CAP 01
Mary Narrando
Eu estava sentada na frente da mesa do delegado Heitor Schultz, ouvindo ele me explicar sobre o novo caso que ele tinha me designado. Era uma investigação sobre um roubo de joias em uma loja de luxo, que tinha acontecido na noite anterior. Os suspeitos eram dois homens armados que tinham entrado na loja, rendido os funcionários e levado as joias mais valiosas. Eles tinham fugido em uma moto, sem deixar pistas.
- Mary, você vai trabalhar com o Ricardo nesse caso. Ele já está no local do crime, coletando as evidências. Você vai se juntar a ele e entrevistar as testemunhas. Eu quero um relatório completo até amanhã - ele disse, me olhando com bastante seriedade.
Heitor Schultz, meu chefe, sempre sério, cheio de mistérios. Essa barba por fazer o deixou particularmente sensual.
Eu assenti, mas por dentro eu estava entediada. Eu não gostava de casos simples como esse. Eu queria algo mais desafiador, algo que me fizesse usar a minha inteligência e a minha coragem... Então, esse caso no momento não me fazia sentido. Até porque, tudo que eu conseguia pensar era que eu queria capturar um criminoso de codinome Jogador.
Jogador era o meu maior objetivo como policial. Ele era o chefe de uma organização criminosa que dominava o país, e que eu tinha tentado me infiltrar há seis meses, sem sucesso... Eu tinha falhado miseravelmente. Ele tinha escapado sem deixar nenhuma pista para trás, e desde então eu não tinha mais notícias dele. Mas eu não tinha desistido. Eu ainda guardava alguns documentos que eu tinha conseguido roubar de um dos capangas dele, e que eu esperava que me levassem até ele novamente. Eu também tinha outro motivo para querer capturar o Jogador... Ele era o responsável pela morte do meu pai.
Meu pai era um jornalista investigativo que tinha descoberto alguns segredos do Jogador. Ele tinha sido assassinado por ele, na frente da minha casa, quando eu tinha dez anos. Eu tinha visto tudo, e desde então eu jurei vingança. A investigação final e os policiais que trabalharam na época afirmam que meu pai foi morto por causa de uma dívida de jogo, mas... Eu sei, em meu coração, que a culpa é do Jogador.
Eu me tornei policial para honrar a memória do meu pai, e para fazer justiça. E eu não ia descansar até colocar o Jogador atrás das grades.
Mas eu sabia que o delegado Schultz não ia me deixar voltar para esse caso que já havia sido encerrado. Ele achava que era muito perigoso para mim, além de uma completa perda de tempo, e que eu devia me concentrar em outros casos mais simples e abertos. Ele dizia que se preocupava comigo, porque eu tinha "muito sangue no olho" e nesse tipo de caso, precisamos pensar um pouco menos com o coração, e mais com a razão. Heitor Schultz... Ele era o meu chefe, e também minha paixão secreta. Odeio o jeito protetor dele, mas ao mesmo tempo... Me deixa completamente derretida.
Sim, eu admito. Eu sentia uma atração pelo delegado Heitor. Ele era um homem bonito, charmoso e inteligente. Ele tinha cabelos pretos, olhos azuis e um jeito que lhe dava um ar de autoridade sempre. Ele usava ternos bem cortados e gravatas elegantes. Ele tinha um corpo atlético e uma voz firme... Tudo isso juntando com sua idade de quarenta e tantos anos, o tornam o solteirão perfeito para qualquer mulher que o olhe.
Eu gostava de conversar com ele sobre os casos, de ouvir os seus conselhos e as suas histórias.
Eu gostava de ver o seu sorriso quando ele fazia uma piada ou elogiava o meu trabalho.
Eu gostava de sentir o seu perfume quando ele passava por mim ou me abraçava em parabenização por alguma coisa... E eu odiava gostar disso tudo, sabe por quê? Porque eu queria mais do que uma relação de chefe e subordinada, queria muito mais que isso, e isso atormentava minha mente. Eu queria jantar com ele, dançar com ele, beijar ele... Eu queria ter uma noite com ele, sentir o seu calor e o seu carinho. Perdi as contas de quantas vezes fantasiei com meu chefe enquanto ele falava comigo. Perdi informações importantes? Perdi, mas era inevitável.
Eu o queria... Mas sabia que isso era impossível. Ele era o meu chefe, e havia uma regra na delegacia que proibia relacionamentos entre superiores e subordinados. Além disso, ele era muito mais velho do que eu, e talvez nem sentisse o mesmo por mim. Eu tentava esconder os meus sentimentos por ele, mas às vezes era difícil. Como agora, por exemplo.
Enquanto ele me explicava sobre o caso do roubo de joias, eu não conseguia tirar os olhos dele. Eu observava os seus lábios se movendo, imaginando como seria beijá-los. Via as suas mãos gesticulando, imaginando como seria tocá-las. Eu ouvia a sua voz suave, imaginando como seria ouvi-la sussurrando no meu ouvido enquanto nós... Bom... Enfim.
Eu estava tão distraída que nem percebi quando ele terminou de falar.
- Mary? Você está me ouvindo? - ele perguntou, franzindo a testa com um pouco de raiva.
- O quê? Ah, sim, claro. Desculpe, eu estava pensando em outra coisa - eu disse, corando.
- Em outra coisa? Como o quê? - ele insistiu, cruzando os braços.
- Nada, nada. Só umas coisas pessoais - eu disse, tentando mudar de assunto.
- Coisas pessoais? Que tipo de coisas pessoais? - ele perguntou, com uma falsa curiosidade, apenas para me constranger.
- Delegado, por favor. Isso não é da sua conta - eu disse, ficando irritada.
- Não é da minha conta? Mary, você está no trabalho. Você tem que se concentrar no seu trabalho. Não pode ficar pensando em coisas pessoais quando eu estou te dando uma ordem, independente do que seja que esteja se passando nessa tua cabecinha linda. Você tem que prestar atenção no que eu digo! - ele disse, me dando uma bela de uma bronca.
Eu fiquei sem graça. Sabia que ele tinha razão... Eu tinha sido irresponsável e desatenta. Eu precisava me focar no meu trabalho, e não nos meus sentimentos ou em outras coisas como dormir com meu chefe.
- Desculpe, delegado. Você tem razão. Eu vou me concentrar no meu trabalho. Vou para o local do crime agora mesmo. - eu disse, me levantando e pegando a minha bolsa.
- Muito bem. E Mary... - ele disse, me olhando com um olhar penetrante.
- Sim? - eu perguntei, o olhando com atenção.
- Não se esqueça do relatório. Quero na minha mesa amanhã. - ele disse, voltando a ser extremamente sério.
Eu suspirei. Ele era tão frio e exigente... Ele não tinha nenhum sentimento por mim e isso era óbvio.
Eu saí da sala dele, decepcionada e frustrada. Eu fui até a minha mesa, peguei os meus papéis e saí da delegacia.
Eu estava andando pelo corredor, quando alguém trombou comigo por trás. Eu perdi o equilíbrio e caí no chão, derrubando os meus papéis pelo caminho.
- Ai! Que droga! Quem foi o idiota que fez isso? - eu reclamei, olhando para trás e tentando recolher principalmente os documentos que envolviam Jogador.
Quando vi, quase tive um infarto: Era o delegado Heitor.
Ele também tinha caído no chão, e também tinha derrubado os seus papéis, fazendo tudo se misturar. Ele estava com uma expressão de surpresa e constrangimento.
- Mary! Desculpe! Eu não te vi! Você está bem? - ele disse, se levantando e me oferecendo a mão.
Eu ignorei a sua mão e me levantei sozinha. Eu estava com raiva dele pelo tropeção, mas estava ainda mais nervosa porque meus documentos sobre o caso do Jogador estavam no chão!
- Estou ótima, deixa pra lá.. E você? Estava com tanta pressa para onde? Para encontrar a sua namorada? - eu disse, ironicamente, apenas para tirar o foco dos papeis no chão.
Ele não tinha namorada, mas eu gostava de provocá-lo com isso e ele sempre caía.
- Não seja ridícula. Eu não tenho namorada ou esposa, sou completamente apaixonado pelo meu trabalho. E você sabe disso - ele disse, se defendendo e soltando um sorriso canalha.
- Sei sim. Você é um solteirão convicto. Você não tem tempo para relacionamentos. Você só tem tempo para o trabalho - eu disse, imitando a sua voz.
Ele ficou irritado. Ele não gostava que eu zombasse dele.
- Mary, pare de ser infantil. Isso não é hora para brincadeiras. Vamos pegar os nossos papéis e sair daqui - ele disse, se abaixando para pegar os seus papéis.
Eu também me abaixei para pegar os meus papéis, tentando ser mais rápida que ele. Nós começamos a juntar...
E foi quando ele viu um dos meus papéis. Um papel que ele não devia ter visto.
Era um documento sobre um caso antigo envolvendo o Jogador. Junto desse, havia um dos documentos que eu tinha roubado de um dos capangas de Jogador há seis meses, e eu sei que não devia andar com isso por aí, mas uso meu tempo livre na delegacia para pensar no caso... Era um documento que continha informações sobre os seus negócios ilegais, os seus aliados e os seus inimigos.
Ele pegou o papel e leu o seu conteúdo. Ele ficou pálido e furioso ao mesmo tempo.
Olhou para mim com uma expressão de raiva e decepção.
- Mary... O que é isso? Está trabalhando pelas minhas costas? - ele perguntou, segurando o papel na mão.
Eu gelei. Eu sabia que estava encrencada.
CAP 02
Mary Narrando
Eu não sabia o que dizer. Heitor estava me olhando com uma expressão de raiva e decepção tão intensa, segurando os papéis que eu havia deixado cair, que eu fiquei com o coração acelerado. Aquelas eram as minhas anotações sobre Jogador, o traficante que eu estava investigando por conta própria há meses. O mesmo traficante que matou meu pai. Sei muito bem que ele não morreu por causa de uma "dívida de jogo".
- Mary, o que é isso? - ele perguntou, com a voz grave e me olhando com raiva.
- Heitor, eu posso explicar... - eu comecei, mas ele me interrompeu.
- Você pode explicar o quê? Que você está se metendo em um caso que não é seu? Que você está arriscando a sua vida e a de outros policiais por uma vingança pessoal imaginária? Que você está desrespeitando a minha autoridade como seu chefe? - Ele disse.
Heitor estava puto. Realmente puto.
- Não é bem assim... - eu tentei argumentar, mas ele continuou.
- Não é bem assim como? Você sabe quem é Jogador? Você sabe o que ele faz? Ele é um dos maiores traficantes de armas, drogas e pessoas do país. Ele tem uma rede de contatos e informantes que vai desde os morros até os políticos. Ele tem um exército de capangas armados até os dentes e ninguém, repito, ninguém jamais viu seu rosto. Ele não tem escrúpulos, nem piedade de ninguém. Ele mata quem se mete no seu caminho, sem pensar duas vezes, entendeu? Entendeu no que você está se metendo por causa de fantasias da sua cabecinha? - Disse e eu bufei.
- Eu sei disso tudo, Heitor. Eu sei porque eu vi, mas aparentemente você não sabe disso. Eu vou te contar uma coisa... Eu vi quando ele atirou no meu pai na minha frente, quando eu tinha dez anos, com aquela maldita máscara dourada cobrindo o rosto e você agora sabe disso. Eu ouvi quando ele riu e disse que era só um jogo pra ele. Eu vi quando ele fugiu e nunca foi pego, dizendo que ninguém jamais chegaria perto dele. - Nessa hora, eu estava chorando. Não consegui me controlar. - Por isso eu estou investigando ele há tanto tempo. Por isso eu não reportei o que eu descobri, porque eu não queria atrapalhar o seu serviço, já que eu estava fazendo isso por conta própria e porque, realmente, é uma vingança pessoal. Eu disse para os policiais na época sobre a máscara dourada, e eles debocharam de mim.
- Você tinha dez anos, Mary! Eles concluíram que era apenas uma máscara de carnaval, não a máscara do Jogador! E outra... Atrapalhar o meu serviço? Mary, você não está entendendo... Você está fazendo parte de uma equipe. Uma equipe que eu comando e que confia em você, que precisa de você. Você não pode simplesmente sair por aí, seguindo pistas falsas e acreditando no que você viu há tanto tempo atrás, entrando em armadilhas, se expondo ao perigo. Você não pode agir como uma justiceira solitária, movida pelo ódio e pela dor porque você viu algo que te traumatizou. Você é uma policial, Mary. Uma excelente policial. Uma das melhores que eu já vi. Mas você precisa seguir as regras e trabalhar em conjunto. Você precisa me obedecer, entendeu? E eu estou te dando uma ordem explícita agora: Fique longe do Jogador, para o seu bem e para o bem dessa equipe!
Eu senti as lágrimas escorrendo pelo meu rosto. Sabia que ele estava certo, que eu estava colocando a equipe em risco e poderia acabar encrencando a todos... Mas eu não conseguia parar. Eu não conseguia esquecer o que Jogador fez com o meu pai... Eu não conseguia perdoar o que ele fez comigo!
- Heitor, por favor... Eu sei o que eu vi. Você não tem nada a ver com o que eu faço no meu tempo livre! Por favor! - eu implorei.
- Não tem por favor, Mary. Você vai pra casa agora, vai descansar e esquecer esse assunto. Jogador é um peixe grande demais pra você pescar. Deixe isso comigo e com a equipe especializada nesse caso. Nós vamos pegá-lo, mais cedo ou mais tarde. Mas você não vai se envolver nisso. Você entendeu?
Eu balancei a cabeça, sem forças para discutir mais. Peguei minha bolsa e saí da delegacia, sem olhar para trás. Passei pelos meus colegas de trabalho, que me olhavam com curiosidade e até um pouco de pena, e eu ignorei os seus cumprimentos e as suas perguntas. Eu só queria ir embora dali, desaparecer, tal qual fez Jogador naquela maldita noite.
Eu entrei no meu carro e dirigi até o meu apartamento, chorando o caminho todo pensando em tudo que Heitor disse. É difícil ouvir certas coisas do seu chefe, ainda mais quando se tem uma atração intensa por ele como a que eu tenho por Heitor.
Eu me sentia uma idiota, uma incompetente, uma fracassada... Eu me sentia traída pelo homem que eu amava sendo que ele só estava fazendo o trabalho dele, porque ele simplesmente não deixava eu continuar minha investigação particular, mesmo sabendo o quanto isso era importante pra mim
Sim, eu amava Heitor Schultz e isso me atormentava. Eu amava desde o dia em que ele me recebeu para trabalhar na delegacia, há cinco anos atrás. Ele era vinte anos mais velho do que eu, mas isso não importava para mim. Ele era lindo, inteligente, corajoso, gentil. Ele era o meu chefe, o meu mentor, o meu herói e exemplo... Ele era o meu sonho de consumo, mas sinceramente, acho que era o sonho de consumo de todas ali.
Mas ele nunca me viu como nada além de uma subordinada. Ele nunca percebeu os meus sentimentos por ele porque eu também nunca demonstrei de forma explícita, e ele nunca retribuiu as minhas investidas sutis. Ele nunca me deu um sinal de que poderia haver algo mais entre nós, por isso, eu encarei isso como um devaneio bem distante de virar realidade.
Eu cheguei ao meu apartamento e subi até o sétimo andar, onde eu morava. Era um apartamento bonito, pequeno e bem decorado. Eu tinha comprado com o dinheiro que eu havia recebido de herança da minha mãe, que morreu de câncer há dois anos atrás. É, pois é, eu era órfã graças ao Jogador e a um maldito câncer. Minha mãe ficou tão triste com o que aconteceu com meu pai que adoeceu... Sinto tanta falta dela. Ela era a única pessoa que sabia do meu sentimento por Heitor, e ela sempre me apoiou e me incentivou a lutar por ele, mas eu nunca quis. Ela sempre me disse que eu merecia ser feliz, que eu tinha que seguir o meu coração e essas coisas que as mães sempre dizem... Como ela faz falta!
Eu abri a porta do meu apartamento e entrei, jogando a bolsa no sofá, e passei as duas mãos no rosto, limpando as lágrimas que escorriam por minha pele. Eu fui até o quarto e tirei a roupa, entrando no banheiro em seguida. Eu liguei o chuveiro e entrei debaixo da água quente, tentando lavar a tristeza do meu corpo, mas já sabia que isso não seria possível.
Eu fiquei ali por um tempo, deixando a água cair sobre mim, sem pensar em nada. Eu chorava de forma desconsolada, e só queria esquecer tudo o que havia acontecido naquele dia. Eu só queria esquecer Jogador, esquecer Heitor, esquecer as coisas que deram errado em minha vida. Mas, se eu for parar pra pensar... Desde a morte do meu pai, tudo, absolutamente tudo deu errado! Eu sou uma ferrada na vida! Jogador me tirou tudo... E eu sei que foi ele, jamais esqueci aquela maldita máscara.
Tem noites que ainda sonho com essa máscara me perseguindo. Nunca esqueci de nenhum detalhe dela.
Eu saí do banho e me enrolei em uma toalha, e fui até o quarto. Eu abri o guarda-roupa e peguei uma camisola branca de seda pura que comprei, e havia comprado para uma ocasião especial que nunca aconteceu. Por isso, hoje era um excelente dia para estreá-la.
Eu vesti a camisola e me olhei no espelho, vendo um pouco de maquiagem borrada abaixo de meus olhos. Eu era bonita, eu sabia disso. Eu tinha cabelos castanhos, longos e lisos, grandes olhos verdes, pele clara, cintura fina e quadris largos. Eu tinha um corpo que chamava a atenção dos homens e eu sabia muito bem como usá-lo quando eu queria, porém, atualmente... Tenho preferido ficar só.
Eu suspirei e saí do quarto, indo até a cozinha. Abri a geladeira, que estava quase vazia, e peguei uma garrafa de água gelada, bebendo um pouco diretamente do bico dela. Eu não tinha fome. Talvez uma pizza me animasse, mas meu estômago revirava em dor, então, achei melhor não comer nada.
Eu fui até a sala e liguei a televisão, procurando algo para assistir, sem realmente prestar atenção nas coisas. Passei pelos canais sem interesse, vendo notícias ruins, programas chatos de namoro, filmes repetidos, reality shows sem um pingo de realidade... Tudo parecia triste e cinza hoje.
Desliguei a televisão e peguei o meu celular, pensando em ligar para alguém... Pensei na minha mãe, e isso me deu um aperto ainda maior no coração. Definitivamente, eu não tinha ninguém para ligar. Afinal, vou ligar pra quem? Um colega de trabalho? Amigos? Eu passei tanto tempo enfiada nesse apartamento investigando Jogador que perdi todos os meus amigos. E pra piorar, eu não tinha um parente próximo vivo sequer, apenas parentes distantes que nem se lembravam da minha existência. Eu não tinha ninguém que se importasse comigo e isso doía, doía na alma.
Eu joguei o celular no sofá e me levantei, indo até a varanda. Eu abri a porta de vidro e saí para sentir o ar fresco da noite, tentando me acalmar. A brisa gelou meus braços enquanto meus cabelos voavam. Eu olhei para o céu estrelado e respirei fundo, tentando encontrar paz... Uma paz que parecia longe demais de mim. Fechei meus olhos, e senti uma lágrima escorrendo pela minha bochecha. A solidão dói.
Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali, mas eu fui tirada do meu devaneio com o som da campainha do apartamento tocando.
Eu abri os olhos e me virei rapidamente, indo até a porta. Quem poderia ser, essa hora da noite?
Eu fiquei paralisada na porta, sem acreditar no que eu estava vendo pelo olho mágico. Heitor estava ali, na minha frente, com um sorriso tímido e um vinho na mão. Ele estava lindo, como sempre, com uma camiseta preta e uma calça jeans escura, totalmente diferente de como se comporta na delegacia. Abri a porta sem nem me tocar que estava de camisola, e ele meio que ficou surpreso.
- Oi, Mary. Desculpe te incomodar a essa hora, estou atrapalhando algo?
- N-não, não mesmo. - Respondi.
- Eu só queria te trazer isso. - ele disse, me entregando o vinho.
- Um vinho? - eu perguntei, confusa.
- Não só um vinho. Um bom vinho, menina. Eu achei que você merecia, depois do que aconteceu hoje...
- Depois do que aconteceu hoje? - eu repeti, ainda mais confusa, tentando entender se aquilo era um jogo dele ou era realidade.
- Sim, depois de eu ter derrubado os seus papéis sem querer e ter sido grosso demais com você. Eu sei que foi um acidente e eu precisava te dar aquela bronca, mas eu me senti muito mal pela forma como fiz... Eu sei que você estava trabalhando duro naquele caso e também sei do motivo... E pelo que estou vendo, eu meio que estraguei o resto do seu dia. Me desculpa pela grosseria, tá legal?
- Está bem. Heitor, você não estragou nada... Você só descobriu o que eu estava fazendo e... E você tinha razão em ficar bravo comigo, na verdade. Eu estava errada em investigar o Jogador por conta própria. Eu deveria ter te contado tudo desde o início...
- Você estava apenas seguindo o seu instinto, o seu senso de justiça, eu entendo isso. Você é uma policial incrível, Mary. Uma das melhores que eu já conheci. E eu admiro muito a sua coragem e a sua determinação, mas você precisa realmente esquecer o Jogador. Eu quero proteger você, entende? Mais do que todo mundo naquela delegacia.
Aquelas palavras acalentaram meu coração.
- Você... Quer me proteger? - eu perguntei, sentindo o meu coração acelerar.
- Claro que sim.
Eu olhei para os seus lábios, imaginando como seria beijá-los, mas não me movi. Eu olhei para os seus braços, imaginando como seria abraçá-los, e senti meu corpo arrepiar. Eu olhei para os seus olhos azuis, imaginando como seria mergulhar neles... Deus, como eu desejo esse homem!
Eu me aproximei dele, sem pensar nas consequências e esperando que ele fizesse o mesmo.
Mas ele não fez.
Ele se afastou de mim, com um sorriso forçado.
- Eu... acho que já vou indo. Já está tarde, e eu tenho que acordar cedo amanhã. Temos um caso importante para resolver, lembra? O roubo de joias.
- Ah... sim... claro... - eu disse, me sentindo uma idiota.
Ele se despediu de mim com um beijo no rosto, se virou e foi embora, sem olhar para trás.
Eu fiquei ali, parada na porta, segurando o vinho na mão.
Ele veio até aqui só para me dar um vinho? Só para se desculpar? É sério?
Eu senti uma pontada de dor no peito e mais uma lágrima escorreu pelo meu rosto, a milésima da noite.
Eu entrei no apartamento e fechei a porta atrás de mim, fui até a cozinha e peguei uma taça de vidro no armário, abri o vinho e servi um pouco na taça.
Eu levei a taça até a boca e bebi um gole. Senti o gosto doce e amargo do vinho na minha língua...
E senti o gosto doce e amargo do amor não correspondido no meu coração.
Heitor Narrando
Eu dirigi minha moto até o meu apartamento, com o coração apertado e com um misto de raiva e tristeza. Eu tinha acabado de sair da casa de Mary, a mulher que havia despertado algo no meu coração, pela primeira vez durante minha vida inteira. E ela era justamente a mulher que eu não podia ter. Por que a vida é desse jeito?
Eu tinha ido até lá para me desculpar por ter derrubado os seus papéis sem querer e sido extremamente grosso. Eu sou grosso, sei disso, mas não é certo. Havia levado um vinho para ela, como um gesto de gentileza. Eu tinha elogiado o seu trabalho como policial, falado algumas coisas...
Mas eu não tinha feito o que eu realmente queria fazer, quando a vi vestida naquela camisola de seda branca. Por Deus, como ela pode ter ficado tão linda? Como ela pode? Eu não tinha beijado a sua boca, tal qual desejei. Eu não tinha abraçado o seu corpo... Eu não tinha a levado pra cama, a feito ser minha... Eu não tinha feito nada disso porque eu não podia.
E por que eu não podia? Era simples: Porque eu tinha um segredo. Um segredo terrível. Um segredo que me impedia de ser feliz e de fazer o que eu queria.
Eu era Jogador.
Sim, eu era Jogador. O traficante que Mary odiava e que matou o seu pai. O traficante que ela estava investigando. Ela se lembra da minha máscara com maestria. Eu devia tê-la matado, mas ela era só uma criança de dez anos, como eu poderia saber que ela voltaria para me assombrar?
O pai dela era uma pedra no meu sapato, estava sempre metendo o nariz onde não era chamado e eu era obrigado a conter os danos colaterais causados por ele. E, agora morto, mesmo com todas as coisas que fiz para encobrir a morte dele, ele ainda me causa problemas, porque ele deixou sua filha e agora ela cresceu, está na minha delegacia e me investigando. Que inferno!
Eu era Jogador, e ninguém sabia. Ninguém desconfiava. Ninguém suspeitava, porque eu sempre fui muito bom em disfarçar as coisas.
Eu era Jogador, e eu era Heitor Schultz, o chefe da delegacia de polícia. O líder da equipe especializada em combater o tráfico é um traficante de primeira... O homem que jurou proteger a lei e a ordem, pisa em cima da lei e desordena o país de forma sem igual debaixo do nariz de todos.
Eu sou Jogador e Heitor Schultz, o pai ausente de uma filha rebelde, amigo falso de muitos colegas, amante secreto de muitas mulheres... Sedutor implacável de muitas vítimas, inimigo mortal de muitos rivais...
Eu era Heitor Schultz e Jogador, mas acima de tudo... Eu era um monstro.
Cheguei ao meu apartamento e subi até o meu andar. Era um apartamento aconchegante, de um bom tamanho e bem decorado, e eu contratei uma arquiteta especializada para fazer parecer que aquilo era um lar, apesar de ser apenas uma fachada.
Abri a porta do meu apartamento e entrei, jogando a chave no aparador, um pouco estressado. Eu fui até a sala e liguei a televisão, procurando algo para assistir. Eu vi as notícias sobre o roubo de joias que eu havia planejado, sobre o assassinato de um juiz que eu havia ordenado, sobre a prisão de um informante que havia tentado me trair... É, eu sou um monstro no noticiário, e ninguém imagina que seja eu.
Peguei meu telefone e pensei em ligar para minha filha de catorze anos, . Era tarde, mas conheço minha filha... Ela provavelmente não está dormindo.
O telefone tocou duas vezes, e ela atendeu.
- Alô? - Disse, e respirou fundo. - O que você quer, velho?
- Como você está, filha? - Perguntei, e ela demorou um pouco para responder.
- Bem.
- Está encrencada? - Questionei, e então ela soltou o que havia feito.
- A mãe está brava comigo porque levei uma suspensão. Eu não quero mais morar com ela, pai... Pai, por favor, dá um jeito de me tirar daqui. Ela me detesta e meu padrasto me detesta mais ainda! - Ela resmungou. - E pra falar a verdade, eu também detesto eles.
- Filha, eu vou tentar dar um jeito. Mas não posso te prometer nada agora... - Suspirei.
Depois de conversar algumas trivialidades, desligamos.
Eu joguei o celular no sofá e me levantei, indo até o bar. Eu abri uma garrafa de uísque e servi um pouco em um copo. Senti o gosto forte e amargo do uísque na minha garganta. Bebi outro gole e senti o gosto forte e amargo da culpa na minha alma...
Eu me sentei no sofá e apoiei a cabeça nas mãos.
Como eu cheguei a esse ponto? Como eu me tornei esse monstro? Aonde foi que eu me perdi?
Eu me lembrei da minha infância, na favela onde eu nasci e cresci... Do meu pai alcoólatra e violento, que batia em mim e na minha mãe sem motivo algum. A pior lembrança era a da minha mãe, minha pobre mãe, doente e resignada, que sofria em silêncio e morreu cedo demais. Ela não merecia a vida que teve.
Eu me lembrei da minha juventude difícil e rebelde, na escola onde eu estudava e brigava frequentemente, como minha filha hoje faz. Será que ela irá trilhar os mesmos caminhos que eu? Tenho medo de arrastá-la para o mesmo lamaçal em que vivo.
Eu me lembrei de tudo o que eu fiz e de tudo o que eu deixei de fazer.
Dizem que ter boa memória é ótimo, até você perceber que a vida é basicamente sobre esquecer e seguir em frente.
E então, eu me lembrei de Mary naquela maldita camisola de seda branca... A única mulher que consegue despertar algo em mim além de luxúria. Mary, a filha do maldito homem que eu matei por ser uma pedra no sapato.
Eu matei o pai dela por causa das coisas que ele estava descobrindo, então, criei uma dívida de jogo no nome dele para eu mesmo cobrar. Uma dívida que ele não podia pagar, obviamente. E nos negócios, infelizmente eu não posso ter compaixão de ninguém, muito menos de alguém que está prestes a descobrir meus esquemas.
Eu matei o pai dela na frente dela. Na frente de uma menina de dez anos, inocente, doce, com os olhos esverdeados assustados dos quais nunca me esqueci.
Eu matei o pai dela e ri.
Ri como um louco.
Ri como um demônio.
E ela ouviu e viu tudo.
Eu matei o pai dela e nunca fui pego, como em todos os outros crimes... Nunca fui pego porque eu era Jogador, e além disso, porque eu era Heitor Schultz. É, eu sou a porra de um monstro.
Eu matei o pai dela e nunca me arrependi. Nunca me arrependi até conhecê-la, e depois descobrir quem era aquela garota. Nunca me arrependi até... Até que ela me fez sentir vivo.
Eu conheci Mary há cinco anos atrás, quando eu a recebi para trabalhar na delegacia. Ela era uma recém-formada em direito, com notas excelentes e recomendações brilhantes, e eu não a reconheci no momento. Ela era uma jovem bonita, inteligente, corajosa, gentil, passou fácil no concurso e provavelmente faria uma excelente carreira. Reconheço um bom policial quando vejo um.
Ela era uma policial incrível. Uma das melhores que eu já conheci. E eu admirei muito a sua coragem e a sua determinação, ela chegou cheia de sonhos e com um brilho que só ela tem. Mas ela não era só uma policial para mim, era muito mais do que isso. Ela era a mulher que... A mulher que eu amava em segredo. E eu odeio admitir, mas ela me fez sentir amor.
Eu amei Mary desde o primeiro dia em que eu a vi, crescida, sem saber quem ela era. Eu amei o seu sorriso, os seus olhos, os seus cabelos. Eu amei o seu corpo, a sua voz, o seu perfume. Eu amei Mary com uma intensidade que eu nunca senti por ninguém. Com uma paixão que eu nunca expressei para ninguém, e por causa da minha parte sombria, eu jamais poderia tocá-la.
Eu amei Mary em segredo, em silêncio, em solidão.
Eu amei Mary sem esperança, sem futuro, sem saída.
Porque eu sabia que ela nunca me amaria de volta. Porque eu sabia que ela nunca me perdoaria pelo que eu fiz, se um dia soubesse. Porque eu sabia que ela nunca aceitaria quem eu era.
Porque eu era Jogador.
E ela era Mary.
E nós éramos inimigos mortais.