O médico disse-me que o meu filho tinha morrido.
As suas palavras ecoaram, mas eu via apenas Pedro, meu marido, ao meu lado.
Ele segurava a minha mão, não para consolar a perda do nosso bebé, mas para defender a mulher que me empurrara escada abaixo: Sofia, a sua amante.
"Ela não teve intenção", sussurrou ele, enquanto minha sogra, Dona Elvira, entrava no quarto, preocupada apenas com a "pobre da Sofia".
Aquela mulher, que vitimou o meu filho, estava a ser mimada por eles, ignorando a minha dor.
A raiva ferveu quando vi a foto dela, a chorar no ombro do meu marido no hospital, com a legenda: "A família apoia-se nos momentos difíceis."
Família? Eles tinham escolhido o lado deles.
Eles pintaram-me como a "mulher grávida ciumenta" que "atacou a amante do marido" .
A mentira deles, espalhada nos jornais, transformou-me na vilã.
Como pude ser culpada pela morte do meu próprio filho? Como o meu mundo se tornou este inferno de traição e calúnia?
Mas eu não ia deixar. Peguei no telemóvel e liguei ao meu advogado.
Era tempo de lutar, não só por mim, mas pelo futuro que me foi roubado.
Chega de ser vítima.
O médico disse-me que o meu filho tinha morrido.
"Senhora Alves, o seu filho já estava morto no útero quando chegou. Uma asfixia grave, causada por um trauma externo. Lamento imenso."
As suas palavras ecoaram no meu cérebro, mas eu não conseguia processá-las.
Eu estava deitada na cama do hospital, com o corpo pesado e dorido.
O meu marido, Pedro, estava ao meu lado. Ele segurava a minha mão com força, com os olhos vermelhos e inchados.
"Catarina, eu sei que estás a sofrer. Eu também estou. Mas não podemos culpar a Sofia. Ela não teve intenção."
Sofia.
A sua amante.
A mulher que me empurrou escada abaixo.
Eu olhei para ele, sentindo um vazio profundo a instalar-se no meu peito.
"Ela não teve intenção?", perguntei, a minha voz era um sussurro rouco.
"Ela só estava assustada, Catarina. Ela não sabia que estavas grávida. Quando te viu, entrou em pânico e empurrou-te sem querer."
Sem querer.
Uma desculpa tão fraca para a morte do meu filho.
Fechei os olhos. As lágrimas que eu tinha segurado começaram a escorrer pelo meu rosto.
O meu filho, o nosso filho, que esperei por três longos anos, tinha-se ido.
E o meu marido estava a defender a mulher responsável.
"Pedro," eu disse, abrindo os olhos e olhando diretamente para ele. "Quero o divórcio."
Ele ficou chocado. A sua mão soltou a minha como se eu o tivesse queimado.
"O quê? Divórcio? Catarina, não podes estar a falar a sério. Acabámos de perder o nosso filho. Precisamos de nos apoiar um no outro agora."
"Apoiar um no outro?", repeti, uma risada amarga escapou-me dos lábios. "Tu estavas com ela. Enquanto eu estava aqui, a perder o nosso bebé, tu estavas a consolar a tua amante."
A sua cara ficou pálida.
"Eu não estava... Eu fui ter com ela para acabar tudo. Eu juro, Catarina. Eu ia dizer-lhe que te escolhia a ti, que íamos ter uma família."
As suas palavras não me trouxeram conforto. Apenas mais dor.
Ele só decidiu acabar com ela depois de eu ter perdido o bebé.
Se o nosso filho ainda estivesse vivo, ele continuaria a mentir? Continuaria a encontrar-se com ela às escondidas?
"É tarde demais, Pedro," eu disse, a minha voz firme. "Já não há nada para salvar."
Virei a cabeça, recusando-me a olhar mais para ele.
O som da porta a abrir-se chamou a minha atenção.
A minha sogra, a Dona Elvira, entrou, com a cara cheia de preocupação. Mas a sua preocupação não era para mim.
"Pedro, meu filho! Como estás? Eu soube o que aconteceu. A pobre da Sofia está em choque. Ela não para de chorar, a coitadinha."
Ela nem sequer olhou para mim. A mulher que tinha perdido o seu neto.
A raiva ferveu dentro de mim, quente e sufocante.
"Fora," eu disse, a minha voz a tremer. "Saiam os dois daqui. Agora."
Pedro olhou para mim, com uma expressão de súplica.
"Catarina, por favor. A minha mãe só está preocupada."
"Preocupada com a mulher que matou o meu filho?", gritei, a minha voz finalmente a quebrar. "Ela nem sequer perguntou por mim! Ela chama 'coitadinha' à assassina do seu neto!"
Dona Elvira finalmente virou-se para mim, com os olhos a fuzilarem-me de raiva.
"Como te atreves a falar assim da Sofia? Ela é uma boa rapariga! Foi um acidente! Tu provavelmente provocaste-a, com o teu temperamento horrível. Sempre foste difícil."
As suas palavras atingiram-me com a força de um soco.
Eu sempre tentei ser a nora perfeita. Cozinhava os seus pratos favoritos, lembrava-me do seu aniversário, suportava as suas críticas constantes em silêncio.
Tudo por Pedro. Tudo para manter a paz.
E agora, isto.
"Um acidente?", sussurrei, incrédula. "Ela empurrou-me de um lanço de escadas, Elvira. Isso não é um acidente. É uma agressão."
"Não fales assim com a minha mãe!", Pedro interveio, a sua voz a elevar-se. "Ela está a sofrer, tal como nós!"
"Ela não está a sofrer por mim ou pelo bebé. Ela está a sofrer pela tua amante!", atirei de volta, sentindo o meu corpo a tremer de fúria e mágoa.
Ele ficou sem palavras, a sua cara contorcida num misto de culpa e raiva.
"Eu quero que saiam," repeti, a minha voz agora fria e controlada. "Se não saírem, eu chamo a segurança."
Dona Elvira bufou, indignada.
"Vamos, Pedro. Deixa-a ter o seu ataque de histeria. Ela sempre foi dramática. Quando se acalmar, vai perceber o erro que está a cometer."
Ela agarrou no braço de Pedro e puxou-o para a porta.
Antes de sair, Pedro olhou para trás, os seus olhos cheios de uma dor que eu já não conseguia partilhar.
"Catarina, vamos falar sobre isto mais tarde. Quando estiveres mais calma."
Depois, eles foram-se.
Deixaram-me sozinha no quarto silencioso do hospital, com o eco das suas palavras cruéis e a dor insuportável da minha perda.
O meu telemóvel vibrou na mesa de cabeceira.
Era uma mensagem de um número desconhecido.
Abri-a. Era uma fotografia.
Sofia, deitada numa cama de hospital, a chorar nos braços de Pedro. A minha sogra estava ao lado deles, a acariciar o cabelo de Sofia com ternura.
A legenda dizia: "A família apoia-se nos momentos difíceis."
O meu estômago revirou-se.
Eles nem sequer esperaram para sair do hospital para irem confortá-la.
O meu marido. A minha sogra. A minha "família".
Senti o meu coração a partir-se em mil pedaços. Mas por baixo da dor, uma nova sensação começou a crescer.
Uma determinação fria e dura.
Eles tinham escolhido o lado deles.
Agora, era a minha vez de escolher o meu.
Peguei no telemóvel e liguei ao meu advogado.
"Miguel? Sou eu, a Catarina. Quero avançar com o divórcio. E quero apresentar queixa contra a Sofia Mendes por agressão."