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Quando o Amor Chega Tarde Demais

Quando o Amor Chega Tarde Demais

Autor:: Cecilia
Gênero: Moderno
Abri os olhos. Não estava no Cabo da Roca, mas sim na suíte nupcial do Hotel Ritz, a noite do meu casamento com a Sofia. Tinha voltado. Mas não para mim. Mas para ela. Tinha de cumprir os três desejos não ditos da Sofia, os três maiores arrependimentos que a atormentaram na primeira vida: anular este casamento, desafiar a vontade do pai dela, e garantir a felicidade de Lucas, o homem que ela amava. Para a libertar, manipulei-a a assinar o divórcio, aguentei a sua crueldade quando me mandou mergulhar no mar gelado por um relógio de Lucas e fui atacado pelo seu carro, ao tentar salvá-la de si mesma depois de um reencontro fatídico com ele. Deixei Lucas colher os louros por ter salvo o pai dela de um incêndio e doei o meu próprio sangue, mesmo com a perna partida, para salvar a vida do meu rival. Cada ato de sacrifício era uma facada no peito, mas eu suportava, acreditando que a sua cegueira, manipulada pelo Lucas, um dia se dissiparia. Seria a felicidade dela digna de tanto sofrimento? Mas quando Lucas, num acesso de fúria, a empurrou pelas escadas, foi ela que se atirou à minha frente. E nesse instante de desespero, percebi que a minha missão, e a nossa última parte, estava finalmente a começar-não para a felicidade dela, mas para a minha, a libertação de uma paixão que tanto me custou.

Introdução

Abri os olhos.

Não estava no Cabo da Roca, mas sim na suíte nupcial do Hotel Ritz, a noite do meu casamento com a Sofia.

Tinha voltado.

Mas não para mim.

Mas para ela.

Tinha de cumprir os três desejos não ditos da Sofia, os três maiores arrependimentos que a atormentaram na primeira vida: anular este casamento, desafiar a vontade do pai dela, e garantir a felicidade de Lucas, o homem que ela amava.

Para a libertar, manipulei-a a assinar o divórcio, aguentei a sua crueldade quando me mandou mergulhar no mar gelado por um relógio de Lucas e fui atacado pelo seu carro, ao tentar salvá-la de si mesma depois de um reencontro fatídico com ele.

Deixei Lucas colher os louros por ter salvo o pai dela de um incêndio e doei o meu próprio sangue, mesmo com a perna partida, para salvar a vida do meu rival.

Cada ato de sacrifício era uma facada no peito, mas eu suportava, acreditando que a sua cegueira, manipulada pelo Lucas, um dia se dissiparia.

Seria a felicidade dela digna de tanto sofrimento?

Mas quando Lucas, num acesso de fúria, a empurrou pelas escadas, foi ela que se atirou à minha frente.

E nesse instante de desespero, percebi que a minha missão, e a nossa última parte, estava finalmente a começar-não para a felicidade dela, mas para a minha, a libertação de uma paixão que tanto me custou.

Capítulo 1

A década de casamento com a Sofia foi um deserto frio. Dez anos. Trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Cada dia era uma repetição do anterior, um silêncio pesado que enchia a nossa casa no Douro, tão vasta e vazia como o meu coração.

Ela odiava-me.

O ódio dela começou no dia em que o seu irmão adotivo, Lucas, se matou. Ela culpou-me, disse que o nosso casamento arranjado o tinha empurrado para o abismo.

Anos mais tarde, foi a vez dela. Um acidente de carro numa estrada sinuosa perto de Sintra. Cheguei ao hospital e ela já estava a ir-se. Os seus olhos, que eu amava desde que éramos crianças a correr pelas vinhas, estavam turvos de dor.

Ela agarrou a minha mão, uma força surpreendente no seu corpo frágil.

"Diogo," a sua voz era um sussurro. "Se eu tivesse um último desejo... seria nunca me ter casado contigo. Assim... eu e o Lucas poderíamos ter sido felizes."

Essas foram as suas últimas palavras.

O meu mundo acabou ali. Vivi o resto dos meus dias como um fantasma, assombrado pela sua memória e pelo seu ódio.

Agora, velho e doente, estou no Cabo da Roca. O ponto mais ocidental da Europa, onde a terra acaba e o mar começa. O vento chicoteia o meu rosto, frio como o túmulo que me espera.

Fecho os olhos e faço um desejo desesperado, um grito silencioso para qualquer deus que possa ouvir.

"Dêem-me uma segunda oportunidade. Não para mim. Para ela. Deixem-me fazê-la feliz."

Uma escuridão engole-me.

Depois, luz.

Abro os olhos. Não estou no penhasco ventoso, mas num quarto luxuoso. O cheiro a lírios e a champanhe barato enche o ar. Reconheço o quarto. É a suíte nupcial do hotel Ritz, em Lisboa.

A noite do meu casamento com a Sofia.

Olho para as minhas mãos. São jovens. Fortes. O meu corpo não dói.

Olho para a cama. Sofia está lá, deitada de costas, o seu vestido de noiva amarrotado debaixo dela. Está bêbada, a murmurar no seu sono.

"Lucas... Lucas, não me deixes..."

A dor é tão aguda e familiar que quase me sufoca. É real. Estou de volta.

Uma missão clara forma-se na minha mente, uma condição para esta segunda vida. Tenho de cumprir os três desejos não ditos dela, os três maiores arrependimentos que a atormentaram na nossa primeira vida.

Primeiro: anular este casamento.

Segundo: desafiar a vontade do pai dela, que a forçou a casar comigo.

Terceiro: garantir a felicidade de Lucas.

O amor dela por ele era uma ilusão, uma confusão de proteção e dever que ele manipulou. Eu via isso. Mas ela não. Naquela vida, a sua cegueira levou-os a todos à ruína.

Nesta vida, vou dar-lhe o que ela pensa que quer. Vou libertá-la. Mesmo que isso signifique a minha própria solidão eterna.

Ela agita-se, ainda a chamar por ele.

"Lucas, por favor... diz que me amas."

Uma ideia fria e terrível toma forma. Puxo de uma caneta e dos papéis do divórcio que o meu advogado preparou como uma contingência desesperada na altura. Ajoelho-me ao lado da cama.

Aproximo a minha boca do seu ouvido e, com a voz mais suave e manipuladora que consigo, imito a voz de Lucas.

"Sofia, meu amor. Claro que te amo. Mas ele está no nosso caminho. Assina isto. Prova que és só minha. Mostra que este casamento não significa nada."

Os olhos dela abrem-se ligeiramente, sem me verem de verdade. Ela sorri, um sorriso bêbado e feliz.

"Qualquer coisa por ti, Lucas."

Ela pega na caneta e rabisca a sua assinatura no papel. Depois, adormece novamente, com um sorriso nos lábios.

Guardo os papéis. O meu coração está a ser esmagado. Mas a minha decisão está tomada.

Nesta vida, Sofia Carvalho, tu serás feliz.

Capítulo 2

Acordo com o som suave da sua respiração. A luz da manhã de Lisboa entra pela janela, iluminando o seu rosto. Mesmo com a maquilhagem borrada e o cabelo despenteado, ela é a mulher mais bonita que já vi.

Ela mexe-se e geme, levando a mão à cabeça.

"Que dor de cabeça," murmura ela, sentando-se. Os seus olhos encontram os meus e a suavidade desaparece, substituída por uma máscara de gelo.

"Onde estão os meus comprimidos?" pergunta ela, a voz ríspida.

Levanto-me e vou buscar a sua mala, encontrando o pequeno frasco. Entrego-lho com um copo de água. Ela engole-os sem uma palavra de agradecimento, os seus olhos evitando os meus.

O meu telemóvel vibra. É uma mensagem da minha mãe. "Estamos à vossa espera para o almoço. Não se atrasem."

"Temos de ir," digo eu. "Os meus pais estão à nossa espera na quinta."

Ela suspira, um som de puro fastio. "Claro. A obrigação social."

Enquanto ela está no duche, escondo os papéis do divórcio assinados no forro da minha mala. Um segredo doloroso que me vai libertar a ela.

A viagem para o Douro é silenciosa. Ela olha pela janela, o seu corpo o mais longe possível do meu no espaçoso Bentley. As suas mãos estão no seu colo, e vejo o seu polegar a passar nervosamente sobre o ecrã do seu telemóvel.

De repente, ela vira o volante bruscamente, saindo da autoestrada numa saída não planeada.

"O que estás a fazer?" pergunto, surpreendido.

"Um desvio," diz ela, com os dentes cerrados. "O Lucas precisa de mim."

Ela mostra-me o ecrã do telemóvel. É uma publicação do Instagram. Lucas, a sorrir para a câmara, com o braço à volta de uma rapariga bonita e loira. A legenda diz: "A celebrar a vida com a minha nova miúda."

É uma provocação óbvia, e a Sofia mordeu o isco.

Ela conduz como uma louca até um café da moda no Porto, onde o Lucas está sentado numa esplanada. Ela sai do carro sem sequer o desligar, deixando-me para trás.

Observo-a a marchar até à mesa, a sua raiva visível mesmo à distância. Vejo-a a discutir com o Lucas, a rapariga loira a parecer desconfortável.

Decido não esperar. Ligo a um dos motoristas da minha família para me vir buscar e sigo para a quinta dos meus pais.

Chego sozinho. A minha mãe corre para me abraçar, o seu rosto cheio de preocupação.

"Diogo? Onde está a Sofia?"

"Ela teve de ir," digo, a minha voz vazia. "O Lucas precisava dela."

O meu pai franze o sobrolho, a sua desaprovação clara.

Levo-os para a biblioteca, o cheiro a livros antigos e a madeira polida a encher o ar. Eles sentam-se, os seus olhos fixos em mim.

Respiro fundo.

"Mãe, pai. Eu vou divorciar-me da Sofia."

O choque nos seus rostos é palpável. A minha mãe leva a mão à boca.

"Diogo, o que estás a dizer? Casaram-se ontem!"

"Foi um erro," digo eu, a minha voz a quebrar pela primeira vez. "Ela não me ama. Ela ama o Lucas. Eu não posso viver outra vez uma década de miséria. Não posso vê-la infeliz por minha causa."

As lágrimas que tenho segurado finalmente caem. O meu pai, um homem de poucas palavras, levanta-se e põe a mão no meu ombro. A minha mãe vem e abraça-me com força.

"Oh, meu filho," soluça ela. "Nós vimos o teu sofrimento na última vida. Se é isto que tens de fazer, nós apoiamos-te. Podes sempre voltar para casa. Começar de novo."

O apoio deles é uma bóia de salvação num mar de dor.

"Eu vou garantir que todos tenham um final feliz desta vez," digo, mais para mim do que para eles. "Incluindo eu."

Mas, no fundo, sei que a minha felicidade já não é uma possibilidade.

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