LONDRES, 1811
No início do século XIX, na Inglaterra, paixão, ambição e traição se tornam o fio condutor deste romance.
Após a morte repentina de Philipe de Mitchell, um novo monarca da Casa dos Mitchell precisa assumir a poderosa dinastia. No entanto, Rei Ricardo esconde um terrível segredo, seu pai foi, na realidade, envenenado. Ao mesmo tempo que a riqueza e o poder levam os Mitchell a uma condição de alta nobreza, levam o desgosto profundo para outra família tradicional inglesa que, apesar de gozar de certo prestígio e influência política, sempre desejou assumir o trono da Inglaterra.
Para proteger seu legado de poder, assim como a riqueza e a influência da sua família, o rei inicia uma caçada pela verdade por detrás da morte de seu pai. Sua primeira suspeita recai sobre o melhor amigo do pai, cuja sede pelo poder o transformou em um homem perigoso.
Em meio a uma minuciosa investigação, ele confirma suas suspeitas e logo busca vingança junto ao patriarca da família em questão.
Sabendo da sua condição inferior, o rei do condado vizinho se ajoelha pedindo perdão e fará de tudo para não ter sua família massacrada, nem ver seu povo sofrendo por sua ambição.
Enquanto Sua Majestade ascende no comando da dinastia, uma paixão avassaladora toma conta do seu coração de gelo. Uma aliança é formada e com ela surge benefícios futuros. Com isso, uma bela morena, de olhos verdes e língua ferina, vê seu destino ser traçado e a linha dele é mudada de curso.
Ela é o oposto do que ele deseja em uma mulher.
Ele ainda lembra dela como uma menina que vivia descalça e que não tinha medo.
Após uma temporada na Corte francesa, ela está mais linda do que nunca. Porém, não é como as mulheres que estão dispostas a se deitarem em sua cama, nem como as moças ingênuas e obedientes da sua família.
A diferença é que ela jurou não se entregar tão fácil ao rei.
- Não irei me submeter aos seus caprichos reais! Não serei sua submissa, sua marionete e muito menos um brinquedo em sua cama... Eu te odeio e não me casaria com você nem que fosse o último homem da face da Terra.
- Sua língua ferina não me dá medo. Será minha esposa, minha rainha e farei da sua vida um inferno. Seu pai matou o meu e como não temos o poder divino de trazê-lo de volta à vida, farei com que seu pai almeje cada dia estar naquele caixão.
- Você é um monstro!
- E você é o demônio em forma de mulher, revestida de anjo e terei o prazer de domar sua marra!
- NUNCA!
Será a vingança capaz de destruir o amor ou será o amor capaz de vencer a vingança?
RICARDO
Aquela foi uma noite como todas as outras, comemos em família e debatemos novas rotas comerciais. Mamãe estava feliz e papai animado com as futuras mudanças.
Ele é um rei benevolente e zeloso com seus súditos.
Os dois foram submetidos a um casamento comum nos nossos termos, um acordo entre os reinos, mas descobriram juntos um amor único e os invejo por isso.
Estava em meu quarto, me preparando para uma possível viagem, que nunca viria a ocorrer de fato, quando ouvi um grito estridente vindo do final do corredor.
Saí correndo para saber o motivo de mamãe estar gritando e quando abri a porta de seus aposentos, meu mundo veio abaixo.
Papai estava espumando pela boca e tendo espasmos no chão. Nem o médico real poderia salvá-lo.
Era veneno e nem precisava de exames para confirmar.
Sabia que não estava pronto para sua morte, afinal não queria adotar tal responsabilidade. Entretanto, seria obrigado a assumir o reino, posto que fui preparado por toda a minha vida para assumir um dia.
Tenho uma irmã mais nova que está passando uma temporada com sua melhor amiga na França. Ela ainda não sabe da morte do papai porque as cartas demoram para chegar ao seu destino.
Ela até poderia assumir, mas nossa sociedade é patriarcal e nunca aceitaria uma mulher no poder.
Tive a difícil tarefa de enterrar meu pai e ser um rei que se não igual, superior a ele.
Mamãe ficou devastada, contudo, foi muito forte tendo em vista tudo o que aconteceu. Enquanto ela segurava minha mão durante o último adeus, fui obrigado a ser homem, mas após o enterro, jurei descobrir quem fez aquilo com meu pai.
Por dois meses, investiguei, refiz seus passos, ouvi os criados e pôr fim a verdade veio à tona, um hidromel envenenado.
O presente havia sido dado por seu melhor amigo, um rei de um reino vizinho que eu sabia ser ganancioso, mas nunca passou pela minha mente que ele seria capaz de tal ato.
- Vossa majestade?
A voz do conselheiro real me tira do devaneio que estava.
- Sim, Charles?
Todo o conselho dos oito reinos da província de Hudevenstor está presente, falta apenas o traidor.
Somente eu, mamãe e meus fiéis soldados sabemos o que eu farei hoje.
- O rei Edgard Cordell Lencastre acabou de chegar!
Excelente notícia, afinal hoje terei minha vingança a todo custo.
- Libere sua entrada!
Estamos no salão real, uma grande mesa com oito cadeiras. Estou sentado no trono enquanto mamãe está sentada ao meu lado.
- Vossa majestade!
A voz do traidor soa tão falsa quanto sua pretensão.
- Podemos enfim começar a reunião.
Percebo que alguns reis ficam incomodados com a presença da rainha, ignoro tal fato e antes que comecem os ataques, interfiro.
- A rainha irá me acompanhar nas sessões, ela tem poder e autoridade aqui. O primeiro a faltar com respeito ou questionar minhas decisões será morto!
Todos me olham incrédulos e vibro por dentro.
- Estamos curiosos pela sua convocação real!
Todos se sentam e me levanto. Pego o hidromel e coloco em cima da mesa.
- Esta garrafa contém o veneno usado para tirar a vida do rei e o traidor está entre nós.
Um alvoroço se forma na mesa.
É a vez da rainha impor sua voz.
- Calados! - Sua voz ecoa por todo o salão e as vozes se calam. - O traidor está aqui e não será julgado, será morto!
- Sábias palavras, minha mãe! - Caminho até o rei Edgar e ofereço a bebida em um cálice. - Beba e terá uma morte rápida. Seu reino irá para as mãos do seu filho que, ao contrário do pai, é um bom homem. Seus súditos serão poupados, afinal papai nunca me perdoaria se castigasse inocentes!
O homem me encara incrédulo e se joga no chão implorando clemência, mas antes de responder, as portas são abertas sem nenhum respeito.
Quando vou ralhar com a pessoa, vejo a loira na porta e perco a fala. Ela corre em minha direção com lágrimas nos olhos e a seguro em meus braços, a confortando.
- Ricardo, diz que é mentira, meu irmão!
- Infelizmente, não é! - Eu me viro para mamãe e peço: - Conforte minha irmã em seus aposentos e assim que terminar com este verme, poderemos chorar por nossa perda. - Chamo um dos guardas e pego sua espada.
Quando a ergo, um grito estridente me faz congelar no ar. Eu me viro para a porta e a criatura mais bela de todos os reinos entra correndo.
São segundos que mais parecem uma eternidade.
O vestido molda com perfeição suas belas curvas, que evidenciam ainda mais com a corrida que dá até o rei moribundo.
Seu longo cabelo preto parece sedoso e os olhos enraivecidos me encaram.
- Como ousa atentar contra a vida do meu pai? - A bela dama se ajoelha e abraça o homem.
É a princesa Amélia.
Mas a menina que lembrava era magricela e sem atrativos ou atributos.
Como não lembrei que ela estava com minha irmã?
A princesa me encara com raiva e respiro fundo.
Não posso machucá-la, muito menos tirar a vida dele na sua frente, mas explico com a voz alterada.
- Seu pai é um traidor.
A raiva em sua face dá lugar a uma expressão de frieza e surpresa.
- Atentou contra a vida do rei.
- Papai! - Ela agora se levanta com espanto e o encara. - Diz que é mentira, que você não fez sua família passar por essa vergonha.
Ele apenas chora como se estivesse arrependido, clamando por misericórdia.
- Ele fez. - Reparo mais atentamente em seu corpo.
Amélia é belíssima e sua bunda empinada me dá ideias interessantes.
Há um meio de subjugar a família toda e ainda domá-la na minha cama.
- Envenenou meu pai e estava para ser executado. Se afaste, pois terei minha vingança.
Ela apenas gira seu corpo, entrando na minha frente.
- Não irei permitir que aja como um bárbaro. - Cruza os braços, me desafiando e isso não ficará impune. - Não tem vergonha? Não deixarei que faça justiça sem um julgamento digno!
- Quem é você para responder ao seu rei?
- Meu nome é Amélia Charlotte Georgianna Lencastre e o único rei que respeito é meu pai. Você é rei do seu reino e não pertenço ao seu reino!
Audaciosa e com uma língua ferina...
Ela me deixa duro e a tomaria aqui mesmo se não fosse por minha família presente.
- Princesa, não pedirei de novo! - Começo a perder o que resta da minha paciência.
- Vai me matar?
"Só se for na cama e de prazer".
Nego com a cabeça e mamãe interfere.
- Minha filha, sei que é difícil acreditar, mas é verdade e queremos justiça. - Sua voz meiga abala os ânimos e ela abraça Amélia. - Sei que é seu pai, mas temos provas e quero que se acalme.
- Todos saiam agora... Isso é um assunto familiar e íntimo! - interfiro e faço todos saírem.
- Meu filho, não é sábio da sua parte matá-lo. Não é respeitoso com a filha ver o pai ser morto diante de seus olhos.
Observo que mamãe parece estar calma com tudo isso.
- Ele matou meu pai e você quer misericórdia? Esqueceu do seu marido? - A raiva me cega e mamãe fica brava com minhas palavras.
- Não esqueci. Toda noite, eu sonho com ele.
Sua revelação me cala.
Seria fácil matar o traidor, mas não traria meu pai de volta e com a filha presente, teríamos uma guerra.
- Estou sendo racional!
- Desculpa, mamãe! - Volto encarar a princesa com a língua afiada que não parece estar abalada. - Está certa, preciso ser racional e não um bárbaro como bem lembrou a vossa alteza! - Dou a volta e ordeno aos guardas. - Levem este verme à masmorra, proíbo que toquem nele!
- Vai prender meu pai?
- Prefere que eu o mate? - Sorrio com sua expressão.
- Quer que me ajoelhe e agradeça?
Ela é ousada demais e nem seu pai acredita no que ouve.
- Em outras ocasiões, sim! - Noto que ela cora e sorrio. - Levem-no, agora! - Volto para mamãe e peço: - Leve Anastassia para o quarto, logo me reunirei a vocês!
- E quanto a minha amiga? - Anastassia quebra o silêncio temerosa.
- Irei debater com ela o futuro do seu pai e do seu reino.
A rainha segura meu braço entre os dedos.
- Não é prudente que fique sozinho com uma dama. Ela é uma princesa, meu filho, e com uma honra a se zelar.
Sorrio e informo:
- Eu sei, minha mãe, os súditos não sabem que o pai dela é o culpado. - Faço uma pausa e a encaro. - Mesmo que soubessem, nunca entregaria a princesa aos leões, muito menos violaria a minha futura noiva...
Não é engraçado, mas a mulher ri alto agora.
- Qual a graça?
- Não aceitei pedido algum, muito menos meu pai e...
Eu a interrompo, levantando um dedo e antes que os guardas retirem o rei da sala, indago:
- Rei Edgar, me dá a mão da sua filha em casamento?
Ele me olha sem entender e concluo:
- Prometo que viverá e seu reino, assim como sua família, não serão tocados. Prometo respeito à sua filha e serei um bom marido. Mesmo que não mereça minha benevolência eu o farei!
- Por que acreditaria em suas palavras?
Boa pergunta do rei.
- Porque terei minha vingança me casando com vossa filha e, melhor ainda. - Sorrio e me aproximo dela. - Poderei domá-la ao meu bel prazer como um homem tem direito.
- Não a machucará?
- Nunca. Minha vingança é você ser rebaixado e ser prostrado a mim, de brinde ganho uma noiva belíssima.
A princesa é linda demais e já a imagino nua em minha cama.
Caralho, o que está acontecendo comigo?
Nunca meu pau ficou duro apenas por desejar uma mulher.
- Preciso de uma esposa de acordo com a lei e como ela se prontificou a me desafiar, nada mais justo!
Ela nega com a cabeça e sorrindo, a observo implorar para o pai não cair nesse papo.
- Desculpa, minha joia preciosa, mas meu reino vem em primeiro lugar!
Ela é forte e não chora, mas também não aceita calada.
- Têm o meu consentimento, cometi um erro com meu amigo e preciso consertar isso agora. Mais tarde, Majestade, venha a minha cela discutir as bodas...
- Como pode fazer isso, papai?
Sei que estou sendo cruel e mesmo ela não merecendo, preciso impor minha soberania.
- Por favor, me perdoe, minha filha. Eu te amo demais para deixar você na miséria...
Dando as costas para o pai, ela conclui com amargura:
- Nunca o perdoarei, meu pai morreu para mim, hoje!
Com espanto dispenso a presença dos guardas.
- Minha filha, não seja cruel com seu pai. Ele só deseja o melhor para você! - Mamãe se aproxima e a abraça.
Noto que ela se afasta gentilmente da rainha.
- Um erro dele e sou eu que pago? O melhor para mim?
Sua ironia e sarcasmo me chamam atenção e me deixam em alerta.
- Me casar com um homem que deseja meu mal, que só está querendo satisfazer seu ego e capricho?
- É do rei que você está falando, senhorita. Rogo que pense nas palavras, pois, posso voltar atrás e matar os dois! - alerto e seu olhar me fuzila com raiva.
- Você só quer vingança e nada mais que isso! - Caminha na minha direção, me desafiando. - Não irei me submeter aos seus caprichos reais! Não serei sua submissa, sua marionete e muito menos um brinquedo na sua cama...
Confesso, a princesa é uma mulher muito adorável.
- Eu te odeio e não me casaria com você nem que fosse o último homem da face da Terra.
- Sua língua ferina não me dá medo. Será minha esposa, minha rainha e farei da sua vida um inferno. Seu pai matou o meu e como não temos o poder divino de trazê-lo de volta à vida, farei com que seu pai almeje cada dia estar naquele caixão - respondo à altura, dizendo como será seu futuro e ela responde sem se importar com quem fala.
- Você é um monstro!
- E você é um demônio em forma de mulher, revestida de anjo e terei o prazer de domar sua marra!
- Nunca serei sua! Nunca me deitarei com você!
Esse desafio infla meu ego a um ponto irreversível.
- Se me tocar, eu irei gritar. Corto fora este item minúsculo que possui no meio das pernas e você vai desejar nunca ter se casado comigo!
Agora, ela foi longe demais, pois, além da sua boca suja, ofende meu pau dizendo que é minúsculo.
- Veremos, minha doce noiva, desafio aceito. Irei apressar tudo, pois, mal posso esperar para tê-la em meus braços. Então, comece a se acostumar porque esse monstro fará de você uma mulher em todos os sentidos...
Ela abre a boca incrédula.
Nem eu pensei em ser tão cruel com as palavras, mas ela me irritou.
- NUNCA!
Desta vez minha irmã interfere, abraçando minha relutante noiva que esqueceu de sua posição diante do rei, mas relevarei ao menos agora.
- Rei Ricardo, nosso pai não o ensinou a tratar uma dama assim! De maneira desrespeitosa na frente os seus súditos e convidados - sendo enfática na minha atual posição como Rei, notei pelo seu tom de desaprovação que de certa forma estaria certa, mas jamais admitiria.
Tomo uma lição de moral da minha irmã e ela está certa.
- Deixa, Ana, ele não é homem e nunca será metade do homem que seu pai foi. O rei Philipe, sim, sabia como tratar uma dama!
Minha irmã nem me permite retrucar, se afasta com ela e minha mãe apenas diz:
- Sua irmã tem razão, você está sendo cruel com Amélia!
Eu me viro para responder à altura, mas a decepção implícita em sua face me envergonha.
Agi por impulso e não com a razão.
Admito que agi mais com a cabeça de baixo e com meu ego ferido.
- Eu pedirei desculpas no jantar, agi mal... Mas não voltarei atrás na minha decisão! - Nada me fará desistir dela, afinal eu a desejo e a tomarei para mim.
- Será uma nora agradável!
Começo a rir e ela conclui:
- Ela será uma bela rainha, agiu na raiva assim como você, só não esqueça o que me disse um dia. - Minha mãe alisa meu rosto e diz a frase que nunca me esquecerei: - "Quero um casamento como o seu, repleto de amor!"
Eu sempre afirmo isso aos quatro ventos e agora como irei ter isso?
- Agora não pode voltar atrás, já fez o pedido. Quero que se lembre que o casamento não é uma guerra!
Eu descobriria mais tarde o que ela queria dizer com isso.
AMÉLIA
Saio batendo os pés.
Sei que fui imprudente ao me referir daquela forma a um rei, mas não poderia me calar diante da sua postura. Ele me desafiou em um grau tão elevado que mal consegui raciocinar.
Anastassia vem logo atrás com passos rápidos.
Ela me puxa para seu quarto, me guia para a cama e nota meu nervosismo devido ao meu corpo trêmulo.
- Você está maluca, minha amiga?
- Não! Estou furiosa com o seu irmão. Ele acha que só porque é rei tem direito a ser meu dono?
Sim, eu sei que ele tem direito, que pode fazer o que quiser e até mesmo me obrigar a me casar e ser sua esposa.
- Meu pai errou, mas eu e minha família não temos nada a ver com os erros dele!
- Calma, minha amiga, discutir agora com os ânimos inflamados não irá ajudar em nada!
Reviro os olhos e me afasto dela, indo até a mesa de centro. Como possui uma jarra de vidro com água em cima dela, me sirvo de um copo, na tentativa falha de me acalmar.
- Vamos esperá-lo se acalmar e pediremos uma sessão com ele para expor seus pensamentos...
- Ana, em qual conto de fada você vive? Nós, mulheres, servimos apenas como procriadoras de nossos futuros maridos. Vamos à Corte para conseguir um bom pretendente e voltamos de lá com ao menos um cortejo enviado a nossa família.
Há alguns pensamentos sobre a mulher, mas nada concreto e viável. Somos propriedades de nossos pais e depois de um bom dote e uma boa negociação, somos propriedades dos nossos maridos.
- Eu sempre converso com meu irmão. Ele diz que um dia poderei escolher meu marido e ter minha liberdade como sempre tive!
A inocência de minha amiga é tão louvável para nossa sociedade, mas ela é cega demais quanto a estas questões.
- E você acha que ele cumprirá? Está tomado por ódio e deixou claro que deseja vingança!
Às vezes, Ana é tão bobinha, mesmo sendo dois anos mais velha do que eu e estando na idade de se casar perante a sociedade altamente patriarcal.
- Não seja boba! Acha que depois de tudo o que meu pai fez, o rei irá permitir o cortejo do meu irmão? Que ele dará sua mão?
- Sim, ele vai. Meu irmão me ama e sabe que minha felicidade importa!
Ao ouvir suas palavras, noto o quanto ela não está entendendo meu nervosismo. Certamente, a bolha de vidro em que vive a impede de ver o mundo real.
- Assim como ele te fará feliz. Será um casamento dos sonhos amiga! Sua atitude agora a pouco foi apenas movida pela raiva.
Lágrimas caem em minha face e a encarando de forma nervosa, indago:
- E a minha felicidade? Ela não importa?
Ana sabe que falou demais porque a calo no mesmo instante.
- Estamos vendo um lado apenas. Ele me quer como um troféu pelos erros do meu pai, não é por amor. Pelo que vejo, ao invés de um final feliz, terei um inferno! - Eu me afasto do seu toque e saio do quarto batendo a porta.
Tantas vezes vim neste castelo e tantas foram as vezes que brincamos juntas. Ricardo nunca nos importunou, apenas nos olhava de longe.
Eu sentia aquele olhar intenso e por anos me senti atraída por um homem que é um monstro.
Saio sem rumo pelos jardins do palácio, sentindo as lágrimas rolarem pelo meu rosto.
Como posso mudar meu destino?
Vejo de longe um banco e me sento para olhar o belo jardim. Suspirando alto, desejo que o passado possa voltar e que as minhas preocupações sejam apenas qual boneca irei levar para brincar ou qual será a próxima travessura.
Meu destino parece ser tão cruel, tão infeliz, que eu me vejo perdida.
Um rei maluco querendo que me case com ele, além de ser obrigada a seguir com minhas obrigações de filha perfeita e mulher de família, isso me dói demais.
Ouço passos vindos em minha direção e ergo a cabeça para pedir que Anastassia me deixe sozinha, mas vislumbro um olhar tão intenso me encarando que até perco o fio da meada.
Não irei me ajoelhar ou me deixar abater.
O sol está quente, afinal a manhã está sendo a mais quente do ano.
Ele se aproxima rapidamente e eu me levanto, tentando me afastar, mas sua mão prende meu pulso e me puxa para encará-lo.
- Precisamos conversar!
Nego com a cabeça e ele continua:
- Conversei com minha mãe que disse que agi muito mal e que este não é o legado do meu pai.
Ele estava me liberando do compromisso?
- Então vai me deixar partir?
Seu sorriso malicioso me faz estremecer.
- Será minha esposa, mas não quero começar uma guerra com minha futura rainha.
Ele não desistiu do casamento e após tudo que me disse, eu iria apenas deletar da sua mente.
- Não deveria me perguntar se eu quero? - Puxo o pulso e sinto seus dedos lentamente em contato com minha pele.
- Quer seu pai vivo ou morto?
Seus olhos de predador me deixam sem ar, lágrimas querem rolar, mas as impeço e dou dois passos para trás.
- E eu pensando que havia mudado... - Eu me afasto dele, mas sou seguida mesmo assim.
- Não dê as costas ao seu rei!
Abro a boca incrédula e respiro fundo com a sua tentativa de mostrar quem é que manda.
- Então aja como um rei, não como um homem cego por seu ódio!
Ele tenta me segurar, mas não permito seu toque.
- Não ouse me tocar, não temos intimidade e não sou nada sua...
Cada dois passos dados para trás ele me acompanha, até que sinto meu corpo bater em uma superfície dura.
Acabo ficando sem saída quando seus braços fortes me rodeiam, me prendendo ali.
- Mas vai ser.
Ele como rei pode fazer o que quiser, até mesmo me possuir ali sem que ninguém me ajude. Por isso, o medo me consome.
- Minha mulher, minha rainha e minha vingança!
Suas palavras doem, me acertam como se fossem tapas que me deixam inertes nessa situação.
- Não serei sua! Prefiro a morte. - Minhas lágrimas tomam conta de mim.
- Não irá morrer, não até que seja minha e que me dê um herdeiro!
Tento empurrá-lo para longe, mas suas mãos seguram meus pulsos acima da minha cabeça. Tento xingá-lo, mas seus lábios calam os meus em um beijo que me faz perder o rumo.
Nunca provei nada igual, apenas li em livros, mas esses nem chegam perto do que ele me dá. É molhado e sua língua alisa a minha, me fazendo abrir a boca. Solto um gemido com o contato, sentindo como se algo dentro de mim se entregasse a ele. Suas mãos soltam meus pulsos e descem lentamente pelo meu corpo.
Ele está me marcando como sua.
Seu toque deveria me causar repulsa, mas apenas me deixa mais perdida. Sinto uma umidade entre as minhas pernas e não consigo explicar o que sinto. Então espalmo seu peitoral e tento recobrar a sanidade.
Eu sei que alguns livros falam que deveria continuar e ceder, mas uso meu instinto e acerto o que ele tem entre as pernas.
Colocando ambas as mãos onde o acertei com o joelho, ele se afasta urrando de dor.
- Sua louca! - exclama alto.
Percebo no mesmo instante que rejeitar o rei pode me levar até a forca.
Tento me acalmar e saio correndo dali.
Ainda sinto meu coração disparar.
Entro no quarto de Anastassia, pois preciso fugir rapidamente, mesmo que ele venha atrás de mim.
Meu corpo está mais quente que o normal, o gosto do beijo e seu toque ainda são sentidos por mim.
- Amélia, o que houve?
Nego com a cabeça e me jogo na cama chorando. Deixo as lágrimas tomarem meu ser, assim como a dor que sinto enquanto ela me abraça.
- Eu quero ir embora...
A porta abre, a rainha entra e nem forças possuo para encará-la, afinal dor é tamanha.
- Minha doce Amélia, sinto muito por tudo, mas sabe que não pode ir embora. Como rei, meu filho precisa demonstrar que não pode perdoar seu pai sem que haja algo em troca.
- E a minha felicidade, Vossa Majestade? Eu devo pagar pelos erros do meu pai? - Sento na cama e ela alisa minha face docemente.
- Não deveria, mas quem sabe essa sua doçura e esse seu jeito forte não domem meu filho. - Um sorriso brota em sua face. - Uma mulher tem, acima de tudo, poder sobre um homem que muitas não sabem. Então, irei ensiná-la a fazer com que ele faça tudo que você almeje, mesmo ele não querendo!
- Até desistir de se casar? - Tento me agarrar a um fio de esperança, mas ela nega, me abraçando. - Eu não quero ser infeliz, não que acredite em contos de fadas, nem em um casamento feliz, mas ao menos imaginei poder estudar e fazer o que quisesse.
- Minha filha, quanto mais cedo aceitar, menos doloroso será.
Eu me entrego a dor e ao desespero.
Logo ele adiantará o casamento e me obrigará a ser dele, é injusto tudo isso.
A rainha tenta me confortar, mas estou irredutível.
Quando chega a hora do almoço, noto a presença de um guarda que diz estar ali para impedir minha fuga. Quero dar uma boa resposta, mas apenas bato a porta com força.
Elas vão almoçar e como não sinto fome, dispenso a refeição.
É claro que uma serva vem trazer a comida, mas a ignoro e me nego a me alimentar. Ela leva a bandeja intocada por mim.
Mal se passa uma hora e Anastassia entra como um furacão no quarto.
- O que aconteceu, minha amiga? - pergunto ao ver seu estado.
Nunca a vi tão chorosa desde a morte do seu pai, onde segurei sua mão até nossa chegada hoje ao palácio.
- Você tinha razão, ele não me ama, nem preza por minha escolha... Está cego por seu ódio e vingança!
Levanto e a abraço.
- Calma, ficará tudo bem! - Talvez fique, talvez não e isso é algo que destruirá sua alma pura. - Quem pediu sua mão?
- Um rei com mais de sessenta anos. Sei que às vezes é comum, mas não terá amor e será apenas para engravidar. Depois, se ele morrer, serei entregue ao seu irmão!
É comum a prática do cunhado tomar a viúva. Além do mais, embora tenha herdeiros masculinos, a mulher não manda em nada.
- Ele já aceitou?
- Não, mas vai aceitar. Ele disse isso na frente de Bernard. Temo que meu irmão nos afaste se ele pedir a minha mão.
Eu sempre soube que os dois se amavam, desde os quatorze anos eles trocam mais que abraços e beijos. Minha amiga pode até ser inocente, mas sabe bem o que é a vida de casada e sei bem que o medo dela é outro.
Respiro fundo.
Sei que meu destino está traçado, mas ao menos posso ver minha amiga e irmão felizes.
Eu me afasto, vou até à mesa do almoço e ele não está ali, mas com meu irmão em sua sala particular.
Ignoro os chamados da rainha e rumo até o quarto do rei.
Irei pedir a mão de minha amiga em nome do meu irmão.
O rei quer algo de mim que não darei tão facilmente, mas isso não significa que não possa negociar com ele em nome da minha melhor amiga.