O cheiro a queimado acordou-me, fumo denso a invadir o quarto. Grávida de oito meses, o meu instinto foi proteger a minha barriga. Liguei para o meu marido, Lucas, um bombeiro, a minha esperança.
Ele estava no local do incêndio. Mas, pelo rádio de um colega, ouvi-o dar uma ordem gelada: "Minha prima, Clara, está no 1204. Ela tem problemas de coração. Eu vou entrar por ela primeiro." Sabia que eu estava ali, grávida do seu filho, no apartamento ao lado.
Fui resgatada, mas tarde demais. Inalação de fumo e choque induziram um parto prematuro. Perdi o nosso bebé. No hospital, Lucas e a mãe, Helena, não mostraram pesar, mas irritação. "És forte, Sofia. Eu sabia que aguentarias", disse ele, enquanto Helena encolhia os ombros.
Ser 'forte' significava ser deixada para morrer? Meu corpo estava em frangalhos, mas a crueldade deles era um veneno ainda pior. Como podiam o pai do meu filho e a sua família priorizarem uma prima manipuladora sobre a minha vida e a do nosso bebé?
Nesse vazio de dor, a clareza surgiu. "Eu quero o divórcio", declarei. Tentaram pintar-me como instável, mas a raiva substituiu as lágrimas. Eu iria desvendar a verdade por trás da sua traição. Minha força, antes explorada, seria agora a minha arma.
O cheiro a queimado acordou-me. Abri os olhos e vi fumo a entrar por debaixo da porta do quarto. O nosso prédio estava a arder.
O meu primeiro instinto foi proteger a minha barriga de oito meses. O pânico subiu-me pela garganta, mas forcei-me a manter a calma pelo bebé.
Rastejei para fora da cama, com o fumo a arder-me nos olhos e nos pulmões. O meu marido, Lucas, era bombeiro, ele saberia o que fazer.
Agarrei no telemóvel e liguei-lhe.
"Sofia? O que se passa? A tua voz está estranha."
"Lucas, o prédio está a arder, estou presa no nosso apartamento, no décimo segundo andar."
Houve um silêncio do outro lado, depois o som de sirenes ao longe, a ficarem mais altas.
"Eu estou a chegar, já estou no local. Mantém-te no chão, afasta-te das janelas. Vou buscar-te."
As suas palavras deveriam ter-me acalmado, mas algo na sua voz estava tenso.
Minutos depois, ouvi o caos lá em baixo, as ordens gritadas através de megafones. O meu coração batia descontroladamente.
De repente, ouvi a voz dele, não no telemóvel, mas vinda de um rádio de comunicação de um bombeiro que passava no corredor. A voz dele estava clara e alta.
"A minha prima, Clara, está no 1204. Ela tem problemas de coração, não aguenta o fumo. Eu vou entrar por ela primeiro."
1204. O apartamento ao lado do nosso.
A minha prima, Clara.
O meu corpo gelou. Ele sabia que eu estava aqui, eu tinha acabado de lhe dizer. Eu estava grávida do filho dele.
E ele escolheu-a a ela.
A fumaça ficou mais densa, eu comecei a tossir violentamente, cada tosse uma dor aguda na minha barriga.
"Lucas?", sussurrei para o telemóvel, mas ele já tinha desligado.
A porta do meu apartamento foi arrombada por outros bombeiros. Eles puseram-me uma máscara de oxigénio na cara e levaram-me para fora.
A última coisa que vi antes de desmaiar foi o Lucas a sair do apartamento da Clara, com ela nos braços, sã e salva. Ele nem sequer olhou na minha direção.
Quando acordei, estava numa cama de hospital. O cheiro a antissético substituiu o cheiro a fumo.
Uma enfermeira entrou, com uma expressão triste.
"Lamento muito, Sra. Mendes. Devido à inalação de fumo e ao stress extremo, o seu corpo entrou em trabalho de parto prematuro."
Ela fez uma pausa, e eu já sabia o que vinha a seguir.
"Fizemos tudo o que podíamos, mas perdemos o bebé."
A minha mão foi instintivamente para a minha barriga. Estava vazia. Plana.
O mundo ficou em silêncio.
Lucas e a sua mãe, Helena, entraram no quarto de hospital algumas horas depois. A expressão dele era difícil de ler, mas a de Helena era de pura irritação.
"Finalmente acordaste", disse ela, sem um pingo de simpatia. "Que susto nos deste a todos."
Eu olhei para Lucas, à espera de uma explicação, de um pedido de desculpas, de qualquer coisa.
Ele evitou o meu olhar. "Sofia, eu..."
"Porque é que não me salvaste a mim primeiro?", interrompi-o, a minha voz era um sussurro rouco.
Helena bufou. "Não sejas ingrata, Sofia. Ele é um bombeiro, tem de tomar decisões difíceis. A Clara estava em pânico, ela tem um coração fraco, podia ter morrido ali mesmo."
"E eu?", perguntei, as lágrimas a escorrerem-me silenciosamente pelo rosto. "E o nosso filho? Ele não importava?"
"Claro que importava!", disse Lucas, finalmente a olhar para mim. "Mas tu és forte, Sofia. Eu sabia que aguentarias até outra equipa chegar. A Clara não."
Forte. Eu era forte, por isso fui deixada para trás.
"O bebé morreu, Lucas."
As palavras pairaram no ar, pesadas e frias.
Helena encolheu os ombros. "Acidentes acontecem. Pelo menos vocês os dois estão vivos. Podem sempre tentar ter outro filho."
A crueldade casual dela tirou-me o fôlego. Olhei para o homem com quem me casei, o pai do meu filho morto, e senti um vazio profundo.
"Eu quero o divórcio", disse eu, com uma clareza que me surpreendeu a mim mesma.
Lucas pareceu chocado. "O quê? Não podes estar a falar a sério. Estás a passar por um trauma, não estás a pensar com clareza."
"Nunca pensei com tanta clareza na minha vida", respondi. "Acabou, Lucas."
"Não sejas ridícula", interveio Helena, a sua voz a subir. "Vais deitar fora um casamento por causa disto? Devias estar a apoiar o teu marido, não a acusá-lo. Ele é um herói."
Um herói. Ele salvou a prima dele. Mas deixou a sua mulher grávida para trás num incêndio.
Eu fechei os olhos. Não tinha mais nada a dizer-lhes.
"Saiam", sussurrei. "Por favor, saiam."
Lucas ainda tentou argumentar, mas eu virei o rosto para a parede. Eventualmente, eles saíram, deixando-me sozinha com o silêncio e a minha barriga vazia.