A carta de recusa da academia de segurança particular da Família chegou numa terça-feira. Dizia claramente que a única vaga destinada ao meu filho, Dani, tinha sido preenchida por outro garoto.
Meu marido, um Chefe de alto escalão, tinha entregado a proteção do nosso próprio filho para dar lugar ao bastardo da sua amante.
Ele debochou de mim, chamando Dani de "mole", e o mandou para um sítio isolado em Atibaia, sem segurança alguma, para endurecer.
Três dias depois, a facção rival o levou.
Quando o mensageiro chegou, não havia pedido de resgate. Apenas um pacote contendo um pedaço de algodão azul com um T-Rex verde, encharcado de sangue escuro e seco.
Heitor não derramou uma lágrima. Serviu-se de um uísque, passou por cima de mim enquanto eu soluçava no chão e me culpou por mimar o menino.
Sufocada pelo silêncio de uma casa que nunca mais ouviria a risada do meu filho, engoli um frasco de soníferos para escapar da dor.
Mas a escuridão não durou.
Acordei ofegante, meu coração batendo descontrolado contra as costelas. A luz do sol feria meu rosto.
"Mamãe?"
Dani estava parado na porta, vestindo seu pijama de dinossauro, inteiro e vivo.
Olhei para o calendário. Era 15 de maio. O dia em que a carta chegou.
A dor no meu peito se transformou em puro ódio, frio como gelo.
Eu sabia dos desvios. Eu sabia da farsa da viúva. Eu sabia exatamente como enterrar meu marido.
Peguei o telefone e disquei o único número que nenhuma esposa jamais deveria ligar diretamente - o do Conselheiro.
"Eu tenho provas de traição", eu disse. "E estou levando tudo."
Capítulo 1
A carta de recusa da academia de segurança particular da Família não era só um pedaço de papel; era a sentença de morte do meu filho, assinada pelo próprio pai para dar lugar ao bastardo da sua amante.
Eu estava parada no corredor da nossa casa impecável num condomínio fechado na Granja Viana, o papel grosso e creme tremendo na minha mão.
Dizia claramente que a única vaga alocada para o Chefe Heitor Vargas tinha sido preenchida.
Por Caio Spencer.
Meu marido entrou pela porta da frente, cheirando a uísque caro e ao perfume doce e enjoativo de outra mulher.
Ele nem sequer olhou para mim.
Jogou as chaves na tigela de cerâmica, o som ecoando como um tiro na casa silenciosa.
"O Dani não entrou", eu disse, minha voz mal passando de um sussurro.
Heitor afrouxou a gravata, a expressão completamente entediada.
"É complicado, Sofia. Política."
"Você deu a vaga para o Caio", eu disse, a ficha caindo como um soco no estômago. "Você deu a proteção do nosso filho para o garoto da Kátia."
Heitor finalmente me olhou, seus olhos frios e vazios de qualquer coisa que um dia pareceu amor.
"A Kátia é viúva de um soldado que morreu pela Família", ele mentiu, as palavras escorregando suaves como óleo. "Apoiar ela me traz honra. O Dono repara nessas coisas."
"E o Dani?", perguntei, avançando na direção dele com uma raiva que me fazia tremer. "Ele é seu sangue. Ele é seu herdeiro."
"O Dani é mole", Heitor debochou, passando por mim em direção à cozinha como se eu fosse um fantasma. "Ele precisa endurecer. Vou mandá-lo para o sítio em Atibaia. O isolamento vai fazer bem a ele."
Eu deveria ter lutado com ele naquele momento.
Deveria ter arrancado seus olhos.
Mas eu era a boa esposa.
Eu era o passarinho na gaiola, treinada para cantar canções bonitas e nunca bicar a mão que me alimentava.
Então, eu acreditei nele.
Arrumei a mala do Dani com lágrimas nos olhos, colocando seu dinossauro de pelúcia favorito debaixo das camisetas.
Beijei sua testa no ponto de encontro, vendo-o subir na van preta com vidro fumê, dirigida por um dos capangas de Heitor.
"Seja corajoso, meu amor", sussurrei.
Ele acenou para mim através do vidro escuro, sua mãozinha pressionada contra a janela.
Foi a última vez que o vi vivo.
Três dias depois, o telefone tocou.
Não era Heitor.
Era um soldado que eu mal conhecia, sua voz trêmula.
O sítio não tinha segurança.
A facção rival estava vigiando.
Eles o levaram.
Eu caí no chão, o telefone escorregando dos meus dedos dormentes.
Heitor chegou em casa horas depois.
Ele não chorou.
Ele não gritou de raiva.
Ele serviu uma bebida e me olhou com nojo.
"Para de choramingar, Sofia", ele disse, passando por cima de mim como se eu fosse um móvel quebrado. "Essa é a vida. Pessoas morrem. Se você não tivesse mimado tanto ele, talvez ele tivesse sobrevivido ao ataque inicial."
Ele me culpou.
Ele sacrificou nosso filho por um jogo político, por uma amante, e depois me culpou.
O mensageiro chegou na manhã seguinte.
Nenhum pedido de resgate.
Apenas uma mensagem.
Dentro do pacote havia um pedaço de tecido.
Algodão azul com um T-Rex verde.
Estava encharcado de um sangue que tinha se tornado preto e duro.
Eu o apertei contra o peito, o cheiro metálico enchendo meu nariz, me sufocando.
Heitor já tinha saído.
Estava com ela. Provavelmente a consolando.
Caminhei até o banheiro.
Abri o armário.
Despejei o frasco inteiro de soníferos na minha mão.
Não escrevi um bilhete.
Não havia mais ninguém para ler.
Engoli os comprimidos a seco, um punhado atrás do outro, rezando para que o silêncio abafasse o som da voz do meu filho, gritando por uma mãe que falhou com ele.
A escuridão veio rápido.
Era pesada e fria.
E eu a recebi de braços abertos.
Acordei engasgando, meus pulmões ardendo como se eu tivesse acabado de emergir das profundezas esmagadoras de um oceano congelado.
Minhas mãos voaram para a minha garganta, arranhando uma pele que deveria estar fria e azul.
A luz do sol entrava pela janela.
Era forte. Violentamente forte.
Meu coração martelava contra minhas costelas, um pássaro frenético se debatendo contra as grades de uma gaiola.
Olhei ao redor do quarto, meu peito subindo e descendo.
O frasco de pílulas tinha sumido.
O pedaço de camisa ensanguentado tinha sumido.
Saí da cama às pressas, minhas pernas se enrolando nos lençóis úmidos de suor, e tropecei para o corredor.
"Mamãe?"
A voz me atingiu como um golpe físico.
Eu congelei, minha mão agarrando o batente da porta com tanta força que a madeira gemeu sob meu toque.
Virei a cabeça lentamente, apavorada de que fosse uma alucinação, uma crueldade final de um cérebro moribundo.
Dani estava parado na porta do seu quarto, esfregando o sono dos olhos.
Ele usava seu pijama azul de dinossauro.
Inteiro.
Vivo.
Intacto.
"Dani", eu disse com a voz embargada, caindo de joelhos.
Ele correu para mim, seus bracinhos envolvendo meu pescoço. "Você estava gritando, mamãe. Teve um pesadelo?"
Enterrei meu rosto em seu cabelo macio, inalando o cheiro de xampu de bebê e inocência. Era o cheiro da vida.
Não foi um pesadelo.
Foi uma memória.
Afastei-me e olhei para ele, memorizando cada centímetro de seu rosto, certificando-me de que o calor de sua pele era real.
Peguei meu celular na mesa de cabeceira.
15 de maio.
O dia em que a carta chegou.
O dia em que Heitor trocou a vida do nosso filho pelo conforto da sua vagabunda.
Encarei a data, os números queimando em minhas retinas.
A dor que me esmagara segundos atrás se transformou.
Não apenas desapareceu; ela se cristalizou.
Cristalizou-se em algo afiado, frio e útil.
Eu não era mais o passarinho na gaiola.
Eu era a mulher que tinha provado o cano de uma arma e sobrevivido.
"A mamãe está bem, meu amor", eu disse, minha voz firme, desprovida do tremor que definira minha existência por anos. "Vá assistir seus desenhos. A mamãe precisa fazer uma ligação."
Dani beijou minha bochecha e correu escada abaixo, seus passos leves e despreocupados - um som que eu havia esquecido.
Levantei-me.
Caminhei até o espelho e olhei para a mulher que me encarava de volta.
Seu rosto era suave, sem as marcas da tragédia que ainda não acontecera, mas seus olhos eram antigos.
Eu sabia onde Heitor guardava os livros-caixa.
Eu sabia dos desvios.
Eu sabia da farsa da viúva.
Eu sabia de tudo porque, na minha vida anterior, ele ficou descuidado depois que eu morri.
Ele achava que eu era estúpida.
Ele achava que eu era cega.
Ele estava prestes a descobrir o quanto uma mulher morta consegue ver.
Peguei meu telefone e disquei um número que nenhuma esposa na Organização jamais deveria ligar diretamente.
A linha abriu após dois toques.
"Escritório do Conselheiro", respondeu uma voz rouca.
"Aqui é Sofia Souza", eu disse, o nome soando como cinzas e ferro na minha boca. "Esposa do Chefe Heitor Vargas."
Houve uma pausa, pesada de significado. "Sra. Vargas. É uma emergência?"
"Eu tenho provas de traição", eu disse, as palavras cortando o ar como um bisturi. "Apropriação indébita de fundos da Família. Violação do Código das Viúvas. E colocar em risco um herdeiro de sangue."
O silêncio se estendeu na linha.
Acusar um Chefe era uma sentença de morte se você estivesse errada.
Mas eu não estava errada.
"Estou ouvindo", disse a voz, o tom mudando de indiferente para perigoso.
"Estou indo para a Fortaleza", eu disse. "Diga ao Dr. Almeida para limpar a agenda dele. Estou levando as provas."
Desliguei.
Fui até o armário e peguei um vestido preto.
Era o vestido que eu tinha comprado para o funeral do Dani em outra vida.
Hoje, eu o usaria para enterrar meu marido.
Eu estava calçando meus saltos quando ouvi o ronco baixo e agressivo de um motor na entrada da garagem.
Ele estava adiantado.
Na linha do tempo anterior, ele não se deu ao trabalho de voltar para casa até a noite.
Minha ligação para o escritório do Conselheiro deve ter acionado um alarme silencioso, ou talvez o destino estivesse simplesmente tentando testar minha determinação.
A porta da frente se abriu com força.
Heitor entrou, mas não estava sozinho.
Kátia Spencer entrou logo atrás dele, a mão pousada possessivamente no ombro de um garoto que parecia uma réplica em miniatura e mais afiada de Heitor.
Caio.
"Sofia!", Heitor latiu, o rosto manchado de irritação. "Que história é essa de você ligar para o escritório central? Você enlouqueceu?"
Eu estava parada no pé da escada, alisando o tecido do meu vestido preto com uma calma deliberada.
"Eu estava apenas perguntando sobre a inscrição da academia", eu disse.
Kátia deu um passo à frente, jogando o cabelo loiro por cima do ombro. Ela usava sedas de grife que eu sabia terem sido pagas com dinheiro desviado dos tributos da Família.
"Oh, querida", ela ronronou, a voz escorrendo uma falsa simpatia. "Heitor me disse que você estava chateada. Mas, sério, incomodar a liderança? Pega mal."
"Esta é a minha casa", eu disse, cravando os olhos nos dela. "Você não é bem-vinda aqui."
Heitor riu. Foi um som áspero, um latido.
"Esta é a minha casa, Sofia. E a Kátia está aqui porque eu disse que sim. Ela é da família."
"Ela é uma parasita", corrigi.
Caio entrou na sala de estar, ignorando completamente o baú de brinquedos.
Ele foi direto para a lareira.
Pegou o globo de neve que Dani amava. Era uma edição limitada de Nova York, um presente do meu pai antes de falecer.
Caio olhou para mim, fazendo contato visual direto.
Então, lentamente, ele abriu a mão.
O globo atingiu o piso de madeira e se estilhaçou com um barulho doentio.
Vidro e água explodiram sobre o verniz.
Dani, que estava escondido atrás do sofá, soltou um soluço abafado.
"Opa", disse Caio, o rosto sem emoção.
"Caio!", Kátia repreendeu, mas estava sorrindo. "Cuidado, meu bem. Vidro barato quebra tão fácil."
Heitor nem sequer olhou para a bagunça.
Ele marchou até mim, invadindo meu espaço pessoal, usando sua altura para se impor sobre mim.
"Você está me envergonhando", ele sibilou, seu hálito uma mistura enjoativa de menta e podridão. "Você precisa aprender o seu lugar."
"E onde é isso, Heitor?", perguntei, recusando-me a recuar. "Enterrada no quintal para que você possa trazê-la para morar aqui?"
Seus olhos se arregalaram. Ele não estava acostumado com resistência.
Ele agarrou meu braço, seus dedos cravando dolorosamente na minha carne.
"Escuta aqui", ele sussurrou perigosamente. "O Dani vai para o sítio hoje. E você vai ficar de boca fechada. Ou eu mando te internar. Esposas histéricas têm uma vida útil curta neste mundo."
Na minha primeira vida, eu teria tremido.
Teria implorado.
Mas olhei para a mão dele no meu braço, e depois olhei para o seu rosto.
"Me solta", eu disse.
"Ou o quê?", ele desafiou.
"Ou você vai se arrepender de ter tocado na mãe do único herdeiro legítimo que você jamais terá."
Ele me empurrou para trás, visivelmente enojado.
"Prepara o garoto", ele ordenou. "A van chega em uma hora."
Ele se virou para Kátia, sua atitude suavizando instantaneamente. "Vai pegar uma bebida, amor. Ignora a louca varrida."
Observei-os entrar na minha cozinha.
Olhei para Dani, que tentava pegar os cacos do seu globo de neve com as mãos trêmulas.
"Deixa isso aí, meu amor", eu disse suavemente.
Eu não ia apenas arrumar uma mala.
Eu ia arrumar uma arma.