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Prometida oo Capo

Prometida oo Capo

Autor: Karyelle Kuhn
Gênero: Máfia
Ane Moretti é vendida como moeda de troca em um jogo da máfia italiana e forçada a um noivado com Sebastian Mancini, um homem frio, dominante e acostumado a controlar tudo - inclusive pessoas. O que começa como um acordo de poder rapidamente se transforma em uma guerra silenciosa entre desejo, ódio e obsessão. Ane luta para não desaparecer dentro do sobrenome Mancini, enquanto Sebastian descobre que a única mulher que não consegue dominar é justamente aquela que ele se recusa a perder. Entre contratos, alianças perigosas e um desejo que ameaça destruir ambos, eles aprendem que, na máfia, não existe liberdade, nem divórcio. Só posse. Só sobrevivência. E um amor capaz de condenar.
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Capítulo 1 Ane Moretti

Eu ainda sentia o cheiro das páginas do meu caderno recém-fechado quando ouvi a porta da frente bater com uma violência que não combinava com o silêncio da nossa casa de sempre. Tinha passado a tarde inteira revisando neuroanatomia, rabiscando mapas mentais sobre o sistema límbico e ouvindo música clássica ao fundo, como sempre fazia nas vésperas de provas importantes. Era fácil esquecer dos problemas do mundo quando tudo que você enxergava eram neurônios, sinapses e sonhos grandes demais para caber em qualquer limite convencional.

O apartamento cheirava a café velho e papel, a única combinação que me fazia sentir inteiramente eu mesma.

Pelo menos, até ouvir aquela batida.

Franzi a testa. Meu pai nunca batia a porta. Não daquele jeito.

- Pai? - chamei, me levantando do sofá com os livros ainda pressionados contra o peito como um escudo que eu ainda não sabia que precisaria.

Ele surgiu na entrada da sala alguns segundos depois, e não era o homem que eu conhecia. O grande Charles Moretti, o neurocirurgião mais renomado de toda a Itália, o homem que reconstruíra centenas de vidas com as próprias mãos, o pai que nunca havia erguido a voz em toda a minha existência, estava curvado, abatido, com os olhos vermelhos e a gravata pendendo torta no pescoço. Parecia ter envelhecido dez anos desde o café da manhã, quando ainda havíamos tomado nosso expressos juntos e ele comentara sobre um caso cirúrgico complexo com aquela paixão que sempre o definia.

- Ane... precisamos conversar.

Senti um calafrio subir pela espinha antes mesmo de entender por quê. Havia algo na voz dele - uma fratura que nunca esteve ali antes - que fez o meu estômago se apertar antes que qualquer palavra específica chegasse. Abaixei os livros no braço do sofá e fui até ele. Meu pai afundou na poltrona como se o mundo inteiro estivesse pesando sobre cada osso dos seus ombros, como se as pernas houvessem finalmente perdido a discussão com a gravidade.

Me ajoelhei à frente dele e segurei suas mãos, aquelas mãos que eu havia visto mover-se com precisão cirúrgica desde a infância, que me haviam ensinado a andar de bicicleta, que haviam assinado minha matrícula na faculdade de medicina com um orgulho que eu ainda me lembrava de sentir na pressão dos braços dele ao meu redor naquele dia. As mãos tremiam.

- O que aconteceu? Você tá me assustando.

Ele passou as mãos pelo rosto, respirou fundo - aquele tipo de respiração que antecede revelações -, e soltou a frase como se cuspisse cacos de vidro.

- Estou falido. Perdi tudo nos jogos. Tudo, Ane. - A voz fraturou mais ainda. - E estou doente. Tenho um tumor no cérebro. Inoperável, segundo os médicos. - Ele soltou uma risada amarga, desprovida de qualquer humor real. - Um neurocirurgião com um tumor no próprio cérebro. Que ironia cruel, não é?

Eu simplesmente congelei. As palavras dançavam diante dos meus olhos como se não fizessem sentido, como se o idioma português houvesse subitamente se tornado estrangeiro para mim. Tumor. Falido. Inoperável. Cada substantivo era um projétil disparado em câmera lenta, chegando antes que eu pudesse construir defesa alguma.

- Mas... como? Por quê? - sussurrei, a voz saindo num fio tão fino que mal a reconheci como minha.

Ele engoliu em seco e começou a contar. As palavras saíram devagar no começo, depois numa torrente que não havia como deter. Me contou sobre o cassino - aquele que eu nunca soubera que frequentava. Sobre as noites em que tentou dobrar uma sorte que já havia abandonado, sobre as fichas que se multiplicavam nas mesas erradas, sobre o desespero crescente de um homem que descobrira ter um tumor no cérebro e decidira, na sua loucura particular, que a fortuna poderia pagar a conta do tratamento. E sobre aquela última noite: a sala privada com paredes forradas de seda vermelha, Don Vittorio Mancini do outro lado da mesa com olhos frios de predador e sorriso satisfeito de quem nunca havia perdido um jogo importante.

- Eu sabia que estava sendo levado direto pra armadilha - ele murmurou, o olhar perdido num ponto que só ele conseguia ver. - Mas eu já tinha perdido tudo. A dignidade... o futuro. E ele sabia disso. Eles sempre sabem. - Meu estômago revirou quando ele disse o que viria a seguir. - Eu te apostei.

Por um instante, achei que havia entendido errado. Que ele havia dito qualquer outra coisa, minha herança, a casa, os investimentos, os instrumentos cirúrgicos que guardava como se fossem extensões do próprio corpo. Qualquer coisa que não fosse eu. Mas não havia outra leitura possível para aquelas palavras.

- Você... o quê?

- Eu perdi você no jogo, Ane. - As palavras saíram como confissão e sentença ao mesmo tempo. - Mas eles me ofereceram uma saída. Disseram que, em troca, você se casaria com o filho do Don, Sebastian Mancini. As dívidas seriam quitadas. Eu receberia o tratamento. Manteríamos a casa. Eu só pensei em salvar alguma coisa para te deixar.

- Você me vendeu. - Minhas palavras saíram fracas, mas cortantes como navalha passada devagar. - Como se eu fosse uma mercadoria. Um bem que se aposta numa mesa de jogo.

Ele cobriu o rosto com as mãos, encolhendo-se de uma vergonha que dobrava sua postura de dentro para fora. A imagem do meu pai destruído era algo que eu nunca havia imaginado ver. Aquele homem sempre fora meu pilar, minha certeza, o único que havia sobrevivido intacto nas minhas certezas de filha.

E agora havia me trocado por fichas de cassino.

- Eu tentei recusar. Juro que tentei. Disse que você não fazia parte desse mundo. Que você era inocente. Que sua mãe era filha ilegítima, que ninguém da nossa família pertencia a esse universo sombrio. - Ele hesitou, e naquela hesitação eu aprendi que o pior ainda estava por vir. - Foi aí que o Don acenou para um dos capangas, que jogou uma pasta em cima da mesa. E quando eu abri, Ane, era tudo verdade. Sua mãe... ela era filha bastarda do antigo chefe da família Bellini. O sangue deles corre em você.

Levei a mão à boca, sem conseguir processar. A minha mãe, que morreu dois dias depois que eu nasci de quem eu só conhecia fotografias e histórias narradas com carinho e tristeza, havia sido filha de um mafioso? Minha identidade inteira estava se refazendo naquele segundo, os contornos que eu havia aprendido a reconhecer como meus se distorcendo em algo diferente.

Fechei os olhos. Tudo girava. Meu mundo, minha realidade, minha própria identidade estava desmoronando debaixo dos meus pés como areia úmida.

E foi nesse momento que a porta foi aberta sem cerimônia. Não tocou. Não pediu licença. Passos ecoaram pela casa, pesados, seguros, impossíveis de ignorar, e em segundos três homens surgiram no vão da sala como se pertencessem àquele espaço por direito.

No centro deles, um homem que parecia saído de um pesadelo elegante. Alto, ombros largos, terno escuro que custava mais do que qualquer coisa que eu jamais possuíra. O olhar de aço, fixo em mim com uma precisão calculada, como alguém que já decidiu o resultado antes mesmo de a partida começar.

- Senhorita Moretti. Meu nome é Sebastian Mancini. Estou aqui para levá-la. Arrume apenas o necessário.

Levá-la. Não conhecê-la. Não conversar. Não perguntar se eu tinha escolha ou opinião ou voz. Apenas levar, como se eu fosse uma mala que havia ficado no lugar errado por muito tempo.

Olhei para meu pai. Ele abaixou a cabeça. Silêncio. Culpa. Derrota. A pior combinação possível num único homem.

- Eu não vou me casar com você - falei, virando-me para Sebastian com toda a firmeza que consegui reunir, sentindo cada centímetro do meu corpo se enrijecer contra a situação. - Eu não sou uma moeda de troca. Não sou uma recompensa de aposta. E não sou sua.

Ele parou no meio do caminho, os olhos escurecendo de um jeito que me fez recuar instintivamente - mas não o suficiente. Em dois passos, estava próximo demais. Os dedos dele envolveram meu rosto com firmeza, quase brutalidade, obrigando-me a encarar aquele olhar de pedra.

- Não tem culpa se o seu pai foi fraco - murmurou, a voz baixa e perigosa como o som que antecede uma tempestade. - Eu só vim buscar o que me pertence por acordo.

- Eu não pertenço a você. - Tentei me soltar, mas ele segurou firme. - Eu não pertenço a ninguém.

Ele me soltou de repente, com força. Dei dois passos trôpegos para trás e caí. As costas bateram no chão frio do hall de entrada, e a dor mal doeu comparada à humilhação de estar no chão diante de um homem que havia entrado na minha casa como se fosse a dele.

Antes que eu pudesse me levantar, um dos homens que o acompanhavam puxou a arma do coldre e a apontou para a cabeça do meu pai com um movimento tão natural que foi ainda mais aterrorizante pela ausência de drama.

- Não! - gritei, me levantando de um salto. - Não! Por favor!

- Você tem três segundos para fazer sua escolha - disse Sebastian, olhando para mim com a calma de um juiz numa corte onde já conhece a sentença. - Um...

- Sebastian, por favor...

- Dois...

- Eu vou! - berrei, sentindo o sabor amargo da rendição preenchendo minha garganta. - Eu vou com você!

O silêncio caiu como uma sentença definitiva. Sebastian observou-me por alguns segundos longos, certificando-se de que minha rendição era real e não um prólogo para outra resistência. Depois acenou com a cabeça, e o homem baixou a arma como se tivesse apenas recolhido um documento assinado.

- Vá pegar o que precisa.

Subi as escadas com o coração em pedaços. No meu quarto, fechei a porta, deslizei até o chão e permiti três segundos de desamparo - só três - antes de me levantar e abrir a mochila. Havia coisas que não podiam esperar nem três segundos: eu precisava saber que ainda era capaz de me mover, de escolher, de agir, mesmo que a ação fosse apenas decidir o que levar. Três cadernos de medicina. Dois livros. Roupas para poucos dias. O jaleco branco que havia vestido pela primeira vez no hospital escola dois anos atrás.

Tudo que coube no tempo que me restava de mim mesma.

Capítulo 2 Ane Moretti

Voltei para a sala com uma mochila leve nas costas. Três cadernos, um jaleco, dois livros de neuroanatomia e algumas roupas que couberam no tempo que tive.

Sebastian me esperava na porta, impaciente, mas eu o ignorei. Meus olhos procuraram só uma pessoa.

Meu pai.

Ele ainda estava sentado no sofá, como se não tivesse forças nem para levantar a cabeça. As mãos tremiam no colo. Os olhos marejados estavam fixos em algum ponto perdido no chão.

Me aproximei devagar, com o coração partido em mil pedaços. Eu não sabia se queria abraçá-lo ou gritar com ele até minha garganta sangrar.

- Pai...

Ele ergueu o rosto. E ali, naquele olhar cansado, eu vi tudo. A dor. O arrependimento. A culpa que já o condenava muito antes de qualquer sentença minha.

- Me perdoa, Ane - sussurrou. - Eu falhei com você. Com sua mãe. Com tudo que prometi proteger.

As lágrimas me queimaram os olhos, mas não deixei cair. Não na frente de Sebastian. Não na frente daqueles homens que tinham colocado um preço na minha liberdade.

- Por quê? - minha voz falhou. - Por que não me contou? Por que me jogou nesse pesadelo sem me dar escolha?

Ele engoliu seco.

- Porque eu achei que estava salvando você... e, no fim, só te vendi. - Ele abaixou a cabeça. - Eu sou um covarde.

Sentei ao lado dele e segurei sua mão. Estava fria. Tremia.

- Você ainda é meu pai - falei, com a voz fraca. - Mesmo depois de tudo. E eu ainda te amo. Mas me doeu... e vai continuar doendo por muito tempo.

- Eu sei. - Ele fechou os olhos com força. - E eu vou carregar isso até meu último dia.

Abracei-o. Forte. Talvez pela última vez. Senti o cheiro familiar da sua pele, o mesmo que me dava segurança quando eu era criança. E desejei, por um instante desesperado, voltar no tempo. Antes das dívidas. Antes da doença. Antes dos Mancini.

- Promete que vai lutar - sussurrei contra o ombro dele. - Que vai fazer esse tratamento. Que não vai desistir de viver, mesmo depois disso.

- Prometo - respondeu num fio de voz. - Mas você também promete uma coisa?

Me afastei, com o rosto ainda úmido.

- O quê?

- Não deixe que eles apaguem quem você é.

Assenti. Porque, no fundo, era tudo o que eu podia prometer. E tudo o que eu precisava lembrar.

Me levantei devagar. Meu pai soltou minha mão com relutância. E quando virei para a porta, Sebastian já estava lá, me esperando com aquela postura implacável.

Quando a porta se fechou atrás de mim, o ar pareceu mais denso, mais frio - como se até o mundo, cúmplice silencioso, soubesse que algo havia sido perdido ali dentro. Algo que eu talvez nunca recuperasse: minha liberdade.

Do lado de fora, três carros pretos esperavam como feras enjauladas prestes a se mover. Os vidros escurecidos escondiam segredos. Os motores ligados vibravam com paciência predatória. Homens de terno e olhares duros se mantinham ao redor, atentos, imóveis. Era como se cada esquina de Manhattan pertencesse a eles. E talvez pertencesse.

A luz amarelada da varanda iluminava o chão molhado pela garoa fina, transformando a calçada num espelho opaco. Mas nenhuma água do mundo podia lavar o que eu sentia por dentro: mágoa, impotência, raiva. Medo.

Sebastian já estava dentro do carro do meio, no banco de trás. A porta permanecia aberta. Um convite? Não. Uma ordem disfarçada de gentileza. Um gesto teatral, encenado para manter as aparências. Nada mais.

Respirei fundo, o ar ardendo na garganta como se o próprio universo estivesse tentando me sufocar.

Olhei uma última vez para a porta da minha casa. Atrás dela, meu pai ainda estava sentado no sofá. O mesmo sofá onde eu cresci deitando com os pés no colo dele. Agora, ele afundava em silêncio e arrependimento. Ou talvez nem isso. Talvez só culpa e covardia.

Uma parte de mim gritou para correr. Me esconder. Gritar. Mas meus pés não se moveram. Porque eu sabia a verdade cruel e simples: eles não hesitariam em puxar o gatilho contra ele se eu resistisse.

Então, com os olhos ardendo, coloquei um pé diante do outro, arrastando minha alma ferida atrás de mim. E entrei no carro.

O cheiro lá dentro me atingiu com força. Couro novo, perfume masculino caro e um silêncio que pesava como concreto. A porta se fechou com um clique seco atrás de mim, o som exato de uma sentença sendo selada.

Sebastian não disse uma palavra. Nem um olhar. Apenas manteve os olhos voltados para a janela, os dedos batendo no apoio de braço com uma calma irritante. Como se estivesse contando o tempo. Ou como se estivesse entediado com o que acabara de comprar.

O carro arrancou devagar. Os outros dois o seguiram com precisão coreografada. Um comboio. Um cortejo fúnebre para minha vida como eu conhecia.

A cidade passava do lado de fora como um borrão distante. As pessoas apressadas, as luzes dos prédios, os táxis, as lojas... tudo seguia como se eu não estivesse ali. Como se eu tivesse deixado de existir. Eu já não fazia parte daquele mundo. Agora eu era um nome em um contrato. Um bem transferido. Um pedaço de poder usado como moeda.

E quanto mais o carro avançava, mais o pânico se enraizava no meu peito.

Comecei a pensar no que viria. Na vida que me esperava atrás daqueles muros. Ser esposa de um mafioso. Ter que conviver com criminosos bem vestidos, sorrir em jantares cheios de sangue oculto, ouvir ordens disfarçadas de promessas. Fingir. Fingir o tempo todo. Ser tudo o que eles quisessem que eu fosse.

Ter filhos com um homem que me tirou à força da minha casa.

Minha garganta fechou. O estômago revirou. Meus dedos se fecharam no tecido da calça, tão forte que quase rasguei a costura.

E se eu tentasse fugir?

Eles matariam meu pai? Me matariam? Me caçariam como uma peça perdida da família?

Sebastian não se mexia. Não falava. Não respirava alto. Era como uma estátua de mármore, insensível e impecável, com olhos que sabiam demais e um coração que, se existia, devia estar trancado junto com suas armas.

Fechei os olhos. Não para descansar. Mas para não desmoronar.

Porque eu sabia. A cada quilômetro, uma parte de mim morria. E outra, desconhecida, nascia. Uma parte mais dura. Mais fria. Mais disposta a lutar.

Eu ainda era Ane Moretti.

Mas logo... eu teria que ser algo mais.

Algo forte o bastante para sobreviver ao mundo de Sebastian Mancini.

O cheiro do couro do banco do carro me sufocava. Sebastian estava ao meu lado e não disse uma única palavra durante todo o trajeto, como se eu fosse uma carga que precisava ser transportada, não uma pessoa que merecia ser encarada ou sequer reconhecida como presente.

Estranhamente, aquele silêncio me irritou mais do que qualquer palavra poderia. Pelo menos com palavras, eu poderia reagir. Com o silêncio dele, eu ficava sem alvo para a minha raiva, sem onde colocar tudo que fervia dentro de mim. Era como tentar empurrar uma parede que se movia junto com você.

Olhei pela janela enquanto Roma ficava para trás. As ruas que eu conhecia desde a infância, os prédios que vi crescer, as pessoas que passavam sem saber que uma vida estava sendo dissolvida dentro daquele carro preto - tudo se tornava passado a cada quilômetro como páginas viradas de um livro que alguém arranca no meio da leitura.

Eu era Ane Moretti. Tinha vinte e um anos, estava no terceiro ano de medicina e havia dedicado cada dia da minha vida adulta a me tornar algo. Alguém. A mulher que meu pai havia criado com tanto orgulho, apesar das circunstâncias, apesar da ausência da minha mãe, apesar de tudo que a vida havia tentado usar para nos diminuir.

E agora estava sendo levada como propriedade.

A raiva queimava mais quente a cada minuto. E junto com ela, uma decisão que se solidificava no meu peito como cimento secando: eles podiam me levar, podiam me obrigar a entrar naquela mansão, a usar o sobrenome deles, a aparecer nas fotos certas nos eventos certos. Mas não podiam me apagar. Eu ainda era eu. E isso nenhum contrato, nenhuma aposta, nenhum Don da máfia poderia mudar.

Olhei para Sebastian de relance. Ele continuava de olhos voltados para a janela do outro lado, aquele perfil anguloso e impassível que parecia ter sido esculpido especificamente para não revelar nada.

Eu descobriria como quebrá-lo.

Não por vingança. Mas porque precisava saber que era possível. Que havia um ser humano por baixo daquele controle absoluto. Que eu não estava sendo entregue a uma máquina, mas a um homem - e que homens, diferentemente de máquinas, têm rachaduras.

Sempre têm rachaduras.

Capítulo 3 Ane Moretti

Assim que o carro passou pelos portões altos de ferro, senti o peso do mundo aumentar sobre meus ombros. A mansão à frente parecia ter saído de uma revista de luxo, ou de um filme sobre vilões ricos. Enorme, branca como mármore antigo, com colunas altas e janelas que pareciam olhos frios observando tudo.

Cada detalhe gritava poder.

O jardim era perfeitamente podado, como se nem as flores tivessem liberdade ali. Uma fonte no centro do pátio lançava jatos de água sincronizados, iluminada por luzes discretas que deixavam tudo mais imponente. O silêncio era sepulcral, quebrado apenas pelos pneus rolando devagar no cascalho.

O carro parou.

Um segurança abriu a porta para mim, e o ar úmido da noite me acertou como um tapa. Desci com cuidado, como se pisasse num campo minado. E talvez fosse exatamente isso.

A porta principal da mansão já estava aberta. Outro homem de terno nos esperava, como se tivesse ensaiado a pose. Entrei.

O interior era ainda mais sufocante. Um grande hall de pé-direito duplo se abria diante de mim, com lustres de cristal pendendo do teto como coroas congeladas. O chão de mármore brilhava tanto que minha imagem refletia torta nele. Tudo ali era grandioso, frio, impessoal. As paredes traziam quadros antigos e caros. Nenhuma foto de família. Nenhuma lembrança calorosa. Só ostentação.

Era linda. E sombria. Como uma jaula banhada a ouro.

- Você vai dormir no meu quarto - a voz de Sebastian cortou o ar atrás de mim, firme como uma sentença judicial.

Virei de imediato, chocada. Um dos seguranças surgiu carregando minha mala - minha pequena mala, o resto ficou para trás como o resto da minha vida.

- O quê? - perguntei, a voz mais alta do que pretendia. - Eu não vou dormir no seu quarto. Me recuso.

Ele me encarou por um segundo, como se estivesse decidindo até onde podia me empurrar.

Depois sorriu. Um sorriso frio, impassível, quase entediado.

- Quem manda aqui sou eu, Ane.

- Nós não estamos casados - rebati, mantendo a cabeça erguida. - E enquanto isso não acontecer, não faz sentido dividirmos um quarto. Não tem cabimento.

Ele se aproximou devagar, cada passo ecoando no mármore como um aviso. Parou a poucos centímetros de mim. Alto. Imóvel. A sombra dele parecia me engolir.

- Não tem problema - murmurou, com aquela voz baixa e perigosa. - Não vamos consumar nada antes do casamento. Eu sei seguir regras... quando me convém.

Senti o rosto esquentar na hora. As bochechas queimaram, como se ele tivesse me arrancado a roupa só com as palavras. Mas eu não desviaria o olhar. Não daria esse gosto pra ele.

- Ainda assim - insisti, tentando controlar a respiração -, eu mereço um mínimo de respeito.

Ele soltou uma risada baixa, sem humor.

- Isso é o mínimo. Você tem um quarto comigo. É mais do que outras mulheres nessa casa teriam, se houvesse outras.

A forma como ele disse aquilo... não era ameaça. Era constatação. Frieza.

Fechei a mão ao lado do corpo, tentando não demonstrar o pânico que crescia no meu estômago. Porque por fora, eu queria parecer firme. Mas por dentro, eu só queria correr.

- Onde está o meu quarto? - repeti, como se isso fosse suficiente pra mudar as regras.

Ele inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos nos meus.

- Onde eu disser que é.

Meus dentes se apertaram. Minha vontade era gritar, empurrá-lo, fugir. Mas eu sabia que, ali, ele era o predador e eu a isca amarrada. Uma isca que precisava aprender a sobreviver.

- Então me mostre o caminho - respondi, a voz baixa, firme, mesmo com a raiva me queimando por dentro.

Ele deu um meio sorriso. Não de quem vencia, mas de quem já sabia que venceria.

E começou a subir as escadas.

E eu... fui atrás.

Mas com cada degrau, eu prometia silenciosamente: eu posso estar andando para a boca do lobo, mas não vou me deixar devorar tão fácil.

Sebastian

Quando meu pai me chamou para uma "conversa de homens", eu soube que vinha merda. Ele só usava esse termo quando o assunto envolvia poder, sangue e sujeira. Nunca era sobre negócios limpos, até porque, na nossa família, negócios limpos não existiam. Só ilusões bem vestidas de terno italiano.

Mas, dessa vez, ele se superou.

- Você vai se casar com a filha do Moretti.

Por um segundo, achei que fosse piada. Soltei uma gargalhada seca, atravessada pelo desprezo.

- Você ficou louco? - encarei-o como se estivesse ouvindo um absurdo qualquer. - Desde quando a gente precisa de casamento pra fechar acordo? Estamos em 2025, não na Idade Média.

Ele não riu. Nem moveu um músculo. A expressão estava dura, fria. O olhar que sempre misturava ameaça com convicção. Aquele mesmo olhar que eu cresci tentando decifrar - e superar.

- A dívida dele é impagável - ele começou, com a voz baixa, quase didática. - Moretti apostou a própria filha. Está nas nossas mãos. E agora, essa união pode ser a chave para expandirmos nosso império para a costa leste. Clínicas, clubes, cassinos... tudo pronto para ser lavado. O sobrenome dela pode abrir portas que nem nosso dinheiro conseguiu arrombar.

- Então você quer que eu use uma garota como fachada - resumi, me jogando no encosto da poltrona com irritação.

Ele me lançou um olhar cortante.

- Não é só fachada. Você vai oficializar isso. Vai dar um herdeiro. Vai fazer parecer legítimo. Ninguém suspeita de uma família em ascensão quando o Capo está de aliança no dedo e a esposa sorri nas fotos de caridade.

Bufei. A velha hipocrisia dos Mancini.

- E as mulheres do nosso bordel, pai? Vai colocar todas de luto agora?

Ele deu de ombros, como quem fala sobre o clima.

- Desde que saiba separar as coisas... e mantenha o nome Mancini limpo aos olhos do mundo... pode se divertir como quiser. Apenas certifique-se de que a esposa permaneça intacta. Decorativa. Silenciosa. E fértil.

Quase ri de novo, mas algo dentro de mim queimava. Ele não via pessoas, via ferramentas. E agora esperava que eu fizesse o mesmo.

Mas o pior? É que eu entendi a lógica dele. Casar com a filha do Moretti não era só estratégia. Era humilhação. Era mostrar que podíamos comprar qualquer coisa. Até a dignidade de um neurocirurgião premiado. E ao ver o desespero nos olhos de Charles Moretti quando perdeu a filha na última rodada... meu sangue gelou. De prazer.

Aquele suor escorrendo pela têmpora dele. O olhar vazio. O terror contido quando percebeu que tinha vendido a própria filha para salvar a própria pele.

Sim. Eu teria pagado só pra ver aquele olhar mais uma vez.

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