DOMENICO MACERATTA
PIEMONTE | ITÁLIA | 09:00
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Olhei os relatórios que Teodoro me entregou sobre a safra de Cuneo e senti um grande aperto no peito.
- Tem certeza, Teo? - acenou em afirmativo antes de se pronunciar:
- Sabe que não iria propor se não fosse necessário, essa colheita ainda saiu boa, contudo, a acidez foi 70% acima e já temos duas anteriores na média dos 58 a 65% que ficara mais tempo no descanso. - pegou em sua pasta os relatórios anteriores que já tenho conhecimento - Pode analisar, se esperarmos mais uma talvez seja trabalho em vão e o tempo de descanso leve 20 anos, podar é a melhor solução.
- Não acredito que terei que vivenciar isso! - meu dia acabou de torna-se péssimo - Meu tio, o que disse?
- Ainda não contei a ele, falarei com Enrico também. - acenei em afirmativo.
- Obrigado por me alertar. Bem, depois quero falar das novas terras que comprarei amanhã, assim que fechar o negócio quero que vá até lá. - comuniquei indo buscar as referências do solo - Veja.
- Posso ler com calma? Sabe que não faço nada correndo. - disse que sim - Bom, meu amigo, tenho que ir, preciso regressar à vila Mattiazzo a nonna anda reclamando do meu sumiço.
- Ouço falar da sua avó com tanta frequência que tenho vontade de conhecê-la. - comentei, sincero.
- Vá à festa da sangria da minha tia Nena, não é para me gabar não, antes de me tornar um ótimo enólogo, aprendi com ela sobre fermentação e daí surgiu minha paixão.
- Ansioso, lembre-me próximos à data, faço questão de conhecer sua família. - apertou minha mão - Boa viagem e leia tudo que está aí, provavelmente trabalhará de Cuneo de agora em diante.
- Pelas uvas? - fizemos nosso toque ridículo da época da faculdade - Vamos até o inferno!
- Até o inferno! - confirmo - provavelmente só nos falamos amanhã, vou a Paris nesta tarde, mas retorno em 24h.
- Boa viagem. Agora vou indo. - acenei e o vi sair e antes de fechar a porta passou uma cantada em Tereza.
- Idiota! Não muda. - me sentei e voltei a trabalhar.
As horas passaram arrastadas e minha ansiedade parece ter desacelerado, o tempo. Levantei e fui de encontro a grande janela que enquadra perfeitamente a cidade de Piemonte. Não paro de pensar no evento que acontecerá mais tarde. Estou bem confiante e não tenho dúvida de que conseguirei o que tanto desejo.
- Não sei ao certo em que momento Alessa me enfeitiçou.
Murmurei para mim mesmo enquanto um sorriso puro que só ela consegue arrancar de mim, ganhou vida em meus lábios.
- A única coisa que sei é que irei resgatá-la. - respirei tranquilamente e voltei a me sentar.
Retomei o trabalho para não criar situações sem sentido em minha cabeça, pois era óbvio imaginar o pior: - Hoje minha noiva sairá de lá comigo, e isso é um fato! - cantarolei olhando os papéis que Teodoro me deu, não acreditando que passarei pela primeira podagem das minhas vinhas sob os meus cuidados.
Tentando não pensar nisso foquei nos novos lotes de terras que comprarei para expandir meu lindo vinhedo e amanhã conhecerei o proprietário das terras para dar início a negociação.
Desejo que seja a primeira e única tentativa, visto que o solo é ótimo e não quero mais um vendedor se achando espertinho por fazer negócios com a E'vino Maceratta.
Estava idealizando o primeiro encontro com o Sr. Lazzo quando minha porta foi escancarada batendo com toda força contra a parede.
Puxei o ar por minhas narinas para conter minha vontade de matar esse Figlio di puttana que se intitula meu sogro.
- Domenico, minha filha está desaparecida há mais de 20 dias, o que fará para resolver isso? - questionou batendo em minha mesa como se fosse ele o dono do lugar - DIGA!
- O que espera que te responda? - me recostei em minha cadeira para admirar seu teatro, e nada respondeu - Veremos, suponho que sua curiosidade é com relação ao acordo inicial, correto?
Engoliu em seco confirmando minhas suspeitas.
- Qual? Faz tantos anos que não me recordo. - o cínico endireitou a postura.
- Claro que lembra - confirmei com tranquilidade e tornou a dizer que não se recordava -, te lembrarei.
- Não falemos disso, quero minha.
- Faço questão! - o cortei antes que fizesse seus dramas - Me refiro a um acordo feito a Dez anos atrás em que vendeu sua única filha para meu pai, por um valor absurdo, onde fui forçado a noivar a contra gosto. Enfim, esse não é o foco, mas saiba que se esse casamento não acontecer, terá que devolver os milhões que lhe foi dado. - sua cara mudou de cor.
Minha secretária entrou assustada e sabendo não ser culpa dela pedi que nos deixasse a sós.
- Com licença. - sussurrou voltando por onde veio.
- Não seja petulante e me responda! - tornou a berrar, me levando a alisar minhas têmporas - Quero minha filha de volta.
- Veja bem, acredito que tenha que clarear sua mente para que consiga entender que não deve em hipótese alguma invadir meu escritório, Vittorio. Alessa encontra-se desaparecida por incompetência sua, já que seu único dever era cuidar da minha futura esposa até o dia do nosso casamento que irá acontecer em dois meses contados a partir de hoje, então por obséquio, se retire da minha sala.
- Mas.
- Sai! E só aceito ver sua cara decrépita no dia do meu casamento, isso, por ser pai dela, se não, nem seria convidado! - minhas palavras deram a sua face um tom avermelhado.
- Está de brincadeira, porra!
Me levantei tendo plena convicção que não conseguirei focar no trabalho e a minha única saída é dar um pouco de sanidade a esse velho ridículo.
- Sou seu sogro, se não me respeita como tal, que seja ao menos por minha idade avançada, garoto.
- Tem ideia do que acabou de dizer? Se bem me lembro, vendeu sua filha por uma grande fortuna e agora diz que a ama?
Contemplo com satisfação enquanto admiro fraquejar em sua pose de merda de homem mais velho e pai do ano.
- Tens muita sorte, digo, tanto você quanto meu pai, por ter me apaixonado por Alessa. Outra coisa, saiba que comigo, estará mais segura, do que contigo!
- O que deseja insinuar com isso?
- O óbvio! Vendeu sua filha para manter sua vida de luxo, então não venha com seu discurso de pai preocupado, porque não acredito nesse seu teatro.
- Me respeita, desgraçado! - exigiu se aproximando, me levando a dar um passo para trás.
- Pensa que pode vir aqui e gritar comigo ou que tem o direito de exigir alguma coisa? - questionei seriamente - Saia daqui antes que mande dar um fim à sua medíocre existência! Tire sua bunda arcaica da minha sala imediatamente!
- Vejo bem a classe de homem com quem fiz negócios - seu tom era irônico -, é do tipo que manda fazer e não mete a mão na massa.
Com repulsa fui até ele e golpeei sua cara sem piedade com um belo tapa que o fez cambalear.
- Primeiro, te odeio por tratar sua filha como um negócio, e isso só me faz sentir mais nojo ainda de você, miserável! Segunda, mando porque tenho condições para isso, porque geralmente o homem que está acima, já passou da fase de fazer e começa delegar funções - expliquei segurando em seu pescoço -, mandar fazer o que quero é só o fardo de ser o chefe aqui, o poderoso ou rotule como achar melhor.
- Não seja ridículo! - sua voz saiu estranha devido ao meu aperto e o soltei - Alessa é minha filha e a amo!
- Não perderei meu tempo contigo, mas resolvi matar sua curiosidade e peço que escute com bastante atenção.
Alisando o pescoço me encarou.
- Buscarei Alessa e tenha em mente que irá para minha casa e a mesada para bancar minha noiva acabou ou pensa que não tenho conhecimento que o dinheiro que envio para os estudos dela são gastos com esbórnia? - grunhiu alto antes de se pronunciar:
- Temos um acordo, lembra? Alessa será sua quando se casarem! - sua voz não era das melhores - Me leve contigo, quero resgatar minha filha.
- Quem carrega esterco e carroça, não eu. Sabe que não quero você ao meu lado. - comuniquei abertamente - Foi você o primeiro a falhar nessa negociação, seu único dever era protegê-la e faltando dois meses para o casamento me fez uma merda dessa.
- Não foi minha culpa, ela saiu para comprar.
- Não me interessa! De agora em diante serei eu pessoalmente a fazer isso.
Vendo que não tem argumento que me faça mudar de ideia saiu sem dizer uma palavra.
Alisei meu rosto ponderando meu estresse.
O único motivo de não estar morto é que a última clausula me impede de mandar ceifar a vida deste velho miserável, já que exigiu levá-la até mim no altar.
Sentei-me e voltei a focar no trabalho, sendo que em poucas horas estarei indo buscá-la.
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Ao meio-dia fui direto para minha casa. O desejo e a ansiedade de vê-la pertinho de mim, estava me consumindo a ponto de não conseguir forcar em mais nada alem desse maldito leilão.
Mal coloquei meus pés em minha sala Emilia veio me receber.
- Emi, estarei trazendo a futura dona dessa mansão para finalmente morar conosco. Preciso que deixe seu quarto pronto, por favor - sorriu, pois é nítido sua felicidade -, confesso que não estou me aguentando de ansiedade para compartilhar essa casa com ela.
- Que ótima notícia Nico, devo deixar qual dos aposentos à disposição da minha senhora? - questionou, seguindo-me para o segundo andar.
- Faremos da seguinte forma, ela ficará com o meu, prepare o de hóspedes no fim do corredor para mim, por gentileza. Compre dálias negras que é sua flor favorita e coloque em nosso quarto, desejo que troque as roupas de cama para um tom claro e deixe o cômodo o mais arejado possível.
Fui desferindo as exigências sabendo que junto a equipe que coordena executaram muito bem todas elas.
- Outra coisa, chegará três cavaletes de madeira, ainda hoje, mande colocar um em nosso quarto e outro na cozinha. Tive conhecimento que gosta de pintar no local enquanto espera o almoço. O maior nos fundos, quero que tenha inspirações com à vista do meu vinhedo pessoal.
Comuniquei, de modo que realize meu desejo que é enquadrar meu lindo vinhedo em uma de suas telas e ficarei muito feliz quando isso acontecer.
- Outra coisa, só retorno para casa amanhã.
- Sim, senhor! - virei-me de modo a encará-la, por sentir mudança em seu tom de voz - Posso saber como será com a serpente que possui em seu quarto?
- Assim como estamos protegidos quanto a isso, é só manter o esquema que ficará tudo bem - concordou e voltamos a seguir até meu quarto - deixe todas as minhas coisas aqui! Só dormirei lá, minha rotina será feita nesse.
- Como desejar. Posso colocar flores no primeiro andar, também? - disse que sim e sentei-me na cama para fazer uma ligação - Com sua licença.
Retira-se me dando privacidade e no segundo seguinte liguei para Andrea que atendeu no primeiro toque.
- Chefe!
- Já fez o que mandei? - questionei sendo que em algumas horas estaremos indo para a França.
- Sim! Expliquei diretamente ao Ângelo como deseja que o serviço seja realizado e será efetuado assim que estiver longe do local. - fiquei satisfeito com essas informações.
Exigi que desse leilão apenas as garotas que ainda estiverem lá sejam salvas, dado que não posso fazer nada quanto as que já tiverem saído.
- Já estou me preparando para a viagem. - comunicou.
- Estou fazendo o mesmo, e Andrea, você voltará hoje, necessito que faça um trabalho para mim.
- O que deseja?
- Preciso que vá até a casa do Vittorio e pegue algumas roupas da Alessa para Emilia usar como base na compra das novas. Deste modo não se sentirá tão desconfortável com um estilo diferente, depois da compra seguirá para Cuneo estarei lá a sua espera.
- Deixa comigo. Em duas horas estarei indo te buscar. - me informou e desligou.
DOMENICO MACERATTA
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Farei uma pequena mala, pretendo sair de Paris amanhã direto para a reunião, e é claro, compartilharei com Alessa tudo que lhe pertencerá um dia.
Será que gostará da vista? Sem falar que amo aquele lugar. - me despi com a dúvida rondando meus pensamentos - Se estiver disposta a ouvir, explicarei tudo com satisfação.
Ansioso pelo nosso reencontro, pensei em aparar minha barba e antes de iniciar o processo, escolhi meu melhor terno.
- Infelizmente o nosso primeiro encontro não será com uma linda vista do alto de Piemonte, diante de um ótimo jantar - murmurei passando a máquina para abaixar bem a minha barba - Em breve realizarei esse desejo.
Após a barba alinhada e com minha higiene em dia, me vesti calmamente e preparei minha mala.
Às 14h Andrea chegou e fomos juntos em direção ao hangar da família para seguirmos no meu jatinho com destino a França onde será realizado o leilão.
Nunca na vida imaginei que seria tão obcecado por uma mulher a ponto de abandonar minha vida sexual desde o dia que vi sua foto em seu aniversário de dezenove anos e de lá até aqui se passaram rigorosos dois anos e onze meses. - sorri da minha audácia de contar o tempo exato sem titubear.
Não sei se o ditado mundialmente conhecido; há males que vem para o bem, se enquadra nessa situação, sendo que mesmo amando loucamente minha futura esposa, nunca fui a favor desse casamento arranjado, já que foi firmado com dois erros muito grande.
Primeiro, ela tinha somente 10 anos na época e eu acabara de entrar na fase adulta, já que fazemos aniversário no mesmo dia, nos dando exatos 10 anos de diferença de idade, e segundo, que o miserável do seu pai a vendeu como uma obra de arte bem cara digna de estar no Louvre em Paris ao lado da Mona Lisa.
Conclusão: Sou incongruente, pois quando a conheci já havia sido feita a negociação e no dia do nosso noivado acreditei que a junção das duas dinastias mais antigas de Piemonte seria selada com uma linda mulher e não uma criança.
Naquele dia jurei a mim mesmo que nunca teria nenhum contato sexual com Alessa. Me sentia um pedófilo por noivar com uma menina, e na tentativa de me manter o mais distante possível, pedi que só viesse morar comigo quando chegasse a maior idade.
Não aceitei essa relação e isso foi o pivô de uma briga séria entre mim e o meu pai. Ficamos oito anos sem nos falar até que resolveu me lembrar que o dinheiro foi pago e que o casamento teria que acontecer de um jeito ou de outro.
Com meus pensamentos voltados para o passado, entrei no jatinho junto a Andrea tendo a certeza que chegarei pontual ao meu destino, e disposto a deixar meus bilhões naquele lugar apenas para resgatar minha noiva!
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LA VENTE AUX ENCHÈRES
Ao chegar no grande palácio onde acontecerá o leilão tive que pagar 2 milhões de euros para ocupar um assento na primeira fileira de mesas do imenso salão oval. Não questionei o valor, mas o cavalheiro ao meu lado, sim, e a desculpa dada pela recepcionista é que hoje tem uma virgem.
- Daria toda minha fortuna se possível fosse apenas para ter minha noiva fora desse lugar. - murmurei me acomodando em meu assento.
Estava analisando tudo à minha volta quando fui abordado por um homem grande e bem vestido fedendo a charuto.
- Boa noite! Chamo-me Ivo Vassiliev, o imperador da vodka! - com uma animação desnecessária se apresentou - Adoraria saber o que o príncipe do vinho faz aqui!
Senti um certo deboche na palavra "príncipe", porém não dei a mínima importância.
- Suponho, que o mesmo que você! - declarei o óbvio.
- Posso? - perguntou apontando para uma cadeira - Serei rápido devido a minha mesa ser essa aqui ao lado.
- Se será breve, não vejo motivo para sentar-se, diga de pé mesmo, te poupará de se levantar em um curto espaço de tempo, não concorda? - perguntei educadamente.
- Mas desejo me sentar! - alterado me explicou.
- Não quero outra companhia além da do meu segurança, se puder me dizer o que deseja, estarei ouvindo. - comuniquei educadamente - Não me entenda mal, é que não sou sociável.
Sua face deixou claro que não gostou das minhas palavras e me contive para não rir dessa situação.
- Devo informá-lo que as inscrições para novas amizades já encerraram por hoje, então diga o que deseja, e caso o objetivo seja fazer amizade, volte amanhã.
Vi que entendeu o recado e finalmente se afastou.
- Cada um que me aparece. - alisei minha barba tentando disfarçar meu tédio.
Muito em breve todos aqui estarão mortos, pois tiveram o azar fodido de atravessar o meu caminho e para piorar pegaram minha noiva!
De modo a matar o tempo, peguei meu telefone e troquei algumas mensagens com meu tio Fabrízio, só que tornei a ser incomodado pelo russo inconveniente.
- Fique ciente que sua falta de cordialidade não sairá da minha cabeça. - sussurrou próximo ao meu ouvido - Nunca mais!
- Deveria compreender que quem tem a responsabilidade e o dever de ser cordial com as pessoas é o dono do evento, não eu.
- Está se achando, não é mesmo? Sou tão rico quanto vossa alteza, principezinho e homens como você não sai da minha mente enquanto estiver respirando! - desferiu a ameaça e julgo que em sua cabeça realmente acredite que me põe medo.
- Obrigado por esclarecer e vou anotar aqui a sua ameaça. - comuniquei virando-me para olhar em seus olhos - Prometo tentar não esquecer.
Declarei tranquilamente, afinal, acho justo que nessa terapia em grupo gratuita seja de conhecimento dos envolvidos o meu lado da história.
- Está se achando demais. - neguei com a cabeça - Claro que estava.
- Tenho o hábito de focar em coisas que realmente mereça meu tempo, porém, se me tornei especial para você, desejo boa sorte e eis que te asseguro, Ivo, que não sou um passatempo interessante. Como também não dou a mínima para rótulos ou por de ser chamado por príncipe, sendo que serei o sucessor do meu pai que se encontra vivo e carrega o título de rei do vinho de Piemonte, portanto o apelido que me destes é muito bem-vindo - bufando feito um touro sai às pressas em direção ao bar.
Voltei a focar nos assuntos da empresa e torno a ser aborrecido, mas dessa vez por Andrea, que finalmente se juntou a mim, indicando estar tudo preparado. E ainda me informou que Ângelo e os irmão estão ocupando algumas mesas ao fundo.
Fiquei satisfeito e voltei a digitar uma mensagem para meu tio.
- Chefe - mirei a face do Andrea -, pagará para ter uma mulher que já é sua? - estalei minha língua para sua idiotice e voltei a conversar com meu tio sobre a reunião de amanhã com o Sr. Lazzo. Recusando-me a responder algo que já tem resposta.
A conversa com meu tio me entreteu bem, mas parei de imediato quando o evento deu início.
- Boa noite! Cavalheiros, estou imensamente honrado de tê-los aqui em mais um leilão para satisfazer o desejo de cada um de vocês, e hoje em especial temos uma virgem fresquinha para os amantes das ingênuas jovens mulheres, e desde já confidencio a todos que a beldade é tipo as que têm boca e não falam é bem submissa, então guardem seus milhões sendo que a cereja do bolo virá muito em breve!
Admirei o leiloeiro doido para ver sua cabeça em uma bandeja só por falar assim da minha futura esposa.
Com raiva, porém ansioso com o intuito da minha noiva entrar para os lances, me mantive calado, e nem que eu saia pobre deste lugar, coisa que acho muito difícil, levarei Alessa para casa comigo essa noite!
Os minutos se passaram quando finalmente veio vestida de branco para a frente do pequeno palco, roupa essa que indicava a sua pureza.
- Calma, meu amor, ninguém tocará um miserável dedo em você. - murmurei admirando-a.
Os lances foram dados um atrás do outro e permaneci observando cada um que cogitou a ideia de tocar na minha mulher somente para garantir a morte mais dolorosa.
Os instantes se passaram rapidamente e quando faltava o último lance o famoso dou-lhe três para bater o martelo de vendida, dobrei o preço que esses filhos das putas deram para obtê-la.
Com um sorriso no rosto, admirei a cara mal fodida de cada um deles ali presente, sabendo que minha mulher sairia daqui comigo, principalmente a do meu fã, ele foi o último a dar um lance de 40 milhões de euros.
- Vendido para o senhor vestido de preto aqui na primeira fila. - com um sorriso de escárnio, segui para reivindicar o que foi sempre meu.
Perto o suficiente e mesmo de máscara pude notar estar ainda mais linda do que já é, alisei seu rosto e sinto estremecer com meu toque.
Esses filhos da puta vão pagar por fazeê-la sentir medo de mim. ah, se vão!
ALESSA AMATTO
FRANÇA | HORAS ANTES
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Despertei com uma bofetada em meu rosto, daquelas bem dadas. - Essa mulher me odeia!
Desde o dia que cheguei aqui, a Madame, como gosta de ser chamada, tem me batido sempre que pode e não aguento mais isso. tenho hematomas feios em meu abdômen por causa dela.
- Acorda favorita! Anda, que hoje será vendida para algum sádico que vai te bater com tanta força que seu rostinho bonito ficará perfeito com alguns hematomas. - com sua voz sarcástica, comunicou em seguida cuspiu em minha face.
- Por que me trata assim? Não te fiz nada. - um soco golpeou minha barriga me fazendo encolher de dor - Desculpa. - sussurrei.
- O que está fazendo sua filha da puta, desgraçada? - um homem que curiosamente me recordo, apareceu do nada me salvando dessa maluca - Esse anjo é nosso pote de ouro, velha miserável.
Vejo que não é um salvador e sim, a mão que bate o martelo.
Deu dois tapas na cara dela e nem me preocupei em sentir pena, visto que mereceu e suponho que mais dois ou três seria o ideal somente nesse horário.
Fará um mês que estou aqui e essa mulher me bate diariamente! Esses tapas foram pouco!
- Senhor, ela é como qualquer outra e se acha a melhor por ser virgem! Essa desgraçada fica tirando a oportunidade das demais. - se justificou ficando ereta diante dele que revida suas palavras dando mais dois tapas e para finalizar segurou em seu pescoço.
- Não seja estúpida, sua burra! Sabe quanto você ganhará somente por cuidar dela? Meio milhão de euros! Por isso, muito cuidado com nossa joia rara. Vender mulheres sem pureza anda saturado no mercado. Acho bom começar a colocar nessa sua cabeça de porco que a ideia, é, arrumar inúmeras virgens para manter nossos negócios ativos, essas que você consegue não valem nada! Nem chegam a um milhão - declarou fazendo meu estômago revirar -, essa beldade aqui.
Ditou alisando meus cabelos.
- Nos renderá mais de 50 milhões, tenho certeza, porque foram evidentemente confirmadas duas realezas do mundo dos destilados, um é príncipe e outro é imperador, sem falar, em senadores e pessoas da mais alta escala de París, Grécia e Roma.
Se aproximou e tentou me beijar, só que me afastei.
- Sei que estão dispostos a pagar uma fortuna. O senhor Ivo foi o primeiro a garantir sua presença por causa dela, cuide muito bem desse passarinho, estamos entendidos? Se não te mato desgraçada. - para lavar minha alma, outra tapa colidiu forte o suficiente para jogá-la no chão me deixando até feliz.
Assim que saiu, outros dois vindo dela carimbaram a minha face e não consegui conter minhas lágrimas.
- Te odeio! Desde que chegou aqui não tem me rendido nenhum dinheiro. Franco ficou te divulgando há dias e de 28 meninas só vendemos 12 por você ter virado a sensação, desgraçada.
Foi tudo tão rápido que quando dei por mim, estava caída no chão sentindo o chute que levei em minha barriga.
- Fica triste não, só estou amaciando a carne para seu novo dono.
Levei mais dois chutes com a certeza que terei que usar uma força sobre-humana para ficar em pé. Após um tempo tentando levantar desisti e esperei a dor passar.
Dediquei meu tempo a pedir a Deus que meu noivo viesse me tirar daqui!
Com medo de levar outro chute, enxuguei as lágrimas e exigi mais do meu corpo para ficar de pé. Me tremendo de dor, estiquei-me ficando ereta e olhei a minha volta notando alguns olhares em minha direção.
Estou em uma casa com muitas mulheres e me mantive afastada com medo de fazerem alguma maldade comigo, já bastava a madame me batendo sem motivo algum e por conta disso me isolei de todas. Como minha mochila veio comigo, no dia do sequestro aproveitei para desenhar e só assim consegui fugir desse pesadelo.
Rabisquei eu mesma com um lindo vestido branco e um buquê pequeno com dálias negras, minhas favoritas. Mais adiante rabisquei meu noivo de costas para mim.
Sorri com a imaginação do meu casamento arranjado quando tinha apenas dez anos.
Julguem-me se quiser, mas o amo mesmo não me recordando do seu rosto e as únicas coisas que tenho em minha cabeça é que mantém uma paixão por vinhos que me confidenciou no nosso noivado e uma pequena cicatriz em seu queixo, que ganhou por invadir o vinhedo da família ainda na sua infância.
Também me recordo das poucas palavras que ficarão eternizadas na minha mente: Tem um sonho, Alessa?! Vá atrás, estude, aprenda como conquistá-lo, pois só assim viverá feliz!
Sua voz imponente vogou em minha cabeça todos esses anos e daí em diante me dediquei aos meus estudos, fiz vários cursos de arte que mesmo sem dinheiro, meu pai para se redimir por tudo que me fez, deu-me os melhores professores da arte da Itália e alguns da França também.
Se não fosse por meu noivo, jamais saberia que fui vendida, visto que fez questão de me dizer isso segundos antes de ir embora. Naquele momento vi que não aceitava essa situação de uma criança ser vendida para manter uma vida regalada, já que foi por esse motivo que fui negociada!
Sou a peça chave para a junção das dinastias do vinho de Piemonte e mais uma vez serei vendida. Decidi deixar de lado meus pensamentos. Foquei em terminar meu desenho e quando dei por mim já anoiteceu.
- Vai se banhar e use a roupa que está à sua espera. - disse a madame e logo me deixou sozinha.
Após eu e mais 12 mulheres ficarmos prontas seguimos para um palácio onde me senti violada pela forma como fui exposta, que preferi a morte.
Abriram sem pudor minhas pernas e registraram em uma foto, a minha intimidade para comprovar minha pureza.
Depois me enfiaram em um vestido tipo ou similar ao de uma noiva, só que transparente deixando meus seios parcialmente visíveis. Meus cabelos e maquiagens foram feitas para me deixar com cara de anjo ao contrário das outras. Todas com roupas, na verdade, lingerie com cores chamativas e maquiagens bem extravagantes.
- Domenico tire-me daqui. - sussurrei como se fosse o suficiente para me achar.
Fui tirada dos meus devaneios com as mulheres ficando de pé, assim que o homem que bateu na madame entrou em nossa suíte novamente.
- Está divina. - me alisou devassamente, me causando repulsa -, você me deixará rico essa noite. Vamos, é a próxima.
Nervosa e com dores, tive que andar bem devagar. O espartilho estava muito apertado que mal consigo andar de tanta dor!
Fui aconselhada a não chorar, algumas meninas disseram que os homens batem nas mulheres que fazem isso.
- Espere aqui que será a próxima. - me escorei na parede pedindo aos céus para não desmaiar no meio do evento.
Permaneci ali contendo minha ansiedade tentando não chorar, os minutos passavam se arrastando me deixando ainda mais impaciente.
Será que meu noivo sabe que fui sequestrada ou meu pai tem me procurado? Meu Deus! Ele já me vendeu uma vez e até hoje não entendo seus motivos. Nunca fui uma filha ruim. Suspirei sabendo que ele não deve te tentado me procurar.
Meus olhos lacrimejam, tentei não chorar para não estragar a maquiagem, mas foi em vão e elas rolaram rosto abaixo .
- Vem! - ele voltou e me olhou com espanto - O que aconteceu com sua maquiagem? - impaciente retirando seu lenço para secar meu rosto - Sua sorte é que entrará com uma máscara cobrindo o rosto. Seque logo essas lágrimas e coloque isso imediatamente.
Fiz o que pediu e fiquei com a face parcialmente coberta, com meus cabelos molhados e penteados para trás com as laterais presas em grampos, foi fácil colocar a peça sem estragar o penteado.
- Estou. - respirei com dificuldade - sentindo falta de ar!
- Isso é problema seu e se não achar o ar que lhe falta e me fizer passar vexame, morrerá filha da puta! Anda, quero meus milhões na conta.
Segurou meu braço com força e me ajudou a caminhar até à frente de um pequeno palco diante de vários homens e muitos aqui já são bem velhos.
Que os céus me protejam.
- Essa aqui é a nossa joia rara, e um grande pontapé inicial para muitas mulheres puras como ela para agradar a vocês, meus amigos. - me senti tonta e fui amparada por ele - Por favor, uma cadeira para nosso passarinho.
Ele sentiu que cairia se ficasse de pé e logo me colocou sentada. Agora, sim, consigo ver perfeitamente o lugar com paredes verdes escuras e detalhes dourados em estilo arabescos. Um lustre glamuroso pende ao fundo, e mesmo desligado é perceptível.
Olhei com calma todos à minha frente, porém só os da primeira fila eram de fácil visibilidade. Um homem me deixou intrigada, pois olhava em meus olhos e não meus seios ou minhas pernas e isso me deixa nervosa.
Após todo falatório, os lances foram dados um atrás do outro e os valores são absurdos. A disputa ficou entre um homem grande e alto, com barba preta e cabelo curto. E seu adversário com mais idade e sotaque irlandês sempre que podia o chamava filho da puta. Sei porque domino muito bem o idioma. Já tive um professor de arte que é da Irlanda no norte e me ensinou a falar escocês, assim como o inglês.
- Mais alguém? - perguntou me tirando dos meus devaneios.
Quando chegou a 37 milhões, meu estômago se revirou com a hipótese de que o senhor de mais idade me levasse com ele, porém o mais jovem gritou 40 milhões arrancando vários assobios.
Cheguei à conclusão que ninguém ali daria um valor mais alto e muito em breve escutarei os famosos "dou-lhe" de um leilão de peças humanas vendidas a contragosto.
Já estava conformada que meu novo dono seria um russo e desviei meu olhar dele para o homem de terno preto na mesa ao lado que mantinham os olhos fixos nos meus.
- Mais alguém? - perguntou novamente - Dou-lhe uma, dou-lhe duas.
- Dobro a oferta do senhor aqui ao meu lado! - o homem de preto deixou a todos de boca aberta.
O admirei, preocupada, pois para que gastaria tanto assim se não fosse para me tornar seu animal de estimação!