ISABELLE
Caminhei apreensiva em direção à uma agência de empregos perto da
minha casa. Após me deparar com "aquele" anúncio online, precisava ver
com meus próprios olhos se era "tudo aquilo".
Há alguns dias, pesquisando sobre ofertas de trabalho na internet, me
deparei com uma vaga em aberto um tanto inacreditável, já que o salário era
no mínimo cinco vezes maior que o normal. Após preencher meus dados,
cerca de uma hora depois recebi uma ligação marcando minha entrevista para
hoje.
Ser mãe solo em Miami é complicado. Os gastos são extensivos, e
como tenho filha e mãe para auxiliar, acabo ficando sobrecarregada em várias
ocasiões.
Meu sonho sempre fora cursar a faculdade de arquitetura, mas como fui
mãe bem nova - e o pai de Hanna nos abandonou -, acabei por passar
dificuldades em minha vida, deixando esse sonho para mais tarde. Sempre fui
uma mulher sonhadora e batalhadora, só que no momento as batalhas estão
vindo em primeiro lugar, e como minha filha é prioridade, abdiquei de algo
que tanto almejo para focar em educá-la, para que ela cresça com condições
de se tornar uma mulher independente.
Já estava no saguão do pequeno escritório esperando ser anunciada.
Havia ligado antes para obter algumas informações, porém quase nenhuma
foi passada a mim.
Estou desempregada, e isso já basta para ter que me reinventar e
procurar empregos aleatórios pela cidade, só que após colocar meus olhos
nessa oferta de emprego fiquei tentada a descobrir mais sobre o trabalho.
Após ser anunciada adentrei ao local a passos largos. Uma senhora de
cabelos grisalhos e óculos vermelhos estava sentada analisando alguns
papéis. Depois que se deu conta da minha presença, me olhou de cima a
baixo, fazendo sinal para me sentar. Esbocei um sorriso breve, sentando na
cadeira logo depois.
- Isabelle Campbell... - Pegou um dos papéis. - Meu nome é
Helena. Vejo que está interessada no cargo.
- Sim. Muito.
Meu breve diálogo no telefone foi a respeito disso, mas não houve
muitos detalhes, até porque não havia conversado diretamente com Helena.
- Bem, o emprego se trata de ficar responsável por uma casa e por
quem está nela, se for resumir os fatos. Sei que por telefone minha assistente
não lhe passou tudo, então, estou aqui para esclarecer suas dúvidas.
- O que realmente preciso fazer?
- Aceitando o trabalho oferecido, você será a governanta de uma casa,
por assim dizer. Como Colin gosta dizer, você será a faz tudo. Literalmente
tudo, tirando preparar o almoço dele e o jantar. E quanto antes começar,
melhor.
Por que ela fala como se o emprego já estivesse sendo direcionado
para mim?
- Você não fará nenhuma entrevista? Nem me conhece direito, e...
- Isabelle Campbell... - Me interrompeu, e novamente pegou o papel
no qual leu meu nome segundos atrás. - 23 anos de idade, mãe solo. Mora
na Collins Avenue, número 6784. Trabalhou em um restaurante chamado
Garby's por um ano, logo após o fechamento do mesmo, trabalhou como
babá para a família Rogers, e após essa família se mudar da cidade, ficou
desempregada por três meses, e... - Voltou sua atenção para mim. - ...está
sentada em minha frente neste exato momento.
Como essa mulher sabe todas essas informações?
- Estou confusa. Não passei nenhum dado meu, somente meu nome e
sobrenome, como pode saber tanto?
- Meu bem, acho que não sabe a que vaga de emprego está se
dispondo, então, vou lhe ajudar. - Me olhou intensamente, com seus olhos
castanho-claros. - Para o salário que foi ofertado a pessoa tem que ser de
confiança.
- Você tem os meus dados, só que não sabe essa informação -
retruquei.
- Se enganou novamente! - Um sorrisinho satisfatório brotou em sua
face. - Liguei para o dono da lanchonete onde trabalhou, e também para a
família Rogers. Você foi bem indicada. Sei tudo da sua vida, meu bem.
Analisei meticulosamente por alguns segundos aquela mulher que me
intrigava. Eu me sentia espionada de certa forma, e por dentro experimentava
um misto de divertimento e surpresa.
- Você fala como se eu já estivesse contratada.
- Basicamente. É só dizer sim. - Cruzou os braços e sorriu.
Que coisa estranha...
Nunca vi um salário tão alto com uma entrevista tão fácil. Na realidade
estou querendo fazer vários questionamentos, mas estou com medo de piorar
algo que parece estar certo. Essa conversa está muito estranha.
Se é que posso chamar de conversa uma entrevista assim.
- Por que está tão fácil, me diz?
- Farei uma analogia: é fácil porque se torna difícil. Simples assim.
Ninguém consegue a proeza de permanecer nesse emprego, e espero estar
errada sobre você.
- Preciso saber de algo pessoal da vida desse tal Colin?
Sua face mudou bruscamente. Me espantei, já que ela começou a me
olhar ternamente.
- Sim. - Seus olhos ficaram um pouco tristes. - Ele perdeu a esposa
e a filha em um acidente de carro há cerca de um ano.
- Meu Deus! - Arregalei os olhos, surpresa com a intensidade das
palavras.
- Colin não fala sobre o que houve e se fechou após esse acidente. Ele
sempre foi um homem sério, carismático e centrado, mas agora parece que a
parte boa dele se foi, e nada em sua vida faz sentido, exceto...
- Exceto...? - Me interessei.
- Joshua, seu filho. Ele será uma de suas responsabilidades se aceitar
o trabalho.
- Entendo.
- Ainda assim, Colin se distanciou dele. Não tente entendê-lo,
Isabelle. - Parou por um breve momento, olhando para o nada e respirando
fundo. - Uma regra: não pergunte sobre o seu passado. Se quiser manter o
emprego tente ao máximo ignorar Colin. Nenhuma das dez mulheres que
contratei duraram no mínimo 1 mês o auxiliando. Me falaram muito bem de
você, é por isso que estou confiando que será diferente das demais, só preciso
que não faça nenhuma bobeira. Colin te demitiria somente por olhar torto em
sua direção, e estou cansada de tentar encontrar pessoas para esse trabalho.
- Por qual motivo se preocupa tanto com ele? - indaguei, sabendo
que ela não parecia uma simples mulher que trabalhava em uma agência de
empregos. O jeito que ela fala desse homem é diferente e me chama a
atenção. Não tenho dúvidas disso.
- Ele é meu amigo. Era. Não sei bem como falar isso agora. -
Baixou os olhos. - Eu e meu marido tivemos uma amizade muito bonita
com Colin e Jeniffer, sua falecida esposa. Depois que ele a perdeu... tudo
mudou, e o único contato que temos um com o outro é esse: procurar
mulheres para tomar conta de sua mansão.
- Entendo.
Alguns segundos de silêncio preencheram o pequeno ambiente, e notei
pela primeira vez desconforto por parte dela. Continuei um pouco apreensiva,
já que não imaginava a nossa conversa se desenrolando dessa maneira.
- Vamos aos fatos. - Juntou as mãos e focou em mim novamente. -
Em suma, Colin será insensível, sem educação, mal humorado, perverso,
mesquinho e outros "lindos adjetivos" que esqueci. - Parou, repensando
algo. - Um tirano, meu bem. Não... isso é pouco.
Olhei desconfiada para Helena, que fazia extremamente o contrário do
que pensara depois de tudo que ouvi. Em vez de enaltecer as qualidades do
seu suposto amigo, ela se dava ao luxo de fazer exatamente o contrário.
- Isso é um incentivo?
- Estou sendo realista. Colin é um homem infeliz, que não liga para
quase mais nada na vida. E, acredite ou não, ele próprio me disse para
especificar suas "qualidades" para alguém que pleiteasse a vaga. Pelo menos
Colin é um homem sincero, e tem noção de que é insuportável.
Estava interessada e um pouco retraída. Saber disso tudo é estranho,
pensei que fosse uma vaga normal, mas pelo visto de normal não tem nada, a
começar pelo salário que é cinco vezes superior ao que é pago no mercado.
Será que isso tudo é para suportar sua chatice e afins?
Não pode ser somente isso...
- Não é possível que ele seja tão insuportável. - Afirmei com
cuidado, e ela se inclinou sorrindo.
- Digamos que o demônio veio passear na Terra, e resolveu se
estabelecer por aqui. Esse é o Colin, um dos demônios da pior parte do
inferno. Mesmo assim o considero meu amigo, há de se destacar.
- Ele é tão difícil assim como pessoa? - Soltei uma risadinha
abafada.
- Meu bem, acredite quando digo que preferiria conhecer o próprio
Lúcifer pessoalmente do que Colin. - Parou e girou a caneta me analisando.
- Então, lhe pergunto novamente, você está realmente disposta a aceitar esse
trabalho?
Minhas contas não se pagam sozinhas, e estou passando por um
momento de dificuldade. Não hesitei.
- Sim, eu aceito.
Me levantei para sair do seu pequeno escritório, só que novamente ouvi
a voz de Helena.
- Só para saber... ele é o famoso Colin Adams.
Rapidamente me virei, surpresa com essa informação. Ele é o arquiteto
mais famoso da cidade, e admiro os trabalhos que ele fez durante esses anos.
A vida dele é bastante reservada pelo que pesquisei, e uma tragédia a marcou,
só que foi abafada na época pela mídia.
- Tudo bem.
- Espero que isso não influencie em nada o seu trabalho - falou. -
Minha secretária estará lhe esperando do lado de fora para ajeitar o que falta.
- Não irá. Obrigada pela oportunidade - falei decidida.
Após sair da sala tentei relembrar ao máximo o que sabia sobre Colin
Adams...
***
Ao chegar em casa me deparei com Hanna, minha filha, desenhando na
sala, enquanto minha mãe preparava o almoço. Fiquei na altura dela, e após
fitar seus olhos azuis esperançosos, logo tratei de informar as boas novas.
- Tenho uma novidade para você, raio de sol.
- O que é, mamãe?
- Arrumei um emprego.
- Eba!
Abracei minha filha, ela sabia o quanto a palavra "emprego" era
importante para mim, já que conversávamos sobre o assunto de forma
corriqueira. Apesar de ela ser novinha e ter completado 5 anos mês passado,
Hanna é esperta em alguns assuntos, e entende muita coisa que falo.
- Vou conversar um pouco com a vovó. Rapidinho volto para colorir
com você, certo?
- Uhum.
Fui na direção da minha mãe e dei-lhe um grande abraço apertado. Ela
se chama Elisa, e tem 55 anos de idade. Ela trabalha desde os 15 anos, e sente
prazer no que faz. Posso afirmar que devo tudo a ela. Fui auxiliada desde que
me entendo por gente. Me recordo dela segurando a barra em momentos que
eu não tinha a menor perspectiva de assuntos ao meu redor se ajeitarem.
- Pelo visto está feliz. - Sorriu sinceramente enquanto ajeitava a
cozinha.
- Sim. Fui procurar alguns esclarecimentos sobre a vaga de trabalho
que me ofereceram, e é tudo verídico. O salário é aquele e consegui a vaga do
emprego.
- Parabéns, filha. - Sua face se tornou alegre instantaneamente.
- Nós duas sabemos que estamos passando certas dificuldades, e...
Não continuei a falar por alguns segundos. Acabei relembrando de um
passado não muito distante onde tivemos que deixar de comer para Hanna ter
algo para se alimentar. Meus olhos se encheram de lágrimas, e balancei a
cabeça tentando esquecer isso por um momento.
- Filha...
- Nunca mais quero ver Hanna pedindo um prato de comida e não ter
refeição alguma em casa. Isso é inadmissível para mim como mãe. Sinto que
fui falha.
Minha mãe trabalha como diarista em alguns dias. Moramos na mesma
casa e dividimos as despesas. Nem sei dizer o quanto é importante sua ajuda,
sem ela eu não seria nada.
Como a família Rogers se mudou há alguns meses, fiquei
desempregada nesse período, e com isso ajudei minha mãe trabalhando de
faxineira em alguns lugares, isso quando podia levar Hanna comigo, algo
esporádico.
- Não se culpe, filha. - Tocou em um dos meus ombros. - Você
não poderia imaginar que Rudolph a deixaria antes do casamento.
- Só que ele me deixou.
- Sua vida irá melhorar. É só ter fé, meu anjo.
No fundo tinha esperança pelas suas palavras, contudo, ainda estava
receosa com o rumo da minha vida.
CAPÍTULO 2
"Trabalhar com um chefe grosso, arrogante e estúpido não é
ruim, difícil mesmo é ter saudades dele quando conhece o seu mais
novo patrão..."
ISABELLE
Neste exato momento estou na sala de estar da mansão em que irei
trabalhar.
Analisando rapidamente o lugar vejo um ambiente bem trabalhado, há
de se destacar. Não esperaria menos de um arquiteto famoso como Colin
Adams, e tenho certeza de que boa parte da mansão leva uma assinatura dele.
Ainda avaliando a casa, percebi quando uma pessoa apareceu no enorme
corredor em minha frente...
Um homem imponente, com cabelos que iam até perto das costas e
barba espessa, mas alinhada, caminhou a passos largos e enérgicos para mais
perto de mim, ficando a uma distância de um metro do meu corpo, não me
estendendo nem mesmo a mão. Sorriso então... nenhum.
O homem parecia um dos vilões de filmes de terror que me acostumei a
assistir. Não havia nenhuma afeição em sua face, o típico da pessoa que você
não conseguiria decifrar somente analisando por poucos segundos. Resolvi
quebrar o gelo do momento.
- Bom dia, me chamo...
- Eu sei como se chama. - Me cortou, com cara de poucos amigos.
- As instruções estão na mesa, é só as ler. - Me lançou um olhar
inquietante, e logo depois meneou a cabeça para a mesa em questão. - Acho
que sabe ler, estou certo?
- Sei, e...
- Então faça o seu trabalho e memorize bem minhas regras, se
conseguir essa proeza que basicamente mulher alguma consegue, tudo
correrá bem durante as horas que estiver aqui.
Que homem fofo! Só que não!
- Se houver dúvidas...
- Não haverá dúvidas! - Grunhiu ao me cortar novamente, e seu
rosto ficava mais irritado a cada palavra que proferia. - Ou você sabe ler e
interpretar ou não sabe! Decida-se!
- Eu sei ler e interpretar! - Forcei um sorriso, e pela primeira vez
não fui interrompida. Tenho certeza que foi pela minha frase curta, não dando
espaço para ser antecipada de alguma forma.
- Ótimo! - Virou as costas e caminhou para o lugar de onde veio
inicialmente.
Quando fui em direção a mesa onde estava disposto o papel das
instruções, ouvi novamente sua voz grave, mas ele nem se deu ao trabalho de
me olhar, visto que ainda continuava de costas.
- Outra coisa: não fale comigo!
- O que quer dizer com isso? - disse a frase em um segundo, já que o
medo de ser interrompida veio à tona.
- Exatamente o que ouviu! Somente se dirija a mim quando eu
conversar com você. Fui claro? - Colin continuava de costas, e parecia
aumentar sua voz a cada frase que se seguia.
- Sim, senhor.
- E não me chame de senhor.
Deus, me dê paciência, porque se me der forças...
- Tudo bem, Colin.
- Você começa amanhã.
Após dizer isso, o homem sumiu das minhas vistas, e segundos depois
ouvi uma porta batendo de uma forma estrondosa.
- Bom dia para você também - sibilei para mim mesma.
Fui em direção a lista, e vi alguns itens "normais".
1 – Não me incomode! Sim, estou reforçando!
2 – É necessário que leve e busque Joshua na escola, mas isso somente
quando completar 15 dias de serviço, visto que não confio em você ainda, e
nem sei se isso irá ocorrer algum dia;
3 – Seu horário será de 07:00h até 17:00h. Não é das 07:01h até
17:01h, que fique claro. Eu cobro algo chamado pontualidade, e se eu
perceber que chegou atrasada por duas vezes você estará na rua!
4 – É terminantemente proibido entrar no corredor que dá acesso ao
meu quarto. DEIXEI UMA PLACA perto do mesmo escrito: "não vá
adiante". DEDUZINDO QUE CONSEGUE LER E INTERPRETAR, acho
que saberá bem o que fazer quando se deparar com ela.
5 – Há dias que estou mais estressado que o habitual. Sim! Eu consigo
ser mais insuportável, então, evite ficar perto de mim, ou até mesmo respirar
ao meu lado.
6 – Você está aqui para gerenciar, e não para tocar nas coisas.
Explicando melhor, você delega funções, por assim dizer, e não fica mexendo
nos objetos ao seu redor. Seu trabalho é não deixar nada faltar, e se houver
uma falha nisso, estaremos com problemas. Pode ter certeza!
7 - Não traga ninguém para a minha casa! Conte isso como uma
advertência, não preciso dizer o que acontece quando houver duas, não é?
(Sim, é como se fosse um atraso no seu horário);
8 - Nunca. Jamais. Em hipótese nenhuma pergunte sobre o MEU
passado para mim ou qualquer pessoa que trabalhe aqui. Qualquer
comentário a respeito disso você será demitida. DEMITIDA!
9 – Qualquer dúvida converse com Helen, ela está em nossa casa há
vários anos, e sabe de tudo. Você está nesse emprego graças a ela, visto que
ela se recusou a ficar como governanta por eu ser insuportável;
10- E por último, mas não menos importante: Não me incomode! Força
do hábito! Aprendi que as pessoas gravam coisas importantes quando
reforçadas.
O homem tem um senso de humor negro, não há o que discutir, mas
apesar de tudo, agora entendi porque nenhuma mulher conseguiu trabalhar
mais de um mês aqui.
***
- Estou dizendo, ele me deixou apavorada e com medo de completar
uma frase sequer.
- Isso é sério, amiga?
- Ah, isso porque não mencionei o "bilhete" que mais parecia uma
ameaça que ele "pregou" em cima da mesa. - Tomei um gole do meu suco
de laranja e repensei as regras que ele escreveu.
- Isso porque nem começou de fato a trabalhar. - Lauren riu, e forcei
um sorrisinho fraco.
Lauren é a minha melhor amiga, e me ajudou bastante quando Rudolph
me abandonou. Como somos vizinhas há vários anos, somos confidentes em
relação a quase tudo, e nos tornamos inseparáveis. Ela é ruiva, baixa e tem os
olhos verdes-claros. Acho minha amiga linda, mas como várias mulheres que
conheço, ela tem um complexo com seu corpo, apesar de eu sempre tentar
levantar o seu astral.
Eu sou um pouco diferente. Tenho os cabelos pretos e longos, caindo
na altura do meu bumbum. Meço 1,60m e tenho os olhos negros. Não sou
assídua na academia, já que não disponho de tempo, mas possuo o corpo
razoavelmente bonito. Na verdade, nós, mulheres, nunca estamos satisfeitas
com nosso corpo, então...
- Vou tentar ignorar Colin o máximo possível.
- Isso não é ruim? - Cruzou os braços me olhando com o semblante
divertido.
- É o que ele quer, Lauren. No meu trabalho farei o que me
mandarem.
- Se está dizendo... - Levantou as mãos, simulando rendição.
- Eu preciso do dinheiro que ele irá me pagar, e farei de tudo para não
me afetar com as poucas palavras grosseiras dele. Simples assim.
Eu não sabia ainda, mas isso dificilmente iria acontecer.
***
O dia seguinte estava sendo um inferno na casa de Colin.
Um caminhão descarregou móveis e utensílios em frente ao portão
principal do casarão. Eu mais parecia uma barata tonta, já que não havia
informação alguma sobre isso. Não sabia nem em qual local os móveis
estariam dispostos, muito menos se eles eram realmente para cá.
- Isabelle!
Fui chamada por um homem, que mais parecia um dos seguranças da
casa, e que nem fez questão de conversar direito comigo, somente me
entregou um papel e disse: - Confira tudo. Se algo faltar você estará com
problemas.
Dito isto, deu as costas e foi em direção ao jardim.
O que há de errado com as pessoas dessa casa?
Depois de passar a última hora conferindo os objetos e tentando
entender onde os mesmos ficariam, eis que o motorista com a expressão mal-
humorada veio conversar comigo.
Estranho ele ser mal-humorado, não? Até porque ninguém que
frequenta essa casa é...
- Assine! Estou atrasado.
- Ainda não conferi, e...
- Está tudo aí, moça. Me ajude a te ajudar, vamos! - Falou um pouco
mais ríspido, me entregando a caneta. Leia-se: praticamente a jogou em mim.
Minha paciência já não estava das melhores, mas foquei no dinheiro
que receberia no fim do mês e abri um sorriso falso. Eu realmente precisava
desse trabalho.
Assinei o papel. Rapidamente o homem manobrou seu caminhão para
fora da mansão. Voltei para os meus afazeres, conferindo os objetos e a cópia
que me foi entregue, mas eis que...
Eu sabia!
Tenho um sexto sentido para algumas coisas, e antes mesmo de assinar
o papel, algo apitou em minha cabeça, contudo só agora vi a burrada que fiz.
Sim, está faltando algo.
Uma geladeira!
Procurei por tudo que é canto a bendita, mas infelizmente ela não
estava dentro da casa, nem mesmo na parte externa. E agora?
Terei que encarar o monstro e me explicar, claro, se eu conseguir falar
alguma palavra.
***
Fiquei naquele dilema: falo ou não falo com Colin?
Mesmo após duas horas, ainda estava com receio de procurá-lo na
mansão, só que não precisei pensar muito, já que o vi caminhando perto do
jardim, analisando alguns dos móveis que haviam chegado.
- Bom dia! - disse alegre, e só depois me dei conta da burrada, pois
o homem não sorri, e pelo que percebi é incapaz de falar bom dia também.
- Espero que esteja tudo aqui.
- Então... acho que faltou algo. - Sorri minimamente, um tanto sem
graça.
- Acha?! - Seu tom continuava ríspido.
- A geladeira não veio - disse por fim, já preparando meu
psicológico.
- Por que não me avisou no momento que deu falta dela?
- Eu... estava conferindo as mercadorias, mas o cara estava com
pressa, e só depois vi que ela não estava aqui...
- Quer dizer que assinou os papéis confirmando "todos" os materiais
entregues, mas está faltando "somente" a geladeira? - Claramente debochou
da minha estupidez ao me cortar, como de praxe.
Eu fui estúpida em cair na pilha do motorista, confesso.
- Sim, fui muito...
- Incompetente! - Me interrompeu já virando as costas. - Em vez
de me procurar e...
- Você disse para falar contigo somente se falar comigo. - Dessa vez
eu que o interrompi ao retrucá-lo. Depois que Colin se virou notei uma
pequena veia marcando sua testa.
O homem respirou fundo, me analisou, baixou a cabeça e depois fechou
os olhos. Parecia contar mentalmente carneirinhos e sibilava baixinho
algumas palavras que não consegui ouvir. Não muito tempo depois, chegou
perto de mim, e senti um misto de medo e desejo quando senti seu cheiro
com mais intensidade. O homem é um cavalo, mas cheira bem.
Pensei que ele me diria algo, ou até mesmo me xingaria, mas ele foi em
direção a mesa onde o bilhete direcionado a mim fora pregado.
Sim, isso mesmo, o homem pregou o bilhete dos "dez mandamentos"
na própria mesa.
Brincadeira, não resisti!
Colin retirou a caneta de um dos seus bolsos e escreveu algo no papel
logo em seguida. Momentos depois me lançou um olhar furioso e saiu da sala
pisando duro. Não me contive por muito tempo e fui em direção ao bilhete,
pude perceber uma mensagem fofa e carinhosa direcionada a mim.
Vi que inteligência não é o seu forte, então, vou deixar outra regra
aqui: converse comigo quando houver problemas. Fui claro ou vou precisar
desenhar?!
Realmente, minha convivência com esse homem será mais difícil do
que previ.
***
O dia de trabalho foi duro, há de se destacar. Depois do meu vacilo
inicial, fiz de tudo para correr atrás dessa "geladeira", e no fim do dia o
motorista fez "a boa vontade" de retornar.
O homem estava uma fera, só que eu estava mais irada, ah... estava.
- Você atrasou minha última entrega, e...
- Não quero saber! - O cortei. - Na próxima vez faça a decência de
esperar eu conferir e não me apressar. Se fizesse o seu trabalho direito
conseguiria entregar tudo, mas tentou ser rápido e precisou voltar ao mesmo
lugar por incompetência sua.
O homem ficou branco, e logo depois esbugalhou os olhos em minha
direção.
Sim, sou nervosa quando quero.
- Tu-tudo bem, senhora. - Se afastou rapidamente, mas fiquei com
certa dó pelas palavras que falei. Claramente o intimidei.
Quando virei as costas, eis que Colin me observava a no máximo meio
metro do meu corpo. O susto foi tanto que dei um pulo para trás.
- Que susto, homem! - Falei, e ele permaneceu impassível, só me
fitando.
- Que hora errada para ter pulso firme, não acha? Se tivesse feito isso
antes, você não teria problemas.
- Não queria falar com ele dessa maneira, vi que o homem ficou
branco e desconcertado.
- Claro, ele me viu atrás de você!
Está explicado...
Pelo visto ele não ficou assim por minhas palavras, e sim pela presença
de Colin no meu encalço.
- Me desculpe novamente por...
- Ao invés de pedir desculpas de minuto em minuto, porque não
presta mais atenção em seus afazeres? Acho que percebeu que não gosto de
conversar contigo, e acho que é recíproco, então, que tal fazer o seu trabalho
e esquecer o que não é importante, hein?
- Eu...
- Boa noite, Isabelle.
Novamente saiu do meu raio de ação, mas a idiota aqui...
- Espere!
A altura da minha voz, bem como a urgência da mesma o fez virar,
com o semblante curioso.
- Você me deu boa noite, então... boa noite para você também, Colin!
Pela primeira vez percebi um mínimo sorriso em sua face, mas se
enganam vocês se era algo bom...
- Você é inacreditável. É cada uma que Helena contrata...
- O que eu fiz?
- Além de tudo não é nem um pouco esperta.
Seguiu seu rumo e fiquei perplexa em saber que ele havia achado ruim
o simples fato "de se virar" para eu desejar uma boa noite a ele.
Homens...
Colin Adams, qual grosseria a mais devo esperar de você?
CAPÍTULO 3
"Nunca meça a dor de alguém se você não sabe o que ela
passou durante a vida..."
COLIN
Quanto mais eu falo para Helena contratar uma mulher inteligente,
menos ela faz questão de me ajudar! É in-crí-vel!
É pedir muito alguém discreto e que saiba ler a porra de um simples
bilhete?!
Vida de merda!
Além de tudo ela me contrata uma mulher espalhafatosa, que assina
documentos sem conferir. É pra foder com o meu dia. E isso porque ela disse
que foi bem recomendada, se não fosse...
Se acalme, Colin!
O dia tem 24 horas. Claro! Essa afirmação foi idiota, mas fazendo uma
analogia, posso dizer que passo a porra das 24 horas irritado. Não sorrio, (a
exceção é quando estou debochando), e posso dizer que praticamente nada
me deixa feliz. Há algo, ou melhor, alguém que me deixa assim, mas nem
mesmo o meu filho eu consigo encarar. Não mais.
Sim, sou um homem falho. Um pai falho. Um marido...
- Esqueça esse assunto, Colin - disse a mim mesmo, olhando para o
céu. - E você, eu queria saber porque me odeia tanto, se é que existe! -
falei, acho que para Deus, em quem eu acreditava há um ano, mas que agora
tenho dúvidas de sua existência.
Minha vida mudou bruscamente há alguns meses. Em suma, perdi a
minha esposa e minha filha em um acidente de carro. Na verdade não perdi
só isso, eu perdi tudo! Minha filha era uma parte de mim, parte a qual nunca
mais vou recuperar.
Quase ninguém sabe da história real dessa tragédia, já que na época fiz
o possível para que praticamente ninguém tivesse acesso aos pormenores
dela.
Sou um pai destruído por dentro, e a cada momento que respiro sinto
saudades de Maddison, minha filha. Ela era o motivo dos meus sorrisos mais
bobos, que agora se tornaram escassos. Minha filha fazia o possível para que
eu me sentisse um homem completo, e por mais que meu dia tivesse sido
estressante, ou algo tivesse dado errado, lá estava ela do meu lado, colorindo
seus livros infantis enquanto eu projetava algo.
Quanto ao meu filho, devo dizer que apesar de ele ser mais desapegado,
eu conseguia estar presente como pai em vários momentos, e sempre o
acompanhava nos esportes que ele praticava. Também éramos bastante
carinhosos um com o outro, e tal como Maddison, ele também ficava muito
tempo comigo. A vantagem de se trabalhar em casa é essa.
Bem, a distância foi o que restou. Sei que Joshua me culpa pelo que
aconteceu com a irmã e a mãe dele, e não sei como voltar a ter intimidade
com meu filho.
Sou um dos arquitetos mais famosos do país. Algumas das obras mais
famosas da cidade foram por meu intermédio, e algumas estrelas de cinema
fizeram questão de me procurar após o meu início promissor.
Em um primeiro momento conciliei bem meus afazeres, e realmente
sentia prazer em meu trabalho. Essa vontade se esvaiu de mim quando
descobri que minha vida pessoal era rodeada de segredos, e além de tudo,
pouco tempo depois perdi um dos bens mais preciosos da minha vida.
Meu celular começou a tocar incessantemente, e como já sou um
homem estressado, estava para jogá-lo na parede, mas resolvi atender quando
notei a pessoa que me ligava.
- Preciso falar pessoalmente contigo, Colin. - James Sullivan, um
dos mais renomados empresários da nossa cidade, falou prontamente.
Além de um homem importante, o considero como meu amigo pessoal.
Estranho eu falar que tenho amigos, não? A verdade é que possuo alguns,
apesar de ter me tornado um homem com sentimentos limitados.
- Tem a ver com o projeto? - O questionei, já sabendo que era bem
provável que esse fosse o assunto principal.
- Sim, e mais algumas coisas.
- James...
- Me encontre no Vero Italian Restaurant às 13h em uma semana.
- Daqui a sete dias?
- Sim, terei somente esse horário. Posso contar com a sua presença?
Sei que é um homem ocupadíssimo... - debochou. Ele sabia que eu
praticamente não saía da minha mansão.
- Pode deixar.
Desliguei o telefone, mas certa curiosidade rondou meus pensamentos
sobre o que James queria comigo. Já não era burrice minha ter prometido ao
homem que eu faria o projeto de sua mais nova mansão?
ISABELLE
Ao chegar em casa ainda havia resquícios de estresse por todo o meu
corpo.
É difícil me estressar, mas hoje o dia foi complicado, principalmente
por minha falha ao conferir com exatidão os objetos que chegaram na
mansão.
Colin Adams...
Já vi homens arrogantes que se acham o centro do mundo, mas não
igual ao Colin. É complicado descrevê-lo, mas dificilmente alguém
conseguiria conviver ao seu lado por 24 horas, e acho que ele compreende
isso e se isola. Minha opinião.
Estava penteando os cabelos da minha filha enquanto ela brincava com
sua boneca, Lucy, que parecia amar mais do que o normal. Depois de algum
tempo, Hanna me encarou, e já sabia que seria questionada sobre algo.
- Como é o seu patrão, mamãe?
- Um doce... - revirei os olhos. - Como jiló!
Depois que rimos um pouquinho, voltei minha atenção para o seu
cabelo.
- Ele é chato, mamãe?
- Ele precisa melhorar muito para conseguir essa proeza. -
Relembrei do seu rosto.
- Hã? - Seus olhinhos confusos me fitaram.
- Não é nada, meu amor. Ele é difícil, só isso.
- Tá bom.
Depois do jantar terminei alguns afazeres e coloquei Hanna para
dormir.
Ao deitar-me, repassei mentalmente meu dia, e coloquei em minha
cabeça que prestaria o dobro de atenção no meu serviço enquanto estivesse
trabalhando...
***
Acordei assustada.
Por um momento não entendi o motivo do meu sobressalto, mas
quando olhei para o meu celular percebi que estava em uma enrascada. São
exatamente 6h30m, e eu deveria estar na casa de Colin em no máximo trinta
minutos.
Não iria dar tempo!
Meu cérebro (como um bom amigo), tratou de me desanimar logo após
correr em direção ao meu guarda-roupas. Por sorte, minha mãe levaria Hanna
com ela, já que a escolinha dela está em período de férias.
Merda de celular que não despertou!
Ou despertou e eu não ouvi?! Ótimo! Nem eu mesma sei o que houve,
só que não vou ficar procurando desculpas, preciso chegar a tempo de alguma
forma.
Me arrumei em tempo recorde, e fui voando ao meu carro, entrando no
mesmo e acelerando o máximo para chegar na mansão até as 7h, algo que eu
estava duvidando que aconteceria.
***
Entrei na casa de Colin exatamente às 7h, e um alívio descomunal
tomou conta de mim.
Eu consegui!
Sorri para mim mesma, mas quando fui em direção a uma das portas
notei uma figura masculina com os braços cruzados, impassível, me olhando
como se eu fosse uma pessoa desconhecida. Ao estabelecermos contato
visual, meneou a cabeça de um lado para o outro, em desacordo, visualizando
logo em seguida o seu relógio.
- 5 minutos atrasada!
- Eu... - Olhei para meu celular, e o mesmo marcava 7:01h.
Contando o trajeto que fiz no interior da mansão, eu tinha absoluta certeza
que estava dentro do horário. - Cheguei exatamente às 7h - retruquei.
- Vou ter que lhe ensinar a olhar as horas corretamente? - Seu
timbre ficou mais grosso.
- Olhei meu celular agora, estou falando...
Não consegui falar por muito tempo, e o homem veio para mais perto,
fazendo-me segurar a respiração por causa da nossa distância, que era
curtíssima neste momento.
De novo aquele perfume gostoso...
- Olhe para trás! - Seu tom de voz mandava, não simplesmente
pedia.
- Colin, eu já entendi que...
- Vou ter que ficar te interrompendo toda hora?! - Grunhiu,
estreitando os olhos ao me cortar pela milésima vez.
Obedeci.
- Agora foque na parede à sua frente! - Senti seu hálito perto do meu
pescoço, e fiquei um pouco arrepiada.
Novamente fiz o que me foi pedido e me deparei com um enorme
relógio.
- Qual horário está sendo marcado no relógio que está na parede?
Merda!
- São 7:05h.
- O que isso significa?
- Estou atrasada. - Assenti, abaixando um pouco a cabeça.
- E o que acarreta atrasos? - Ele parecia se divertir neste momento,
visto que a tonalidade da sua voz mudou um pouco.
- Uma advertência.
- Acho que entende o que acontecerá quando ocorrer a segunda, não
é, dona Isabelle?
- Sim, Colin. - Me dei por vencida. Sabendo que esse homem é
meticuloso em excesso, eu poderia ter ajustado meu celular com os inúmeros
relógios da casa.
- Ótimo! - Senti-o sair da minha presença, e instantes depois sumiu
das minhas vistas.
***
Sentei-me em uma das cadeiras da cozinha e coloquei minhas mãos na
cabeça. Depois de alguns segundos inerte, abri meus olhos, e percebi uma
mulher me observando com um sorriso destacado em sua face.
- Me desculpe, não queria interromper seu momento.
- Sem problemas. - Me levantei, tentando sorrir, algo difícil depois
do que aconteceu mais cedo. - Você trabalha aqui, certo? - indaguei.
- Sim, meu nome é Helen. Qualquer dúvida estarei aqui para lhe
ajudar, criança. Eu deveria te apresentar o pessoal que trabalha para Colin,
mas ontem percebi o quanto estava atarefada.
Uma senhora de cabelos grisalhos que aparentava estar no auge de seus
50 anos de idade me fitava com um grande sorriso, e por dentro me senti
bem, já que a maioria das pessoas dessa casa não sabem o que é sorrir.
- Graças a Deus encontrei a famosa Helen! - Soltei sem pensar, e a
senhora riu um pouco de mim. - Me desculpe - complementei.
- Não se preocupe. Acho que já conheceu Colin. - Arqueou as
sobrancelhas quase no mesmo instante em que passei a mão em meus cabelos
relembrando de sua fisionomia, principalmente seu rosto lindo, mas
rabugento.
- Sim.
- Suponho que tenha o adorado, ele é um amor, não é?
Olhei para ela incrédula, só que Helen franziu o rosto de um modo
divertido e tive de rir novamente. Ela só podia estar sendo sarcástica, porque
o homem...
- Prefiro não responder. - Me esquivei, não podia tomar uma
segunda advertência, batendo meu recorde, e ser demitida em menos de três
dias de trabalho.
- Colin é estressado assim com a maioria das pessoas. 99%, se
fizermos uma média.
- Quem é a exceção?
- Por incrível que pareça... eu!
- Ele sempre foi assim? Estúpido, arrogante, grosso, desbocado...
Me dei conta das palavras proferidas um segundo depois e levei minha
mão à boca, já havia cometido um erro hoje ao chegar atrasada, e agora estou
falando mal do meu chefe justamente para a pessoa que está trabalhando com
ele há alguns anos.
Você é muito esperta, Isabelle!
- Não, Colin era o oposto. - Baixou um pouco a cabeça e seu olhar
ficou triste de uma hora para outra. - Aconteceram algumas coisas na vida
dele, e...
Parou. Ela claramente não estava confortável em falar sobre isso, e não
serei eu a pessoa que cometerá a segunda burrada no dia.
- Não importa. Farei o meu melhor em minhas atribuições. - A
interrompi sutilmente, sorrindo. Não queria entrar em detalhes sobre algo que
claramente ela não se sentia à vontade, e ainda tinha a regra número 8.
Sim, eu gravei as regras.
- Certo, Isabelle. - Sorriu ternamente. - Já estava esquecendo, há
uma pessoa que preciso te apresentar.
- Claro.
Nos encaminhamos para uma da salas da mansão, e bem lá no fundo do
corredor vi um menino brincando com alguns carros de controle remoto.
- Vou deixá-los a sós para se conhecerem. Ele se chama Joshua, e é o
filho de Colin.
Depois que nos viu, ele se levantou. Analisei seus traços enquanto ele
vinha em minha direção, e vi muito de Colin em Joshua. Os cabelos, os
olhos, a boca...
O menino era praticamente a cópia do pai, sem sombra de dúvidas.
- Olá. - Me agachei um pouco.
- Oi, moça.
- Qual é o seu nome? - perguntei apesar de saber.
- Joshua. E o seu?
- Isabelle. É um prazer te conhecer. - Sorri.
- Hm. Você vai trabalhar aqui quanto tempo?
- O dia todo. Por que a pergunta?
- Não... é... se vai ficar aqui muitos dias. Meu pai manda as mulheres
embora em poucos dias - disse com enorme inocência, logo desviando seus
olhos, que mostravam inquietação e tristeza.
- Farei tudo ao meu alcance para ele não fazer o mesmo comigo.
- Tá bom, moça.
Joshua não tem conhecimento do quanto é difícil isso que falei, mas me
desdobraria para não perder o emprego, apesar de estar certa que passarei
apertada em todos os momentos que ficar frente a frente com Colin.
CAPÍTULO 4
"Alguns corações se abrem quando menos
esperamos..."
ISABELLE
Ontem completei uma semana de trabalho.
Não tive problemas depois do episódio com o meu atraso. Isso se deve
principalmente ao fato de não ter visto Colin com frequência, e quando nos
cruzamos, nenhuma palavra saiu de sua boca.
Eu continuava dizendo bom dia quando o via, e o homem seguia
ignorando minhas palavras. Não tenho culpa de ter uma boa educação até
mesmo com as pessoas que não merecem.
Havia acordado mais cedo que o normal. Minha mãe estava ao telefone,
conversando com uma de suas patroas. Ao notar seu semblante, vi certa
angústia estampada em sua face.
- O que houve, mãe?
- Aconteceram alguns imprevistos e não poderei levar Hanna comigo
hoje no trabalho.
Me alarmei. É algo fora de cogitação levá-la comigo, já que com mais
uma advertência...
- Me desculpe, filha.
- Darei um jeito. - Sorri, tentando disfarçar a angústia que se alojou
em meu peito.
Repassei mentalmente minhas opções, e olha que beleza: não havia
nenhuma!
Lauren, minha amiga, está trabalhando, e tirando minha amiga e a
minha mãe, não havia ninguém com quem eu pudesse deixar Hanna. Não sou
muito de confiar nas pessoas.
Saco!
- Está tudo bem, Isabelle. - Respirei.
Fui para o quarto da minha filha, e percebi ela em um sono bastante
tranquilo.
- Queria ter essa paz - sibilei enquanto permanecia de pé, a
observando por alguns segundos.
É incrível como nossos filhos crescem de uma forma assustadora.
Quando percebi ela já havia se tornado uma criança de cinco anos de idade.
Como a escolinha dela está de férias, em alguns momentos temos que
nos desdobrar, mas não reclamo, a questão é o hoje.
Acordei Hanna, que ainda estava sonolenta.
- Tenho uma novidade: hoje você ficará comigo no trabalho, filha. -
Beijei sua testa.
- Onde você trabalha é legal? - disse, ainda meio que dormindo.
- Muito.
- Tá bom, mamãe.
Depois de terminar meus afazeres e ajudar Hanna fui para a mansão de
Colin.
***
Minha primeira providência ao chegar na mansão foi procurar Helen.
Talvez ela pudesse me salvar, ou não...
- Você acha que posso esconder minha filha na casa? - falei
mansamente.
- Esconder? - Helen riu.
- Ah, você entendeu... - relatei sem graça. - Não disse a você, mas
já tomei uma advertência, e estou preocupada.
- Eu sei. Colin me disse.
Ótimo!
- Você irá me dedurar? - perguntei com calma.
- Fique tranquila, Isabelle. Não vou dizer nada, e acho que pode
deixar sua filha em uma das salas. Colin dificilmente irá sair do quarto hoje,
pelo que fiquei sabendo ele está focado em um novo projeto.
Fiquei mais aliviada com sua frase, e provavelmente manteria meu
emprego por mais tempo.
Provavelmente...
***
O período da manhã foi sossegado. Não vi sinal de Colin em parte
alguma, e precisava não vê-lo neste dia. Soa errado já que estou em sua casa,
só que é necessário, pelo menos por hoje.