Naquele momento, eu via tudo o que fiz de errado com Catarina. Cada lembrança, cada palavra dita com arrogância, cada olhar de desprezo... tudo se acumulava diante de mim como um espelho rachado da vida que destruí. Entendia, com uma clareza dolorosa, que fui um idiota completo - e que não haveria mais volta. Não teria outra chance de reconquistar minha mulher, minha família, minha própria casa. Era o fim, e eu estava assistindo à ruína com o corpo sangrando no chão.
Ela estava ali, concentrada, fria, metódica, preparando o material sobre uma mesa improvisada. O som metálico dos instrumentos ecoava pela sala - um clique seco, o arrastar de metal sobre metal - e cada ruído fazia o sangue latejar mais forte em minhas têmporas. Eu sentia o calor úmido escorrendo pelo meu peito, o cheiro ferroso do sangue enchendo o ar, pesado, sufocante. Doía respirar. O tiro que ela deu em meu pescoço por trás ainda queimava como se o projétil tivesse acabado de entrar. E mesmo assim, entre tontura e incredulidade, eu me perguntava quando aquilo começou.
Em que momento aquela mulher - a simples auxiliar de enfermagem que conheci há cinco anos, que ria das minhas piadas e dizia que eu era o amor da vida dela - começou a planejar a minha morte? Como deixei que as coisas chegassem até aqui?
Um pensamento me atravessou como uma lâmina e o pânico tomou conta de mim.
Ela era técnica em enfermagem agora, um pouco mais avançada que a auxiliar de quando nos casamos, mas por que diabos ela tinha todo aquele material cirúrgico? Um jogo inteiro de bisturis elétricos, pinças, sondas, lâminas esterilizadas! Aquilo não fazia sentido. Será que ela iria me picotar? Ela não deveria ter acesso a tudo aquilo. Eu tentei falar, mas a voz saiu falha, arrastada, e ela percebeu meu desespero.
Catarina me olhou e sorriu. Um sorriso calmo, perigoso, e, ironicamente, o mais bonito que já vi.
- Se acalme, marido. Tudo vai ficar bem. Quando você insinuou usar minhas saídas suspeitas para provar ao juiz que eu tenho um amante e deixava nossa filha com as babás pra me encontrar com ele escondido, você pensou em me perguntar o que eu fazia nesse tempo? Não? Mas eu vou te contar: eu fiz um curso de instrumentadora. E precisei fazer estágios para me certificar. Porque foi escondido? Porque quando nos casamos você me obrigou a parar de trabalhar, e disse que era humilhante um CEO importante como você ter como esposa uma simples atendente de postinho de saúde! Agora, minha pequena desobediência vai te servir! Vou tirar essa bala alojada aí, não queremos que isso infeccione e que você morra, não é?
A cada palavra, minha respiração se tornava mais curta. O som do coração parecia ecoar dentro da cabeça, irregular, apressado.
- Você é instrumentadora? O que isso quer dizer? A mulher que fica entregando bisturi e pinças para o cirurgião? Você pensa pequeno, Catarina! Se ia fazer um curso escondido, deveria pelo menos ter feito medicina. Eu ia te respeitar mais.
Ela soltou uma risada breve, sem humor, o tipo de riso que precede o caos.
- Não estou procurando seu respeito, marido. Não mais! Fiz o curso para não enlouquecer de tédio, procurando encaixar na minha vida sem graça, alguma coisa que me fizesse bem além de ser mãe, enquanto você vivia sua vida de solteiro, regada a luxo, bebidas e prostitutas. Foi como uma realização pessoal, não foi para você!
Aquela mulher - minha mulher - falava com tanta serenidade que o ódio parecia ter se transformado em algo pior: uma espécie de paz insana.
- Porque é disso que se trata! Você também é uma prostituta, que eu paguei muito caro!
As palavras saíram emboladas, cuspidas entre o gosto de sangue e conhaque que me subia à garganta. Eu sentia as forças me abandonando. As bordas da visão escureciam, e o rosto dela, iluminado pela luz amarelada do abajur, parecia o de uma santa cruel, quase angelical.
Catarina se aproximou devagar, a sombra dela se projetando sobre mim.
- Shiiii, não fale, querido. Poupe suas energias. O processo agora vai ser complicado. Como instrumentadora, eu posso ter um kit cirúrgico para estudo e treinamento, mas o meu certificado só vai até aí. Não posso, por exemplo, ter acesso a anestésicos ou drogas para cirurgia, nem acesso a pele humana para treinamento. Então, vamos fazer igual nos filmes do velho oeste, tá bom? Toma um pouquinho desse conhaque pra suportar e vamos começar!
Ela falava com uma leveza absurda, cantarolando enquanto se preparava. A melodia era sertaneja, uma daquelas que ela ouvia quando limpava a casa, e que eu sempre mandei ela abaixar porque me irritava. Agora, o som parecia grotesco, quase macabro.
Catarina se aproximou, me segurou pelo queixo com delicadeza - uma delicadeza que doía mais do que o ferimento - e despejou o conhaque goela abaixo. O líquido queimou tudo por dentro, e o mundo girou.
Ao som da voz melodiosa dela cantando:
"De cê ter traído, de cê ter mentido, de cê ser um bostaaaa..."
ela enfiou o dedo no buraco aberto no meu pescoço, sem anestesia, sem piedade, procurando a bala. A dor foi indescritível - um clarão branco atravessou minha mente e tudo se dissolveu num grito mudo.
Antes de desmaiar, a última coisa que ouvi foi a voz dela, doce e afinada, cantarolando:
"então mente aí, que a culpa é nossa..."
E o silêncio me engoliu por completo.
Yuki Narrando
Eu tinha 19 anos e era um rapaz muito introspectivo, fechado em meu mundo. Segundo ano da faculdade, era criado e treinado para assumir o lugar dos meus pais nas empresas. O meu universo era pequeno e rígido como um templo: estudo, responsabilidade, caminho traçado. A solidão disso tudo vinha embrulhada em protocolos e expectativas.
Faz 15 anos que estávamos no Brasil, mas fui criado na cultura japonesa. Meus pais saíram de Tóquio comigo pequeno, e a educação que recebi veio com a severidade do Japão - regras, horários, silêncio nos momentos certos, respeito como dever. Montaram uma empresa de produtos alimentícios aqui e, quinze anos depois, era uma potência. Eu já falava japonês, inglês, coreano, árabe, francês e português, claro - línguas como ferramentas afiadas para abrir portas que meu coração ainda não sabia atravessar.
Sempre gostei da cultura brasileira; havia nela um calor, um caos, uma musicalidade que me atraía. Queria que meus pais entendessem: estávamos no Brasil e as coisas aqui eram diferentes do que se ensinava em Tóquio. Mas não - eu não tinha permissão para ir a festas, para um happy hour depois da faculdade, para beber com amigos. Não tinha permissão nem para ter amigos brasileiros. Tudo era observado, regulado, pensado como parte de um grande plano.
O intuito era claro: me preparar para passar a direção da empresa quando eu terminasse a faculdade. Tudo estava milimetricamente planejado pra eu estar pronto quando o momento chegasse. A tradição dos Mamioto no Japão é simples e implacável: cria uma empresa gigantesca, trabalha duro para ela crescer cada vez mais e cria o filho no rigor, para quando ele se formar assumir o lugar na direção e sustentar os pais na velhice. Era a honra da linhagem, o preço do nome.
- Entenda Yuki: brasileiro não tem visão de futuro. Eles gastam tudo o que ganham com festas, bebidas e mulheres, depois pedem dinheiro emprestado aos bancos e pagam juros abusivos, para terem mais para gastar com festas e bebidas! Esse povo tem o pensamento pequeno e não são companhia para você!
A voz do meu pai ainda reverbera na minha cabeça como um mantra que me domestica e me empurra para dentro. Eu me perguntava, às vezes com raiva contida, às vezes com uma dor surda no peito, como alguém poderia desprezar tanto o lugar onde vivia e ao mesmo tempo, tão friamente, calcular cada passo da minha vida.
- Papa, se você despreza tanto o brasileiro, porque resolveu vir montar sua empresa aqui? - disparei uma vez, quebrando o silêncio ritual.
- Porque só tem uma coisa que brasileiro gosta mais do que promiscuidade e bebida alcoólica, Yuki. Comida! Esse povo barulhento tem como sinônimo de diversão, reunir os cinco ou mais filhos que cada família costuma ter, com suas esposas e maridos e a renca de netos em volta da mesa! Preparam vários pratos diferentes, comida para um batalhão, sempre um não gosta disso, o outro não gosta daquilo, acabam consumindo álcool, discutindo, as vezes sai até pancadaria, até a Mama da família colocar a sobremesa na mesa e a paz reina! E quanto mais pobre, mais qualidade exige nos produtos que vai usar. Com o investimento certo e o uso dos incentivos fiscais, tudo que você produzir neste país que é de comer, vende!
Era uma explicação prática, quase pragmática - um mapa de oportunidade. Para ele, o Brasil era um mercado de abundância, um terreno fértil onde tradição japonesa e empreendedorismo podiam se encontrar. Para mim, era um campo de contradições: o orgulho da empresa e a negação do povo que a consumia.
Assim foi minha criação. Aprendi que eu era superior aos brasileiros, que não tinham visão de futuro. Nossa empresa tinha incentivos fiscais por conta da geração de empregos no país; tínhamos fábricas em todas as regiões, várias distribuidoras. Em cada cidade desse imenso país, a gente tinha nossos produtos. De cada dez famílias, pelo menos oito consumiam nossa marca; pela qualidade, estávamos exportando como empresa brasileira. E mesmo assim, meus pais consideravam o brasileiro a ralé. Uma contradição que me acompanhou como sombra - orgulho pelo legado e envergonhado por amar o lugar que nos mantinha grandes.
Na faculdade, alguns colegas começaram a me provocar. Me chamavam de nerd, filhinho de papai. Havia um rapaz, filho de japoneses também, que um dia me disse uma coisa que me fez pensar diferente:
- Quando a gente era menor de idade e estudava no colégio, nossos pais conseguiam nos controlar totalmente! Eu sentia que até meus pensamentos eram controlados por eles! Mas agora estamos na faculdade, somos considerados adultos. Se você desmanchar a cara amarrada, sorrir, flertar com umas gatas, dar uns beijos no intervalo, ninguém vai correndo contar para seus pais. Você não vai para a diretoria, aguardar seu pai vir te buscar!
Aquele conselho parecia uma chave. Aos poucos, comecei a me soltar. Nos tornamos amigos e eu comecei a ver a vida com uma lente mais leve. Ri mais, fui me enturmando, ficando mais bem-humorado. Senti uma liberdade miúda que me aquecia por dentro, um sopro de vida que cedo ou tarde me faria tropeçar.
O dia em que tudo mudou foi banal: avisaram que o prédio não poderia prestar atendimento, então não haveria aulas. O pessoal combinou de irem em um clube privê. Lembrei do meu amigo me dizendo que ninguém mandaria uma notificação para o meu pai avisando que não haveria aulas. Foi fácil sucumbir ao calor crescente do grupo e fui com eles.
Naquela festa - e não quero romantizar, só descrever o acontecido - perdi minha virgindade com uma morena de cabelo liso até a bunda. Lindíssima. A sensação foi simultaneamente libertadora e punidora. Peguei o contato dela, e comecei a procurá-la fora da vista do mundo, contratando seus serviços sempre que podia. Menino bobo, cabação - acabei me apaixonando. E foi a primeira vez que desafiei meu pai - e apanhei na cara. Ele fez a moça desaparecer, passou a controlar meus gastos com uma mão de ferro e me sobrecarregou no escritório. Aquilo me sufocou.
Eu não conseguia nem respirar com tudo o que tinha que fazer. Não tinha permissão para gastar absolutamente nada que ele não autorizasse com antecedência, nem de falar com ele levantando a cabeça.
- Você vai virar um homem, Yuki! Vai conhecer uma boa moça para se casar e eu vou ter que aprovar! Quando você tiver casado, formado, consolidado na vida, vou saber que cumpri minha obrigação! Volto para minha casa e deixo você fazer o que quiser, e vou saber que vai tomar as melhores decisões, porque não estou permitindo tomar decisões vazias agora, sem pensar no futuro!
As palavras vinham empilhadas, firmes como tijolos. E eu, naquele momento, era só um operário construindo o que dele se esperava.
Assim eu passei todos os anos finais da faculdade: pressa, censura, vontade reprimida. Quando me formei, quis começar a procurar minha esposa logo. Imaginava despachar meu pai pro Japão, respirar, viver, deixar de ser o robô que me moldaram. Mas não foi simples. Ele também não permitiu - por muito tempo. Foram três anos viajando, assinando contratos, adiando minha liberdade como quem adia um pagamento.
Quando resolvi me fixar no escritório, percebi um problema estrutural que nossa empresa tinha. Fui apontar uma solução e abrir uma porta.
- Pai, a lei no Brasil agora, é que cada contratação ou demissão de funcionários, tenha um exame físico.
- Eu sei, pra garantir que o funcionário tenha capacidade laboral ou que, ao ser demitido, não tenha adquirido doenças laborais. Estamos cumprindo essa exigência, não sei porque você está falando disso.
- Estou falando, papai, porque não é inteligente nem econômico a gente pagar uma clínica pra fazer esses exames pra gente! Temos um grande fluxo de funcionários em nossas empresas. Então, eu sugiro termos nossa própria clínica.
- Você acha que vale a pena?
- Muito, papai. Isso é gerir bem nossos recursos.
- Manter uma clínica só pra fazer exames admissionais e demissionais? Isso não seria dispendioso?
- Não se usarmos esse recurso para reduzir o absenteísmo também!
- Não entendi isso!
- Pai, eu estudei e vi modelos por todo o mundo. E sei que funciona. Nós montamos nossa clínica, só nas capitais, onde tem maior fluxo de colaboradores e também de absenteísmo. Por ter nossa própria clínica, não precisamos fornecer planos de saúde para os funcionários, mas entra como benefício, que podemos descontar uma pequena parcela mensal deles. O montante desses descontos é que vai pagar a manutenção da clínica e os profissionais.
- E os que não quiserem aderir?
- Não tem problema, não é obrigatório. Mas não aceitamos atestados e declarações de horas que não forem emergências.
- Entendi. Assim, os funcionários que vão atrás de atestados na segunda-feira por conta de ressaca ou preguiça, vão deixar de faltar!
- E os que acordam atrasados e vão para os postos de saúde atrás de declaração de horas também.
- Isso é legal? Não vamos ter problemas com a justiça trabalhista?
- De forma nenhuma! Vamos ter até mais alguns incentivos. Assistência médica para todos os funcionários, desde o chão da fábrica até os executivos, é uma ação pioneira e humanitária. Vai desafogar os postos de saúde e hospitais para atendimento da população que realmente precisa. E nossos funcionários que tiverem realmente necessidade de atendimento, nossa clínica vai encaminhar. Esses atestados não podemos evitar. Mas sabemos que pagamos o justo!
- Então mete bala.
O "mete bala" do meu pai ecoou curto e decisivo. Levei oito meses para estruturar tudo: planejar a obra, calcular gastos, desenhar escala de pessoal, prever os fluxos. Foi um trabalho árduo, prazeroso por ser meu e por finalmente me permitir tomar decisões. Quando a estrutura ficou pronta, chegou o momento de começar a contratar. Já tinha dois médicos clínicos gerais para a equipe de São Paulo, nossa primeira clínica. Iríamos trabalhar essa unidade e, dependendo dos resultados, replicar nas outras capitais.
Passei dias entrevistando enfermeiros e auxiliares ao lado dos médicos. Estava cansado e um tanto entediado, repetindo perguntas, avaliando currículos, um processo mecânico que eu conduzi pela primeira vez com autonomia. Até que, finalmente, ela entrou.
A loira linda e sorridente que veio para a entrevista estava visivelmente nervosa. Havia tremor nas mãos, o rosto corado, mas nos olhos havia uma candura que me pegou desprevenido. Era um detalhe pequeno - a maneira como ela guardava o cabelo atrás da orelha - que, naquele instante, fez meu mundo corporativo vacilar. Não esperava sentir nada; ainda assim, sentir foi inevitável. E ali, naquele escritório iluminado por lâmpadas frias e pilhas de papéis, uma nova história começava a apontar para mim, imprevisível, humana e difícil de controlar.
Narrado por Celina
Eu estava um trapo de nervos. O coração batendo tão rápido que parecia querer saltar pela boca. Seria a minha estreia na área da saúde - e, pra completar, seria em grande estilo! Eu já tinha passado por todas as fases do processo seletivo, mas ainda faltava a parte mais temida: a entrevista com o chefão.
E pra quê? Até hoje eu não entendia. Aquele homem nem era da saúde! Era só um riquinho metido que tinha herdado o negócio da família e chegado cheio de ideias mirabolantes pra "modernizar" tudo.
O que um sujeito desses poderia entender de exames, curativos, pacientes e plantões pra se meter a entrevistar quem iria atender na clínica?
A verdade é que eu sempre fui assim: desconfiada de riquinhos. Talvez por ter nascido onde nasci, crescido como cresci. Na minha casa, a gente aprendeu desde cedo que se não fosse no suor, não vinha.
Minha mãe era faxineira terceirizada em hospitais, vivia com as mãos rachadas de produto de limpeza. Meu pai, motorista de transportadora, passava mais tempo na estrada do que em casa. Eu era a segunda de oito irmãos - e, olha, ser a segunda de oito é uma posição ingrata: você não é a mais velha, pra mandar, nem a caçula, pra ser mimada. É só quem sobra pra ajudar em tudo.
Meu irmão mais velho, o Aiden, serviu o exército e acabou seguindo carreira militar - orgulho dos meus pais, o exemplo que vivia pairando sobre todos nós. Eu tinha acabado de terminar o ensino médio e me enfiado no curso técnico de auxiliar de enfermagem. Desde pequena, vendo minha mãe chegando exausta de hospital, sempre me fascinava com aquele universo.
Sonhava ser médica, claro. Mas eu sabia que uma faculdade era um sonho distante. Enquanto morasse com meus pais, não tinha como.
Pra bancar o curso, fiz jovem aprendiz no McDonald's. Experiência que eu não recomendo nem pro meu pior inimigo. Muito trabalho, muita humilhação, salário miserável - e, mesmo assim, metade do que eu ganhava ia pra ajudar em casa.
Aiden, com dezoito, e Lorena, com dezessete, também trabalhavam e contribuíam com o que podiam. Os quatro menores ficavam responsáveis por manter a casa de pé: lavar, cozinhar e arrumar.
Era uma bagunça, mas uma bagunça cheia de amor. A gente brigava o tempo todo - principalmente nós, as cinco meninas que dividíamos o mesmo quarto. Era guerra por roupa, creme, escova de cabelo... mas no fim, sempre nos entendíamos.
Quando surgiu o boato de que a Mamioto Inc. estava abrindo vagas, foi um alvoroço. Até minha professora me olhou com pena quando comentei:
- Nem tente, Celina! O processo seletivo deles é rigoroso. O senhor Mamioto acabou de montar a clínica, tudo novinho, de ponta. Eles não vão querer uma auxiliar recém-formada mexendo nos equipamentos.
Aquilo me desanimou, confesso. Mas eu tinha uma aliada incondicional: minha mãe.
Ela sempre foi minha melhor amiga - e minha voz da razão. Vivia dizendo que eu era uma boba romântica, que via o mundo cor-de-rosa. E eu? Eu achava que ela tinha razão em partes. Eu realmente acreditava que tudo podia melhorar, que as coisas boas vinham pra quem não desistia.
Esperei ela chegar de um plantão puxado num domingo pra conversar:
- Você também acha que eu não deveria tentar, mamãe?
Ela tirou os sapatos, soltou um suspiro e me olhou com aquele jeito sereno dela.
- Desde quando a palavra "desisto" existe no nosso vocabulário, Celina? - perguntou, me encarando com um sorriso cansado. - Você sempre diz que eu devia ter parado no Aiden, mas seu pai queria mais um menino. Veio menina atrás de menina e eu não desisti até vir o Miguel. Eu não desisto, seu pai não desiste, seu irmão Paulo nunca desistiu. Por que você vai desistir de algo que deseja, sem nem tentar?
Fiquei em silêncio, mordendo o lábio.
- Dizem que eles não vão aceitar ninguém sem experiência, mãe.
- Bobagem. Empresários internacionais têm uma cabeça diferente. Sabem que esse papo de "sem experiência" é um erro. Como alguém vai adquirir experiência se ninguém dá oportunidade? Um bom CEO prefere moldar um funcionário do zero, sem vícios.
- Mas eu sou da área da saúde, mãe. O que aquele engomadinho dos computadores pode moldar na minha profissão?
Ela arqueou a sobrancelha.
- Celina, para com essa implicância com administradores. Sempre vai haver um grande CEO que paga seu salário, em qualquer profissão.
Revirei os olhos.
- Eu não gosto de filhinho de papai, mãe. Você sabe. Esses boyzinhos afeminados, acostumados a ter tudo na mão, me irritam. E me irrita mais ainda saber que um playboy que herdou a empresa pode decidir o meu futuro.
Ela me deu aquele olhar que já dizia tudo.
- Olha o preconceito, menina. Isso é feio pra qualquer um. Eu sempre te ensinei que existem pessoas boas e ruins de toda cor e classe. Os japoneses, por exemplo, são mais reservados, mas isso não os torna ruins. Faz o seguinte: se inscreve, dá o seu melhor e pronto. E, se chegar até a entrevista, pensa que é só uma vez. Você acha mesmo que um homem desse nível vai ficar checando o seu serviço?
Ela sempre sabia o que dizer. E, no fim, estava certa. Que idiotice seria desistir de uma das melhores vagas do mercado sem nem tentar!
No final do segundo semestre, os rumores aumentaram. A Mamioto estava mesmo implementando clínicas próprias pros funcionários - um modelo que só as grandes empresas públicas usavam.
Enquanto meus colegas torciam o nariz, eu comecei a me empolgar.
- Você é louca, Celina! - dizia uma colega. - Sair de hospital pra atender operário com dor de barriga e virose? Nunca!
Mas eu pensava diferente: se todo mundo achava ruim, minhas chances aumentavam. Pior que isso só seria trabalhar em clínica de repouso, trocando fralda de idoso e colocando dentadura de molho.
Quando meu nome saiu na lista de aprovados para as últimas fases, quase desmaiei. Tinha terminado o curso fazia um mês, o Coren ainda nem tinha chegado, e lá estava eu - convocada para a entrevista final com o tal senhor Yuki Mamioto.
No dia marcado, acordei antes do sol, preparei o cabelo, passei o batom mais discreto que tinha e vesti minha roupa mais "profissional".
O coração parecia uma escola de samba. Lembrava das palavras da minha mãe repetidas como um mantra: "Engole o preconceito com administradores, Celina."
Mas, sinceramente, eu não sabia se conseguiria. O "administrador" em questão não era apenas um playboy que ganhou uma empresa para brincar de chefe. Era também um asiático - e, na minha cabeça de menina ignorante e cheia de pré-conceitos, o povo mais fechado, sério e mal-humorado do planeta.
Tudo isso mudou no exato instante em que entrei naquela sala.
O ar pareceu desaparecer. Ele estava ali, sentado atrás de uma mesa de madeira escura, com um laptop à frente e o olhar fixo em mim. Devia ter uns dez anos a mais do que eu, no máximo.
Sério. Bonito demais.
A boca carnuda, o cabelo perfeitamente cortado com uma mecha rebelde caindo sobre a testa, e os músculos desenhando o tecido da camisa clara.
O tipo de homem que não precisava dizer nada pra te deixar sem ar.
Eu juro... juro que molhei as calcinhas.