Eu ainda sentia o cheiro das páginas do meu caderno recém-fechado. Tinha passado a tarde inteira revisando neuroanatomia, rabiscando mapas mentais sobre o sistema límbico e ouvindo música clássica ao fundo, como sempre fazia. Era fácil esquecer dos problemas do mundo quando tudo que você enxerga são neurônios, sinapses e sonhos grandes demais para caber em qualquer limite.
Pelo menos, até ouvir a porta da frente bater com violência.
Franzi a testa. Meu pai nunca batia a porta. Não daquele jeito.
- Pai? - chamei, me levantando do sofá com os livros ainda pressionados contra o peito.
Ele surgiu na entrada da sala alguns segundos depois - mas não era o homem que eu conhecia. O grande Charles Moretti, o neurocirurgião mais renomado da italia, estava curvado, abatido, com os olhos vermelhos e a gravata pendendo torta no pescoço. Parecia ter envelhecido dez anos desde o café da manhã.
- Ane... precisamos conversar.
Senti um calafrio subir pela espinha. Abaixei os livros no braço do sofá e fui até ele. Meu pai afundou na poltrona como se o mundo estivesse pesando sobre os ombros. Me ajoelhei à frente dele e segurei suas mãos.
- O que aconteceu? Você tá me assustando.
Ele passou as mãos pelo rosto, respirou fundo e soltou a frase como se cuspisse cacos de vidro:
- Eu cometi um erro. Um erro terrível.
Meu coração afundou no peito.
- Que tipo de erro?
Ele demorou. Os olhos dele fugiam dos meus. E quando finalmente falou, a verdade veio como um soco no estômago.
- Estou falido. Perdi tudo nos jogos. Tudo, Ane. E... eu tô doente. Tenho um tumor no cérebro. Inoperável, segundo os médicos. - Ele soltou uma risada amarga. - Um neurocirurgião com um tumor no próprio cérebro. Que ironia, não?
Eu simplesmente congelei. As palavras dançavam diante dos meus olhos como se não fizessem sentido. Como se fossem parte de um pesadelo que eu ainda não tinha acordado.
- Mas... como? Por quê? - sussurrei.
Ele engoliu em seco, e foi então que começou a contar.
Ele me contou sobre o cassino. Sobre as noites em que tentou dobrar a sorte que já não tinha. E naquela última noite... sobre a sala privada onde tudo aconteceu. Eu podia ver a cena em minha mente como se estivesse lá: ele suando frio, jogando as fichas com mãos trêmulas, enquanto do outro lado da mesa, Don Vittorio Mancini observava tudo com olhos frios e um sorriso satisfeito.
- Eu sabia que estava sendo levado direto pra armadilha - ele murmurou, com a voz embargada. - Mas eu já tinha perdido tudo. A dignidade... o futuro. E ele sabia disso.
Meu estômago revirou quando ele disse o que veio a seguir.
- Eu te apostei.
Por um instante, achei que tinha entendido errado. Que ele tinha dito qualquer outra coisa. Mas não. Aquele era o fundo do poço. O lugar de onde não se volta.
- Você... o quê?
- Eu perdi você no jogo, Ane. Mas... eles me ofereceram uma saída. Disseram que, em troca, você se casaria com o filho dele, Sebastian. E em troca disso... eu receberia o tratamento, manteríamos a casa. Eu só pensei em salvar alguma coisa. Em te deixar algo.
- Você me vendeu. - Minhas palavras saíram fracas, mas cortantes. - Como uma mercadoria.
Ele cobriu o rosto com as mãos, se encolhendo de vergonha.
- Eu tentei recusar. Juro que tentei. Eu disse que você não fazia parte desse mundo. Que você era inocente. Que sua mãe... - ele hesitou -... que sua mãe era filha ilegítima. Que ninguém da nossa família pertencia a esse universo sombrio da máfia.
A raiva já estava queimando dentro de mim quando ele acrescentou:
- Foi aí que o Don acenou para um dos capangas, que jogou uma pasta em cima da mesa. E quando eu abri... Ane, era tudo verdade. Sua mãe... ela era filha bastarda do antigo chefe da família Bellini. O sangue dela... é sangue deles.
Eu levei a mão à boca, sem conseguir processar aquilo.
- E por isso eles querem que eu me case com o filho dele?
- Eles disseram que assim as alianças se fortalecem. Que o casamento seria simbólico. Que sua origem bastarda e a minha insignificância seriam detalhes fáceis de apagar... que bastaria um segundo.
Fechei os olhos. Tudo girava. Meu mundo, minha realidade, minha própria identidade estavam desmoronando.
E foi nesse momento que a campainha tocou.
Ou melhor, não tocou. A porta foi aberta sem cerimônia. Passos ecoaram pela casa, pesados, seguros, e em segundos três homens surgiram no vão da sala.
No centro deles, um homem que parecia saído de um filme. Alto, elegante, o olhar de aço. A aura de alguém que nunca ouviu a palavra "não".
Ele me encarou com frieza calculada. E falou com um sotaque leve, carregado de comando.
- Senhorita Moretti. Meu nome é Sebastian Mancini. Estou aqui para levá-la. Arrume apenas o necessário. E vamos.
Levá-la.
Não conhecê-la. Não conversar. Não perguntar se ela queria. Apenas levar.
Olhei para meu pai. Ele abaixou a cabeça. Silêncio. Culpa. Derrota.
Eu me virei para ele antes de cruzar a porta.
- Eu não vou me casar com você. Eu não sou uma moeda de troca. Não sou uma recompensa de aposta. E não sou sua.
Ele parou no meio do caminho, os olhos escurecendo. O leve sorriso sarcástico desapareceu, substituído por algo mais sombrio. Quando deu um passo à frente, eu recuei instintivamente, mas ele foi mais rápido.
Antes que eu pudesse me afastar, seus dedos envolveram meu rosto com firmeza, quase brutalidade. Seu toque era frio. Dominante. Como se ele estivesse marcando território.
- Não tem culpa se o seu pai foi fraco - murmurou, a voz baixa, arrastada. - Se ele te usou como ficha no jogo dele, isso não tem nada a ver comigo. Eu só vim buscar o que é meu por direito. Você.
- Eu não sou sua. - Tentei me soltar, mas ele segurou firme. - Eu não pertenço a você. E não vou com você.
Ele me soltou de repente - com força. Dei dois passos trôpegos para trás e caí. As costas bateram no chão frio do hall de entrada. A dor nem doeu tanto quanto a humilhação.
Antes que eu pudesse me levantar, um gesto silencioso dele mudou tudo.
Um dos homens que o acompanhavam - alto, de expressão dura e olhos de pedra - se virou e caminhou até onde meu pai ainda estava sentado no sofá, paralisado, o rosto coberto de culpa e derrota. O homem puxou a arma do coldre e, num movimento seco, apontou-a para a cabeça do meu pai.
- Não! - gritei, arfando. - Não! Não, por favor! - Minhas pernas se moveram sozinhas. Eu corri até meu pai, mas Sebastian bloqueou o caminho com o corpo.
- Você tem três segundos pra fazer sua escolha - ele disse, olhando pra mim como se fosse um juiz num tribunal que só aceitava uma resposta. - Um...
- Sebastian, por favor...
- Dois...
- Eu vou! - berrei. - Eu vou com você!
O silêncio caiu de repente. Até o tempo pareceu prender a respiração.
Eu tremia. Os joelhos fraquejando, o coração acelerado como se fosse explodir. Sebastian apenas me observou por mais alguns segundos, como se quisesse se certificar de que minha rendição era real.
- Ótimo. - Ele acenou, e o homem abaixou a arma lentamente. - Vá pegar o que precisa.
- Meus materiais da faculdade... - minha voz saiu quase num sussurro - algumas roupas...
Ele soltou uma risada baixa, debochada.
- Não precisa de tudo isso. - Me analisou dos pés à cabeça. - Como minha noiva, você vai ter tudo o que precisa. E mais. Mas vai ter que aprender a andar à altura da família Mancini. E isso começa agora.
Eu engoli seco.
Cada passo em direção ao meu quarto parecia custar mais do que eu tinha. Quando fechei a porta atrás de mim, deixei o corpo escorregar até o chão e respirei fundo.
Estava indo embora com o homem que destruíra minha liberdade. E tudo que eu podia fazer... era manter a cabeça erguida até encontrar uma saída.
Ou destruí-lo por dentro.
Voltei para a sala com uma mochila leve nas costas. Três cadernos, um jaleco, dois livros de neuroanatomia e algumas roupas que couberam no tempo que tive.
Sebastian me esperava na porta, impaciente, mas eu o ignorei. Meus olhos procuraram só uma pessoa.
Meu pai.
Ele ainda estava sentado no sofá, como se não tivesse forças nem para levantar a cabeça. As mãos tremiam no colo. Os olhos marejados estavam fixos em algum ponto perdido no chão.
Me aproximei devagar, com o coração partido em mil pedaços. Eu não sabia se queria abraçá-lo ou gritar com ele até minha garganta sangrar.
- Pai...
Ele ergueu o rosto. E ali, naquele olhar cansado, eu vi tudo. A dor. O arrependimento. A culpa que já o condenava muito antes de qualquer sentença minha.
- Me perdoa, Ane - sussurrou. - Eu falhei com você. Com sua mãe. Com tudo que prometi proteger.
As lágrimas me queimaram os olhos, mas não deixei cair. Não na frente de Sebastian. Não na frente daqueles homens que tinham colocado um preço na minha liberdade.
- Por quê? - minha voz falhou. - Por que não me contou? Por que me jogou nesse pesadelo sem me dar escolha?
Ele engoliu seco.
- Porque eu achei que estava salvando você... e, no fim, só te vendi. - Ele abaixou a cabeça. - Eu sou um covarde.
Sentei ao lado dele e segurei sua mão. Estava fria. Tremia.
- Você ainda é meu pai - falei, com a voz fraca. - Mesmo depois de tudo. E eu ainda te amo. Mas me doeu... e vai continuar doendo por muito tempo.
- Eu sei. - Ele fechou os olhos com força. - E eu vou carregar isso até meu último dia.
Abracei-o. Forte. Talvez pela última vez. Senti o cheiro familiar da sua pele, o mesmo que me dava segurança quando eu era criança. E desejei, por um instante desesperado, voltar no tempo. Antes das dívidas. Antes da doença. Antes dos Mancini.
- Promete que vai lutar - sussurrei contra o ombro dele. - Que vai fazer esse tratamento. Que não vai desistir de viver, mesmo depois disso.
- Prometo - respondeu num fio de voz. - Mas você também promete uma coisa?
Me afastei, com o rosto ainda úmido.
- O quê?
- Não deixe que eles apaguem quem você é.
Assenti. Porque, no fundo, era tudo o que eu podia prometer. E tudo o que eu precisava lembrar.
Me levantei devagar. Meu pai soltou minha mão com relutância. E quando virei para a porta, Sebastian já estava lá, me esperando com aquela postura implacável.
Quando a porta se fechou atrás de mim, o ar pareceu mais denso, mais frio - como se até o mundo, cúmplice silencioso, soubesse que algo havia sido perdido ali dentro. Algo que eu talvez nunca recuperasse: minha liberdade.
Do lado de fora, três carros pretos esperavam como feras enjauladas prestes a se mover. Os vidros escurecidos escondiam segredos. Os motores ligados vibravam com paciência predatória. Homens de terno e olhares duros se mantinham ao redor, atentos, imóveis. Era como se cada esquina de Manhattan pertencesse a eles. E talvez pertencesse.
A luz amarelada da varanda iluminava o chão molhado pela garoa fina, transformando a calçada num espelho opaco. Mas nenhuma água do mundo podia lavar o que eu sentia por dentro: mágoa, impotência, raiva. Medo.
Sebastian já estava dentro do carro do meio, no banco de trás. A porta permanecia aberta. Um convite? Não. Uma ordem disfarçada de gentileza. Um gesto teatral, encenado para manter as aparências. Nada mais.
Respirei fundo, o ar ardendo na garganta como se o próprio universo estivesse tentando me sufocar.
Olhei uma última vez para a porta da minha casa. Atrás dela, meu pai ainda estava sentado no sofá. O mesmo sofá onde eu cresci deitando com os pés no colo dele. Agora, ele afundava em silêncio e arrependimento. Ou talvez nem isso. Talvez só culpa e covardia.
Uma parte de mim gritou para correr. Me esconder. Gritar. Mas meus pés não se moveram. Porque eu sabia a verdade cruel e simples: eles não hesitariam em puxar o gatilho contra ele se eu resistisse.
Então, com os olhos ardendo, coloquei um pé diante do outro, arrastando minha alma ferida atrás de mim. E entrei no carro.
O cheiro lá dentro me atingiu com força. Couro novo, perfume masculino caro e um silêncio que pesava como concreto. A porta se fechou com um clique seco atrás de mim - o som exato de uma sentença sendo selada.
Sebastian não disse uma palavra. Nem um olhar. Apenas manteve os olhos voltados para a janela, os dedos batendo no apoio de braço com uma calma irritante. Como se estivesse contando o tempo. Ou como se estivesse entediado com o que acabara de comprar.
O carro arrancou devagar. Os outros dois o seguiram com precisão coreografada. Um comboio. Um cortejo fúnebre para minha vida como eu conhecia.
A cidade passava do lado de fora como um borrão distante. As pessoas apressadas, as luzes dos prédios, os táxis, as lojas... tudo seguia como se eu não estivesse ali. Como se eu tivesse deixado de existir. Eu já não fazia parte daquele mundo. Agora eu era um nome em um contrato. Um bem transferido. Um pedaço de poder usado como moeda.
E quanto mais o carro avançava, mais o pânico se enraizava no meu peito.
Comecei a pensar no que viria. Na vida que me esperava atrás daqueles muros. Ser esposa de um mafioso. Ter que conviver com criminosos bem vestidos, sorrir em jantares cheios de sangue oculto, ouvir ordens disfarçadas de promessas. Fingir. Fingir o tempo todo. Ser tudo o que eles quisessem que eu fosse.
Ter filhos com um homem que me tirou à força da minha casa.
Minha garganta fechou. O estômago revirou. Meus dedos se fecharam no tecido da calça, tão forte que quase rasguei a costura.
E se eu tentasse fugir?
Eles matariam meu pai? Me matariam? Me caçariam como uma peça perdida da família?
Sebastian não se mexia. Não falava. Não respirava alto. Era como uma estátua de mármore, insensível e impecável, com olhos que sabiam demais e um coração que, se existia, devia estar trancado junto com suas armas.
Fechei os olhos. Não para descansar. Mas para não desmoronar.
Porque eu sabia. A cada quilômetro, uma parte de mim morria. E outra, desconhecida, nascia. Uma parte mais dura. Mais fria. Mais disposta a lutar.
Eu ainda era Ane Moretti.
Mas logo... eu teria que ser algo mais.
Algo forte o bastante para sobreviver ao mundo de Sebastian Mancini.
Assim que o carro passou pelos portões altos de ferro, senti o peso do mundo aumentar sobre meus ombros. A mansão à frente parecia ter saído de uma revista de luxo - ou de um filme sobre vilões ricos. Enorme, branca como mármore antigo, com colunas altas e janelas que pareciam olhos frios observando tudo.
Cada detalhe gritava poder.
O jardim era perfeitamente podado, como se nem as flores tivessem liberdade ali. Uma fonte no centro do pátio lançava jatos de água sincronizados, iluminada por luzes discretas que deixavam tudo mais imponente. O silêncio era sepulcral, quebrado apenas pelos pneus rolando devagar no cascalho.
O carro parou.
Um segurança abriu a porta para mim, e o ar úmido da noite me acertou como um tapa. Desci com cuidado, como se pisasse num campo minado. E talvez fosse exatamente isso.
A porta principal da mansão já estava aberta. Outro homem de terno nos esperava, como se tivesse ensaiado a pose. Entrei.
O interior era ainda mais sufocante. Um grande hall de pé-direito duplo se abria diante de mim, com lustres de cristal pendendo do teto como coroas congeladas. O chão de mármore brilhava tanto que minha imagem refletia torta nele. Tudo ali era grandioso, frio, impessoal. As paredes traziam quadros antigos e caros. Nenhuma foto de família. Nenhuma lembrança calorosa. Só ostentação.
Era linda. E sombria. Como uma jaula banhada a ouro.
- Você vai dormir no meu quarto - a voz de Sebastian cortou o ar atrás de mim, firme como uma sentença judicial.
Virei de imediato, chocada. Um dos seguranças surgiu carregando minha mala - minha pequena mala, o resto ficou para trás como o resto da minha vida.
- O quê? - perguntei, a voz mais alta do que pretendia. - Eu não vou dormir no seu quarto. Me recuso.
Ele me encarou por um segundo, como se estivesse decidindo até onde podia me empurrar.
Depois sorriu. Um sorriso frio, impassível, quase entediado.
- Quem manda aqui sou eu, Ane.
- Nós não estamos casados - rebati, mantendo a cabeça erguida. - E enquanto isso não acontecer, não faz sentido dividirmos um quarto. Não tem cabimento.
Ele se aproximou devagar, cada passo ecoando no mármore como um aviso. Parou a poucos centímetros de mim. Alto. Imóvel. A sombra dele parecia me engolir.
- Não tem problema - murmurou, com aquela voz baixa e perigosa. - Não vamos consumar nada antes do casamento. Eu sei seguir regras... quando me convém.
Senti o rosto esquentar na hora. As bochechas queimaram, como se ele tivesse me arrancado a roupa só com as palavras. Mas eu não desviaria o olhar. Não daria esse gosto pra ele.
- Ainda assim - insisti, tentando controlar a respiração -, eu mereço um mínimo de respeito.
Ele soltou uma risada baixa, sem humor.
- Isso é o mínimo. Você tem um quarto comigo. É mais do que outras mulheres nessa casa teriam, se houvesse outras.
A forma como ele disse aquilo... não era ameaça. Era constatação. Frieza.
Fechei a mão ao lado do corpo, tentando não demonstrar o pânico que crescia no meu estômago. Porque por fora, eu queria parecer firme. Mas por dentro, eu só queria correr.
- Onde está o meu quarto? - repeti, como se isso fosse suficiente pra mudar as regras.
Ele inclinou a cabeça, os olhos escuros fixos nos meus.
- Onde eu disser que é.
Meus dentes se apertaram. Minha vontade era gritar, empurrá-lo, fugir. Mas eu sabia que, ali, ele era o predador e eu a isca amarrada. Uma isca que precisava aprender a sobreviver.
- Então me mostre o caminho - respondi, a voz baixa, firme, mesmo com a raiva me queimando por dentro.
Ele deu um meio sorriso. Não de quem vencia, mas de quem já sabia que venceria.
E começou a subir as escadas.
E eu... fui atrás.
Mas com cada degrau, eu prometia silenciosamente: eu posso estar andando para a boca do lobo, mas não vou me deixar devorar tão fácil.
Sebastian
Quando meu pai me chamou para uma "conversa de homens", eu soube que vinha merda. Ele só usava esse termo quando o assunto envolvia poder, sangue e sujeira. Nunca era sobre negócios limpos - até porque, na nossa família, negócios limpos não existiam. Só ilusões bem vestidas de terno italiano.
Mas, dessa vez, ele se superou.
- Você vai se casar com a filha do Moretti.
Por um segundo, achei que fosse piada. Soltei uma gargalhada seca, atravessada pelo desprezo.
- Você ficou louco? - encarei-o como se estivesse ouvindo um absurdo qualquer. - Desde quando a gente precisa de casamento pra fechar acordo? Estamos em 2025, não na Idade Média.
Ele não riu. Nem moveu um músculo. A expressão estava dura, fria. O olhar que sempre misturava ameaça com convicção. Aquele mesmo olhar que eu cresci tentando decifrar - e superar.
- A dívida dele é impagável - ele começou, com a voz baixa, quase didática. - Moretti apostou a própria filha. Está nas nossas mãos. E agora, essa união pode ser a chave para expandirmos nosso império para a costa leste. Clínicas, clubes, cassinos... tudo pronto para ser lavado. O sobrenome dela pode abrir portas que nem nosso dinheiro conseguiu arrombar.
- Então você quer que eu use uma garota como fachada - resumi, me jogando no encosto da poltrona com irritação.
Ele me lançou um olhar cortante.
- Não é só fachada. Você vai oficializar isso. Vai dar um herdeiro. Vai fazer parecer legítimo. Ninguém suspeita de uma família em ascensão quando o Capo está de aliança no dedo e a esposa sorri nas fotos de caridade.
Bufei. A velha hipocrisia dos Mancini.
- E as mulheres do nosso bordel, pai? Vai colocar todas de luto agora?
Ele deu de ombros, como quem fala sobre o clima.
- Desde que saiba separar as coisas... e mantenha o nome Mancini limpo aos olhos do mundo... pode se divertir como quiser. Apenas certifique-se de que a esposa permaneça intacta. Decorativa. Silenciosa. E fértil.
Quase ri de novo, mas algo dentro de mim queimava. Ele não via pessoas, via ferramentas. E agora esperava que eu fizesse o mesmo.
Mas o pior? É que eu entendi a lógica dele. Casar com a filha do Moretti não era só estratégia. Era humilhação. Era mostrar que podíamos comprar qualquer coisa. Até a dignidade de um neurocirurgião premiado. E ao ver o desespero nos olhos de Charles Moretti quando perdeu a filha na última rodada... meu sangue gelou. De prazer.
Aquele suor escorrendo pela têmpora dele. O olhar vazio. O terror contido quando percebeu que tinha vendido a própria filha para salvar a própria pele.
Sim. Eu teria pagado só pra ver aquele olhar mais uma vez.
**
Quando fui buscá-la, mandei que preparassem um quarto ao lado do meu. Pedi uma cama extra. Não por gentileza. Mas por estratégia. Ela viria contrariada. Ferida. Indignada. E eu não tinha tempo pra lidar com chiliques sentimentais logo de cara.
Mas quando vi Ane Moretti pela primeira vez... algo saiu do script.
Ela não era o que eu esperava.
Não tinha cara de menina mimada. Nem de boneca criada em vitrine. Ela carregava nos olhos um tipo de fúria que eu conhecia bem - aquela que precede o ataque. Aquela que você não doma com presentes nem promessas.
Ela me enfrentou com o olhar. Como se não me temesse. Como se eu fosse só mais um erro no mundo dela. E aquilo... me desafiou. Me provocou.
Ela era bonita, sim. Mas era o jeito como ela me odiava em silêncio que mais me atraiu. Havia orgulho em cada linha do seu rosto. E dor. E raiva. Era uma tempestade disfarçada em jaleco branco e palavras afiadas.
Ane Moretti era uma promessa de caos. E eu queria ver até onde ela ia resistir antes de quebrar.
Talvez ela achasse que podia lutar contra mim. Que podia manter a alma intacta nesse casamento de fachada.
Mas estava enganada.
Porque neste mundo - no meu mundo - quem manda sou eu.
E ela... era apenas o início de uma guerra que ainda nem começou.