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Quando o Amor Morreu, a Liberdade Começou

Quando o Amor Morreu, a Liberdade Começou

Autor:: Axel Bob
Gênero: Romance
O vidro estilhaçado cortou a bochecha de Alana Matos. "Socorro", ela engasgou ao telefone, mas seu marido, Heitor Carvalho, rosnou: "Alana, pelo amor de Deus, estou numa reunião." Um golpe seco. E então, a escuridão. Ela não acordou em seu carro ensanguentado, mas em seu opulento quarto de casal, com o calendário marcando três meses após seu casamento. Três meses de um casamento que já havia começado a matá-la. Heitor estava perto da janela, sua voz se suavizando: "Sim, Jéssica, hoje à noite parece perfeito." Jéssica Torres, seu verdadeiro amor, a sombra sobre a primeira vida de Alana. A dor familiar no peito de Alana deu lugar a uma fúria nova e gélida. Por sete anos miseráveis, ela havia dedicado a Heitor uma devoção desesperada e inabalável. Suportou sua frieza, seus casos descarados, seu abuso emocional, tudo por um pingo de sua atenção. Ela havia se tornado uma casca, uma caricatura, ridicularizada pelo círculo de Heitor e tratada com condescendência por sua família. A profunda injustiça, a pura cegueira de sua indiferença, era um comprimido amargo. Seu coração, antes partido, agora não sentia nada além de um eco oco de amor não correspondido. Então, em uma gala, um ato cruel envolvendo as cinzas de Dona Eleonora, e Heitor, sem hesitar, empurrou Alana, suas acusações ecoando: "Você é uma vergonha." Ele confortou Jéssica enquanto a cabeça de Alana girava com o impacto. Aquela foi a gota d'água. Sem lágrimas, sem raiva. Apenas uma resolução fria. Ela entregou uma pequena caixa de veludo em sua cobertura. Dentro: a aliança e o pedido de divórcio. "Eu. Quero. Você. Fora. Da. Minha. Vida. Para. Sempre.", ela declarou, sua voz clara. Ela renasceu para ser livre.

Capítulo 1

O vidro estilhaçado cortou a bochecha de Alana Matos.

"Socorro", ela engasgou ao telefone, mas seu marido, Heitor Carvalho, rosnou: "Alana, pelo amor de Deus, estou numa reunião."

Um golpe seco. E então, a escuridão.

Ela não acordou em seu carro ensanguentado, mas em seu opulento quarto de casal, com o calendário marcando três meses após seu casamento. Três meses de um casamento que já havia começado a matá-la.

Heitor estava perto da janela, sua voz se suavizando: "Sim, Jéssica, hoje à noite parece perfeito." Jéssica Torres, seu verdadeiro amor, a sombra sobre a primeira vida de Alana. A dor familiar no peito de Alana deu lugar a uma fúria nova e gélida.

Por sete anos miseráveis, ela havia dedicado a Heitor uma devoção desesperada e inabalável.

Suportou sua frieza, seus casos descarados, seu abuso emocional, tudo por um pingo de sua atenção.

Ela havia se tornado uma casca, uma caricatura, ridicularizada pelo círculo de Heitor e tratada com condescendência por sua família.

A profunda injustiça, a pura cegueira de sua indiferença, era um comprimido amargo. Seu coração, antes partido, agora não sentia nada além de um eco oco de amor não correspondido.

Então, em uma gala, um ato cruel envolvendo as cinzas de Dona Eleonora, e Heitor, sem hesitar, empurrou Alana, suas acusações ecoando: "Você é uma vergonha."

Ele confortou Jéssica enquanto a cabeça de Alana girava com o impacto. Aquela foi a gota d'água.

Sem lágrimas, sem raiva. Apenas uma resolução fria. Ela entregou uma pequena caixa de veludo em sua cobertura. Dentro: a aliança e o pedido de divórcio.

"Eu. Quero. Você. Fora. Da. Minha. Vida. Para. Sempre.", ela declarou, sua voz clara. Ela renasceu para ser livre.

Capítulo 1

Os cacos da janela do passageiro cravaram-se na bochecha de Alana Matos.

"Por favor, leve o carro", ela gaguejou, as mãos trêmulas enquanto procurava a bolsa.

O homem com a arma riu, um som áspero e feio. "E você, gracinha?"

O medo, frio e absoluto, a dominou. Seus dedos encontraram o celular, discando o número de Heitor na discagem rápida.

A linha conectou. "Heitor, me ajude-"

"Alana, pelo amor de Deus, estou numa reunião", Heitor Carvalho, seu marido por sete anos miseráveis, rosnou. "Isso não pode esperar?"

"Não, Heitor, por favor, eu estou sendo-"

Um golpe seco na cabeça. O telefone voou para longe.

Escuridão.

Então, uma luz ofuscante, uma dor lancinante e uma voz. A voz de Heitor.

"-completamente inútil, Alana. Você não consegue fazer nada direito?"

Os olhos de Alana se abriram bruscamente.

Não para o interior escuro e ensanguentado de seu carro, mas para a familiaridade opulenta e sufocante do quarto de casal deles.

A luz do sol entrava pelas cortinas de seda. Anos antes. Isso era anos antes.

Ela estava viva. Renascida.

O calendário na mesa de cabeceira marcava: 17 de outubro.

Três meses após o casamento. Três meses dentro do inferno do qual ela acabara de escapar.

Uma onda de náusea, densa com o cheiro fantasma de sangue e pólvora, a invadiu.

Ela havia recebido uma segunda chance.

Heitor estava perto da janela, o telefone pressionado contra a orelha, de costas para ela.

"Sim, Jéssica, hoje à noite parece perfeito", ele murmurou, sua voz se suavizando, um tom que Alana havia desejado e nunca recebido. "Eu cuido da Alana. Ela só está sendo dramática, como sempre."

Jéssica Torres. Sua namorada da faculdade. A mulher que ele realmente amava. A mulher que havia sido uma sombra sobre todo o casamento deles em sua vida passada.

Alana sentiu a velha e familiar dor em seu peito, rapidamente dominada por uma fúria nova e fria.

Desta vez, não.

"Heitor", disse Alana, sua voz surpreendentemente firme, rouca pelo desuso nesta linha do tempo, mas decidida.

Ele se virou, a irritação clara em seu rosto bonito. "O que foi agora, Alana? Não vê que estou numa ligação?"

"Precisamos conversar", ela afirmou, erguendo-se. As memórias de sua morte, da indiferença dele, eram vívidas demais, aterrorizantes demais.

"Depois", ele dispensou, virando-se de volta para a janela.

"Não. Agora", insistiu Alana, sua voz ganhando força. "Eu quero o divórcio."

Heitor riu, um som curto e desdenhoso. Ele encerrou a ligação.

"Divórcio? Não seja ridícula, Alana. O que é isso, mais um dos seus joguinhos para chamar minha atenção?"

Ele caminhou em sua direção, sua expressão uma mistura de desprezo e divertimento.

"Você não teria coragem. Vovó Eleonora arrancaria sua cabeça. E além do mais", ele se inclinou, sua voz um sussurro cruel, "para onde você iria?"

Sua arrogância, sua cegueira, era tudo igual. Mas ela estava diferente agora.

"Eu tenho coragem", disse ela, encontrando seu olhar sem vacilar. "Isso não é um jogo, Heitor. Acabou."

Alana balançou as pernas para fora da cama, ignorando o tremor em seus membros.

Ela caminhou até a cômoda, pegou seu celular – o celular desta vida – e encontrou o número que precisava.

"Sim, preciso agendar uma consulta urgente com o Dr. Davila", disse ela ao telefone, sua voz clara e profissional. "É sobre um acordo de divórcio. Alana Matos. Sim, Carvalho agora, infelizmente."

Heitor a observava, seu divertimento desaparecendo, substituído por um lampejo de incredulidade.

Ela desligou. "Ele pode me ver esta tarde."

Por sete anos em sua vida anterior, Alana amou Heitor Carvalho com uma devoção desesperada e inabalável.

Ela havia suportado sua frieza, seus casos descarados, seu abuso emocional, tudo na esperança patética de que um dia ele a veria, a veria de verdade.

Ela tinha sido a alma quieta e artística que Eleonora Carvalho, sua avó formidável, esperava que o acalmasse.

Eleonora, em seu leito de morte, havia orquestrado o casamento deles, atrelando o acesso de Heitor aos fundos da família à união deles.

Alana se lembrava da mão frágil de Eleonora na sua, de suas palavras sussurradas: "Ele precisa de você, criança. Você tem uma força que ele não vê."

Alana havia acreditado nela. Ela havia tentado. Deus, como ela havia tentado.

O nome Jéssica Torres era uma marca na alma de Alana.

Jéssica esteve lá desde o início, uma víbora constante e sorridente.

Heitor nunca escondeu sua paixão, exibindo Jéssica em eventos que Alana deveria organizar, deixando Alana para lidar com os sussurros e os olhares de pena.

Em sua vida passada, Alana tentou negociar o tempo de Heitor, implorando para que ele não visse Jéssica em aniversários, no seu aniversário.

Cada concessão dele parecia uma vitória, cada promessa quebrada uma nova ferida.

Ela se lembrava de discussões aos gritos, acusações chorosas, colapsos públicos que apenas solidificavam a narrativa de Heitor de que ela era instável, exigente.

Heitor ainda amava Jéssica.

Alana via isso no modo como seus olhos seguiam Jéssica por uma sala, no modo como sua voz se suavizava quando ele pronunciava o nome dela, mesmo agora, neste momento renascido.

O casamento arranjado, uma jaula para ambos, fora o último desejo de Eleonora Carvalho.

Eleonora, uma filantropa respeitada, via a natureza quieta e os talentos artísticos de Alana como um contrapeso necessário ao temperamento volátil de Heitor.

Heitor, no entanto, só via Alana como um obstáculo, uma carcereira.

Ele nunca perdoou sua avó, ou Alana, pela vida que sentia ter sido roubada dele.

Em sua vida anterior, desesperada por qualquer migalha da atenção de Heitor, Alana havia se tornado uma caricatura.

Ela dava festas luxuosas que ele raramente comparecia, comprava roupas que odiava, mas achava que ele admiraria, até tentou fazer amizade com seu círculo social desdenhoso.

Sua arte, sua verdadeira paixão, havia murchado.

Ela se tornara reativa, suas emoções um pêndulo balançando com os humores de Heitor.

Se ele era frio, ela ficava desolada. Se ele mostrava um lampejo de bondade – geralmente quando queria algo – ela se agarrava a isso, uma mulher faminta a quem se oferece uma migalha.

As discussões com Jéssica eram lendárias, sempre instigadas pelas provocações sutis de Jéssica e pela defesa imediata de Heitor de seu "verdadeiro amor". Alana sempre parecia a megera.

Uma clareza profunda e arrepiante se instalou sobre Alana.

Aquele amor, aquele amor consumidor e autodestrutivo que ela sentia por Heitor, estava morto.

Morreu com ela naquele carro, ouvindo a indiferença dele.

O que restava era um eco oco, um tecido cicatricial de memória.

Ela não desperdiçaria esta segunda chance suspirando por um homem incapaz de amá-la, um homem que, em essência, a deixou morrer.

"Nunca foi amor, não é?", ela murmurou, mais para si mesma do que para Heitor, que agora a encarava com uma expressão estranha e indecifrável. "Foi uma obsessão. E eu fui uma tola."

A campainha tocou.

Heitor não se moveu. Ele ainda estava processando as palavras dela, a calma dela.

Alana passou por ele, de cabeça erguida.

Um homem distinto em um terno impecável estava na porta. "Sra. Carvalho? Sou Arthur Davila."

"Dr. Davila, por favor, entre", disse Alana, dando um passo para o lado.

Ela o conduziu à sala de estar formal, agudamente ciente de Heitor seguindo, sua presença um peso opressivo.

Dr. Davila dispôs os documentos sobre a mesa de mogno polido. "Acordo de separação padrão. Divisão de bens, cláusulas de confidencialidade..."

Alana pegou a caneta. Sua mão estava firme.

Heitor finalmente falou, sua voz tingida de incredulidade e uma raiva nascente e desconhecida.

"Você está mesmo fazendo isso?"

Ele pegou um dos papéis, seus olhos percorrendo-o furiosamente.

"Você acha que pode simplesmente ir embora?", ele zombou, mas o som carecia de sua convicção usual.

Ele assinou seu nome com um traço violento da caneta.

"Ótimo. Vá. Mas não venha chorando para mim quando perceber o erro que cometeu, Alana. Você vai se arrepender disso."

Seu tom condescendente, a dispensa familiar – ricocheteou nela.

Alana simplesmente sorriu, um sorriso pequeno e genuíno que não alcançava seus olhos.

"Ah, Heitor", ela disse suavemente. "A única coisa de que me arrependo é de não ter feito isso há sete anos."

Em sua mente, ela já estava fazendo as malas. Não apenas roupas, mas sua vida inteira.

Ela iria embora. Desaparecer.

Ele não a encontraria. Desta vez, ela seria livre.

Ela assinou seu nome, Alana Matos, reivindicando a identidade que havia perdido.

Capítulo 2

As semanas seguintes passaram em um borrão de distanciamento calculado para Alana.

Heitor e Jéssica ostentavam seu romance renovado, agora desobstruído, pelo Instagram.

Fotos deles em restaurantes exclusivos, escapadas de fim de semana para Campos do Jordão, galas de caridade onde Jéssica se agarrava ao braço de Heitor, radiante.

Cada post era uma performance de felicidade cuidadosamente curada, sem dúvida projetada para provocar uma reação de Alana.

Em sua vida passada, ela teria se desmanchado em lágrimas, ligado para seus poucos amigos para lamentações frenéticas, talvez até encenado um confronto público.

Agora, Alana simplesmente bloqueou as contas deles.

Seus amigos, Sara e Bruno, notaram a mudança imediatamente.

"Você está... calma", disse Sara, perplexa, durante um café. "Ele está estampando a Jéssica por toda a internet, e você está apenas... tomando seu latte?"

Alana deu de ombros. "Ele pode postar o que quiser. Não tem mais nada a ver comigo."

Ela se concentrou em sua arte, esboços se acumulando, ideias para uma linha de moda, um negócio têxtil, coisas que ela sonhara, mas suprimira.

O processo de divórcio avançava lentamente, deliberadamente de sua parte. Ela não queria laços, nem emaranhados financeiros persistentes.

A gala anual da Fundação Carvalho, em homenagem ao legado filantrópico de Eleonora Carvalho, era um evento que Alana sempre temera.

Em sua vida passada, era uma noite de humilhação pública, de Heitor a ignorando deliberadamente enquanto prodigalizava atenção a Jéssica, que sempre conseguia comparecer como "acompanhante" de alguém.

Este ano, a Alana renascida decidiu comparecer.

Não como a esposa sofredora de Heitor, mas como a nora de Eleonora, para anunciar uma bolsa de estudos de arte em nome de Eleonora – algo que ela sempre quis fazer.

Ela escolheu um vestido preto simples e elegante, um contraste gritante com os vestidos brilhantes favorecidos pelo círculo dos Carvalho.

Jéssica Torres já estava lá, é claro, praticamente fundida ao lado de Heitor, parecendo radiante em um vestido carmesim.

Os Carvalho mais velhos, tios e tias de Heitor, que sempre trataram Alana com desdém polido, cumprimentaram Jéssica com um calor efusivo.

"Jéssica, querida, você está deslumbrante!", tia Carolina elogiou, dando-lhe beijos no ar. "Tão bom ver você com o Heitor, onde você pertence."

Alana sentiu uma pontada familiar de se sentir uma estranha, mas era distante, observacional.

Ela não estava mais competindo pela aprovação deles.

Tio Ricardo, um homem corpulento com uma voz retumbante, avistou Alana perto da entrada.

"Alana? O que você está fazendo aqui?", ele perguntou, seu tom acusatório. "Pensei que você teria a decência de ficar longe, dadas as... circunstâncias."

Sua esposa, uma mulher coberta de diamantes, fungou. "Sinceramente, algumas pessoas não têm vergonha na cara."

Os sussurros começaram, uma onda de desaprovação entre os convidados reunidos.

Alana manteve a compostura, sua expressão serena.

Jéssica, sentindo uma oportunidade, deslizou até ela, com Heitor como uma sombra relutante.

"Alana", disse Jéssica, sua voz pingando falsa doçura. "Estou tão surpresa em vê-la. Você está... esperando uma reconciliação? Heitor foi tão claro."

Seus olhos, no entanto, continham uma centelha de triunfo, um brilho malicioso familiar.

Este era o palco dela, e Alana era a intrusa indesejada.

No passado, Alana teria mordido a isca, com uma réplica afiada, uma defesa chorosa.

Heitor finalmente falou, sua voz fria, desprovida de qualquer emoção.

"Alana, este é um evento de família. Talvez fosse melhor se você fosse embora."

Ele não olhou para ela, seu olhar fixo em algum lugar sobre o ombro dela.

Suas palavras, destinadas a ferir, mal registraram. Ele ainda estava jogando pelas regras antigas, esperando as reações antigas.

Ele não entendia que o jogo havia mudado porque um dos jogadores havia desistido.

Outros membros da família intervieram, suas vozes um coro de condenação.

"Ela só está tentando causar uma cena."

"Eleonora ficaria tão desapontada."

"Heitor merece ser feliz, finalmente."

O julgamento banhou Alana. Ela já tinha ouvido tudo isso antes, em seus pesadelos e em sua vida desperta.

Desta vez, era apenas ruído.

Alana finalmente falou, sua voz calma e clara, ecoando surpreendentemente bem na súbita calmaria.

"Estou aqui para honrar Eleonora", disse ela, olhando diretamente para o tio de Heitor, depois para o retrato de Eleonora que dominava o salão. "Ela foi muito gentil comigo. Vou anunciar a Bolsa de Estudos de Arte Eleonora Carvalho esta noite."

Um lampejo de surpresa, depois consternação, cruzou seus rostos. Esta não era a reação que esperavam.

Heitor olhou para ela então, uma expressão estranha e indecifrável em seus olhos.

Mais tarde, Alana se encontrou no nicho silencioso e privado onde a urna memorial de Eleonora estava exposta.

Ela colocou uma única gardênia branca, a favorita de Eleonora, ao lado dela.

"Sinto muito, Eleonora", ela sussurrou, lágrimas finalmente picando seus olhos. "Eu não pude ser o que você queria que eu fosse para ele. Mas vou tentar honrar sua memória à minha maneira."

Uma sensação de paz, frágil, mas real, se instalou sobre ela.

Ela construiria sua própria vida, seu próprio legado.

O suave farfalhar de tecido anunciou a chegada de Jéssica.

"Comovente", zombou Jéssica, sua voz afiada, toda a pretensão de doçura desaparecida. Ela pegou a gardênia.

"Eleonora sempre teve um fraco por vira-latas."

Antes que Alana pudesse reagir, Jéssica deliberadamente quebrou o caule da gardênia e depois deixou a flor quebrada cair no chão de mármore polido.

"Ops", disse Jéssica, um sorriso cruel brincando em seus lábios. "Que desastrada."

Alana olhou para a flor quebrada, depois para Jéssica. A paz se estilhaçou.

Capítulo 3

"Como você ousa?", a voz de Alana era baixa, tremendo com uma fúria que ela não sentia desde seu renascimento.

"Eleonora te respeitava, mesmo que ninguém mais nesta família o fizesse. Heitor ficaria furioso se soubesse que você profanou a memória dela assim."

Ela sabia que Heitor ainda mantinha uma reverência complexa por sua avó.

Jéssica riu, um som agudo e quebradiço.

"Heitor? Ele vai acreditar em qualquer coisa que eu disser. Ele sempre acredita."

Ela se aproximou, seus olhos brilhando. "E Eleonora? Ela era uma velha tola. Assim como sua mãe, eu suponho. Mulheres fracas, ambas, agarrando-se a homens que não as queriam."

A menção de sua mãe, que morrera de coração partido e sozinha anos atrás, foi uma facada deliberada e cruel.

Alana explodiu.

O som de sua palma atingindo a bochecha de Jéssica ecoou no pequeno nicho.

Jéssica ofegou, a mão voando para o rosto, os olhos arregalados de choque e, em seguida, fúria.

"Sua vadia!", Jéssica gritou, avançando sobre Alana, as unhas estendidas.

Alana se esquivou, mas Jéssica, desequilibrada, tropeçou.

A mão de Jéssica se debateu, procurando apoio. Encontrou o mármore liso e frio da urna de Eleonora.

Com um estrondo horrível, a urna tombou, derramando as cinzas de Eleonora pelo chão em uma nuvem cinzenta e nauseante.

Alana congelou, o horror a invadindo.

Jéssica olhou para as cinzas espalhadas, seu rosto uma máscara de pânico.

"Oh, meu Deus", ela sussurrou. "Oh, meu Deus, não."

O estrondo, o grito de Jéssica – isso os fez correr.

Heitor foi o primeiro a chegar, seu rosto furioso. Seus tios e tias se aglomeraram atrás dele.

Ele avaliou a cena: Alana de pé, Jéssica no chão, lágrimas escorrendo pelo rosto, e as cinzas de Eleonora... por toda parte.

"Alana!", Heitor rugiu, sua voz crua de dor e raiva. "O que diabos você fez?"

Ele não perguntou. Ele acusou. Instantaneamente.

Jéssica, sempre a atriz, explodiu em soluços teatrais.

"Heitor, oh, Heitor!", ela chorou, apontando um dedo trêmulo para Alana. "Ela me atacou! Eu tentei impedi-la, mas ela... ela derrubou a urna da vovó! Ela disse... ela disse que Eleonora merecia por forçar você a se casar com ela!"

A mentira era monstruosa, mas entregue com uma histeria tão convincente que os espectadores ofegaram.

Alana abriu a boca para falar, para negar, mas nenhuma palavra veio. A audácia da mentira, a pura malícia, roubou-lhe o fôlego.

O clã Carvalho explodiu.

"Monstruoso!"

"Ela precisa ser punida!"

"Chame a polícia!"

Tia Carolina, seu rosto contorcido de raiva, apontou para Alana. "Na minha época, uma mulher como essa seria açoitada!"

O veneno em suas vozes era palpável. Eles sempre quiseram acreditar no pior dela. Jéssica acabara de lhes dar a justificativa em uma bandeja de prata.

Heitor caminhou em direção a Alana, seus olhos ardendo com um fogo frio que ela vira muitas vezes em sua vida passada.

"Você vai pagar por isso, Alana", disse ele, sua voz perigosamente baixa.

Ele listou seus supostos crimes, sua voz ressoando com condenação: "Desrespeitar a memória da minha avó. Agredir Jéssica. Profanar este espaço sagrado."

Ele agarrou seu braço, seus dedos cravando-se em sua carne. "Você é uma vergonha para esta família, para o nome de Eleonora."

Ele nem mesmo considerou o lado dela. Ele nunca o fazia.

"Heitor, não, me escute", Alana implorou, tentando libertar o braço. "Jéssica está mentindo! Ela quebrou a flor, ela-"

O rosto de Heitor endureceu. "Silêncio!"

Ele a empurrou, com força. Alana tropeçou para trás, sua cabeça batendo bruscamente na parede de pedra.

Estrelas explodiram atrás de seus olhos.

A dor foi imediata, intensa.

Através de uma névoa de tontura, ela viu Heitor se afastar dela.

Ele se ajoelhou ao lado de Jéssica, sua expressão suavizando instantaneamente.

"Você está bem, Jess?", ele murmurou, gentilmente enxugando uma lágrima de sua bochecha. "Ela te machucou?"

Sua ternura para com Jéssica, mesmo enquanto a cabeça de Alana latejava, era uma ferida mais profunda do que qualquer golpe físico.

Aquele toque gentil, aquele olhar preocupado – era tudo o que Alana sempre desejara, e era direcionado à mulher que acabara de orquestrar sua humilhação total.

A injustiça de tudo aquilo era um comprimido amargo.

Alana deslizou pela parede, a força se esvaindo de seus membros.

O quarto girou.

A voz de Heitor, fria e distante, cortou a névoa. "Tirem-na daqui. Não quero ver o rosto dela de novo."

Mãos rudes a ergueram.

Ela foi arrastada, sem cerimônia, do nicho, passando pelos olhares horrorizados e julgadores dos Carvalho.

A última coisa que ela viu antes que a escuridão a reivindicasse foi Heitor embalando a mão de Jéssica.

Alana acordou horas depois, sozinha, em um quarto de hóspedes que não reconhecia.

Sua cabeça latejava implacavelmente. Um hematoma grande e sensível estava se formando em sua têmpora.

A dor física era um lembrete gritante e brutal da crueldade de Heitor, de sua devoção cega a Jéssica e de seu completo isolamento dentro da família Carvalho.

Ela estava verdadeiramente, completamente sozinha nisso.

Mas uma resolução fria se instalou em seu coração. Esta foi a gota d'água. Não haveria mais chances, nem mais esperança para Heitor.

Seu telefone vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem de um número desconhecido.

Era uma foto: Heitor e Jéssica, taças de champanhe erguidas, uma suíte de hotel luxuosa ao fundo.

A legenda: "Celebrando novos começos. Algumas pessoas simplesmente não conseguem lidar quando os outros estão felizes. ;) - J"

Outra mensagem se seguiu: "Heitor disse para te dizer que espera que você tenha aprendido a lição. Ele é tão fofo quando está protetor."

Alana olhou para as mensagens, sem lágrimas, sem raiva. Apenas um vazio profundo e cansado.

Jéssica não pararia. Heitor não veria.

Alana se levantou, gemendo. Ela encontrou uma lata de lixo.

Um por um, ela começou a descartar os restos de sua vida passada com Heitor que ela ainda carregava, mesmo nesta vida renascida.

Uma pequena foto emoldurada deles no dia do casamento – Eleonora havia insistido. Alana quebrou o vidro e rasgou a foto ao meio.

Um delicado medalhão de ouro que Heitor lhe dera em seu primeiro (e único) aniversário, um presente superficial. Ela quebrou a corrente.

Cartas que ela havia escrito para ele, cheias de amor e esperança não expressos, nunca enviadas. Ela as rasgou em pedacinhos.

Cada ato era uma ruptura, um desapego.

A porta se abriu sem uma batida. Heitor estava lá, o paletó do terno retirado, a gravata afrouxada.

Ele examinou o quarto, os itens descartados, Alana perto da lata de lixo.

Um sorriso de escárnio tocou seus lábios. "Mais drama, Alana? Tentando me fazer sentir culpado destruindo suas pequenas bugigangas? Não vai funcionar."

Ele pensou que isso era outro apelo por sua atenção, outro jogo manipulador.

Ele ainda não entendia. Ele nunca entenderia.

Alana olhou para ele, um sorriso genuíno, fraco, mas real, tocando seus lábios.

"Na verdade, Heitor", disse ela, sua voz calma, quase leve. "Estou apenas arrumando as coisas."

Ela o encarou diretamente. "Estou bastante ansiosa para que o divórcio seja finalizado. A ideia de estar completamente livre de você, de tudo isso... é bastante emocionante."

O sorriso se alargou e, pela primeira vez, alcançou seus olhos, brilhando com um brilho frio e duro.

O sorriso de escárnio de Heitor vacilou. Ele deu um passo para dentro do quarto, seus olhos se estreitando.

"O que você disse?", ele exigiu, agarrando seu braço, seu aperto firme.

Alana não vacilou. Ela olhou para a mão dele em seu braço, depois de volta para o rosto dele.

"Eu disse", ela enunciou claramente, "Eu. Quero. Você. Fora. Da. Minha. Vida. Para. Sempre."

Ela puxou o braço, não com força, mas com uma resolução quieta e inabalável que pareceu atordoá-lo momentaneamente.

"Ficou claro o suficiente para você, Heitor?"

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