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Quando acreditamos estar em nosso limite, eis que a                    esperança é renovada.

Quando acreditamos estar em nosso limite, eis que a esperança é renovada.

Autor:: renata medeirosM
Gênero: Romance
Com qual olhar você encararia a vida se perdesse sua esposa e filha em um acidente de carro? Colin Adams é um homem marcado por uma das piores dores do mundo: a dor de enterrar um filho. Após a grande tragédia em sua família, ele se fechou para tudo e todos, e nem mesmo com Joshua, o seu único filho vivo, ele consegue aproximação. Se culpando diariamente, prefere se isolar, descontando nas poucas pessoas à sua volta todo ódio e rancor que acumulou em seu peito. Apesar de tudo, Colin mora em uma grande mansão e precisa de alguém para gerenciá-la, o que soa impossível já que demitiu as últimas dez mulheres que conseguiram o cargo... Isabelle Campbell já passou por poucas e boas em sua curta vida. Mãe solo, se desdobra para educar a filha e ajudar sua mãe, e por uma obra do destino viu a oportunidade perfeita para solucionar seus problemas financeiros: trabalhar como governanta na mansão do arquiteto mais famoso de Miami. O que inicialmente ela não sabia é que o seu mais novo chefe é um homem arrogante, grosso e controlador, que fará de tudo e mais um pouco para persegui-la em seu trabalho. No fundo Isabelle sabe que Colin é um carrasco, mas gostoso e sexy como o pecado... "Há momentos em nossas vidas que perdemos o chão, que nosso mundo desaba e constantemente pensamos em desistir de tudo. O que temos grande dificuldade em entender é que há uma luz em meio à escuridão, cabendo a nós persegui-la, modificando assim nossas vidas. Prepare-se para uma história que irá tocar seu coração, onde nos mostra que o perdão é necessário, e que o impossível é questão de opinião." *Não recomendado para menores de 18 anos.

Capítulo 1 Quando a informação está em nosso limite,

ISABELLE

Caminhei apreensiva em direção à uma agência de empregos perto da

minha casa. Após me deparar com "aquele" anúncio online, precisava ver

com meus próprios olhos se era "tudo aquilo".

Há alguns dias, pesquisando sobre ofertas de trabalho na internet, me

deparei com uma vaga em aberto um tanto inacreditável, já que o salário era

no mínimo cinco vezes maior que o normal. Após preencher meus dados,

cerca de uma hora depois recebi uma ligação marcando minha entrevista para

hoje.

Ser mãe solo em Miami é complicado. Os gastos são extensivos, e

como tenho filha e mãe para auxiliar, acabo ficando sobrecarregada em várias

ocasiões.

Meu sonho sempre fora cursar a faculdade de arquitetura, mas como fui

mãe bem nova - e o pai de Hanna nos abandonou -, acabei por passar

dificuldades em minha vida, deixando esse sonho para mais tarde. Sempre fui

uma mulher sonhadora e batalhadora, só que no momento as batalhas estão

vindo em primeiro lugar, e como minha filha é prioridade, abdiquei de algo

que tanto almejo para focar em educá-la, para que ela cresça com condições

de se tornar uma mulher independente.

Já estava no saguão do pequeno escritório esperando ser anunciada.

Havia ligado antes para obter algumas informações, porém quase nenhuma

foi passada a mim.

Estou desempregada, e isso já basta para ter que me reinventar e

procurar empregos aleatórios pela cidade, só que após colocar meus olhos

nessa oferta de emprego fiquei tentada a descobrir mais sobre o trabalho.

Após ser anunciada adentrei ao local a passos largos. Uma senhora de

cabelos grisalhos e óculos vermelhos estava sentada analisando alguns

papéis. Depois que se deu conta da minha presença, me olhou de cima a

baixo, fazendo sinal para me sentar. Esbocei um sorriso breve, sentando na

cadeira logo depois.

- Isabelle Campbell... - Pegou um dos papéis. - Meu nome é

Helena. Vejo que está interessada no cargo.

- Sim. Muito.

Meu breve diálogo no telefone foi a respeito disso, mas não houve

muitos detalhes, até porque não havia conversado diretamente com Helena.

- Bem, o emprego se trata de ficar responsável por uma casa e por

quem está nela, se for resumir os fatos. Sei que por telefone minha assistente

não lhe passou tudo, então, estou aqui para esclarecer suas dúvidas.

- O que realmente preciso fazer?

- Aceitando o trabalho oferecido, você será a governanta de uma casa,

por assim dizer. Como Colin gosta dizer, você será a faz tudo. Literalmente

tudo, tirando preparar o almoço dele e o jantar. E quanto antes começar,

melhor.

Por que ela fala como se o emprego já estivesse sendo direcionado

para mim?

- Você não fará nenhuma entrevista? Nem me conhece direito, e...

- Isabelle Campbell... - Me interrompeu, e novamente pegou o papel

no qual leu meu nome segundos atrás. - 23 anos de idade, mãe solo. Mora

na Collins Avenue, número 6784. Trabalhou em um restaurante chamado

Garby's por um ano, logo após o fechamento do mesmo, trabalhou como

babá para a família Rogers, e após essa família se mudar da cidade, ficou

desempregada por três meses, e... - Voltou sua atenção para mim. - ...está

sentada em minha frente neste exato momento.

Como essa mulher sabe todas essas informações?

- Estou confusa. Não passei nenhum dado meu, somente meu nome e

sobrenome, como pode saber tanto?

- Meu bem, acho que não sabe a que vaga de emprego está se

dispondo, então, vou lhe ajudar. - Me olhou intensamente, com seus olhos

castanho-claros. - Para o salário que foi ofertado a pessoa tem que ser de

confiança.

- Você tem os meus dados, só que não sabe essa informação -

retruquei.

- Se enganou novamente! - Um sorrisinho satisfatório brotou em sua

face. - Liguei para o dono da lanchonete onde trabalhou, e também para a

família Rogers. Você foi bem indicada. Sei tudo da sua vida, meu bem.

Analisei meticulosamente por alguns segundos aquela mulher que me

intrigava. Eu me sentia espionada de certa forma, e por dentro experimentava

um misto de divertimento e surpresa.

- Você fala como se eu já estivesse contratada.

- Basicamente. É só dizer sim. - Cruzou os braços e sorriu.

Que coisa estranha...

Nunca vi um salário tão alto com uma entrevista tão fácil. Na realidade

estou querendo fazer vários questionamentos, mas estou com medo de piorar

algo que parece estar certo. Essa conversa está muito estranha.

Se é que posso chamar de conversa uma entrevista assim.

- Por que está tão fácil, me diz?

- Farei uma analogia: é fácil porque se torna difícil. Simples assim.

Ninguém consegue a proeza de permanecer nesse emprego, e espero estar

errada sobre você.

- Preciso saber de algo pessoal da vida desse tal Colin?

Sua face mudou bruscamente. Me espantei, já que ela começou a me

olhar ternamente.

- Sim. - Seus olhos ficaram um pouco tristes. - Ele perdeu a esposa

e a filha em um acidente de carro há cerca de um ano.

- Meu Deus! - Arregalei os olhos, surpresa com a intensidade das

palavras.

- Colin não fala sobre o que houve e se fechou após esse acidente. Ele

sempre foi um homem sério, carismático e centrado, mas agora parece que a

parte boa dele se foi, e nada em sua vida faz sentido, exceto...

- Exceto...? - Me interessei.

- Joshua, seu filho. Ele será uma de suas responsabilidades se aceitar

o trabalho.

- Entendo.

- Ainda assim, Colin se distanciou dele. Não tente entendê-lo,

Isabelle. - Parou por um breve momento, olhando para o nada e respirando

fundo. - Uma regra: não pergunte sobre o seu passado. Se quiser manter o

emprego tente ao máximo ignorar Colin. Nenhuma das dez mulheres que

contratei duraram no mínimo 1 mês o auxiliando. Me falaram muito bem de

você, é por isso que estou confiando que será diferente das demais, só preciso

que não faça nenhuma bobeira. Colin te demitiria somente por olhar torto em

sua direção, e estou cansada de tentar encontrar pessoas para esse trabalho.

- Por qual motivo se preocupa tanto com ele? - indaguei, sabendo

que ela não parecia uma simples mulher que trabalhava em uma agência de

empregos. O jeito que ela fala desse homem é diferente e me chama a

atenção. Não tenho dúvidas disso.

- Ele é meu amigo. Era. Não sei bem como falar isso agora. -

Baixou os olhos. - Eu e meu marido tivemos uma amizade muito bonita

com Colin e Jeniffer, sua falecida esposa. Depois que ele a perdeu... tudo

mudou, e o único contato que temos um com o outro é esse: procurar

mulheres para tomar conta de sua mansão.

- Entendo.

Alguns segundos de silêncio preencheram o pequeno ambiente, e notei

pela primeira vez desconforto por parte dela. Continuei um pouco apreensiva,

já que não imaginava a nossa conversa se desenrolando dessa maneira.

- Vamos aos fatos. - Juntou as mãos e focou em mim novamente. -

Em suma, Colin será insensível, sem educação, mal humorado, perverso,

mesquinho e outros "lindos adjetivos" que esqueci. - Parou, repensando

algo. - Um tirano, meu bem. Não... isso é pouco.

Olhei desconfiada para Helena, que fazia extremamente o contrário do

que pensara depois de tudo que ouvi. Em vez de enaltecer as qualidades do

seu suposto amigo, ela se dava ao luxo de fazer exatamente o contrário.

- Isso é um incentivo?

- Estou sendo realista. Colin é um homem infeliz, que não liga para

quase mais nada na vida. E, acredite ou não, ele próprio me disse para

especificar suas "qualidades" para alguém que pleiteasse a vaga. Pelo menos

Colin é um homem sincero, e tem noção de que é insuportável.

Estava interessada e um pouco retraída. Saber disso tudo é estranho,

pensei que fosse uma vaga normal, mas pelo visto de normal não tem nada, a

começar pelo salário que é cinco vezes superior ao que é pago no mercado.

Será que isso tudo é para suportar sua chatice e afins?

Não pode ser somente isso...

- Não é possível que ele seja tão insuportável. - Afirmei com

cuidado, e ela se inclinou sorrindo.

- Digamos que o demônio veio passear na Terra, e resolveu se

estabelecer por aqui. Esse é o Colin, um dos demônios da pior parte do

inferno. Mesmo assim o considero meu amigo, há de se destacar.

- Ele é tão difícil assim como pessoa? - Soltei uma risadinha

abafada.

- Meu bem, acredite quando digo que preferiria conhecer o próprio

Lúcifer pessoalmente do que Colin. - Parou e girou a caneta me analisando.

- Então, lhe pergunto novamente, você está realmente disposta a aceitar esse

trabalho?

Minhas contas não se pagam sozinhas, e estou passando por um

momento de dificuldade. Não hesitei.

- Sim, eu aceito.

Me levantei para sair do seu pequeno escritório, só que novamente ouvi

a voz de Helena.

- Só para saber... ele é o famoso Colin Adams.

Rapidamente me virei, surpresa com essa informação. Ele é o arquiteto

mais famoso da cidade, e admiro os trabalhos que ele fez durante esses anos.

A vida dele é bastante reservada pelo que pesquisei, e uma tragédia a marcou,

só que foi abafada na época pela mídia.

- Tudo bem.

- Espero que isso não influencie em nada o seu trabalho - falou. -

Minha secretária estará lhe esperando do lado de fora para ajeitar o que falta.

- Não irá. Obrigada pela oportunidade - falei decidida.

Após sair da sala tentei relembrar ao máximo o que sabia sobre Colin

Adams...

***

Ao chegar em casa me deparei com Hanna, minha filha, desenhando na

sala, enquanto minha mãe preparava o almoço. Fiquei na altura dela, e após

fitar seus olhos azuis esperançosos, logo tratei de informar as boas novas.

- Tenho uma novidade para você, raio de sol.

- O que é, mamãe?

- Arrumei um emprego.

- Eba!

Abracei minha filha, ela sabia o quanto a palavra "emprego" era

importante para mim, já que conversávamos sobre o assunto de forma

corriqueira. Apesar de ela ser novinha e ter completado 5 anos mês passado,

Hanna é esperta em alguns assuntos, e entende muita coisa que falo.

- Vou conversar um pouco com a vovó. Rapidinho volto para colorir

com você, certo?

- Uhum.

Fui na direção da minha mãe e dei-lhe um grande abraço apertado. Ela

se chama Elisa, e tem 55 anos de idade. Ela trabalha desde os 15 anos, e sente

prazer no que faz. Posso afirmar que devo tudo a ela. Fui auxiliada desde que

me entendo por gente. Me recordo dela segurando a barra em momentos que

eu não tinha a menor perspectiva de assuntos ao meu redor se ajeitarem.

- Pelo visto está feliz. - Sorriu sinceramente enquanto ajeitava a

cozinha.

- Sim. Fui procurar alguns esclarecimentos sobre a vaga de trabalho

que me ofereceram, e é tudo verídico. O salário é aquele e consegui a vaga do

emprego.

- Parabéns, filha. - Sua face se tornou alegre instantaneamente.

- Nós duas sabemos que estamos passando certas dificuldades, e...

Não continuei a falar por alguns segundos. Acabei relembrando de um

passado não muito distante onde tivemos que deixar de comer para Hanna ter

algo para se alimentar. Meus olhos se encheram de lágrimas, e balancei a

cabeça tentando esquecer isso por um momento.

- Filha...

- Nunca mais quero ver Hanna pedindo um prato de comida e não ter

refeição alguma em casa. Isso é inadmissível para mim como mãe. Sinto que

fui falha.

Minha mãe trabalha como diarista em alguns dias. Moramos na mesma

casa e dividimos as despesas. Nem sei dizer o quanto é importante sua ajuda,

sem ela eu não seria nada.

Como a família Rogers se mudou há alguns meses, fiquei

desempregada nesse período, e com isso ajudei minha mãe trabalhando de

faxineira em alguns lugares, isso quando podia levar Hanna comigo, algo

esporádico.

- Não se culpe, filha. - Tocou em um dos meus ombros. - Você

não poderia imaginar que Rudolph a deixaria antes do casamento.

- Só que ele me deixou.

- Sua vida irá melhorar. É só ter fé, meu anjo.

No fundo tinha esperança pelas suas palavras, contudo, ainda estava

receosa com o rumo da minha vida.

CAPÍTULO 2

"Trabalhar com um chefe grosso, arrogante e estúpido não é

ruim, difícil mesmo é ter saudades dele quando conhece o seu mais

novo patrão..."

Capítulo 2 Quando a informação está em nosso limite

ISABELLE

Neste exato momento estou na sala de estar da mansão em que irei

trabalhar.

Analisando rapidamente o lugar vejo um ambiente bem trabalhado, há

de se destacar. Não esperaria menos de um arquiteto famoso como Colin

Adams, e tenho certeza de que boa parte da mansão leva uma assinatura dele.

Ainda avaliando a casa, percebi quando uma pessoa apareceu no enorme

corredor em minha frente...

Um homem imponente, com cabelos que iam até perto das costas e

barba espessa, mas alinhada, caminhou a passos largos e enérgicos para mais

perto de mim, ficando a uma distância de um metro do meu corpo, não me

estendendo nem mesmo a mão. Sorriso então... nenhum.

O homem parecia um dos vilões de filmes de terror que me acostumei a

assistir. Não havia nenhuma afeição em sua face, o típico da pessoa que você

não conseguiria decifrar somente analisando por poucos segundos. Resolvi

quebrar o gelo do momento.

- Bom dia, me chamo...

- Eu sei como se chama. - Me cortou, com cara de poucos amigos.

- As instruções estão na mesa, é só as ler. - Me lançou um olhar

inquietante, e logo depois meneou a cabeça para a mesa em questão. - Acho

que sabe ler, estou certo?

- Sei, e...

- Então faça o seu trabalho e memorize bem minhas regras, se

conseguir essa proeza que basicamente mulher alguma consegue, tudo

correrá bem durante as horas que estiver aqui.

Que homem fofo! Só que não!

- Se houver dúvidas...

- Não haverá dúvidas! - Grunhiu ao me cortar novamente, e seu

rosto ficava mais irritado a cada palavra que proferia. - Ou você sabe ler e

interpretar ou não sabe! Decida-se!

- Eu sei ler e interpretar! - Forcei um sorriso, e pela primeira vez

não fui interrompida. Tenho certeza que foi pela minha frase curta, não dando

espaço para ser antecipada de alguma forma.

- Ótimo! - Virou as costas e caminhou para o lugar de onde veio

inicialmente.

Quando fui em direção a mesa onde estava disposto o papel das

instruções, ouvi novamente sua voz grave, mas ele nem se deu ao trabalho de

me olhar, visto que ainda continuava de costas.

- Outra coisa: não fale comigo!

- O que quer dizer com isso? - disse a frase em um segundo, já que o

medo de ser interrompida veio à tona.

- Exatamente o que ouviu! Somente se dirija a mim quando eu

conversar com você. Fui claro? - Colin continuava de costas, e parecia

aumentar sua voz a cada frase que se seguia.

- Sim, senhor.

- E não me chame de senhor.

Deus, me dê paciência, porque se me der forças...

- Tudo bem, Colin.

- Você começa amanhã.

Após dizer isso, o homem sumiu das minhas vistas, e segundos depois

ouvi uma porta batendo de uma forma estrondosa.

- Bom dia para você também - sibilei para mim mesma.

Fui em direção a lista, e vi alguns itens "normais".

1 – Não me incomode! Sim, estou reforçando!

2 – É necessário que leve e busque Joshua na escola, mas isso somente

quando completar 15 dias de serviço, visto que não confio em você ainda, e

nem sei se isso irá ocorrer algum dia;

3 – Seu horário será de 07:00h até 17:00h. Não é das 07:01h até

17:01h, que fique claro. Eu cobro algo chamado pontualidade, e se eu

perceber que chegou atrasada por duas vezes você estará na rua!

4 – É terminantemente proibido entrar no corredor que dá acesso ao

meu quarto. DEIXEI UMA PLACA perto do mesmo escrito: "não vá

adiante". DEDUZINDO QUE CONSEGUE LER E INTERPRETAR, acho

que saberá bem o que fazer quando se deparar com ela.

5 – Há dias que estou mais estressado que o habitual. Sim! Eu consigo

ser mais insuportável, então, evite ficar perto de mim, ou até mesmo respirar

ao meu lado.

6 – Você está aqui para gerenciar, e não para tocar nas coisas.

Explicando melhor, você delega funções, por assim dizer, e não fica mexendo

nos objetos ao seu redor. Seu trabalho é não deixar nada faltar, e se houver

uma falha nisso, estaremos com problemas. Pode ter certeza!

7 - Não traga ninguém para a minha casa! Conte isso como uma

advertência, não preciso dizer o que acontece quando houver duas, não é?

(Sim, é como se fosse um atraso no seu horário);

8 - Nunca. Jamais. Em hipótese nenhuma pergunte sobre o MEU

passado para mim ou qualquer pessoa que trabalhe aqui. Qualquer

comentário a respeito disso você será demitida. DEMITIDA!

9 – Qualquer dúvida converse com Helen, ela está em nossa casa há

vários anos, e sabe de tudo. Você está nesse emprego graças a ela, visto que

ela se recusou a ficar como governanta por eu ser insuportável;

10- E por último, mas não menos importante: Não me incomode! Força

do hábito! Aprendi que as pessoas gravam coisas importantes quando

reforçadas.

O homem tem um senso de humor negro, não há o que discutir, mas

apesar de tudo, agora entendi porque nenhuma mulher conseguiu trabalhar

mais de um mês aqui.

***

- Estou dizendo, ele me deixou apavorada e com medo de completar

uma frase sequer.

- Isso é sério, amiga?

- Ah, isso porque não mencionei o "bilhete" que mais parecia uma

ameaça que ele "pregou" em cima da mesa. - Tomei um gole do meu suco

de laranja e repensei as regras que ele escreveu.

- Isso porque nem começou de fato a trabalhar. - Lauren riu, e forcei

um sorrisinho fraco.

Lauren é a minha melhor amiga, e me ajudou bastante quando Rudolph

me abandonou. Como somos vizinhas há vários anos, somos confidentes em

relação a quase tudo, e nos tornamos inseparáveis. Ela é ruiva, baixa e tem os

olhos verdes-claros. Acho minha amiga linda, mas como várias mulheres que

conheço, ela tem um complexo com seu corpo, apesar de eu sempre tentar

levantar o seu astral.

Eu sou um pouco diferente. Tenho os cabelos pretos e longos, caindo

na altura do meu bumbum. Meço 1,60m e tenho os olhos negros. Não sou

assídua na academia, já que não disponho de tempo, mas possuo o corpo

razoavelmente bonito. Na verdade, nós, mulheres, nunca estamos satisfeitas

com nosso corpo, então...

- Vou tentar ignorar Colin o máximo possível.

- Isso não é ruim? - Cruzou os braços me olhando com o semblante

divertido.

- É o que ele quer, Lauren. No meu trabalho farei o que me

mandarem.

- Se está dizendo... - Levantou as mãos, simulando rendição.

- Eu preciso do dinheiro que ele irá me pagar, e farei de tudo para não

me afetar com as poucas palavras grosseiras dele. Simples assim.

Eu não sabia ainda, mas isso dificilmente iria acontecer.

***

O dia seguinte estava sendo um inferno na casa de Colin.

Um caminhão descarregou móveis e utensílios em frente ao portão

principal do casarão. Eu mais parecia uma barata tonta, já que não havia

informação alguma sobre isso. Não sabia nem em qual local os móveis

estariam dispostos, muito menos se eles eram realmente para cá.

- Isabelle!

Fui chamada por um homem, que mais parecia um dos seguranças da

casa, e que nem fez questão de conversar direito comigo, somente me

entregou um papel e disse: - Confira tudo. Se algo faltar você estará com

problemas.

Dito isto, deu as costas e foi em direção ao jardim.

O que há de errado com as pessoas dessa casa?

Depois de passar a última hora conferindo os objetos e tentando

entender onde os mesmos ficariam, eis que o motorista com a expressão mal-

humorada veio conversar comigo.

Estranho ele ser mal-humorado, não? Até porque ninguém que

frequenta essa casa é...

- Assine! Estou atrasado.

- Ainda não conferi, e...

- Está tudo aí, moça. Me ajude a te ajudar, vamos! - Falou um pouco

mais ríspido, me entregando a caneta. Leia-se: praticamente a jogou em mim.

Minha paciência já não estava das melhores, mas foquei no dinheiro

que receberia no fim do mês e abri um sorriso falso. Eu realmente precisava

desse trabalho.

Assinei o papel. Rapidamente o homem manobrou seu caminhão para

fora da mansão. Voltei para os meus afazeres, conferindo os objetos e a cópia

que me foi entregue, mas eis que...

Eu sabia!

Tenho um sexto sentido para algumas coisas, e antes mesmo de assinar

o papel, algo apitou em minha cabeça, contudo só agora vi a burrada que fiz.

Sim, está faltando algo.

Uma geladeira!

Procurei por tudo que é canto a bendita, mas infelizmente ela não

estava dentro da casa, nem mesmo na parte externa. E agora?

Terei que encarar o monstro e me explicar, claro, se eu conseguir falar

alguma palavra.

***

Fiquei naquele dilema: falo ou não falo com Colin?

Mesmo após duas horas, ainda estava com receio de procurá-lo na

mansão, só que não precisei pensar muito, já que o vi caminhando perto do

jardim, analisando alguns dos móveis que haviam chegado.

- Bom dia! - disse alegre, e só depois me dei conta da burrada, pois

o homem não sorri, e pelo que percebi é incapaz de falar bom dia também.

- Espero que esteja tudo aqui.

- Então... acho que faltou algo. - Sorri minimamente, um tanto sem

graça.

- Acha?! - Seu tom continuava ríspido.

- A geladeira não veio - disse por fim, já preparando meu

psicológico.

- Por que não me avisou no momento que deu falta dela?

- Eu... estava conferindo as mercadorias, mas o cara estava com

pressa, e só depois vi que ela não estava aqui...

- Quer dizer que assinou os papéis confirmando "todos" os materiais

entregues, mas está faltando "somente" a geladeira? - Claramente debochou

da minha estupidez ao me cortar, como de praxe.

Eu fui estúpida em cair na pilha do motorista, confesso.

- Sim, fui muito...

- Incompetente! - Me interrompeu já virando as costas. - Em vez

de me procurar e...

- Você disse para falar contigo somente se falar comigo. - Dessa vez

eu que o interrompi ao retrucá-lo. Depois que Colin se virou notei uma

pequena veia marcando sua testa.

O homem respirou fundo, me analisou, baixou a cabeça e depois fechou

os olhos. Parecia contar mentalmente carneirinhos e sibilava baixinho

algumas palavras que não consegui ouvir. Não muito tempo depois, chegou

perto de mim, e senti um misto de medo e desejo quando senti seu cheiro

com mais intensidade. O homem é um cavalo, mas cheira bem.

Pensei que ele me diria algo, ou até mesmo me xingaria, mas ele foi em

direção a mesa onde o bilhete direcionado a mim fora pregado.

Sim, isso mesmo, o homem pregou o bilhete dos "dez mandamentos"

na própria mesa.

Brincadeira, não resisti!

Colin retirou a caneta de um dos seus bolsos e escreveu algo no papel

logo em seguida. Momentos depois me lançou um olhar furioso e saiu da sala

pisando duro. Não me contive por muito tempo e fui em direção ao bilhete,

pude perceber uma mensagem fofa e carinhosa direcionada a mim.

Vi que inteligência não é o seu forte, então, vou deixar outra regra

aqui: converse comigo quando houver problemas. Fui claro ou vou precisar

desenhar?!

Realmente, minha convivência com esse homem será mais difícil do

que previ.

***

O dia de trabalho foi duro, há de se destacar. Depois do meu vacilo

inicial, fiz de tudo para correr atrás dessa "geladeira", e no fim do dia o

motorista fez "a boa vontade" de retornar.

O homem estava uma fera, só que eu estava mais irada, ah... estava.

- Você atrasou minha última entrega, e...

- Não quero saber! - O cortei. - Na próxima vez faça a decência de

esperar eu conferir e não me apressar. Se fizesse o seu trabalho direito

conseguiria entregar tudo, mas tentou ser rápido e precisou voltar ao mesmo

lugar por incompetência sua.

O homem ficou branco, e logo depois esbugalhou os olhos em minha

direção.

Sim, sou nervosa quando quero.

- Tu-tudo bem, senhora. - Se afastou rapidamente, mas fiquei com

certa dó pelas palavras que falei. Claramente o intimidei.

Quando virei as costas, eis que Colin me observava a no máximo meio

metro do meu corpo. O susto foi tanto que dei um pulo para trás.

- Que susto, homem! - Falei, e ele permaneceu impassível, só me

fitando.

- Que hora errada para ter pulso firme, não acha? Se tivesse feito isso

antes, você não teria problemas.

- Não queria falar com ele dessa maneira, vi que o homem ficou

branco e desconcertado.

- Claro, ele me viu atrás de você!

Está explicado...

Pelo visto ele não ficou assim por minhas palavras, e sim pela presença

de Colin no meu encalço.

- Me desculpe novamente por...

- Ao invés de pedir desculpas de minuto em minuto, porque não

presta mais atenção em seus afazeres? Acho que percebeu que não gosto de

conversar contigo, e acho que é recíproco, então, que tal fazer o seu trabalho

e esquecer o que não é importante, hein?

- Eu...

- Boa noite, Isabelle.

Novamente saiu do meu raio de ação, mas a idiota aqui...

- Espere!

A altura da minha voz, bem como a urgência da mesma o fez virar,

com o semblante curioso.

- Você me deu boa noite, então... boa noite para você também, Colin!

Pela primeira vez percebi um mínimo sorriso em sua face, mas se

enganam vocês se era algo bom...

- Você é inacreditável. É cada uma que Helena contrata...

- O que eu fiz?

- Além de tudo não é nem um pouco esperta.

Seguiu seu rumo e fiquei perplexa em saber que ele havia achado ruim

o simples fato "de se virar" para eu desejar uma boa noite a ele.

Homens...

Colin Adams, qual grosseria a mais devo esperar de você?

CAPÍTULO 3

"Nunca meça a dor de alguém se você não sabe o que ela

passou durante a vida..."

Capítulo 3 Quando a informação está em nosso limite

COLIN

Quanto mais eu falo para Helena contratar uma mulher inteligente,

menos ela faz questão de me ajudar! É in-crí-vel!

É pedir muito alguém discreto e que saiba ler a porra de um simples

bilhete?!

Vida de merda!

Além de tudo ela me contrata uma mulher espalhafatosa, que assina

documentos sem conferir. É pra foder com o meu dia. E isso porque ela disse

que foi bem recomendada, se não fosse...

Se acalme, Colin!

O dia tem 24 horas. Claro! Essa afirmação foi idiota, mas fazendo uma

analogia, posso dizer que passo a porra das 24 horas irritado. Não sorrio, (a

exceção é quando estou debochando), e posso dizer que praticamente nada

me deixa feliz. Há algo, ou melhor, alguém que me deixa assim, mas nem

mesmo o meu filho eu consigo encarar. Não mais.

Sim, sou um homem falho. Um pai falho. Um marido...

- Esqueça esse assunto, Colin - disse a mim mesmo, olhando para o

céu. - E você, eu queria saber porque me odeia tanto, se é que existe! -

falei, acho que para Deus, em quem eu acreditava há um ano, mas que agora

tenho dúvidas de sua existência.

Minha vida mudou bruscamente há alguns meses. Em suma, perdi a

minha esposa e minha filha em um acidente de carro. Na verdade não perdi

só isso, eu perdi tudo! Minha filha era uma parte de mim, parte a qual nunca

mais vou recuperar.

Quase ninguém sabe da história real dessa tragédia, já que na época fiz

o possível para que praticamente ninguém tivesse acesso aos pormenores

dela.

Sou um pai destruído por dentro, e a cada momento que respiro sinto

saudades de Maddison, minha filha. Ela era o motivo dos meus sorrisos mais

bobos, que agora se tornaram escassos. Minha filha fazia o possível para que

eu me sentisse um homem completo, e por mais que meu dia tivesse sido

estressante, ou algo tivesse dado errado, lá estava ela do meu lado, colorindo

seus livros infantis enquanto eu projetava algo.

Quanto ao meu filho, devo dizer que apesar de ele ser mais desapegado,

eu conseguia estar presente como pai em vários momentos, e sempre o

acompanhava nos esportes que ele praticava. Também éramos bastante

carinhosos um com o outro, e tal como Maddison, ele também ficava muito

tempo comigo. A vantagem de se trabalhar em casa é essa.

Bem, a distância foi o que restou. Sei que Joshua me culpa pelo que

aconteceu com a irmã e a mãe dele, e não sei como voltar a ter intimidade

com meu filho.

Sou um dos arquitetos mais famosos do país. Algumas das obras mais

famosas da cidade foram por meu intermédio, e algumas estrelas de cinema

fizeram questão de me procurar após o meu início promissor.

Em um primeiro momento conciliei bem meus afazeres, e realmente

sentia prazer em meu trabalho. Essa vontade se esvaiu de mim quando

descobri que minha vida pessoal era rodeada de segredos, e além de tudo,

pouco tempo depois perdi um dos bens mais preciosos da minha vida.

Meu celular começou a tocar incessantemente, e como já sou um

homem estressado, estava para jogá-lo na parede, mas resolvi atender quando

notei a pessoa que me ligava.

- Preciso falar pessoalmente contigo, Colin. - James Sullivan, um

dos mais renomados empresários da nossa cidade, falou prontamente.

Além de um homem importante, o considero como meu amigo pessoal.

Estranho eu falar que tenho amigos, não? A verdade é que possuo alguns,

apesar de ter me tornado um homem com sentimentos limitados.

- Tem a ver com o projeto? - O questionei, já sabendo que era bem

provável que esse fosse o assunto principal.

- Sim, e mais algumas coisas.

- James...

- Me encontre no Vero Italian Restaurant às 13h em uma semana.

- Daqui a sete dias?

- Sim, terei somente esse horário. Posso contar com a sua presença?

Sei que é um homem ocupadíssimo... - debochou. Ele sabia que eu

praticamente não saía da minha mansão.

- Pode deixar.

Desliguei o telefone, mas certa curiosidade rondou meus pensamentos

sobre o que James queria comigo. Já não era burrice minha ter prometido ao

homem que eu faria o projeto de sua mais nova mansão?

ISABELLE

Ao chegar em casa ainda havia resquícios de estresse por todo o meu

corpo.

É difícil me estressar, mas hoje o dia foi complicado, principalmente

por minha falha ao conferir com exatidão os objetos que chegaram na

mansão.

Colin Adams...

Já vi homens arrogantes que se acham o centro do mundo, mas não

igual ao Colin. É complicado descrevê-lo, mas dificilmente alguém

conseguiria conviver ao seu lado por 24 horas, e acho que ele compreende

isso e se isola. Minha opinião.

Estava penteando os cabelos da minha filha enquanto ela brincava com

sua boneca, Lucy, que parecia amar mais do que o normal. Depois de algum

tempo, Hanna me encarou, e já sabia que seria questionada sobre algo.

- Como é o seu patrão, mamãe?

- Um doce... - revirei os olhos. - Como jiló!

Depois que rimos um pouquinho, voltei minha atenção para o seu

cabelo.

- Ele é chato, mamãe?

- Ele precisa melhorar muito para conseguir essa proeza. -

Relembrei do seu rosto.

- Hã? - Seus olhinhos confusos me fitaram.

- Não é nada, meu amor. Ele é difícil, só isso.

- Tá bom.

Depois do jantar terminei alguns afazeres e coloquei Hanna para

dormir.

Ao deitar-me, repassei mentalmente meu dia, e coloquei em minha

cabeça que prestaria o dobro de atenção no meu serviço enquanto estivesse

trabalhando...

***

Acordei assustada.

Por um momento não entendi o motivo do meu sobressalto, mas

quando olhei para o meu celular percebi que estava em uma enrascada. São

exatamente 6h30m, e eu deveria estar na casa de Colin em no máximo trinta

minutos.

Não iria dar tempo!

Meu cérebro (como um bom amigo), tratou de me desanimar logo após

correr em direção ao meu guarda-roupas. Por sorte, minha mãe levaria Hanna

com ela, já que a escolinha dela está em período de férias.

Merda de celular que não despertou!

Ou despertou e eu não ouvi?! Ótimo! Nem eu mesma sei o que houve,

só que não vou ficar procurando desculpas, preciso chegar a tempo de alguma

forma.

Me arrumei em tempo recorde, e fui voando ao meu carro, entrando no

mesmo e acelerando o máximo para chegar na mansão até as 7h, algo que eu

estava duvidando que aconteceria.

***

Entrei na casa de Colin exatamente às 7h, e um alívio descomunal

tomou conta de mim.

Eu consegui!

Sorri para mim mesma, mas quando fui em direção a uma das portas

notei uma figura masculina com os braços cruzados, impassível, me olhando

como se eu fosse uma pessoa desconhecida. Ao estabelecermos contato

visual, meneou a cabeça de um lado para o outro, em desacordo, visualizando

logo em seguida o seu relógio.

- 5 minutos atrasada!

- Eu... - Olhei para meu celular, e o mesmo marcava 7:01h.

Contando o trajeto que fiz no interior da mansão, eu tinha absoluta certeza

que estava dentro do horário. - Cheguei exatamente às 7h - retruquei.

- Vou ter que lhe ensinar a olhar as horas corretamente? - Seu

timbre ficou mais grosso.

- Olhei meu celular agora, estou falando...

Não consegui falar por muito tempo, e o homem veio para mais perto,

fazendo-me segurar a respiração por causa da nossa distância, que era

curtíssima neste momento.

De novo aquele perfume gostoso...

- Olhe para trás! - Seu tom de voz mandava, não simplesmente

pedia.

- Colin, eu já entendi que...

- Vou ter que ficar te interrompendo toda hora?! - Grunhiu,

estreitando os olhos ao me cortar pela milésima vez.

Obedeci.

- Agora foque na parede à sua frente! - Senti seu hálito perto do meu

pescoço, e fiquei um pouco arrepiada.

Novamente fiz o que me foi pedido e me deparei com um enorme

relógio.

- Qual horário está sendo marcado no relógio que está na parede?

Merda!

- São 7:05h.

- O que isso significa?

- Estou atrasada. - Assenti, abaixando um pouco a cabeça.

- E o que acarreta atrasos? - Ele parecia se divertir neste momento,

visto que a tonalidade da sua voz mudou um pouco.

- Uma advertência.

- Acho que entende o que acontecerá quando ocorrer a segunda, não

é, dona Isabelle?

- Sim, Colin. - Me dei por vencida. Sabendo que esse homem é

meticuloso em excesso, eu poderia ter ajustado meu celular com os inúmeros

relógios da casa.

- Ótimo! - Senti-o sair da minha presença, e instantes depois sumiu

das minhas vistas.

***

Sentei-me em uma das cadeiras da cozinha e coloquei minhas mãos na

cabeça. Depois de alguns segundos inerte, abri meus olhos, e percebi uma

mulher me observando com um sorriso destacado em sua face.

- Me desculpe, não queria interromper seu momento.

- Sem problemas. - Me levantei, tentando sorrir, algo difícil depois

do que aconteceu mais cedo. - Você trabalha aqui, certo? - indaguei.

- Sim, meu nome é Helen. Qualquer dúvida estarei aqui para lhe

ajudar, criança. Eu deveria te apresentar o pessoal que trabalha para Colin,

mas ontem percebi o quanto estava atarefada.

Uma senhora de cabelos grisalhos que aparentava estar no auge de seus

50 anos de idade me fitava com um grande sorriso, e por dentro me senti

bem, já que a maioria das pessoas dessa casa não sabem o que é sorrir.

- Graças a Deus encontrei a famosa Helen! - Soltei sem pensar, e a

senhora riu um pouco de mim. - Me desculpe - complementei.

- Não se preocupe. Acho que já conheceu Colin. - Arqueou as

sobrancelhas quase no mesmo instante em que passei a mão em meus cabelos

relembrando de sua fisionomia, principalmente seu rosto lindo, mas

rabugento.

- Sim.

- Suponho que tenha o adorado, ele é um amor, não é?

Olhei para ela incrédula, só que Helen franziu o rosto de um modo

divertido e tive de rir novamente. Ela só podia estar sendo sarcástica, porque

o homem...

- Prefiro não responder. - Me esquivei, não podia tomar uma

segunda advertência, batendo meu recorde, e ser demitida em menos de três

dias de trabalho.

- Colin é estressado assim com a maioria das pessoas. 99%, se

fizermos uma média.

- Quem é a exceção?

- Por incrível que pareça... eu!

- Ele sempre foi assim? Estúpido, arrogante, grosso, desbocado...

Me dei conta das palavras proferidas um segundo depois e levei minha

mão à boca, já havia cometido um erro hoje ao chegar atrasada, e agora estou

falando mal do meu chefe justamente para a pessoa que está trabalhando com

ele há alguns anos.

Você é muito esperta, Isabelle!

- Não, Colin era o oposto. - Baixou um pouco a cabeça e seu olhar

ficou triste de uma hora para outra. - Aconteceram algumas coisas na vida

dele, e...

Parou. Ela claramente não estava confortável em falar sobre isso, e não

serei eu a pessoa que cometerá a segunda burrada no dia.

- Não importa. Farei o meu melhor em minhas atribuições. - A

interrompi sutilmente, sorrindo. Não queria entrar em detalhes sobre algo que

claramente ela não se sentia à vontade, e ainda tinha a regra número 8.

Sim, eu gravei as regras.

- Certo, Isabelle. - Sorriu ternamente. - Já estava esquecendo, há

uma pessoa que preciso te apresentar.

- Claro.

Nos encaminhamos para uma da salas da mansão, e bem lá no fundo do

corredor vi um menino brincando com alguns carros de controle remoto.

- Vou deixá-los a sós para se conhecerem. Ele se chama Joshua, e é o

filho de Colin.

Depois que nos viu, ele se levantou. Analisei seus traços enquanto ele

vinha em minha direção, e vi muito de Colin em Joshua. Os cabelos, os

olhos, a boca...

O menino era praticamente a cópia do pai, sem sombra de dúvidas.

- Olá. - Me agachei um pouco.

- Oi, moça.

- Qual é o seu nome? - perguntei apesar de saber.

- Joshua. E o seu?

- Isabelle. É um prazer te conhecer. - Sorri.

- Hm. Você vai trabalhar aqui quanto tempo?

- O dia todo. Por que a pergunta?

- Não... é... se vai ficar aqui muitos dias. Meu pai manda as mulheres

embora em poucos dias - disse com enorme inocência, logo desviando seus

olhos, que mostravam inquietação e tristeza.

- Farei tudo ao meu alcance para ele não fazer o mesmo comigo.

- Tá bom, moça.

Joshua não tem conhecimento do quanto é difícil isso que falei, mas me

desdobraria para não perder o emprego, apesar de estar certa que passarei

apertada em todos os momentos que ficar frente a frente com Colin.

CAPÍTULO 4

"Alguns corações se abrem quando menos

esperamos..."

ISABELLE

Ontem completei uma semana de trabalho.

Não tive problemas depois do episódio com o meu atraso. Isso se deve

principalmente ao fato de não ter visto Colin com frequência, e quando nos

cruzamos, nenhuma palavra saiu de sua boca.

Eu continuava dizendo bom dia quando o via, e o homem seguia

ignorando minhas palavras. Não tenho culpa de ter uma boa educação até

mesmo com as pessoas que não merecem.

Havia acordado mais cedo que o normal. Minha mãe estava ao telefone,

conversando com uma de suas patroas. Ao notar seu semblante, vi certa

angústia estampada em sua face.

- O que houve, mãe?

- Aconteceram alguns imprevistos e não poderei levar Hanna comigo

hoje no trabalho.

Me alarmei. É algo fora de cogitação levá-la comigo, já que com mais

uma advertência...

- Me desculpe, filha.

- Darei um jeito. - Sorri, tentando disfarçar a angústia que se alojou

em meu peito.

Repassei mentalmente minhas opções, e olha que beleza: não havia

nenhuma!

Lauren, minha amiga, está trabalhando, e tirando minha amiga e a

minha mãe, não havia ninguém com quem eu pudesse deixar Hanna. Não sou

muito de confiar nas pessoas.

Saco!

- Está tudo bem, Isabelle. - Respirei.

Fui para o quarto da minha filha, e percebi ela em um sono bastante

tranquilo.

- Queria ter essa paz - sibilei enquanto permanecia de pé, a

observando por alguns segundos.

É incrível como nossos filhos crescem de uma forma assustadora.

Quando percebi ela já havia se tornado uma criança de cinco anos de idade.

Como a escolinha dela está de férias, em alguns momentos temos que

nos desdobrar, mas não reclamo, a questão é o hoje.

Acordei Hanna, que ainda estava sonolenta.

- Tenho uma novidade: hoje você ficará comigo no trabalho, filha. -

Beijei sua testa.

- Onde você trabalha é legal? - disse, ainda meio que dormindo.

- Muito.

- Tá bom, mamãe.

Depois de terminar meus afazeres e ajudar Hanna fui para a mansão de

Colin.

***

Minha primeira providência ao chegar na mansão foi procurar Helen.

Talvez ela pudesse me salvar, ou não...

- Você acha que posso esconder minha filha na casa? - falei

mansamente.

- Esconder? - Helen riu.

- Ah, você entendeu... - relatei sem graça. - Não disse a você, mas

já tomei uma advertência, e estou preocupada.

- Eu sei. Colin me disse.

Ótimo!

- Você irá me dedurar? - perguntei com calma.

- Fique tranquila, Isabelle. Não vou dizer nada, e acho que pode

deixar sua filha em uma das salas. Colin dificilmente irá sair do quarto hoje,

pelo que fiquei sabendo ele está focado em um novo projeto.

Fiquei mais aliviada com sua frase, e provavelmente manteria meu

emprego por mais tempo.

Provavelmente...

***

O período da manhã foi sossegado. Não vi sinal de Colin em parte

alguma, e precisava não vê-lo neste dia. Soa errado já que estou em sua casa,

só que é necessário, pelo menos por hoje.

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