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Propriedade do Alfa Supremo

Propriedade do Alfa Supremo

Autor:: Priscila Ozilio
Gênero: Lobisomem
Um contrato de sangue. Um poder proibido. Dois destinos destinados a incendiar o Norte. Aurora Frost foi vendida. Entregue ao lobo mais temido do continente como pagamento de uma dívida de jogo, ela esperava encontrar um carrasco. O que encontrou foi Dominic Volkov, o Alfa Supremo, um homem cuja alma é cercada por sombras e segredos que nenhum contrato poderia conter. O acordo era simples: um herdeiro em troca de proteção. Sem marcas. Sem sentimentos. Apenas um negócio frio e calculado. Mas o que ninguém esperava era que Aurora carregasse em suas veias o maior segredo da raça lupina: o sangue da Loba de Ouro, uma divindade milenar que todos acreditavam ser apenas um mito. Quando o poder de Aurora desperta, o contrato de dez milhões de dólares se torna irrelevante. O Norte entra em guerra. O Conselho dos Anciões quer o seu sangue. Criaturas das sombras querem a sua luz. E Dominic, o Alfa que jurou nunca se curvar, descobre que sua maior possessividade não vem de um papel assinado, mas de um laço de alma que exige o sacrifício de tudo o que ele conhece. Agora, eles não lutam apenas para cumprir um acordo, mas para sobreviver a uma profecia que exige sangue. Para salvar quem amam, Aurora terá que abraçar a própria escuridão, e Dominic terá que decidir se prefere manter seu trono ou se tornar o monstro necessário para proteger a mulher que o destino, e não o contrato colocou em seu caminho. O amor nunca fez parte do acordo... mas o poder nunca respeitou as regras.

Capítulo 1 O Preço do Sangue

Capítulo 1: O Preço do Sangue

Aurora Frost

O silêncio na biblioteca de Dominic Volkov não era um silêncio comum. Era pesado, denso, como o ar antes de um tornado tocar o chão. Eu conseguia ouvir o tique-taque ritmado de um relógio de pêndulo em algum canto da sala, e cada batida parecia um martelo golpeando o pouco que restava da minha dignidade.

O couro da poltrona de carvalho onde eu estava sentada parecia frio demais contra a minha pele, apesar do calor que subia pelo meu pescoço devido ao nervosismo.

Eu me sentia minúscula naquela sala monumental. As estantes de madeira escura subiam até o teto, carregadas de livros que pareciam observar meu julgamento. O cheiro de sândalo, papel antigo e algo puramente masculino, o cheiro dele inundava meus pulmões, tornando difícil a tarefa de respirar com normalidade.

À minha frente, sobre a mesa de ébano polido, o documento de dez páginas repousava como uma sentença de morte. Ou de vida, dependendo de quem olhasse.

- Assine logo, Aurora. Não temos o dia todo e o senhor Volkov é um homem ocupado - a voz do meu pai veio de algum lugar atrás de mim.

Havia uma impaciência covarde no tom dele. O grande Alfa da alcateia Frost, que um dia foi um homem de honra, agora não passava de um viciado em apostas que não conseguia sequer me olhar nos olhos.

Ele me trouxe aqui como quem leva um cordeiro para o abate, esperando que o meu sacrifício limpasse a sujeira que ele mesmo criou.

Eu não respondi. Meus olhos estavam fixos no homem sentado atrás da mesa.

Dominic Volkov. O Alfa Supremo.

Ele não tinha dito uma única palavra desde que eu cruzei o batente da porta. Ele apenas me observava, com aqueles olhos cinzentos que pareciam duas pedras de gelo esculpidas no coração do inverno. Ele lia cada reação minha, cada tremor involuntário das minhas mãos, cada vez que eu engolia em seco.

Ele era maior do que as fotos nas colunas sociais sugeriam. Os ombros largos preenchiam perfeitamente o terno cinza-chumbo sob medida, e a aura de dominância que emanava dele era tão física que minha loba, aquela parte de mim que nunca despertou, que todos diziam ser "defeituosa" parecia querer cavar um buraco e se esconder no fundo da minha alma.

- Dez milhões - eu disse. Minha voz saiu mais firme do que eu esperava, quebrando o silêncio como um cristal se estilhaçando no chão. - É por isso que você está me comprando, não é? Pelo valor de uma dívida de jogo que nem é minha?

Dominic inclinou a cabeça levemente para o lado. Foi um movimento puramente predatório, como um lobo avaliando se a presa valia o esforço da caçada.

- É o valor da dívida da sua alcateia, Aurora - a voz dele era um barulho grave, um trovão baixo que vibrou no meu peito. - Para mim, dez milhões é apenas um número em uma planilha. Para você, é a diferença entre a sobrevivência dos seus e a extinção completa.

- E o herdeiro? - As palavras amargaram na minha boca como bile. Eu me forcei a dizer a cláusula que mais me assombrava. - O contrato diz que, assim que a criança nascer e for desmamada, eu recebo minha carta de alforria. Eu recebo o dinheiro e vou embora.

- Exatamente - ele respondeu, sem um pingo de emoção.

- Você fala como se estivesse comprando uma reprodutora, Alfa. Não uma esposa, nem mesmo uma companheira de fachada.

Pela primeira vez, um lampejo de algo passou por aqueles olhos gélidos. Não era pena, nem de longe. Era algo mais escuro, uma intensidade que fez os pelos dos meus braços se arrepiarem.

- Você não será minha esposa, Aurora. O título de "Luna" será apenas para manter as aparências diante do Conselho e da imprensa. O que acontecer entre as quatro paredes deste quarto será uma transação biológica para garantir a continuidade da linhagem Volkov. Eu preciso de um herdeiro forte, e seu sangue, apesar da sua... condição, ainda carrega uma linhagem antiga que me interessa. Não espere jantares, não espere flores, e acima de tudo, não espere afeto.

Eu senti um nó apertar minha garganta, ameaçando me sufocar. A ideia de carregar um filho por nove meses, senti-lo crescer dentro de mim, dar à luz e depois ser descartada como um objeto usado, era uma tortura psicológica que eu ainda não conseguia processar completamente.

- Eu não sou a favor de abandonar um filho, Alfa Dominic - afirmei, sustentando o olhar dele. - Você pode comprar meu tempo, pode comprar meu útero, mas não pode me obrigar a ser indiferente ao que é meu. Se eu vou assinar isso, saiba que não estou fazendo por você ou por este império frio. Estou fazendo pela minha mãe, que não tem culpa de ter um marido que a apostou em uma mesa de cartas.

- O motivo não me interessa - ele declarou, levantando-se da cadeira.

Ele era assustadoramente alto. Quando ficou de pé, pareceu que a luz da sala diminuiu, como se ele consumisse todo o espaço ao redor. Ele contornou a mesa com passos silenciosos, como se suas botas nem tocassem o tapete persa.

Meu pai se encolheu um pouco mais no canto da sala, mas eu me recusei a desviar o olhar. Peguei a caneta tinteiro que estava sobre a mesa. O metal estava gelado, combinando com a temperatura da alma do homem à minha frente.

Com a mão tremendo apenas o suficiente para que só eu percebesse, assinei meu nome no rodapé de cada página.

No último traço do "t" de Frost, uma sensação estranha me atingiu. Foi como um choque elétrico que partiu da ponta dos meus dedos e subiu pelos meus braços, atingindo meu coração com a força de um soco.

Um aroma súbito inundou meus sentidos. Chuva fresca, terra molhada e algo cítrico, como bergamota. Era um cheiro delicioso, inebriante, que me fez querer fechar os olhos e inspirar profundamente. Vinha dele.

Dominic parou a poucos centímetros da minha cadeira. Ele se inclinou, apoiando as mãos nos braços da poltrona, me cercando completamente. Eu estava encurralada entre o couro e o corpo dele. Pude sentir o calor que emanava dele, uma fornalha escondida sob o terno elegante.

Nossos olhos se prenderam. Por um segundo eterno, as pupilas dele dilataram até que o cinza quase desaparecesse, restando apenas um abismo negro de desejo e... surpresa?

- Bem-vinda à sua nova vida, Aurora - ele sussurrou perto do meu ouvido. O hálito quente causou um arrepio violento que desceu pela minha espinha. - A partir de agora, você me pertence. Cada centímetro do seu corpo, cada respiração, cada pensamento.

- Eu pertenço ao contrato, Dominic. Não a você - retruquei, embora minha voz estivesse falha pela proximidade.

Ele soltou uma risada curta, seca, que não chegou aos olhos.

- Veremos. Tente não se apaixonar por mim, Aurora. Seria um desperdício de tempo e de lágrimas. Eu não tenho um coração para lhe oferecer em troca.

Ele se afastou abruptamente, como se o contato com o meu espaço pessoal o estivesse queimando. Sem olhar para trás, ele caminhou até a porta da biblioteca e a abriu.

- Kael! - ele chamou o Beta, que apareceu instantaneamente no corredor. - Leve a Senhorita Frost para os aposentos dela. E certifique-se de que ela entenda que não deve circular pela casa sem autorização.

Meu pai tentou se aproximar de mim, talvez para um adeus ou um último pedido de desculpas, mas Dominic o barrou com um braço firme.

- Você recebeu o que queria, Frost. Agora saia da minha propriedade antes que eu decida que a dívida de sangue é mais interessante do que o dinheiro.

Eu vi meu pai fugir como um cão castigado, sem olhar para trás uma única vez. Eu estava sozinha. Vendida. Marcada por um papel, mas sentindo que algo muito mais profundo tinha acabado de mudar dentro de mim.

Kael, um homem de aparência mais jovem e olhos gentis, entrou na sala e me ofereceu um sorriso triste.

- Por aqui, senhora. Vou levar suas malas.

Eu me levantei, sentindo minhas pernas pesadas como chumbo. Ao passar por Dominic na porta, nossos ombros se roçaram por um milésimo de segundo. O choque voltou, mais forte dessa vez, fazendo meu coração martelar contra as costelas.

Eu não sabia o que era aquilo. Eu era uma Ômega "fraca", sem loba desperta, sem dons. Mas naquele momento, enquanto eu caminhava para a minha prisão de luxo, algo no fundo da minha mente sussurrou que o contrato de Dominic Volkov era apenas o começo de uma guerra que nenhum de nós estava preparado para vencer.

Capítulo 2 Território Inimigo

Capítulo 2: Território Inimigo

Aurora Frost

A mansão dos Volkov não era uma casa; era uma fortaleza de mármore e vidro encravada no topo da montanha mais alta do Norte. Enquanto eu seguia Kael pelos corredores infinitos, o eco dos meus próprios passos parecia me lembrar da minha solidão.

As paredes eram adornadas com retratos de Alfas antigos, homens com olhos tão impiedosos quanto os de Dominic, que pareciam me julgar por ousar pisar naquele solo sagrado sendo apenas uma Ômega "vazia".

- Não ligue para os quadros, senhora. Eles estão mortos, mas a arrogância costuma sobreviver por aqui - Kael comentou, tentando quebrar o gelo. Ele carregava minhas duas malas baratas com uma facilidade irritante, contrastando com o terno impecável que vestia.

- Eu não sou "senhora", Kael. Sou apenas um contrato assinado - respondi, minha voz ecoando no hall de entrada monumental.

Ele parou diante de uma porta de carvalho duplo, ricamente entalhada com o brasão da alcateia: um lobo uivando para uma lua de sangue.

- Para o mundo, você é a Luna. E eu recebo ordens do Alfa para garantir que você seja tratada como tal. Pelo menos, enquanto estivermos sob este teto.

Ele abriu as portas e eu perdi o fôlego por um segundo. O quarto era maior do que a casa onde cresci. Uma cama king-size com dossel dominava o centro, coberta por sedas em tons de prata e azul escuro. Havia uma lareira de pedra já acesa, lançando sombras dançantes pelas paredes.

- Maya! - Kael chamou, e uma garota jovem, com cabelos castanhos presos em um coque apressado e um uniforme simples, saiu de um dos closets.

Ela tinha olhos grandes e expressivos, que brilharam ao me ver. Diferente de todos naquela casa, ela não exalava poder ou ameaça. Ela cheirava a lavanda e sabão.

- Finalmente você chegou! - ela exclamou, mas logo se recompôs, fazendo uma pequena reverência. - Peço desculpas, senhora. Sou a Maya. Fui designada para ser sua assistente pessoal... e o que mais precisar.

Kael assentiu para mim e saiu, fechando as portas e me deixando sozinha com a garota. Maya se aproximou, e percebi que ela me observava com uma curiosidade genuína, mas sem o desprezo que eu esperava.

- Você é muito mais bonita do que as fotos que o conselho enviou - ela sussurrou, começando a abrir minhas malas. - E cheira tão bem... é como se a floresta tivesse vindo com você.

- Maya, eu sou uma Ômega sem loba. Você sabe disso, não sabe? A maior parte das pessoas me olha como se eu fosse um erro da natureza.

Ela parou o que estava fazendo e me olhou nos olhos.

- Eu sou humana, Aurora. Para os lobos daqui, eu sou apenas parte da mobília. Mas eu vejo as coisas. E o que eu vi hoje, quando o Alfa passou pelo corredor depois de sair da biblioteca... - ela hesitou, baixando a voz. - Ele estava com o cheiro alterado. Dominic Volkov nunca perde o controle, mas o rastro que ele deixou atrás de si era de um macho em alerta.

- Como consegue perceber cheiros se é humana? - perguntei curiosa e ela deu de ombros como se aquilo não fosse nada.

- Do mesmo jeito que você que não tem loba desperta, acho que por costume ou convivência.

Suspirei em derrota pela lógica dela.

- Eu tenho loba, às vezes pareço senti-la. Mas ela nunca despertou.

Maya me olhou não com pena, mas com carinho e compreensão e gostei daquele olhar.

Eu me sentei na beirada da cama, sentindo o peso das palavras dela. Se Dominic estava em alerta, era por raiva de ter sido forçado a esse contrato, não por causa de uma Ômega insignificante como eu.

- Ele me odeia, Maya. - falei por fim - E eu não o culpo. Fui empurrada goela abaixo dele por causa de uma dívida de jogo.

- O ódio e a paixão usam a mesma porta, senhora - Maya piscou para mim, tentando me animar. - Agora, vamos tirar esse vestido de viagem. O jantar será servido em uma hora e, embora o Alfa tenha dito que não haveria recepções, temos uma "visita" que não quis ir embora.

Senti um frio na espinha.

- Quem?

- Sasha Petrov. A filha do Alfa da Alcateia do Sul. Ela acredita que a coroa de Luna pertence a ela. Prepare o seu espírito, Aurora. Ela morde, e não é de um jeito amigável.

Maya me ajudou a tomar um banho demorado e escolheu um vestido de seda verde-esmeralda que realçava meus olhos. Eu me sentia como uma impostora, uma boneca sendo arrumada para um dono que não me queria. Quando terminamos, ela me guiou até a sala de jantar formal.

O ambiente era gélido. A mesa de jantar era tão longa que parecia um campo de batalha. Dominic estava em uma das pontas, já servido com uma taça de vinho tinto. Ele não usava mais o paletó, apenas a camisa social branca com as mangas dobradas, revelando antebraços fortes e tatuagens tribais que subiam pelos seus punhos.

Mas ele não estava sozinho.

Sentada ao lado dele, quase colada ao seu braço, estava uma mulher deslumbrante. Cabelos loiros platinados, lábios pintados de um vermelho provocante e um vestido tão justo que parecia uma segunda pele. Sasha. Imaginei.

Quando entrei, o som do meu salto no mármore fez os dois olharem. Dominic apenas apertou o cristal da taça, seus olhos cinzentos fixos nos meus, sem qualquer expressão de boas-vindas. Sasha, por outro lado, exibiu um sorriso que não chegou aos olhos.

- Então esta é a "solução" para o seu problema, Dom? - Sasha perguntou, sua voz era como seda sobre vidro quebrado. - Eu esperava algo... mais substancial. Ela parece que vai quebrar se o vento soprar mais forte.

- Sente-se, Aurora - Dominic ordenou, ignorando o comentário de Sasha. Ele apontou para a cadeira na outra ponta da mesa, a quilômetros de distância dele.

Eu caminhei com a cabeça erguida, ignorando o nó que queimava na minha garganta. Maya puxou a cadeira para mim.

- Boa noite - eu disse, com a voz gélida.

Sasha soltou uma risada anasalada, debruçando-se sobre a mesa para me analisar.

- Me diga, querida, quanto o seu pai cobrou para te entregar? Eu ouvi dizer que as contas dele no cassino estavam ficando altas demais até para uma loba de linhagem baixa.

- Sasha, chega - a voz de Dominic foi um aviso baixo, mas a loira não recuou.

- Ah, Dom, não seja tão protetor. Ela precisa saber onde se pisa. - Ela voltou o olhar para mim, as pupilas brilhando com um dourado perverso. - Você pode ter assinado um papel, Aurora, mas nesta alcateia, o respeito é conquistado com sangue e força. E você não tem nenhum dos dois. Você é apenas um útero de aluguel caro. Quando você entregar o herdeiro, eu estarei aqui para assumir o meu lugar ao lado do meu Alfa.

Eu respirei fundo, sentindo o veneno dela circular no ar.

- Se o seu lugar é ao lado dele, senhorita Petrov, por que foi o meu nome que ele escreveu no contrato? Talvez a "força" que você tanto preza não seja o que ele realmente precisa.

Sasha se levantou bruscamente, as garras começando a despontar nas pontas dos dedos perfeitamente manicureados. Ela caminhou até mim, parando às minhas costas. Senti o hálito dela perto do meu ouvido.

- Você é corajosa para alguém tão frágil. Mas vamos ver quanto tempo essa coragem dura quando você estiver sozinha nos corredores desta casa. Lobos costumam caçar ovelhas por diversão, Aurora.

Dominic bateu a taça de vinho na mesa, o som estalando como um tiro. Ele se levantou, a aura de Alfa Supremo inundando a sala, fazendo até Sasha vacilar. Ele caminhou lentamente em nossa direção, parando entre nós duas.

Ele não olhou para Sasha. Ele olhou para mim.

- O jantar acabou - Dominic sentenciou. Ele se inclinou sobre mim, uma mão apoiando-se na mesa e a outra no encosto da minha cadeira, exatamente como fez na biblioteca, mas desta vez o cheiro dele era mais agressivo, mais denso.

Sasha cruzou os braços, bufando.

- Você vai mesmo deixar essa coisinha falar assim comigo?

Dominic virou o rosto levemente para ela, a voz saindo como um rosnado vindo das profundezas do peito.

- Saia da minha casa agora, Sasha. E não volte sem ser convidada.

- Dominic! - ela protestou, chocada.

- Saia! - O comando de Alfa reverberou nas paredes, fazendo as janelas vibrarem.

Sasha empalideceu, pegou sua bolsa e saiu da sala pisando duro, mas não antes de me lançar um olhar de puro ódio que dizia que isso estava longe de acabar.

O silêncio que ficou para trás era carregado de eletricidade. Dominic permaneceu inclinado sobre mim. Eu conseguia sentir o calor do corpo dele, a tensão nos seus músculos. Ele levou uma das mãos ao meu queixo, me forçando a olhar para cima. O toque dele queimava como brasa.

- Não ache que eu te defendi por carinho, Aurora - ele sussurrou, a voz rouca e perigosa. - Eu apenas não tolero que ninguém desrespeite o que me pertence sob o meu teto.

Eu tentei me afastar, mas ele apertou o aperto no meu queixo, os olhos prateados queimando com uma intensidade que me deixou sem ar.

- Eu não sou um objeto, Dominic.

- No papel, você é - ele retrucou, aproximando o rosto do meu até que nossas pontas de nariz se tocassem. - E o contrato diz que precisamos de um herdeiro. Eu não sou um homem de esperar.

Ele soltou meu queixo abruptamente e segurou meu pulso, me puxando para cima com uma força que não me dava opção.

- Vamos para o quarto. Agora.

Capítulo 3 O Lobo e a Mentira

Capítulo 3: O Lobo e a Mentira

Dominic Volkov

O cheiro dela estava impregnado em cada centímetro daquela biblioteca. Chuva, terra molhada e algo doce, como flores silvestres que só crescem no auge da primavera. Era um aroma que eu nunca deveria ter sentido, um aroma que meu lobo reconheceu no instante em que ela cruzou o batente da porta.

COMPANHEIRA.

A voz do meu lobo rugiu dentro da minha mente, uma força selvagem tentando romper as correntes do meu autocontrole.

Eu queria ignorar. Eu precisava ignorar. Eu passei trinta e dois anos construindo um império baseado na lógica e no sangue, acreditando que o "laço de alma" era uma lenda para lobos fracos que precisavam de uma desculpa para serem guiados pelas fêmeas.

E agora, o destino, ou o azar de um apostador desgraçado como o pai dela, jogava Aurora Frost no meu colo.

Eu a observei enquanto ela subia as escadas com Kael. Ela tentava manter a postura, a cabeça erguida, mas eu via o tremor sutil nos seus ombros. Ela estava com medo. E o pior: o cheiro do medo dela me dava vontade de destruir qualquer coisa que a fizesse se sentir assim, inclusive a mim mesmo.

- Você está perdendo o controle, Dom - a voz de Kael me trouxe de volta à realidade enquanto ele descia as escadas, alguns minutos depois. - O seu rastro está tão pesado que até os humanos lá fora devem estar sentindo.

- Cale a boca, Kael - rosnei, sem olhar para ele. Eu estava parado no pé da escada, minhas mãos fechadas em punhos tão apertados que minhas garras cortavam a palma da minha pele. - É apenas o contrato. Eu preciso de um herdeiro e ela é a ferramenta. Nada mais.

- Uma ferramenta que cheira a parceira de alma? - Ele parou ao meu lado, a voz baixa e séria. - Você sabe o que isso significa. Se você não a marcar, se você tentar lutar contra isso, o seu lobo vai acabar enlouquecendo. E ela... ela é uma Ômega, Dom. Ela não vai aguentar a pressão de um Alfa Supremo se você não der a ela a proteção do laço.

- Ela não terá marca nenhuma - sentenciei, voltando para a sala de jantar onde Sasha me esperava. - Eu não vou me tornar escravo de um instinto. Ela cumpre o contrato e vai embora. É o melhor para ela e para a alcateia.

Mas a teoria era muito mais fácil que a prática.

Durante o jantar, ver Sasha destilar veneno sobre Aurora me deu uma náusea que eu mal conseguia esconder. Sasha era a escolha lógica. Poderosa, filha de um aliado, uma loba que sabia lutar. Mas quando ela encostou no meu braço, eu senti uma repulsa imediata. Minha pele queimava para ser tocada pelas mãos trêmulas da Ômega sentada à minha frente, não pelas unhas afiadas de Sasha.

Quando Aurora respondeu à altura, um lampejo de orgulho atravessou meu peito. Ela tinha fogo. Debaixo daquela fachada de fragilidade, havia uma mulher que não se dobrava facilmente. E foi ali, vendo o brilho de desafio nos olhos dela sob a luz do lustre, que eu soube que estava perdido.

Expulsei Sasha com uma fúria que até eu desconhecia. Eu precisava que ela saísse antes que meu lobo decidisse que o desrespeito dela com a nossa companheira merecia uma punição sangrenta.

Agora, eu arrastava Aurora pelo corredor em direção ao meu quarto. O pulso dela era fino sob meus dedos, a pele macia como seda. O toque enviava descargas elétricas pelo meu braço, fazendo meu sangue ferver. Eu estava agindo como um bruto, eu sabia, mas era a única forma que eu conhecia de esconder o fato de que eu queria cair de joelhos e esconder o rosto no pescoço dela.

Abri a porta do meu quarto com um chute e a puxei para dentro, depois a fechei com força excessiva.

Aurora se soltou do meu aperto, cambaleando para trás. Ela me olhava com uma mistura de pavor e indignação.

- Você não pode simplesmente me arrastar assim! - ela gritou, a voz falhando. - Eu assinei um contrato, não uma sentença de escravidão!

- Você assinou um contrato para me dar um herdeiro, Aurora - eu disse, minha voz saindo mais rouca do que o normal. Eu comecei a caminhar em direção a ela, desabotoando os botões da minha camisa branca. - E eu não tenho paciência para jogos. Se vamos fazer isso, faremos agora.

- Agora? - Ela recuou até bater as costas na parede. - Eu acabei de chegar! Eu nem conheço você!

- Você não precisa me conhecer para engravidar - retruquei, parando a centímetros dela. O cheiro dela aqui, no meu território, era uma tortura. Eu podia ouvir o coração dela batendo rápido, como o de um pássaro enjaulado. - O contrato começa no momento em que a tinta seca. E o meu tempo é caro demais para ser desperdiçado com preliminares que não significam nada.

Eu apoiei as mãos na parede, uma de cada lado da cabeça dela, prendendo-a. Eu podia ver o brilho das lágrimas nos olhos dela, e aquilo cortou meu peito como uma faca. Mas eu não podia recuar. Se eu fosse gentil, se eu mostrasse a ela um pingo de humanidade, eu acabaria contando a verdade. E se eu contasse que ela era minha companheira, eu a condenaria a uma vida de ser o alvo número um de todos os meus inimigos.

Eu preferia que ela me odiasse e estivesse segura, do que me amasse e morresse por causa disso.

- Olhe para mim - ordenei.

Ela hesitou, mas acabou erguendo o rosto. Aqueles olhos... eles me despiam de toda a minha autoridade.

- Você me odeia tanto assim? - ela sussurrou, uma única lágrima escorrendo pelo seu rosto.

Aquela pergunta quase me destruiu. Eu não odeio você, Aurora. Eu odeio o fato de que eu morreria por você sem pensar duas vezes.

Em vez de responder, eu me inclinei e capturei os lábios dela em um beijo que não tinha nada de carinhoso. Era faminto, desesperado, uma explosão de necessidade reprimida. Eu esperava que ela lutasse, que me empurrasse, mas o que aconteceu foi pior.

No momento em que nossas bocas se tocaram, um uivo mudo ecoou por todo o meu ser. A conexão foi instantânea e devastadora. Aurora soltou um gemido baixo contra a minha boca e, por um segundo, suas mãos subiram para o meu peito, agarrando o tecido da minha camisa.

Eu a peguei no colo, sem quebrar o beijo, e a joguei sobre a cama. O vestido verde-esmeralda subiu pelas suas coxas, e a visão daquela pele pálida contra os meus lençóis escuros quase me fez perder a razão.

Eu me posicionei sobre ela, a vendo ofegar sob mim. Eu queria marcá-la. Meus caninos latejavam, implorando para perfurar a pele macia do seu pescoço e selar o que o destino já tinha decidido.

- Lembre-se, Aurora - eu disse, minha voz sendo apenas um rosnado animal enquanto eu enterrava meu rosto na curva do seu pescoço, sentindo o pulso dela acelerado. - Isso é apenas um negócio.

Eu puxei a alça do vestido dela para baixo, mas antes que eu pudesse avançar, um grito agudo de dor ecoou do lado de fora do quarto, seguido pelo som de algo pesado quebrando no corredor.

Eu parei instantaneamente, meus sentidos de Alfa entrando em alerta máximo. Aurora se encolheu, cobrindo-se com os braços.

- Fique aqui - ordenei, me levantando da cama e sacando a arma com bala de prata que sempre mantinha na gaveta da mesa de cabeceira.

Abri a porta do quarto com um solavanco e vi Maya caída no chão, com o rosto ensanguentado, enquanto dois homens encapuzados tentavam arrombar a porta do final do corredor.

- Dominic! - Aurora gritou atrás de mim, tentando sair do quarto.

Eu a empurrei de volta e apontei para o chão.

- Tranque a porta e não saia por nada! - gritei, antes de disparar contra o primeiro invasor.

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