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Prostituta do Morro do Alemão

Prostituta do Morro do Alemão

Autor:: J.C. Rodrigues Alves
Gênero: Romance
*Universo paralelo de Made in Favela* Numa tentativa de fugir da fome e da miséria, Maria aceita o convite de uma vizinha para ir para o Rio de Janeiro, depois que de saber que sua filha havia conseguido um emprego e se dado bem. Ao chegar na cidade, onde não conhecia ninguém, além da filha da vizinha, é informada que um destino completamente diferente esperava por ela e agora dependia apenas dela mudar seu destino. Instagram da autora: @J.C. Rodrigues_escritora

Capítulo 1 Prólogo

Meses antes

Apesar de entender os riscos da vida que levo, nunca me imaginei indo em um presídio.

Poderia ser eu presa? Não. Não sou burra o bastante para deixarem me pegar. Já fui um dia, hoje não sou mais.

Era humilhante ficar em uma fila por mais de uma hora, em baixo do sol ou da chuva, para ter alguns minutos na visita.

É domingo, dia de visita no Presídio Federal do Rio de Janeiro.

Mães, esposas, filhas...esperam para entrar aos poucos na construção gélida.

Até aquele dia, nunca tinha ido antes em um presídio, sabia o que já tinha ouvido por aí.

Quem tivesse a mente fraca, sucumbiria logo.

A cadeia mexia com o psicológico.

Me levam para uma sala, quando chega minha vez, onde preciso me despir completamente e inclusive ficar agachada sobre um espelho, para terem certeza de que não estava levando nada no meu útero.

Depois da revista, assino um papel com diversos outros nomes e sou guiada até um pátio com diversas cadeiras e mesas de plásticos.

Alguns presos choravam baixo ao ver suas mães. Outros escondiam bem a emoção, ao ver os filhos.

A maioria ali estava por tráfico, roubo e delitos mais graves.

Sento em uma mesa vazia num canto, olhando com atenção o movimento, até que nossos olhos se cruzam e vejo a surpresa e incredulidade se misturarem em seu rosto.

– O que tu tá fazendo aqui, Antônia? – pergunta com o maxilar tenso ao se aproximar.

– Não vai sentar?

– Tenho nada pra falar contigo não – diz com os punhos cerrados – Não era nem pra tá aqui.

Inspiro profundamente, mantendo meus olhos fixos nele.

O conhecia bem o suficiente, para saber que nunca conseguiria dar as costas para mim.

– Vai me deixar falar ou não?

– Manda o papo reto.

– Preciso da tua ajuda.

Ele ri sarcástico.

– Tu já viu onde estou? Tô engaiolado. Não tô podendo ajudar ninguém não – vocifera irritado – Tô dependendo da Doutora Gabriela para me tirar daqui.

Pressiono os lábios, meus olhos vagando pela mesa com alguns riscos.

– Se tu não me ajudar, ele vai me matar.

Ele nega com a cabeça incrédulo.

– O que tu fez dessa vez?

Ergo os olhos, o encarando novamente sem demonstrar qualquer emoção.

– Tô grávida – Ele ergue as sobrancelhas, fingindo que não ligava. Apesar de ter certeza, que sentia o contrário – E tirei o morro dele – Ele franze o cenho, puxando a cadeira para se sentar.

Capítulo 2 1

Achei que minha mãe iria desabar neste dia, mas não. Fingiu que nada tinha acontecido e no outro dia foi trabalhar na roça no lugar de meu pai.

Pouco tempo mais tarde, se envolveu com um homem, com o relacionamento durando apenas três anos e a deixando com mais dois filhos.

Eles foram embora, mas eu fiquei do seu lado.

Deixando os caçula em baixo de um pé de pau que fazia um pouco de sombra, começo a ajudar ela.

No começo, quando comecei na roça, a enxada sempre deixava minha mão esfolada. Cheia de bolhas e faltando pedaço.

Com o passar do tempo, minha mão foi calejando. Deixando de ser fina e sedosa, para se tornar mais grossa e com calo.

Trabalhamos sem conversar, com nossas cabeças sempre baixa, até quando o sol começa a esfriar, indicando que estava prestes das crianças chegarem.

O caçula dá os braços para minha mãe quando ela se aproxima, o beijando assim que o pega.

Nunca deixará de ser amorosa, apesar da nossa situação.

Antes mesmo de nos aproximar da casa feita de barro, os ouvimos.

Ao vê– la, eles a rodeiam, falando ao mesmo tempo sobre o que haviam feito na escola e pedindo comida.

– Vamo tomar banho – Chamo caminhando para os fundo da casa.

Ouço alguns resmungar em minhas costas, enquanto outros vem de prontidão.

Tiro a água do poço, enchendo duas bacias de ferro, que minha mãe ariava toda semana.

Sempre ficava encarregada de dar banho nos menores. Maria Alice, 6 anos, Juarez, 3 anos e Jardielson, 2 anos.

Maria Luíza, 10 anos, Maria Eduarda, 12 anos e Maria Júlia, 14 anos. Já tomavam banho sozinhas e não precisavam de mim.

Enquanto isso, na cozinha, minha mãe molhava duas massas de cuscuz, para por no fogo pra janta.

Costumávamos comer com leite. Por causa disso, ela misturava um litro de água em um litro de leite.

Era rara as vezes que comíamos com algum a mistura, a não ser ovo.

Só comíamos carne uma vez por mês, quando dava.

Fora isso, nos virávamos com o que tinha e os mais velhos, sempre comia pouco, para deixar para os mais novos.

De banho tomado, todos se aglomeravam no chão de cimento batido, ao som do rádio ao fundo.

Não tínhamos televisão.

Ali, faziam a lição de casa ou brincavam num canto.

Eu e minha mãe, sempre éramos as últimas a tomar banho. Então, eu me encarregava, de buscar mais água no poço e levar para o banheiro simples.

Desde que me entendo por gente, nunca tomei um banho de chuveiro. Já que não havia água encanada ali, o mais perto de um banho de chuveiro que já tomei, foi banho de chuva.

Dona Judith sempre tomava banho depois de mim.

Em seu quarto, que compartilhava com meus irmãos menores, tirava o lenço do cabelo preto e com um longo suspiro o encarava em suas mãos, antes de levantar e tirar a calça jeans surrada e a camiseta de manga comprida com buracos.

Depois do banho, se deitava em sua rede na sala e se colocava a observar os filhos entretidos.

Em pratos de metal, servia um por um. Sobrando apenas um pouco de cuscuz para dividir entre nós duas.

Sempre colocava mais para ela e me sentava um pouco afastada, para que não visse que não havia muita comida em meu prato.

Maria Júlia era quem juntava os pratos depois de comermos, colocando todos em uma bacia, para serem lavados no dia seguinte.

Em seguida, minha mãe se levantava, levando consigo os menores para dormir.

No outro quarto, havia duas camas. Uma de casal antiga e outra de solteiro.

Maria Júlia dormia na de solteiro, enquanto eu e as demais, dormíamos na de casal.

Naquela noite, como nas demais, pedia mentalmente que nossa situação mudasse que, pudesse de alguma forma ajudar minha mãe e tornar nossa vida mais confortável.

Era uma oração que fazia com todas minhas forças.

Capítulo 3 2

Geralmente quando levantava, às cinco da manhã, dona Judith já estava varrendo o terreiro.

Ascendo o fogão de lenha, colocando água para ferver, para só então ir escovar os dentes.

No horizonte, o sol nascia aos poucos, iluminando tudo a sua frente com sua cor forte.

Prendo meu cabelo num coque, pegando a bacia com os pratos para lavar.

– Bom dia, Judith – diz Valdirene, nossa vizinha, ao pé da cerca.

– Bom dia.

– Bom dia, Maria – diz me olhando.

Paro de lavar os pratos, agachada em frente a bacia, para olhar para a mulher branca, bem vestida e de pele sedosa.

A pouco tempo havia reformado a casa, segundo ela com ajuda da filha que trabalhava no Rio de Janeiro.

Não era casada, muito menos amigada. Toda semana víamos um homem diferente em sua casa.

– Bom dia, dona Valdirene – digo voltando a lavar os pratos.

– Já conseguiu emprego?

Emprego ali, era como água no meio do sertão.

Difícil.

A maioria das pessoas da cidade mais próxima, queria alguém que trabalhasse de empregada doméstica e que dormisse no emprego.

Não podia dormir no emprego. Minha mãe precisava de mim e o dinheiro não valia a pena.

Sempre queriam pagar o mínimo possível, por bastante trabalho e responsabilidade.

– Ainda não.

– Lidiane disse que estão precisando de uma menina onde ela trabalha. Pensei em você – Ergo novamente o olhar, olhando para ela e depois para minha mãe que para de varrer – Lá ganha bem e você pode ajudar sua mãe.

– O mundo lá fora é perigoso e Maria não conhece o mundo não – Minha mãe argumenta.

– Se sempre pensasse dessa forma, comadre, nunca tinha deixado Lidiane sai de debaixo das minhas asas.

– Lidiane é menina esperta – Minha mãe rebate – Maria ainda não conhece a maldade das pessoas.

– Mainha – digo baixo.

– Tô falando a verdade – Ela me olha – O que você conhece? O máximo que já foi sozinha, foi na cidade aqui perto. Fora isso, nunca saiu daqui – Ela volta a olhar para Valdirene – O melhor a se fazer, é ela tenta arrumar um emprego na cidade – Ela se afasta, entrando em casa.

Lavo mais um prato, deixando de lado.

Era uma boa oportunidade.

Já havia aceitado que não encontraria nada melhor naquele lugar.

– Queria ir – murmuro.

– E não tá errada não – diz Valdirene – Sua mãe que não tá analisando direito. Lidiane lá ganha muito dinheiro. Você viu que reformei minha casa, não foi? – Assinto – Então. Você também pode ganhar dinheiro lá e mandar dinheiro pra cá.

– Minha mãe não vai deixar – Apesar de ter dezoito anos, me sentia com a idade de Maria Júlia.

– Largue a mão de ser besta e converse com ela. Explique que vai ser bom pra vocês duas.

No final das contas, Valdirene tinha razão.

Minha mãe não podia me prender o resto da minha vida.

Haveria uma hora, que iria ter que ir embora que, precisaria seguir com minha vida.

Termino de lavar a louça, entrando com os pratos.

Minha mãe misturava o pó de café a água fervendo.

– Mainha.

– O que foi, Maria? – diz sem me olhar.

– Mainha, deixe eu ir.

Ela me olha pasma.

– Acha mesmo que irei deixar você ir para uma cidade onde não conhece ninguém? Se aventurar?

– Aqui não tem nada pra mim.

– Pode me ajudar na roça.

– Até quando?! – Altero a voz irritada. Não aceitava aquele destino.

– Até quando Deus permitir – Ela rebate no mesmo tom – Você nunca me deu trabalho. Não venha me dar agora.

Deixo a bacia no chão, olhando dentro de seus olhos.

– Vou com sua bênção ou sem.

Sua expressão se torna incrédula.

Sabia que uma das piores palavras a serem ditas, éram àquelas e para minha mãe eram as mais dolorosas, já que nos criará com tanto sacrifício.

– Que vá então. Mas toda vez que se lembrar de mim, ande mais pra frente – diz antes de dar as costas para mim e ir para o quarto.

Parada no meio da cozinha, com apenas o fogão de lenha, me senti dividida. Entre ir e conseguir realizar meus sonhos e ficar, e seguir o que minha mãe queria.

Saio de casa com destino a casa de Valdirene.

– Dona Valdirene – Chamo no portão de palete.

Ela parece na porta da sala.

– Entre – Obedeço – Falou com sua mãe?

– Falei sim.

– Ela deixou?

Engulo em seco assentindo.

– Deixou. Só não tenho dinheiro para pagar a passagem.

Ela sorri, afagando meu ombro.

– Se preocupe com isso não. Arrumo o dinheiro.

– Arruma? – pergunto surpresa, a vendo se mover na sala bem arrumada e cheirosa.

– Tem um ônibus que sai hoje daqui pro Rio. Você vai nele.

– Mais já?

– Pra quê perder tempo? – Ela me olha – Se quiser que outra pessoa tome seu lugar, deixe pra ir depois.

– Não. Não. Não – digo rapidamente, sem querer deixar aquela oportunidade escorrer entre meus dedos.

– Então vá arrumar suas coisas. Não precisa levar muita roupa não, lá eles dão. Pegue seus documentos.

Assinto, deixando a casa correndo.

Pego uma mochila velha em baixo das cama, tirando algumas coisas que havia dentro.

– Onde você vai? – Maria Júlia pergunta, parando de limpar a casa.

Ergo a cabeça sorrindo.

– Vou trabalhar no Rio de Janeiro.

– E a mãe?

– Você ajuda ela. Só é fazer o que eu faço.

– Não sei trabalhar na roça não, Maria – argumenta assustada.

– Você aprendi. Eu aprendi com a idade da Maria Luíza.

Ela balança a cabeça nervosa.

– Não é justo você ir embora e a gente ficar para trás.

Pego poucas peças de roupa, colocando na mala. Não era as melhores, mas serviria até comprar umas boas.

– Não tô deixando vocês não, Maria Júlia. Quero poder ajudar a mãe de outra forma.

– Você quer é se livrar da gente – diz dando as costas.

Por último pego meu RG. Era o único documento que tinha além da certidão de nascimento.

Saio do quarto, parando na porta do quarto de minha mãe, a encontrando arrumando os caçula.

– Mãe – Chamo sem conseguir atrair seu olhar – Valdirene disse que tem um ônibus que vai sair hoje daqui. Vou nele – Ela continua me ignorando – Eu já vou, mãe – digo baixo, numa última tentativa.

Dona Judith não me olha.

Baixo minha cabeça, saindo de casa.

Não me despeço dos meus irmãos.

Odiava despedidas e sabia que se fizesse, perderia a coragem a acabaria ficando e eu não podia ficar.

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