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Psicomal

Psicomal

Autor:: Sett Campos
Gênero: Contos
Psicomal é um livro conto onde cada capítulo é uma crônica que narra a história do reino de Teran. Em Teran, os magos e seus totens vivem uma vida que beira a perfeição. As pessoas são movidas por sua essência e a grande maioria aparenta estar feliz. Porém Conrado, um investigador ambicioso, é convocado para solucionar uma onda de assassinatos inexplicáveis. Com a ajuda da jovem Solluáh, o investigador se vê de frente com segredos e ações que deveriam ser esquecidas. Enquanto algo aos poucos emerge das raízes e da terra e espalha sua névoa de vingança.

Capítulo 1 O Desesperançado Chorão

A Infestação

Tudo começa com um contato.

Alguma comida, algum item ou alguma perda.

Uma mudança forte e substancial que altera toda a proteção e percepção de mundo ao seu redor.

Assim surgem os sussurros, os barulhos de passos e as coisas mudando de lugares.

Uma sensação presente de ter alguém com você e te observando.

Uma presença de fora que a cada dia que passa se aproxima e se torna mais você do que você mesmo.

*******

Deitado na grama eu via o céu mudar do azul para o roxo. As estrelas usavam véus de auroras boreais dando vida à noite. Como era bonito e triste. Meu corpo se arrepiava e minha alma muda se contorcia dentro da minha mente gritando sem som, só dor e angustia.

Sabia que meus pais estavam no velório, e não se importariam em me ter por perto; eu apenas os envergonhava. Um grande fardo inútil e chorão que manchava a reputação tão imaculada da minha nobre família.

Encarava o carvalho velho, o cipó em forma de forca ainda lá, esperando que alguma mágica miraculosa se revelasse e quem sabe, saltasse em cima mim; quem sabe trazendo os risos dEla e os beijos dEla... O calor e o brilho dEla. Ela.

Por uma eternidade de tempo choveu debaixo dos meus olhos e o ar era mais sufocante quanto enxofre podre. Ainda me sentia preso nas paredes invisíveis do feitiço, vendo uma última vez o sorriso meigo dEla e o terror do corpo dEla tremendo em espasmos. Eu totalmente rendido e impotente.

Senti a terra debaixo de meus pés tremerem fazendo meu coração pular no peito, por alguns segundos acreditei que os Doze tinham ouvido meu pedido. Era uma vã esperança.

Uma voz chorosa vinha debaixo da terra, um eco abrindo um pequeno buraco e revelando miúdos olhos verdes.

A criatura rasgou o chão, parou na minha frente cabisbaixa e ficou me encarando triste.

Todo o medo passou, e foi nesse momento que eu soube que tinha o meu totem e que ele me trazia algo mais. Algo que eu desejava mais que a minha efêmera vida.

Capítulo 2 O Sr. Monóculo Quebrado

O ar estava fresco quando o Mister Pontudo lambeu os meus dedos repletos de creme de banana. Levantei sonolento, tropeçando e derrubando as coisas ao seu redor. Uma fina camada de poeira e serragem levantou me fazendo tossir e espirrar.

Minha cabana sempre foi uma bagunça, e isso porque era apenas um grande cômodo com um banheiro externo. O fogo da lareira estava baixo e o ar com cheiro de banana e lenha.

Na porta de entrada havia um aviso na soleira, o papel pardo tinha sido rasgado as pressas de algum bloco de notas e escrito com força.

"Cadê, meus bonecos de madeira!? Eu os quero para amanhã, se não, não quero mais. - S.M"

- Vê isso Mister Pontudo? - Balancei o recado na frente do meu totem que me olhava com curiosidade. - Coma essa merda.

O unicórnio mastigou o papel derrubando baba no chão e balindo de satisfação. Lavei meus dedos e o rosto na pia cheia de pratos, panelas e potes de doces de banana vazios, tentando desaparecer com o sono e aliviar a irritação da cobrança logo de manhã.

- Esses políticos sempre mimando seus filhos, - Reclamei, passando o espanador nas minhas criações de madeira, eram objetos sagrados para mim. - Eles esquecem que tenho que cortar a árvore certa, trazê-la para minha oficina, picá-la com cuidado, trabalhá-la com amor e depois dar molde a minha arte.

Mister Pontudo eriçou os pelos arroxeados quando a poeira caiu sobre sua a cabeça, bateu seu chifre azul-pérola e seus cascos rosa na minha perna grossa e peluda em reprovação, e começou a morder um pedaço de acrílico jogado no chão. Eu havia tentado migrar para essa nova tecnologia, mas confesso que não consegui, mexer com madeira era a minha essência.

Passei pela minha obra prima, que ocupava a maior parte da cabana, fazendo uma pequena reverencia com lágrimas caindo pelo meu rosto redondo e barbudo. Era minha perfeição, todo o talento que tinha estava nessa escultura. Acredito que os primeiros magos de Teran sentiram o mesmo que eu quando aprenderam a dobrar a vontade e a energia; completude e o extase.

Me senti muito mal desenterrando-a, mas era algo que eu tinha que fazer, ou iria enlouquecer. Ela estava em minha mente todos os dias, era demais para mim suportar a perda dEla. Gastei dias olhando para o corpo da garota para conseguir de forma rude e falha captar toda a beleza e perfeição da pobre menina. Me arrependo de ter violado tão celestial deusa. Usei a própria árvore que havia sido usada como arma para Seu suicídio, e ainda, depois fiz com o resto a minha segunda melhor criação de todas; um braço mágico para o irmão da minha amada.

Como me doía e me inspirava olhar para ela, parecia viva. Ah, se eu soubesse usar magia de inanimação, mas não possuía dom para isso.

Afiei o meu machado mágico do jeito antigo - usando pedras de diamantes, e coloquei meu monóculo, já fazia algum tempo que não enxergava direito e era a única coisa que conseguia comprar com as baixas vendas das artes em madeira. Melhor ter um olho do que nenhum.

Não havia perigo em andar pelas belas e mágicas florestas de Ligência, mas eu e o meu totem olhávamos com atenção para as árvores, pois em Teran a magia estava em todo canto. Mister Pontudo tinha o olfato impecável pra essas coisas e me ajudava a evitar de cortar uma casa sagrada ou um altar familiar por acidente. Eu não queria ser devorado por um clã de fadas ou ter alguma maldição familiar.

Caminhamos por mais de duas horas até que o meu unicórnio encontrou uma árvore. Ele estava meio estranho naquele dia, se assustando com qualquer barulho e com as patinhas tremendo mais que o habitual. Ainda lembro-me do dia que ganhei meu totem de felicidade e fofura, eu havia acabado de fazer uma escultura de madeira de minha falecida mãe tão boa que meu pai disse que se orgulhava de mim e foi quando conheci a Valentina. Eu tinha dez anos, muito precoce dizia meu pai para todos da nossa fabrica.

Eu encarei a árvore grande, larga e jovem, renderia muito bons bonecos e talvez alguns móveis novos. Estiquei o corpo e balancei o machado de um lado para o outro o encaixando perfeitamente nos calos das mãos.

- Afiar, Picar e Desmembrar. - Recitei olhando fixamente para o fio do machado que tomou uma coloração rosada. - Veloz e Cortante.

Levantei o machado segurando a respiração, desci-o acertando o primeiro golpe e "crack" fez o machado beijando a árvore. Sorri puxando-o e levantando-o novamente.

Um arrepio correu pela minha espinha e um suor gelado desceu em minhas costas me fazendo parar o movimento. Eu não havia percebido o quanto a floresta estava silenciosa, o que era anormal em Teran; a natureza era viva e intensa.

Olhei para o Mister Pontudo que estava com os olhos de íris-multicoloridas arregalados olhando em todas as direções e com o rabinho entre as pernas, isso começava a me assustar. Os unicórnios não são conhecidos por serem os totens mais corajosos, mas Mister Pontudo estava tremendo e choramingando, o que me fazia querer ir embora.

- Pare com isso seu covarde. - Ralhei, não sei se para ele ou para mim mesmo, preparando o outro golpe. - Não há nada de mal aqui.

Me concentrei e golpeei a árvore mais cinco vezes. Quando levantei os olhos percebi que a floresta estava escura; o que era estranho, pois estávamos no meio-dia e era o momento em que os sóis se uniam e deixava o mundo em tonalidades roxas claras.

Senti olhos em minhas costas, mas quando me virei não tinha ninguém. Não havia cantos de pássaros e nem tilintar de fadas. Engoli em seco.

Um desejo me veio sussurrado a mente. Eu queria sair correndo com o Mister Pontudo no colo e cair sobre ele para que o seu chifre perfurasse meu peito. Aproximei-me do meu totem pronto para fazer isso, mas me contive, me dando um tapa no rosto.

Olhei para os lados tendo a sensação de que as árvores estavam mais próximas de mim, mais distorcidas, mais vivas e mais malignas. Isso não era possível, árvores não faziam mal para magruxeiros.

- Mister Pontudo, vamos embora. - Sussurrei.

Guardei meu machado mágico na proteção e sai correndo. Ouvi um murmúrio e fiz a burrada de olhar para trás, uma árvore surgiu em minha frente, eu dei de cara derrubando meu machado e meu monóculo, senti o gosto de ferro na boca e sangue escorrer do nariz, mas não iria gastar tempo procurando coisas ou me preocupando com machucados, eu precisava correr.

Eu ouvia um choramingo por perto, mas não iria cometer o erro de olhar para trás novamente. Corri descontroladamente. Galhos surgiam e cortavam meu rosto. Parecia que as raízes estavam tentando me derrubar, era loucura, a natureza não fazia mal aos magruxeiros. A névoa ficava cada vez mais espessa e rígida. Isso não era possível, na verdade era, mas não era natural ou fácil de se fazer.

Mister Pontudo baliu, saiu em disparada e desapareceu. Eu estava tão amedrontado que minha voz não saía e sentia algo quente escorrer pelas minhas pernas. Isso não era possível negava minha mente.

O ar faltava em meus pulmões, correr não era para pessoas gordas e grandes como eu. Parei pra descansar com meu coração batendo em meus ouvidos. Sentia vontade chorar, mas engoli o choro quando ouvi um choramingo muito perto de mim. Era um sussurro triste e melancólico, um lamento.

- Qu... - Comecei.

Não terminei a pergunta, pois minha voz falhou quando ouvi o som de madeira rangendo, era um barulho conhecido quando se era lenhador, uma árvore se quebrando aos poucos. O som estava bem perto de mim, assim como o choramingo que aumentava a cada passo.

Se eu tivesse com meu machado poderia recitar algum feitiço, mas sem ele não conseguia fazer nada. Um magruxeiro precisa do seu canalizador.

Meu coração batia cada vez mais forte e minhas pernas não funcionavam mais.

O ranger aumentava e a neblina estava subindo pelo meu corpo parrudo. Um galho apareceu em minha frente e o meu mundo congelou. De alguma forma aquele galho me parecia familiar, era mais que um simples galho, era uma mão jovem e pálida.

Ao fundo eu ouvia o choramingo aumentar. Uma voz fina de criança com um tom de velho sussurrou.

- Meu senhor vais fazer isso? - Choramingava. - O senhor não precisa?

A ponta do galho se contorceu como dedos se aproximando do meu rosto. Eu não tinha reação, mas eu conhecia aquela mão. O galho seco foi para trás e cravou em meus olhos, gritei alto e uma árvore tombou e... Senti um frio intenso e depois nada.

Capítulo 3 O Investigador Ambicioso

Acordei em um pulo. O coração batendo tão forte contra minha caixa torácica que pensei que estava tendo um infarto no miocárdio. Assim que não percebi outros sintomas, me livrei dos lençóis de pelos de unicórnio-ovelha que estava grudado ao corpo, e concluí precipitadamente que havia sido apenas uma forma do meu cérebro me acordar, ativando hormônios de adrenalina e não um sonho profético.

No meu sonho uma sombra tomava toda Teran e perfurava as pessoas, não se importando entre culpados e inocentes, e eu só olhava inútil e sem valor. Da mesma forma que me senti quando os meus seis irmãos me amarraram e me jogaram na floresta para morrer; eu era só um pueril de 12 anos.

Sacudi a cabeça e ignorei o pesadelo junto com as lembranças, da mesma forma que ignorava todos abaixo de mim.

A minha bola de cristal tocava em algum lugar do meu suntuoso e circular quarto. As paredes eram feitas em quartzo e o telhado abobado banhado em ouro. Um capricho que recebi por resolver um caso bobo. A Rainha Elise foi morta em seu quarto super protegido, e, como era esperado por qualquer um com meio encéfalo, a Guarda Real não conseguiu achar o culpado, e de contragosto e por pedido dos Doze, me chamaram. Eu resolvi o crime assim que pisei no quarto, ela havia sido morta pelo próprio grifo, é algo raro de acontecer, mas há a possibilidade. E se há a possibilidade, pode e vai acontecer. Qualquer pessoa com o mínimo de inteligência e astúcia teria percebido todos os sinais que estavam estampados em todos os cantos. É claro que por essa incompetência da Guarda Real, eu ganhei fama e prestígio.

Me levantei da cama com uma enxaqueca e Gálio se agitava demais pulando sobre meus lençóis, por algum motivo seu brilho estava mais opaco do que o habitual, não era um bom presságio.

A senhora Guilordina havia preparado meu café da manhã de forma soberba, chá de folhas de Ents com pastéis de ovos de gansas de esmeraldas. Eu sempre agradecia aos Doze por ela existir e saber exatamente como gosto das coisas nos mínimos detalhes, e ter um Ent que produz os melhores chás de toda Teran.

- Gálio, poderia, por favor, silenciar essa sirene supérflua que insiste em soar e piorar minha enxaqueca?

Meu totem obedientemente cobriu a bola de cristal com uma capa preta com bordas prateadas que eu usava em ocasiões reais acabando com a balbúrdia.

Por ser uma fada Gálio me era muito útil, tanto na vida pessoal quanto em meu trabalho, o seu poder de sentir quando as pessoas mentiam me ajudava muito a me destacar dos medíocres. Não se deixe enganar pelos seus trinta centímetros e musculatura similar a uma mandioca fina, ele era tão esperto e sábio quanto qualquer bom dragão. Não era para menos, era meu totem. Eu o consegui no mesmo dia em que tive minha epifania suprema, quando deixei de sentir pena de mim e comecei a ter pena dos outros por não chegarem aos meus pés. Na floresta cercado por quimera-bestas e com os sorrisos dos meus irmãos felizes com a minha morte, das minhas lagrimas Gálio surgiu brilhante e juntos rumamos ao sucesso.

Depois do desjejum me aproximei da bola de cristal para ver qual o motivo do incomodo matinal, eu estava sendo invocado em Espiral, o lugar mais importante de Teran. Coloquei meu terno feito sobre medidas e minha cartola preta, ambos repletos de sigilos de proteção, e meu anel de rubi em forma de flecha que me possibilitava canalizar minha magia e ser tão incrível.

O caso era simples, porém complicado ao ponto de me invocarem. Eu tinha que encontrar um assassino mefistofélico ou a causa de uma morte deveras anormal, de qualquer forma meu nome circularia por Teran por algum tempo e isso era um pequeno passo rumo à entrar para história do mundo e conseguir uma vaga para o Magistrado da Espiral, ou até entrar para os Doze. Essa situação me era muito favorecida e eu me sentia grato aos Doze por ela, bendita morte. Alguns têm que perder para outros ganharem, era assim que o ciclo funcionava, e eu não iria mudar isso se me valia.

Eu sabia que depois desse caso muito bebês teriam o nome de Conrado ou Gálio. Eu estaria mais alto que poderia chegar apenas resolvendo contendas entre camponeses e crimes menores, apesar de odiá-los contas tinham que serem pagas.

Era o meu novo momento. Uma fama maior que o caso da rainha Elise ou das crianças desaparecidas da Vila Luidomm, me aguardava.

***

A Espiral era a central de Teran, tudo que acontecia de importante era relatado aqui e quando mais se descia os degraus mais importância tinha e mais secreto era.

Por fora parecia ser uma grande árvore oca, porém assim que se dava o primeiro passo para dentro se percebia o quanto a magia era maravilhosa. Um grande salão repleto de pessoas e totens passando por todos os lados se revelava. Centenas de magruxeiros e seus fragmentos de alma resolvendo e criando problemas, incontáveis estátuas e artefatos mágicos e tecnomágicos, e além de portais para outros mundos, que apenas os Doze e alguns privilegiados podiam usar.

Pessoas comuns desciam os níveis da Espiral pelos degraus, mas eu caminhei até o elevador, que funcionava quando se doava um pouco de magia, e apertei o número vinte e um com largo sorriso no rosto. Gálio continuava opaco e quieto, e isso me dava arrepios. Um facho de luz varreu meu corpo e uma voz calma ecoou da madeira.

- Investigador Conrado, membro de elite e convidado de honra. Já é aguardado.

O elevador parou no penúltimo andar, a sala do Alto-Magistrado. O lugar era mal iluminado e com cheiro de tabaco e mijo, quando eu for o líder disso darei a classe merecida a tal lugar de poder . Assim que entrei encontrei o alto policial Lesmir, um senhor rabugento com altos bigodes, uma pança larga e um desejo inadequado por garotas jovens, e sua harpia Meguedera empoleirada na guarda de uma cadeira.

Ele me cumprimentou com um aceno de cabeça rígido. A inveja e a preocupação eram palpáveis, saboreei o momento com um largo sorriso.

Lesmir estava sentado ao lado do Líder do Ligência, o Alto Magistrado Sir Nicolaj Vargo, um jupiteriano decrépito de barba lilás e bom porte físico, era comentado que havia sido excluído dos Doze por seus abusos de poder e por maltratar seu totem, um kappa verruguento de nome Ismir.

Mas em minhas investigações descobri que quem o fez sair dos Doze foi o senhor Noar. Ele o acusou de um grave crime, mas não havia nenhum relatório e ninguém tocava no assunto. Eu ainda iria descobrir o que tinha acontecido e como isso se ligava a esse caso. Assim que conseguisse resolver esses mistérios, eu chegaria ao topo dos Doze e poderia até ser um bom candidato a Rainha Lim. Rei Conrado me soava muito bem.

Eu esperava que o Senhor Noar estivesse lá, sua família era complicada, mas era um homem poderoso e de cabeça boa, com as perguntas certas conseguiria resolver dois mistérios. Infelizmente o que me esperava era dois velhos corruptos e tão fracos quanto qualquer criança da escola de magia e tecnomagia. Isso era ridículo, homens fracos de inteligência e índole no poder do vilarejo mais poderoso de Teran.

- Olha quem chega, - Comentou o óbvio com um sorriso nada encantador o senhor Vargo. - Esse homem vai nos dar as respostas para essa atrocidade. - Ele apertou minha mão forte demais em uma tentativa fútil de tomar a liderança da situação. - Como vai Conrado?

Gálio cochichou em meus ouvidos a verdade do que Nikolaj Vargo quis dizer, ele não acreditava que eu poderia resolver esse caso e queria que isso fosse abafado o máximo possível, quem se importava com um lenhador que se machucou com uma árvore? Quem se importa com seres inferiores?

- Senhores, eu espero estar a altura de suas expectativas. - Saudei amavelmente, ser educado e cordial fazia parte do meu emprego, além de fingir modéstia. - Eu vou bem de acordo com as possibilidades.

Ismir todo trêmulo preparava um chá pra seu senhor, sua mão esquerda tinha marcas vermelhas e a única coisa que machucava a pele de um kappa era sal, deve ter sido castigado por alguma bobagem. Algumas pessoas são tão ruins que gostam de agredir seus próprios reflexos de alma. Repugnante em minha opinião, mas não era contra a lei, você faz o que quiser consigo mesmo.

- Tenho a plena certeza que seus conhecimentos serão de grande utilidade senhor Conrado. - Disse soltando minha mão. - Afinal, você é o grande detetive de Teran. - Continuou sorrindo para Lesmir.

Eu nem me dei o trabalho de corrigir que eu era um investigador e não um detetive, eu sabia que era só manobras para me abalar.

A pança do alto policial quase fez o botão de seu paletó disparar feito uma bala, se ele comesse mais um pouco isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. É repugnante homens de alto nível social serem tão desleixado com sua aparência e caráter. Alguns anos atrás Sir Nikolaj era considerado o melhor partido de Teran, mas depois que foi expulso dos Doze, virou uma carcaça de arrogância.

- Chega de elogios, eu vou agora mesmo para a floresta e começarei meu trabalho. - Cortei-os, pois sabia que se ficasse mais tempo iriam começar a despejar suas indiretas de poder para que se eu descobrisse algo de muito importante não revelasse para os Doze e para os outros representantes da Espiral. - Espero que todos os documentos e recursos me estejam disponíveis o mais rápido possível.

- Antes que me esqueça, a jovem da família Quillua, vai te ajudar. - Comentou Nicolaj enfiando a mãos em uma bandeja com azeitonas rosa. - Ela é a mais talentosa da academia e tem interesse de ser investigadora no futuro. - Um sorriso se formou no rosto redondo dele e Lesmir acenou com a cabeça concordando com algo que os dois tinham combinado.

- Eu terei que ser uma babá durante um caso de assassinato? - Respondi um pouco excedido, confesso.

- Calma, Conrado, - Apaziguou Lesmir. - Veja como uma chance de mentoreado, isso poderá ajudar você subir ainda mais, e outra, para ser sincero, eu acho que Pasxal estava cortando a árvore e ela caiu em cima dele, todos sabem que ele era dado ao vinho amargo.

- Vinho Amargo. - Repetiu Meguedera.

Encarei-os estupefato, eles estavam zombando de mim, sabiam que aceitava o que era dado e que sou ambicioso. Gálio me contava que eles estavam segurando o riso. Fiz uma reverência rígida e sai.

Para subir era necessário comer alguns tentáculos gosmentos sem reclamar, mas isso era temporário. Eu iria mostra a eles o que eu podia fazer e que os dias deles estavam contados.

***

Já fazia um tempo que eu não saia em campo e eu não me lembrava que a natureza fedia a esterco e era tão barulhenta. Atrás de mim seguia a garota Quillua, seu vestido rosado lhe dava uma aparência infantil e ingênua, mas em seus olhos roxos havia inteligência e sagacidade, ela habilmente escolheu botas de caça e estava com uma adaga presa em seu cinto sobre o vestido. Em seu peito pendia um cristal de memória, algo muito útil para uma aspirante a investigadora, mas de difícil manejo, um deslize dela e poderia acabar em coma, tendo sua mente sugada para o cristal. Era impressionante ver a coragem dela.

A cena do crime não me chocou tanto e pareceu não abalar a senhorita Quillua, que anotava tudo que via e gravava em um cristal de memória os detalhes que achava relevante.

O corpo do lenhador Pasxal estava repugnante, seus olhos foram furados e sua garganta amassada, além de terem cravado seu machado entre suas pernas, e ao seu lado havia cinzas de totem. Um tronco de madeira foi jogado sobre o corpo depois de morto. Por isso que os boatos estavam dizendo que foi um acidente, bando de tolos!

Gálio sobrevoou a cena e voltou ao meu ombro cochichando em meus ouvidos que sentia uma vibração de vingança, ódio e medo. Isso com toda certeza foi um assassinato e o culpado estava em Ligência. Mas quem mataria um lenhador dessa forma? Essa pergunta era a mais errada possível, mas fui perceber isso tarde demais.

- Quillua, você foi tão elogiada, o que acha disso? - Não duvidava da capacidade da garota, mas precisava de outros pontos de vista.

- É claro que isso tudo foi armado, - Ela apontava para cena com um olhar concentrado. - Esse tronco foi quebrado e não por causa de um corte, ele foi puxado do solo com raiz e tudo. - Disse a menina de cabelo safira, dando a volta no tronco e mostrando as raízes com terra presa. - E além do mais, dá pra ver que o lenhador foi atacado primeiro nos olhos e depois enforcado. - Ela apontou para as feridas. - Depois que o mataram colocaram o tronco para despistar.

Ela seguiu uma trilha de pegadas e voltou para perto do corpo encarando os pés do morto.

- Eu até poderia usar uma invocação pra fazê-lo voltar a vida temporariamente e fazê-lo falar, mas como a garganta foi destruída não daria em nada, mas o estranho não é isso, só tem um par de pegadas e elas se encaixam com os pés do lenhador e há muitos sulcos na terra como se raízes tivessem saído do chão. - Continuou a garota.

Sua criofênix Glacy saiu voando pela floresta, acreditei que devesse ser a primeira vez que ficava ao ar livre.

- Muito bem senhorita Quillua. - Elogiei tirando minha cartola. - O que disseram de você não são acréscimos banais.

O totem da garota voltou com algo brilhante no bico.

- Senhor Conrado, olhe, Glacy encontrou algo.

Ela me entregou um monóculo quebrado. Algo muito intrigante nesse ambiente e que destoava de tudo.

- Interessante, podemos descobrir quem era o dono disso com um simples feitiço. - Comentou a garota acariciando seu totem. - Muito bem Glacy.

- Totalmente desnecessário, - Corrigi-a. - O dono está na nossa frente. - Apontei para Paxcal. - Mas há valia nesse monóculo quebrado.

Esse caso estava se tornando interessante. Ele se ligava ao maior mistério da minha vida, eu tinha dois suspeitos, e mesmo que um estivesse morto, eu não podia tira-lo da lista. E eu estava certo.

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