- Vamos, Gabi. Vai ser legal! – Paula era definitivamente minha amiga mais louca, não sei porque resolvi dar ideia nela no fim de semana, para morrer provavelmente. Ela já estava pronta na porta da minha casa enquanto eu estava de pijamas ainda.
Meu plano naquela noite não era sair, mas sim ficar em casa, Paula tinha me mandado mensagem algumas horas antes me chamando pra ir numa boate chamada Falcone. Eu podia jurar que aquilo lá era um tipo de puteiro pelo nome, mas ela me jurava que era um lugar legal com um clima diferente.
- Ah, eu não sei se... – Tentei argumentar, mas ela começou a me empurrar para dentro do apartamento, eu sabia que a intenção dela era me arrumar para sairmos, mas eu não tinha muita certeza se aquela ia ser uma boa ideia. Eu estava com uma sensação estranha.
Não era nem boa nem ruim a sensação, era só o aviso que algo ia acontecer, o que era esse tal algo eu não tinha a mínima ideia. Confesso que eu era conhecida por ser aquele tipo de pessoa que era cautelosa e prudente, mas Paula era meu oposto nesse sentido.
E por isso eu não gostava muito de sair com ela.
***
Depois de uma hora me arrumando eu parecia pronta para aquela aventura noturna, eu tinha certeza que ela tinha me chamado porque eu era a última pessoa disponível e tinha dificuldade de dizer não.
Todo mundo já tinha dado um jeito de despistar a Paula, menos eu.
Que falha.
Ela tinha inclusive se metido a me maquiar e arrumar o meu cabelo, o que me deixou incrivelmente com cara de piranha. Tive até que escolher uma roupa condizente com o que ela havia aprontado. Uma saia lápis e um cropped preto. Não era o tipo de roupa que eu gostava de usar normalmente para sair a noite.
Eu era mais tranquila num dia comum.
Saímos pela rua, o Falcone ficava próximo a minha casa, coisa de duas esquinas, fomos andando e eu percebi que as pessoas nos olhavam fixamente. Apesar de eu ser uma mulher considerada tranquila eu morava num bairro bastante agitado, com muitas boates e bares.
Não tinha nada a ver comigo, mas foi onde encontrei um bom apartamento para reformar, então fiquei por ali mesmo.
Eu odiava chamar a atenção e ter aqueles olhares em cima de mim me deixava bem desconfortável, eu gostava de ser a mais discreta possível no dia-a-dia, odiava chamar a atenção e me ver tão arrumada como naquela noite e atraindo tantos olhares me deixava completamente desnorteada.
O Falcone era uma boate discreta, como qualquer outra, parecia uma mansão tropical na verdade, a única coisa que deixava claro que era uma boate eram as luzes roxas e verdes na frente do local e o neon que dizia Falcone com uma imagem de um falcão.
O segurança nos olhou de cima a baixo e pediu nosso nome. Paula deu seu nome completo e disse que tinha direito a uma companhia feminina. Aquilo me soou estranho, afinal eu tinha visto Salve Jorge.
Paula era meio doida então eu fiquei com receio dela estar me aliciando para algum tipo de tráfico humano. Comecei a imaginar uma série de coisas que poderiam fazer comigo ali dentro e isso me ligou o alerta de não deixar minha bebida de bobeira nem perder a mesma de vista em nenhum momento.
Meu corpo enrijeceu e enquanto ela me levava para dentro da boate não conseguia parar de pensar que eu poderia ser sequestrada ou morta a qualquer momento. Ou quem sabe não acontecesse comigo o mesmo que aconteceu com Mari Ferrer. Eu tinha que ter muito, muito, muito cuidado.
A entrada passava por um corredor com panos brancos organizados como cortinas, andamos por menos e um minuto até chegar a pista. Era um local aberto com uma piscina no meio. Nesse momento tocava Sad Girlz Luv Money da Amaarae com a Kali Uchis, haviam muitos homens, todos com cara de ter muito dinheiro e mulheres que pareciam ter saído das capas de revista.
Fiquei meio acuada, nesse momento esqueci que tinha medo de ser traficada e só consegui me comparar aquelas mulheres. Não era do tipo que saía para beijar gente na balada, inclusive eu nem queria sair naquela noite, já tinha passado da fase.
Gabriela Pissatto, 27 anos, advogada criminalista, essa era eu sob a luz do dia. Apesar do trabalho levemente perigoso minha prudência sempre estava ao meu favor. Eu não era nada demais, inclusive não tinha grandes aspirações.
- Paula... – Eu ainda estava meio abismada com a vista que eu estava tendo.
- Oi, amiga. – Ela disse enquanto provavelmente procurava o vape na bolsa. Ela era meio viciada nessa merda.
- Essa festa é open bar? – Tudo que eu pensava era em tomar um pouco de coragem líquida, sentar em algum lugar e ficar a noite inteira enquanto Paula procurava alguma diversão para levar pra casa no fim da noite.
- É, porque? – Ela perguntou já com o cigarro eletrônico na boca e mexendo no celular, provavelmente não prestaria a atenção em mim mesmo que eu perguntasse qualquer outra coisa. Desviei o olhar dela e olhei ao meu redor.
O que eu estava fazendo naquela festa?
Com certeza era algum tipo de emboscada.
- Como você conseguiu convite para isso? – Ainda embasbacada resolvi olhar sério para minha amiga, que antes que eu tivesse uma resposta decente de seus lábios a própria visão que eu estava tendo me respondeu. Ela estava abraçando uma mulher e cumprimentando o parceiro dela.
Baixei um pouco a guarda nesse momento.
Paula estava há alguns anos tentando decolar sua carreira de cantora, ela cantava blues e soul, achava que seria um fenômeno de vanguarda, mas ela esqueceu que Amy Winehouse já tinha feito isso quase quinze anos antes.
Então ela se embrenhava em alguns cantos na esperança de decolar, ela provavelmente conseguiu o convite com alguém que era amigo de alguém e aquela festa provavelmente tinha alguma coisa a ver com famosos.
Fui andando até o bar e olhei o pequeno cardápio sobre o balcão não havia preço ao lado das opções de bebida e era um cardápio relativamente extenso. Muitas opções. Normalmente eu pediria um Sex On The Beach, mas naquela ocasião escolhi uma caipirinha e pedi para capricharem na cachaça.
Com Paula fazendo networking eu poderia me sentar em algum lugar e ficar me embebedando até uma hora sentir vontade de ir ao banheiro, me levantar e ver tudo rodando. Uma maravilha!
Eu confesso que estava distraída com a barmaid fazendo a bebida que nem percebi quando um homem incrivelmente alto parou ao meu lado, ele era forte também, mas seco. Seu corpo era coberto de tatuagens, desciam do pescoço pelos braços. Ele vestia uma camisa social branca e calças jeans, como eu não conseguia ver suas pernas comecei a me perguntar se ele tinha tatuagem nas pernas também.
Suas tatuagens eram todas orientais, como se ele fosse um membro da Yakuza.
- Seja bem-vinda. – Seu rosto era jovial, apesar da barba por fazer escura, no rosto ele não tinha tatuagens. Eu estava tão abismada com sua visão que nem percebi que a barmaid deveria estar há algum tempo estendendo o copo de drink pra mim. Ele olhou para ela e agradeceu, me dando a taça, que eu não esperava mas era bem generosa.
- Obrigada. – Foi tudo que eu consegui dizer, ele abriu um sorriso e eu tentei descontrair. – Obrigada ao quadrado né, pelo drink e pela recepção.
- Imagina, é um prazer para mim. – Ele estendeu a mão e eu estendi a minha de volta, achando que ele ia me cumprimentar, na minha cabeça talvez ele estivesse achando que eu fosse também uma aspirante a cantora famosa. Mas ele pegou a minha mão e deu um beijo que me rendeu um calafrio que eu tentei disfarçar. – Eu sou Lucas Falcone, qual seu nome?
- Gabriela. – Pelo sobrenome ele deveria ser o dono daquele lugar. Então resolvi perguntar. – Você é o dono da boate?
- Não, esse clube é administrado pelo meu irmão mais especificamente.
- Então está só curtindo essa noite né?
- Não, estou a trabalho. – Provavelmente era alguém da indústria da música. Algum herdeiro.
- Ah, interessante. Sempre bom fazer networking, né? - Brinquei, sorrindo, ele sorriu de volta, um sorriso malicioso, e pude perceber que ele ergueu uma das sobrancelhas, seus olhos eram de um verde intenso.
- Veio fazer networking também, moça bonita? - Ele perguntou começando a andar em direção a algum lugar que eu não sabia qual era, mas ele fez sinal com a mão para eu o acompanhar.
- Não, não. Vim acompanhar minha amiga a Paula. - Ele riu, passou a mão no cabelo preto cortado rente;
- Então você que veio curtir apenas. - Dei de ombros e olhei ao meu redor, eu era uma moça de aparência simples, comum, uma mera advogada, nem sabia o que estava fazendo ao redor de tanta mulher bonita de corpos irreais e beleza estonteante, eu era mais uma, elas eram estrelas.
- Meio que isso. - Ele escolheu um local ao redor da piscina para que pudessemos sentar, pediu que eu fosse primeiro com um movimento com as mãos e depois disso se sentou ao meu lado e colocou uma mão sobre minha coxa nua.
Estremeci.
- Você sabe que eu posso te oferecer muito mais que curtição, né? O mundo se você quiser. - Ele era lindo, lindo demais, uma aparência quase que perigosa, com certa malícia urbana. Mas naquele momento eu me afastei um pouco dele, com medo da emoção que ele estava direcionando a mim.
- Não entendi. - Foi tudo o que eu consegui dizer, até pouco tempo atrás eu estava sozinha no bar, ele chegou, me cumprimentou e agora está me oferecendo o mundo? Que paixão rápida é essa?
Ele somente ria, se divertindo com minha cara de idiota.
Parecia que ele estava falando uma língua que eu não dominava.
- Você não tem a mínima ideia de onde está se metendo e onde você está não é, garotinha?
- Agora que você falou, eu acho que não.
Ele riu sonoramente, me pegou com a mão. Eu bebia meu drink ansiosa. Mas não conseguia desvencilhar daqueles olhos verdes.
Ele se levantou, e como segurava minha mão, me levantei junto. Ele foi me guiando para a parte interna da boate, passando por seguranças como se fosse o dono daquele lugar.
Mas ele era.
Não era?
O corredor era vermelho, iluminado apenas por luzes amarelas, fui caminhando com ele, ele andava rápido, como se estivesse ansioso para me levar para algum lugar.
Todas as portas do extenso corredor estavam fechadas, elas eram de mogno, mogno escuro. Pareciam pesadas.
Até que chegamos no fim do corredor, era uma última porta. Ele deu cinco batidas na porta numa batida padronizada, como se fosse uma linguagem que quem estivesse do outro lado pudesse ouvir.
- Fratello, ho portato una visita, sono io il Principe.- Para o azar dele, eu tinha feito um curso de italiano na pandemia, porque tinha ficado obceada por Maneskin, havia estudado por 3 anos.
Ele tinha falado para o irmão que tinha trago uma visita e se identificou como "Príncipe".
Ok, isso estava ficando bizarro.
- Puoi entrare. - A voz grossa respondeu seca do outro lado. Ele tirou uma chave grossa do bolso, virou na porta e entramos dentro da sala.
- Scommetto che non sai nemmeno il nome di quella stronza. - O irmão comentou. Era um homem com cara de mau, enorme, mas sem tatuagens. Seu rosto era quadrado, seu cabelo era rente tal qual o do irmão, ele era loiro e tinha uma cicatriz no olho direito, lembrava uma mistura do Scar com o Mufasa.
E ele tinha acabado de me chamar de vadia.
Olhei ao redor do local, haviam rifles pendurados nas paredes atrás do irmão do Lucas, na mesa um gatinho preto bem peludo. Na parede à esquerda havia um retrato enorme pintado a óleo de um homem mais velho, que parecia ser um clássico italiano mafioso.
Espera.
Eles estão falando em italiano.
O sobrenome é Falcone.
Tem armas nessa sala.
Caralho, eu vim parar numa festa de mafiosos!
- Rispettala, per favore. - O irmão bufou.
Não sei o que deu em mim, mas resolvi acabar com a gracinha, mesmo sabendo que poderia levar um tiro a qualquer momento.
- Io parlo italiano. - Foi tudo o que eu consegui dizer com a voz trêmula enquanto colocava a taça já sem o drink numa mesinha que ficava ao lado da porta.
Os dois me encararam com surpresa.
- Qual seu sobrenome, garota? - Eles provavelmente acharam que eu era de alguma família rival, que estava ali para espioná-los, ou talvez fazer algo pior.
- Pissatto.
- Mostra sua identidade. - Disse Lucas, estendendo a mão para pegar meu documento. Dei de ombros, não sei de onde estava saindo tanta coragem para bater de frente com mafiosos, talvez fosse o fato de que eu não queria sair de casa naquele dia.
Tirei da bolsinha a tira-colo a carteira, e depois consequentemente minha carteirinha da OAB, que funcionava como documento de identificação.
Minha família não era rica, veio tombada da Itália para cá, meu pai passou fome, conseguiu com muito esforço pagar uma faculdade particular para eu cursar Direito.
- Você é advogada? - Lucas perguntou. Acenei positivamente com a cabeça. - Ela está falando a verdade, Vitor.
- Ela vai ser útil, irmão. - Eles acenaram com a cabeça concordando um com outro e eu fiquei ali sem entender nada.
- Posso entender porque você me trouxe aqui? - Lucas me devolveu a carteirinha e riu, o irmão cruzou os braços e depois fez carinho no gatinho que estava agora em seu colo.
Me senti no filme Poderoso Chefão.
- Queria te mostrar onde você está se metendo, garotinha. - Ele então passou a mão pelo meu cabelo.
- Podem ir agora, não sou muito fã de ser voyeur. - Vitor disse. Lucas acenou positivamente, me colocou para trás e me guiou de volta para a boate.
Eu me tremia por completo, não sabia dizer exatamente o que estava sentindo, mas não era medo, era um sentimento estranho que deixava minhas veias geladas.
Como um sentimento de excitação estranho que eu nunca tinha sentido.
Era de se pensar que talvez eu não estivesse tão bem da cabeça. Eu já não via o ambiente ao meu redor, eu só pensava em como eu estava me sentindo, que era um sentimento estranho.
Assim que voltamos para o local eu fui direto para o bar, pedi uma cuba libre com bastante rum.
Eu ia beber aquilo tudo de uma vez só e ir embora, eu estava decidida.
Quando me virei Lucas estava parado atrás de mim.
- Entendeu o que eu disse quando falei que poderia te dar o mundo? - Ele se divertia com minha cara de transtornada.
- Mas eu não quero, obrigada.
Ele riu de novo.
- Aqui, se precisar de mim. - Então ele me entregou um cartão. O cartão era preto, em uma fonte branca fosca estava escrito "Il principe tatuato" e na parte de trás, numa fonte quase que invisível estava seu numero de telefone o DDI era da Itália.
- Vou pensar no seu caso. - Virei toda a Cuba Libre e coloquei no balcão do bar.
- Você não sabe o quanto eu gosto de mulheres difíceis.
Simplesmente virei as costas pra ele e de longe pude ouvir Paula gritando "Amiga, amiga...", mas eu nunca mais, eu disse, NUNCA MAIS, vou a nenhum rolê com ela. Dessa vez ela foi longe demais.
Era hora de aprender a dizer não.