato.
Uma lei que exigia que a viúva se casasse com o irmão do marido falecido - não por escolha, não por amor, mas por obrigação. Para preservar linhagens. Para manter heranças. Para garantir que nenhuma propriedade, nenhum título, nenhuma conexão se perdesse com a morte.
Era uma lei que transformava luto em prisão.
E foi exatamente essa lei que destruiu o futuro de Anya, filha do rei de Eldirin.
Anya não foi apenas mais uma peça no tabuleiro político. Ela foi uma das poucas que teve sorte - ou assim parecia.
Prometida desde jovem a um nobre que nunca amou, Anya carregava o peso de um futuro sem escolha. Até que conheceu Victor Dominus, príncipe herdeiro de Aldirin. E, pela primeira vez na vida, sentiu seu coração bater por vontade própria. Victor não era apenas belo ou poderoso - era gentil. Corajoso. Honrado. E, quando ele a viu pela primeira vez, algo mudou nos olhos dele. Como se, em meio ao caos do mundo, ele tivesse finalmente encontrado algo digno de ser protegido.
Eles se apaixonaram.
Contra todas as probabilidades, contra todas as convenções, os pais dela e os pais dele aceitaram a união. O noivado anterior foi desfeito. Acordos foram refeitos. Alianças foram ajustadas.
Anya e Victor se casaram. E, por um breve momento - tão breve quanto frágil - ela conheceu a felicidade.
Mas o Norte não perdoa felicidade.
Victor caiu indo para a batalha, onde defenderia as fronteiras de Aldirin. Lutou até o último suspiro. Morreu como um herói. E deixou para trás uma viúva destroçada - uma mulher que havia arriscado tudo por amor e que agora enfrentava o luto mais profundo que a alma humana pode suportar.
Mas o mundo não permitiu que ela sofresse em paz.
Porque havia a Lei do Levirato.
E havia Orion Dominus - o irmão de Victor.
O primeiro filho. O guerreiro que todos temiam. O comandante do exército dos reinos. O homem que nunca desejou a coroa, mas que a recebeu manchada de sangue e lágrimas. O homem que assistiu, impotente, enquanto o irmão que amava morria.
E agora... ele seria forçado a tomar a esposa de Victor como sua.
Não porque desejava.
Não porque Anya desejava.
Mas porque a lei assim determinava.
O conselho de Alderin invocou o Levirato. Anya, ainda jovem, poderia gerar herdeiros. A aliança com Eldirin era valiosa demais para ser perdida. E Orion, agora o futuro rei, precisava de uma rainha.
A lógica era fria. Impecável. Inquestionável.
É completamente desumana.
Anya, ainda vestida de luto, foi forçada a trocar o véu negro por um véu de casamento. Orion, ainda carregando a culpa de ter sobrevivido, foi forçado a jurar votos para a mulher que pertencera ao irmão que ele jamais conseguiria substituir.
Dois corações despedaçados.
Dois destinos entrelaçados pela mais cruel das leis.
Ela o odiava - porque ele representava tudo que ela havia perdido.
Ele carregava a culpa, a raiva e o tormento da guerra - porque sabia que ela jamais o escolheria.
E enquanto Anya lutava contra o luto, contra a raiva, contra a sensação de ter sido roubada duas vezes... Orion carregava seu próprio fardo: o peso de um reino, a sombra de um irmão morto e a impossibilidade de fazer aquela mulher - que chorava por outro homem todas as noites - sentir qualquer coisa além de desprezo por ele.
Mas o mundo não se importava com o que sentiam.
O mundo exigia sacrifício.
E eles - como tantos outros antes deles - foram sacrificados no altar da política.
Porque, neste mundo onde a guerra ameaça engolir tudo, cada escolha é uma batalha silenciosa entre o dever e o desejo de liberdade.
E alguns sacrifícios - especialmente aqueles feitos em nome da política - ecoam por muito mais do que uma vida, atravessando séculos como sombras que nunca se dissipam.
Mas às vezes, nas cinzas do sacrifício, algo inesperado pode nascer. Às vezes, duas pessoas forçadas a se unirem encontram, no peso compartilhado, uma força que jamais imaginaram possuir. Às vezes, do ódio nasce respeito. Do respeito nasce confiança. E da confiança... nasce amor.
Um amor que não deveria existir.
Um amor construído sobre as ruínas de outro.
Um amor que precisou ser conquistado - dia após dia, cicatriz após cicatriz.
Esta é a história de Orion e Anya.
De um rei que nunca quis a coroa.
De uma rainha que nunca escolheu seu trono.
De um amor que nasceu onde só deveria haver dor.
E de como, juntos, eles transformaram uma prisão em lar.
No trono, não existe luto - só dever.
O sol nasce pela janela como um convidado indesejado, invadindo meu quarto com tons suaves de laranja e rosa, como se tentasse me convencer, de forma quase ingênua, de que este dia poderia ser diferente. A luz desliza pelas paredes de pedra que carregam séculos de história - memórias que não me pertencem, mas que, mesmo assim, pesam sobre meus ombros como uma herança invisível. A brisa fresca da manhã se infiltra pela fresta das cortinas entreabertas, trazendo consigo o cheiro de terra úmida, o perfume adocicado das flores do jardim e uma promessa que eu não desejo aceitar: a promessa de que o dia está somente começando, e que precisarei enfrentá-lo.
Estou deitada na cama, imóvel, com o corpo coberto até o queixo pela colcha espessa que não me aquece de verdade. Observo o movimento lento das árvores do lado de fora, seus galhos balançando suavemente ao ritmo do vento, como se dançassem uma coreografia antiga e sagrada, conhecida unicamente por elas. As folhas parecem mãos verdes agitadas pela natureza em um balé silencioso, e, por um instante fugidio, tento me deixar levar pela beleza daquela cena. Tento. Mas a paz que habita lá fora não consegue alcançar o silêncio que pesa dentro de mim - um silêncio sufocante, denso, tão espesso que sinto como se estivesse presa dentro dele, afogada em mim mesma.
O castelo desperta lentamente, como uma criatura gigantesca que acorda relutante. Ouço o barulho dos empregados se intensificando a cada minuto: o arrastar pesado de baldes, a água batendo contra a pedra fria, passos apressados ecoando pelos corredores largos, vozes trocando instruções sobre o que precisa ser feito antes que o dia se estabeleça por completo. Tudo isso deveria me trazer um pouco de conforto, uma sensação de normalidade, de vida pulsando ao meu redor. Mas parece distante demais, como se viesse de um mundo que não é mais o meu. Um mundo que perdi no mesmo dia em que perdi a ele.
Um sorriso triste toca meus lábios sem que eu perceba, um reflexo involuntário da dor que me acompanha como uma sombra fiel, inseparável. A manhã tenta me envolver com seu calor gentil, quase maternal, como se quisesse me oferecer um abrigo suave em meio aos meus tormentos. E sou grata, profundamente grata, por esse breve momento de quietude antes que o dia me esmague com suas exigências implacáveis.
Respiro fundo. O ar frio invade meus pulmões e me concede alguns segundos preciosos de lucidez, como se a própria natureza sussurrasse ao meu ouvido com voz antiga e sábia: "Anya, fique tranquila. Desfrute deste instante, pois é precioso e fugaz."
Fecho os olhos, rendendo-me por um momento à melodia suave dos pássaros, ao farfalhar delicado das folhas, ao murmúrio distante da vida acontecendo lá fora, alheia à minha dor. Tento me permitir acreditar que ainda existe espaço para beleza na minha vida, que ainda há algo além deste vazio que me consome. Mas a sensação dura pouco - tão pouco quanto dura a esperança quando se está afogando em luto.
A lembrança dele retorna como uma onda - inevitável, amarga e avassaladora, arrastando-me para o fundo.
Seu toque.
Seu cheiro.
Sua voz rouca pela manhã.
Tudo o que perdi e nunca mais terei de volta.
E, com isso, a dor se instala novamente, fincando raízes profundas no centro do meu peito, como se pretendesse morar ali para sempre.
Enterro o rosto na colcha e suspiro profundamente, tentando conter as lágrimas teimosas que sempre ameaçam cair pela manhã, quando a solidão é mais cruel. O ar parece mais frio debaixo do tecido grosso e, por um instante, eu desejaria me esconder ali para sempre, como se aquele pequeno gesto pudesse me proteger de tudo o que me espera lá fora. Os lençóis contra minha pele parecem ainda mais gelados hoje, como se refletissem a solidão que repousa sobre meu corpo desde o dia em que ele se foi e me deixou somente com suas memórias.
O quarto permanece silencioso, apesar do burburinho crescente do castelo que acorda lá fora. A estrutura de pedra ao meu redor parece guardar segredos que não posso ouvir, histórias antigas que não posso compreender, sussurros de outras mulheres que talvez tenham ocupado este mesmo quarto, sentido esta mesma dor. E, no meio disso tudo, meu coração bate de forma frenética, desgovernado, como se tentasse me alertar sobre algo que eu já sei muito bem: a realidade está à minha espera, cruel e implacável, e não há como escapar dela.
Ouço passos leves se aproximando pelo corredor e já sei quem é antes mesmo que a porta se abra. Minha mãe. Reconheço a cadência suave dos passos dela, o ritmo constante, como se ela não tivesse pressa, mas também não tivesse escolha. Como se cumprir este ritual diário fosse mais uma das muitas obrigações que a vida lhe impôs. Em poucos minutos, ela entrará aqui para me arrancar deste refúgio frágil que construí ao redor de mim.
Refúgio que nunca é suficiente. Que nunca foi.
A porta se abre devagar, quase hesitante.
- Bom dia, dorminhoca! Vamos levantar, que o sol já raiou. - A voz dela é doce, carregada de uma ternura genuína, mas há uma firmeza escondida ali, nas entrelinhas, como sempre há.
Rapidamente limpo as lágrimas que ainda nem caíram, somente ameaçam, e descubro a cabeça. Forço um sorriso, mesmo sabendo que ela percebe a falsidade dele. Mas faço assim mesmo - porque é tudo o que consigo fazer, tudo o que me resta.
- Bom dia, mamãe. - Sento-me na cama, evitando seu olhar penetrante que sempre vê demais.
- Filha... - ouço o som suave de sua roupa enquanto ela se aproxima, e o perfume dela me alcança, familiar e reconfortante. - Olhe para mim, Anya. - Sua mão acaricia meu queixo com delicadeza infinita, obrigando-me a levantar o rosto. Seus olhos estão cheios de preocupação, aquele tipo de preocupação maternal que fere tanto quanto um golpe certeiro, porque carrega amor e impotência na mesma medida.
- Me desculpe, mamãe, eu não... - começo, mas minha voz falha, quebrando-se no meio das palavras.
Ela se senta ao meu lado, o colchão afundando levemente com seu peso, e limpa uma lágrima que escapou sem minha permissão, traindo-me.
- Filha, eu sei que você sente falta dele. Eu sei. - Sua voz é um sussurro carregado de compaixão. - Mas também precisa entender que não temos outra escolha. Nenhuma de nós teve.
As palavras dela cortam mais do que consolam, deixando feridas invisíveis.
- Mas, mãe... faz só um ano. Só um ano, e papai já vem com esse assunto outra vez? - Minha voz sai mais alta do que eu pretendia, carregada de indignação e desespero.
Ela suspira longamente, como se carregasse um peso que não foi ela quem criou, mas que precisa carregar mesmo assim.
- Eu sei... mas precisamos pensar no que é melhor para o povo. Para Eldirin.
Meu estômago revira violentamente, e, por um instante, temo que vou vomitar.
- E para mim? - Minha voz treme. - Sou filha dele! Não importa o que eu sinto?
Ela segura minha mão entre as suas, fazendo um carinho lento e triste, daqueles que carregam mais peso do que conforto.
- Filha, você sabe que tem uma obrigação a cumprir. Nasceu princesa. E isso significa...
- Obrigações... sempre elas. - Interrompo, amarga. Engulo minhas lágrimas com esforço, como se fossem pedras presas na garganta. - Entendo. - Minhas palavras saem engasgadas, rasas, vazias.
- Vamos, levante. Seu pai está nos esperando para o café. - Ela se levanta, alisando a saia com as mãos, e eu sei que a conversa acabou.
Sinto como se o chão estivesse preso às minhas pernas quando me levanto, como se cada movimento exigisse um esforço sobre-humano. Samira aparece logo em seguida, fazendo exclusivamente um gesto com a cabeça e indo para o banheiro. Não demora muito e ela volta com um sorriso gentil estampado no rosto, aquele tipo de sorriso que os empregados aprendem a manter mesmo quando sabem que algo está errado.
- Seu banho já está preparado, alteza. - Sua voz é suave, quase maternal.
- Obrigada, Samira. - Caminho entrando no banheiro, deixando que ela me ajude a despir a camisola que usei durante a noite. Quando entro na banheira, a água morna alivia meu corpo cansado, mas não toca a dor que habita dentro dele, enraizada tão profundamente que nenhuma água conseguiria alcançá-la.
Há guerras e perdas externas... e há perdas e guerras que moram no coração dela.
Minutos depois, vestida com um vestido azul-claro que minha mãe escolheu e com os cabelos penteados com cuidado pelas mãos habilidosas de Samira, saio do quarto ao lado de minha mãe. O castelo parece maior hoje - mais frio, mais imponente, mais distante de mim do que jamais esteve. Cada passo ecoa pelos corredores largos de pedra como se a própria estrutura quisesse me lembrar de que não sou dona da minha vida, nunca fui, e talvez nunca serei.
Antes de entrarmos na sala de jantar, minha mãe segura meu braço com firmeza, seus dedos apertando minha pele através do tecido.
- Não discuta, Anya. Seu pai quer o seu bem... e o do povo. - Sua voz é baixa, urgente.
Solto um riso curto, sem humor, seco como folhas mortas.
- O meu bem? Desde quando? - balanço a cabeça, incrédula. - Papai só se importa em ser um monarca exemplar, mesmo quando todos sabem que ele não sabe lidar com o que está acontecendo em Eldirin. Mesmo quando o reino sangra por causa das escolhas dele.
- Fale baixo! - Ela sussurra, desesperada, olhando ao redor como se as paredes pudessem nos denunciar. - Se ele te ouvir, trará problemas para mim e para você. Você sabe como ele é.
- Me perdoe. - Respiro fundo, tentando acalmar o coração que bate descompassado. - Vou tentar. Mas não será fácil.
Ela solta meu braço lentamente, como se estivesse liberando algo precioso e frágil. A porta se abre, e caminho para a mesa pesada de madeira escura, forçando o estômago embrulhado a aceitar qualquer coisa. Desde a noite passada, desde o que mamãe me contou sobre os planos de meu pai, a comida perdeu completamente o sabor. Tudo parece cinza, sem vida.
- Bom dia, Anya! Dormiu bem? - Papai pergunta do outro lado da mesa, sorrindo como se nada estivesse acontecendo, como se não estivesse prestes a destroçar o que resta da minha vida.
Eu o encaro e me sinto reduzida a uma moeda de troca, um objeto útil apenas quando conveniente.
- Bom dia. Não muito bem, mas o cansaço venceu - respondo, sentando-me na cadeira que sempre ocupo, meu lugar designado nesta farsa que chamamos de família.
Mamãe se senta à minha frente, do outro lado da mesa. Seus olhos suplicam silenciosamente para que eu colabore, para não transformar este café em um campo de batalha.
- Bom dia, família! - Helena surge radiante como sempre, quase pulando ao entrar na sala, sentando-se ao meu lado com sua energia contagiante. - O que temos hoje, titio?
Meu pai nem olha para ela, como se sua presença fosse irrelevante. Seu foco está inteiramente em mim, e isso me faz querer desaparecer.
- Ontem à noite, retornei do condado de Aldirin. Estava conversando com o soberano. - Meu coração trava no peito, parando de bater por um segundo inteiro. - Ele aceitou minha proposta.
Helena praticamente pula na cadeira, animada com qualquer novidade.
- Sério, titio? - Ela ri, levando um pedaço generoso de bolo à boca. - Já até imaginei o vestido de casamento! Vai ser lindo, tenho certeza!
Meu pai nem ao menos dá ouvidos para o que ela acabou de dizer.
- Anya, ele aceitou que você seja a mulher do futuro rei de Aldirin. - As palavras saem da boca dele como se fossem simples, como se não estivesse decidindo meu destino sem me consultar.
Mas a leveza dela morre abruptamente no instante seguinte, congelando no ar. Helena se engasga violentamente com o bolo, tossindo, e mamãe corre para ajudá-la, batendo em suas costas. Paro de respirar completamente, como se o ar tivesse sido sugado da sala.
- Ma... mas ela já foi casada com Victor... o falecido filho do soberano! - Helena consegue dizer entre tosses, com os olhos arregalados de choque.
- Sim. - Papai responde com uma calma assustadora. - E por isso mesmo ele aceitou.
A frase atinge meu peito como uma lâmina fria, cortando fundo.
- Como assim? - Mamãe pergunta, atônita, parando de ajudar Helena para encará-lo.
Abaixo a cabeça e aperto minhas mãos com força sob a mesa, as unhas cravando nas palmas. As lágrimas ameaçam se juntar, queimando atrás dos olhos.
- Não haverá um novo casamento. - Papai continua, como se estivesse explicando algo óbvio. - Apenas a tradição será cumprida. O irmão solteiro deve se casar com a viúva do irmão falecido. É costume antigo em Aldirin. Orion está voltando da guerra. Assim que ele retornar, Anya irá para o castelo como esposa dele.
- Mas eu não quero... - Levanto a cabeça bruscamente, encontrando o olhar dele, escuro e duro como pedra. - Não quero ser esposa de ninguém! Victor foi... e sempre será o meu marido. Eu o amei. Eu o amo. - Minha voz quebra na última palavra.
- Você tem deveres como princesa de Eldirin. - Ele bate a mão na mesa com força, e o som reverbera pelo salão inteiro, fazendo a louça tremer. Pulo na cadeira, assustada.
- Eu só quero viver meu luto... - As lágrimas finalmente caem, escorrendo quentes pelas minhas bochechas. - Só quero isso. É muito pedir?
- Já se passou um ano! - Ele se exalta, a voz subindo de volume. - Não pode passar a vida inteira naquela floresta ou trancada no quarto, definhando. O reino precisa de você.
- Eles se encontravam lá às escondidas, sabe? - Helena comenta com desdém, como se fosse uma fofoca divertida que ela guardava há tempo. - Na floresta. Era romântico, mas também...
Meu sangue ferve instantaneamente.
- Então casa você com esse homem! - digo, encarando-a, depois olhando para papai com toda a raiva que consigo reunir. - Nem o conheço! Ele nem veio ao casamento do irmão, nunca visitou Eldirin desde que me casei com Victor. É um estranho completo para mim!
- Helena não pode se casar com um príncipe, pois ela não é filha de um rei! - O brilho nos olhos dela apaga na mesma hora, como uma vela soprada. - Orion é um soldado, um guerreiro. Ele não tem tempo para futilidades como visitas e festas. Ele protege seu povo, luta por eles.
- Ela é filha da sua irmã, Jeremy - mamãe sussurra, pegando sua xícara de chá com as mãos trêmulas.
- Sim. Fruto de uma traição. - Ele olha para Helena com uma crueldade fria nos olhos. - Só está aqui porque minha mãe a escondeu da vergonha pública e, por causa da traição da mãe dela, perdeu seu título.
Helena baixa a cabeça, e posso ver suas mãos tremendo sobre o colo. Meu coração dói por ela, apesar da minha própria dor.
- Para que falar assim? - Mamãe pergunta, magoada, a voz falhando. - Ela não merece isso, Jeremy.
- É a realidade, Isabella. - ele responde, indiferente ao estrago que suas palavras causam.
- Eu não tenho culpa... - Helena murmura, quase sem voz, tão baixo que mal consigo ouvir.
- Não, não tem. - Papai suspira, como se estivesse cansado desta conversa. - Anya, arrume suas coisas. Você irá para Aldirin em alguns dias e, assim que Orion retornar, consumará a união. Não há mais nada a discutir.
- Mas eu não...
- Eu já decidi. - Ele me corta com firmeza absoluta. - Você está debaixo do meu teto, come da minha comida, vive da minha riqueza. E fará o que eu mandar.
- Tudo isso é culpa sua! - exclamo, sem pensar, sem conseguir me conter. - Se não gastasse fortunas com mulheres, jogos, bebidas e festas extravagantes, teríamos o suficiente para o reino! Para o povo que passa fome! Eu não precisaria ser vendida!
- Filha - mamãe tenta me interromper, o terror estampado no rosto.
- Não, mãe! - Minha voz treme violentamente, mas não paro. - Eu não sou moeda de troca! - Olho para ele. - Não sou um fardo para carregar quando o senhor decide que sou útil! Sou uma pessoa! Sou sua filha!
Ele se levanta lentamente, imponente, dominando a sala com sua presença opressora.
- Me respeite, Anya. - Sua voz é baixa, perigosa.
- Onde está o seu respeito por mim, papai? - pergunto, com lágrimas escorrendo livremente agora, sem pudor. - Sou sua filha... não sou uma aliança política.
- Querendo ou não, será mulher do príncipe Orion - ele declara, como se fosse uma sentença final. - Ele te ensinará a ser esposa, já que sua mãe não soube ensinar. - Ele olha para mamãe com profundo desdém, e ela baixa a cabeça, ferida, humilhada.
Meu corpo inteiro treme de raiva e impotência.
- Se eu tiver que ir... - minha voz sai trêmula, mas determinada - farei de tudo para que ele me rejeite! Vou ser impossível de suportar!
- Se isso acontecer - ele diz, sua voz fria como gelo - você será rejeitada por mim também. Nunca mais será bem-vinda neste castelo. Entendeu?
Sinto o chão desaparecer sob meus pés, como se estivesse caindo em um abismo sem fim.
- Jeremy! - Mamãe grita, levantando-se bruscamente. - Ela é a nossa única filha... - mas ele a ignora completamente.
- Sente-se e tome seu café. Em silêncio. - Ele ordena, voltando a se sentar como se nada tivesse acontecido.
- Perdi o apetite - digo, virando-me para sair, as pernas bambas.
Saio da sala com passos rápidos, quase correndo, ignorando a voz trêmula e desesperada de minha mãe me chamando. Quando alcanço o corredor frio de pedra, o ar me falta completamente, como se alguém estivesse apertando minha garganta. Então corro. Corro para longe daquela sala sufocante, daquela mesa cruel, daquele destino que me espera como uma prisão.
Corro para longe daquilo que tenta me aprisionar, mesmo sabendo que não há para onde fugir.