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Queimada por Ele, Renascida como Estrela

Queimada por Ele, Renascida como Estrela

Autor:: Thalia
Gênero: Romance
Enquanto eu sufocava com a fumaça no incêndio que consumia nossa cobertura em Nova York, meu marido estava ao vivo na TV nacional. Não para pedir socorro, mas protegendo sua "melhor amiga", Serena, dos flashes dos paparazzi em Los Angeles. Na ambulância, com a pele queimada e pulmões ardendo, vi Juliano abraçando-a na tela do monitor. O paramédico ligou para ele: caixa postal. Quando finalmente consegui falar com ele, Juliano mentiu. Disse que estava em uma reunião, mas ouvi a voz de Serena ao fundo reclamando do chuveiro do hotel. Ele me chamou de "descuidada" e disse para eu não ser dramática sobre o fogo que quase me matou. Ele acha que sou apenas uma esposa troféu inútil, uma órfã falida que deveria ser grata por cada centavo que ele gasta comigo. Ele acredita que tem o controle total porque assinei um acordo pré-nupcial que me deixaria sem nada. O que Juliano não sabe é que, durante três anos, usei meu silêncio para construir um império. Eu sou "O Arquiteto", a roteirista fantasma mais procurada e bem paga de Hollywood, com 24 milhões de dólares escondidos em uma conta nas Ilhas Cayman. Arranquei o acesso venoso do meu braço, ignorando o sangue e os protestos da enfermeira. Naquela noite, transferi 20 milhões para a conta dele com a observação: "Reembolso por 3 anos de hospedagem e alimentação. Estamos quites." Joguei a aliança de cinco quilates na tigela de chaves e saí pela porta. Ele queria uma esposa submissa; agora, ele vai conhecer a protagonista da sua ruína.

Capítulo 1

A primeira coisa que Evelyn registrou foi o cheiro. Ácido, químico, sufocante. Era o aroma de sua própria vida queimando.

Ela ofegou, seus pulmões se contraindo contra a invasão de oxigênio. Uma máscara de plástico estava pressionada com força contra seu rosto, a vedação de borracha cravando em suas maçãs do rosto. Seus olhos se abriram de supetão, mas o mundo era um borrão de luzes vermelhas piscando e o teto estéril e metálico de uma ambulância.

"Senhora? Consegue me ouvir?"

A voz era alta, próxima demais. Um rosto surgiu em seu campo de visão - um socorrista, jovem, com gotas de suor na testa. Ele estava checando as pupilas de Evelyn com uma lanterna que parecia uma agulha perfurando seu cérebro.

"Senhora, tente manter a calma. Você inalou muita fumaça. Estamos levando você para o Mount Sinai."

Evelyn tentou falar, fazer a pergunta que gritava em seu peito, mas sua garganta estava irritada, como se tivesse sido esfolada. Tudo o que saiu foi uma tosse seca e cortante com gosto de cinzas.

"Nome?", o socorrista perguntou, a caneta pairando sobre uma prancheta. "Precisamos de um nome e um contato de emergência."

Evelyn levantou uma mão trêmula. Sua pele parecia cinza sob as luzes fortes, manchada de fuligem. Ela apontou para a mesa lateral onde seu celular estava. Idealmente, ele deveria ter derretido, destruído como tudo o mais na cobertura. Mas lá estava ele, a tela coberta por uma teia de rachaduras, mas ainda brilhando com uma luz fraca e zombeteira.

O socorrista o pegou. "Este é seu marido? Julian?"

Evelyn assentiu uma vez. O movimento enviou uma pontada de dor por seu pescoço.

Ele apertou o botão de chamada. Evelyn observou seu rosto. Contou os segundos no ritmo de seu próprio batimento cardíaco errático. Um. Dois. Três.

O socorrista afastou o celular da orelha, franzindo a testa. "Caixa postal."

Ele tentou de novo. "Aqui é dos Serviços de Emergência, ligando para Evelyn Vance", disse ele na gravação, com a voz urgente. "Por favor, retorne a ligação imediatamente."

Evelyn fechou os olhos. Sabia que ele não atenderia números desconhecidos e raramente checava a caixa postal, a menos que fossem sinalizados por seu assistente.

"Olhe para a TV", gritou o motorista da frente.

Evelyn virou a cabeça. Montado na parede da ambulância havia um pequeno monitor, sintonizado no noticiário local. A faixa na parte inferior era de um vermelho vivo: URGENTE: INCÊNDIO NA COBERTURA DA VANCE TOWER.

A câmera passeou sobre a fumaça que saía em nuvens do topo do prédio - seu lar, sua prisão - antes de cortar para uma transmissão ao vivo da Hollywood Boulevard.

O coração de Evelyn parou. O monitor apitou de forma errática, um aviso agudo que fez o socorrista olhá-la com preocupação.

Na tela, a milhares de quilômetros de distância, em Los Angeles, estava Julian.

Ele não estava desesperado. Não estava checando o celular. Estava protegendo uma mulher dos paparazzi, com o braço envolvendo protetoramente os ombros dela, o rosto contorcido em uma carranca para um fotógrafo que chegou perto demais.

Serena Holloway.

Ela parecia frágil, com os olhos arregalados e lacrimejantes, agarrando as lapelas do paletó de Julian. A manchete mudou: Julian Vance Consola Serena Holloway Após Ataque de Pânico na Estreia.

Evelyn encarou a mão dele. Aquela mão grande e capaz que ela segurara durante seus votos de casamento, a mão que assinara o acordo pré-nupcial com um floreio, agora estava acariciando o cabelo de Serena, aninhando o rosto dela em seu peito para escondê-la dos flashes das câmeras.

Ele a estava protegendo das luzes.

Enquanto Evelyn estava queimando na casa dele.

Uma lágrima escorreu do canto de seu olho, abrindo um caminho limpo pela fuligem em sua bochecha. Era quente, ácida.

"Precisamos sedá-la", disse o socorrista com urgência. "Frequência cardíaca em cento e oitenta. Ela está entrando em choque."

Evelyn sentiu a picada de uma agulha em seu braço não queimado. A onda fria do sedativo subiu por suas veias, congelando o fogo em seus pulmões. Enquanto a escuridão se aproximava das bordas de sua visão, a imagem de Julian abraçando Serena se gravou no fundo de suas pálpebras.

Três anos, ela pensou, as palavras flutuando no vazio escuro. Eu te dei três anos de silêncio. Três anos sendo a esposa perfeita e invisível. E você me deixou queimar.

Quando Evelyn acordou, o silêncio era mais alto que as sirenes.

Ela estava em um quarto particular. As paredes eram de um bege pálido e ofensivo. Do lado de fora da janela, o horizonte de New York se desfazia em um amanhecer cinzento. Ela estava sozinha.

Sem flores. Sem marido andando de um lado para o outro no quarto. Apenas o gotejar rítmico da bolsa de soro.

Uma enfermeira entrou apressada, checando um prontuário. Ela parou quando viu que os olhos de Evelyn estavam abertos. Havia um lampejo de pena em seu olhar - aquela pena específica e condescendente reservada para mulheres cujos maridos as estão humilhando publicamente.

"Sra. Vance", disse ela suavemente. "Você acordou. Tratamos as queimaduras em seu pescoço, braço e perna. São de segundo grau, mas devem cicatrizar com o mínimo de marcas se você tomar cuidado."

"Meu marido?", a voz de Evelyn era um sussurro, soando como lixa sendo arrastada sobre concreto.

A enfermeira hesitou. Olhou para a TV montada na parede, que estava desligada, e depois de volta para Evelyn. "Nós... nós ainda não conseguimos falar diretamente com ele. Parece que ele ainda está lidando com a imprensa em Los Angeles. O noticiário disse..." Ela deixou a frase no ar, não querendo dizê-la.

O noticiário disse que ele está com ela.

Evelyn olhou para seu reflexo na janela escura. Seu cabelo estava emaranhado com fuligem. Havia um curativo em seu pescoço. Ela parecia um fantasma. Ou talvez um cadáver que se esqueceu de morrer.

"Entendo", disse Evelyn.

A enfermeira ajeitou o cobertor de Evelyn. "Você precisa descansar. O médico disse que você deve ficar em observação por pelo menos vinte e quatro horas."

Evelyn olhou para o acesso intravenoso em sua mão. Era uma amarra. Uma coleira. Assim como o anel em seu dedo.

"Não", disse Evelyn.

Ela estendeu a mão e arrancou o esparadrapo.

"Sra. Vance! O que está fazendo?" A enfermeira correu em sua direção, as mãos agitando-se no ar.

Evelyn puxou a agulha. Uma gota de sangue vermelho vivo brotou, deslizando por sua pele. Ela não sentiu. Não sentia mais nada físico. O fogo havia cauterizado as terminações nervosas de seu coração.

"Estou indo embora", disse Evelyn. Ela balançou as pernas para o lado da cama. Sua camisola de hospital era fina, e o chão estava gelado contra seus pés descalços.

"Você não pode", protestou a enfermeira. "Você inalou fumaça. Você precisa..."

"Eu preciso de muitas coisas", interrompeu Evelyn, levantando-se. O quarto girou por um segundo, depois se estabilizou. "Mas nenhuma delas está neste hospital."

Ela caminhou até o pequeno armário onde haviam guardado seus pertences - as poucas coisas que sobreviveram com ela. Suas roupas arruinadas, seu celular rachado.

Evelyn vestiu o jeans duro e com cheiro de fumaça e a camiseta que tinha um buraco de queimado perto da gola. Ela não se importava.

Ela pegou seu celular. Uma notificação brilhou na tela.

Daily Mail: "Meu Anjo da Guarda", diz Serena Holloway sobre Julian Vance. "Ele é o único que consegue acalmar minhas tempestades."

Evelyn riu. Foi um som seco e quebrado.

Ela abriu um aplicativo seguro em seu celular, um escondido no fundo de uma pasta chamada "Receitas". Exigia uma impressão digital e uma senha de vinte caracteres.

A tela carregou. Bank of the Cayman Islands.

Titular da Conta: The Architect.

Saldo: $24.500.000,00.

Evelyn encarou o número. Por três anos, ela deixou a família Vance tratá-la como uma miserável, uma interesseira que deveria ser grata pelas migalhas de sua mesa. Ela deixou Julian pagar por suas roupas, sua comida, jogando isso na cara dela como uma dívida que ela nunca poderia pagar.

Mas Evelyn era The Architect. A escritora fantasma mais procurada de Hollywood. A mulher que havia escrito três roteiros vencedores do Oscar sob um pseudônimo porque a família Vance não permitia que suas esposas "trabalhassem".

Ela bloqueou o celular.

"Sra. Vance, por favor, deixe-me ligar para o seu motorista", implorou a enfermeira, seguindo-a pelo corredor. "Ou para o assistente do Sr. Vance?"

Evelyn parou no elevador. Virou-se para ela, com os olhos secos e duros.

"Não ligue para ninguém", disse ela. "Evelyn Vance morreu naquele incêndio."

Ela saiu pelas portas do hospital para o frio cortante da manhã. Não procurou pelo carro preto que geralmente a transportava como um camburão de prisioneiros.

Ela levantou a mão e acenou para um táxi amarelo.

O motorista, um homem corpulento com um rosto gentil, olhou para Evelyn pelo espelho retrovisor. Ela devia parecer uma louca - manchada de fuligem, cheirando a fumaça, sangrando um pouco na mão.

"Para onde, senhora?"

Evelyn olhou para o anel de diamante em sua mão esquerda. Cinco quilates. Clareza impecável. Frio como gelo. Ela deu dois toques no botão lateral de seu celular para abrir sua carteira digital. Ainda funcionava.

"Midtown", disse Evelyn, sua voz ganhando força. "Para o escritório de advocacia Sterling & Hale."

Capítulo 2

O couro do sofá no escritório de Sarah Miller estava frio contra a pele de Evelyn, um contraste gritante com a sensação de queimação que ainda latejava sob as bandagens em seu pescoço. Sarah sentou-se à sua frente, seu corte chanel, geralmente impecável, um pouco bagunçado, os nós dos dedos brancos enquanto ela segurava uma caneta.

"Ele te abandonou", Sarah sibilou, sua voz tremendo com uma raiva que Evelyn estava exausta demais para sentir. "O apartamento estava pegando fogo, Evelyn. Pegando fogo. E ele estava em L.A. bancando o cavaleiro de armadura brilhante para aquela... aquela sereia."

"Ele não sabia do incêndio quando o alarme disparou pela primeira vez", disse Evelyn, com a voz monótona. Ela não o estava defendendo. Estava apenas constatando fatos. Fatos eram tudo o que lhe restava.

"Ele soube quando a notícia saiu", Sarah rebateu, batendo a caneta em sua mesa de vidro. "Ele soube quando o paramédico deixou aquele correio de voz. Já se passaram doze horas, Evelyn. Ele ligou? Mandou ao menos uma mensagem?"

Evelyn olhou para o celular na mesa. Estava silencioso.

"Prepare os papéis, Sarah."

Sarah piscou, sua raiva pausando por um momento de silêncio atônito. "Você está falando sério? Finalmente? Você vai mesmo fazer isso?"

"Eu quero um rompimento limpo", disse Evelyn, inclinando-se para a frente. O movimento repuxou as queimaduras em sua perna, mas ela o ignorou. "Não quero pensão. Não quero a casa dos Hamptons. Não quero um único centavo do dinheiro dos Vance."

"Evelyn, você tem direito a-"

"Eu tenho dinheiro", Evelyn interrompeu. Ela desbloqueou o celular e o deslizou pela mesa, mostrando a ela o saldo da conta Architect.

Sarah olhou para a tela, seus olhos se arregalando. Ela soltou um assobio baixo. "Ok. Então a atuação de 'esposa-troféu pobre e indefesa' acabou oficialmente?"

"Nunca foi uma atuação para mim, Sarah. Era uma gaiola. E eu cansei de ser o pássaro. Além disso... preciso de um médico. Um que seja discreto. Eu saí do Sinai contra a recomendação médica."

Sarah assentiu imediatamente, pegando seu telefone fixo. "Vou ligar para o Dr. Evans. Ele faz visitas particulares. Ele pode te encontrar no apartamento ou em um hotel para verificar essas queimaduras direito."

De repente, o telefone na mesa vibrou. Uma foto de Julian preencheu a tela rachada.

Sarah estendeu a mão para pegá-lo, o rosto se contorcendo, mas Evelyn levantou uma mão. "Coloque no viva-voz."

Evelyn tocou no ícone verde.

"Evelyn?"

A voz dele era grave, familiar. Costumava lhe dar um frio na barriga. Agora, apenas revirava seu estômago. Ele parecia cansado, irritado. Não preocupado.

"Estou aqui", disse Evelyn.

"Eu vi as notícias", disse ele. "Harrison me disse que a cobertura está uma bagunça. Você está cuidando dos peritos do seguro?"

Evelyn encarou o telefone. *Você está cuidando do seguro?* Não um *Você está bem?* Não um *Você se queimou?*

"Eu não estou no apartamento, Julian."

"Bem, volte para lá. Você precisa supervisionar a limpeza. Não posso lidar com isso agora. A imprensa está em cima."

"Onde você está?", Evelyn perguntou, embora suspeitasse da resposta.

"Acabei de pousar em Teterboro", disse ele, a mentira saindo suavemente. "Estou indo para o Pierre. Não posso ir para casa com os paparazzi me seguindo, e preciso acomodar a Serena. Ela está abalada."

Então, fracamente, ao fundo, uma voz que Evelyn conhecia melhor que seus próprios pesadelos.

"Julian? Querido, a pressão da água deste hotel é horrível. Você pode ligar para a recepção?"

O ar no escritório de Sarah pareceu desaparecer. Sarah parecia que ia vomitar. Ele não estava apenas pousando. Ele já estava no hotel com ela.

Julian cobriu o receptor instantaneamente. Houve um som abafado, um sussurro áspero, e então ele estava de volta.

"Estou em uma reunião", ele mentiu. Suavemente. Sem esforço. "Estarei em casa hoje à noite para verificar os estragos. Não seja dramática com o incêndio, Evelyn. Foi só um acidente na cozinha, certo? Harrison disse que a estrutura está intacta. Você sempre foi descuidada com o fogão."

Evelyn sentiu um sorriso repuxar o canto de sua boca. Foi uma sensação aterrorizante.

"Descuidada", Evelyn repetiu. "Sim. Suponho que fui descuidada ao pensar que você estava trabalhando."

"Como é que é?" Seu tom baixou, tornando-se gélido. "Não comece com seu ciúme. Serena teve um ataque de pânico. Ela precisava de um amigo. Sei que esse conceito é estranho para você, já que não tem nenhum."

"Aproveite sua reunião, Julian", disse Evelyn. "E diga para a Serena experimentar o chuveiro do spa no segundo andar."

Ela desligou.

Sarah estava olhando para Evelyn com a boca aberta. "Você... você acabou de desligar na cara de Julian Vance."

"Desliguei."

"E ele estava... ela estava lá? Em New York?" Sarah se levantou, andando de um lado para o outro na sala. "Eu vou matá-lo. Vou descobrir onde ele está e esfaqueá-lo com um stiletto."

"Sente-se, Sarah", disse Evelyn, levantando-se. Ela se sentia estranhamente leve. A âncora que a vinha arrastando para o fundo por três anos tinha acabado de ser cortada. "Temos trabalho a fazer. Não vou apenas me divorciar dele. Vou pegar meu nome de volta."

"Você quer escrever de novo?"

"Não", disse Evelyn, caminhando até a janela e olhando para a cidade que a havia mastigado e cuspido. "Passei anos escrevendo as histórias de todo mundo. Escondendo-me atrás do nome 'The Architect' porque Julian achava que escrever roteiros era 'comum'. Agora? Eu quero ser vista."

Ela se virou de volta para Sarah. "Eu quero atuar, Sarah. Marque audições para mim. Sob o nome de Evelyn Reed. Sem contatos. Sem favores."

"Mas o seu rosto..." Sarah gesticulou vagamente para o pescoço de Evelyn.

Evelyn tocou a bandagem. "É uma história. É personagem. Cubra com maquiagem ou deixe à mostra. Não me importo. Apenas me coloque na sala."

Evelyn deixou o escritório de advocacia uma hora depois com um cartão de consulta para o Dr. Evans e um plano de codinome 'Rebirth'.

Ela parou em uma farmácia no caminho de volta para a cobertura para pegar alguns analgésicos que o Dr. Evans havia receitado. Acima do balcão, uma TV estava reprisando a filmagem. Julian levantando Serena para dentro do SUV. Sua mão na cintura dela. A intimidade daquilo era nauseante.

"Ele é tão romântico", a caixa suspirou, estourando uma bola de chiclete. "Queria que meu namorado olhasse para mim assim."

Evelyn ajustou seus óculos de sol. "Acredite em mim", ela murmurou, "você não quer."

Ela chegou à Vance Tower. O cheiro de fumaça ainda pairava no saguão, fraco, mas persistente. A viagem de elevador até a cobertura levou quarenta segundos. Ela os passou respirando, firmando os tremores em suas mãos.

Evelyn entrou no hall de entrada. O estrago se concentrava principalmente na cozinha e na sala de estar, onde as paredes estavam enegrecidas. Mas o ar estava pesado com o cheiro de desastre.

Ela foi direto para o quarto principal. Puxou sua mala da prateleira de cima do closet.

Ela não guardou os vestidos que ele comprou para ela para as galas. Não guardou as joias que ele lhe deu como desculpas por aniversários perdidos. Ela guardou seus jeans. Seus suéteres velhos. Seu laptop. E o disco rígido do cofre - aquele que continha os roteiros de The Gilded Cage, Silent Echo e Glass Walls.

Evelyn estava fechando o zíper da mala quando ouviu o som do elevador.

Sua espinha se enrijeceu.

Passos. Pesados, apressados.

Julian apareceu na porta. Ele ainda usava o terno da filmagem da TV, mas sua gravata estava afrouxada, seu cabelo ligeiramente desgrenhado. Ele parecia exausto.

Ele parou quando viu a mala. Suas sobrancelhas se uniram, a confusão manchando suas belas feições.

"Indo a algum lugar?", ele perguntou.

Ele entrou no quarto, trazendo consigo o cheiro de ar de avião e... por baixo dele, distinto e doce... gardênias. O perfume de Serena. E por baixo disso, o cheiro limpo e ensaboado do sabonete líquido de verbena exclusivo do Pierre Hotel.

O estômago de Evelyn se revirou.

"Sim", disse ela.

Ele zombou, chutando a mala levemente com a ponta de seu sapato de couro italiano. "Guarde isso, Evelyn. Você está exagerando. Harrison já contratou a equipe de limpeza. Ficaremos no Pierre até que tudo seja consertado."

Ele passou por ela em direção ao banheiro, desabotoando os punhos da camisa. "Deus, estou cansado. Prepare um banho para mim, sim?"

Evelyn encarou suas costas. A audácia era de tirar o fôlego.

"Prepare você mesmo", disse ela.

Capítulo 3

Julian congelou. Suas mãos pararam sobre as abotoaduras. Ele se virou lentamente, como se não tivesse ouvido Evelyn direito.

"O que você disse?"

Evelyn agarrou a alça de sua mala. "Eu disse, prepare você mesmo. Eu não sou sua empregada, Julian."

Ela tentou passar por ele, mas ele estendeu a mão e agarrou seu antebraço para impedi-la. Seu aperto era forte, atingindo diretamente a parte da pele que o fogo havia lambido, bem abaixo da borda de sua manga.

"Ah!" Evelyn ofegou, a dor aguda e cegante. Ela puxou o braço de volta, aninhando-o contra o peito.

Julian olhou para sua mão, depois para o pulso de Evelyn. Ela puxou a manga para cima, revelando a pele vermelha e irritada, com bolhas nas bordas da gaze que havia aplicado mais cedo. Seus olhos se arregalaram.

"O que é isso?" Ele estendeu a mão novamente, mas parou antes de tocá-la. "Como você fez isso?"

"O incêndio", disse Evelyn, dando um passo para trás. "Aquele que você chamou de 'acidente na cozinha'."

"Eu não sabia que você estava ferida", disse ele, com a voz mais baixa. Um lampejo de algo que parecia culpa passou por seu rosto, mas ele o dissipou instantaneamente com um piscar de olhos. "Por que você não me disse no telefone?"

"Você estava ocupado demais perguntando sobre a pressão da água do hotel para a Serena."

Ele trincou o maxilar. "Pare de falar dela. Ela estava histérica. Eu não podia simplesmente deixá-la sozinha no hotel."

"Você poderia", disse Evelyn em voz baixa. "Você só não quis."

Ela se virou e entrou no banheiro, trancando a porta atrás de si. Precisava de um minuto. Sua perna latejava, a adrenalina passando e deixando para trás uma agonia surda e dolorosa.

"Evelyn! Abra a porta!" Julian esmurrou a madeira. "Nós não terminamos de conversar!"

Evelyn o ignorou. Ligou o chuveiro, deixando o vapor encher o ambiente. Tirou a roupa, fazendo uma careta de dor enquanto o tecido se descolava de sua pele.

Ela se olhou no espelho. Seu pescoço, seu antebraço, sua coxa. Manchas de um vermelho raivoso, vergões elevados como marcas de ferro. Ela parecia destruída.

Ela entrou no chuveiro. A água estava quente demais. Atingiu suas queimaduras como fogo líquido.

Evelyn gritou, cambaleando para trás. Seu pé escorregou nos azulejos lisos.

Ela caiu com força.

Seu quadril bateu com força no chão de mármore. O ar lhe foi arrancado dos pulmões. Um grito de dor rasgou sua garganta antes que ela pudesse impedi-lo.

CRASH.

A porta do banheiro se abriu com um estrondo. A fechadura se estilhaçou.

Julian estava parado ali, o peito arfando. Seus olhos varreram o cômodo e pousaram em Evelyn, encolhida e nua no chão, a água escorrendo sobre suas queimaduras.

Por um segundo, ninguém se moveu.

Ela viu o horror nos olhos dele. Ele estava vendo a extensão do dano pela primeira vez. A prova física e crua de sua negligência.

"Evelyn..." A palavra foi um suspiro estrangulado.

Ele se ajoelhou em um instante, ignorando a água que encharcava as calças de seu terno caro. Pegou uma toalha, enrolando-a em volta dela com as mãos trêmulas.

"Não me toque!" Evelyn gritou, empurrando seu peito.

"Pare com isso!" Ele agarrou seus ombros, imobilizando-a, mas com cuidado - muito cuidado - para não tocar nas queimaduras em seu pescoço. "Você está ferida. Está muito ferida. Por que não me disse que estava tão ruim?"

"Porque você não perguntou!" Evelyn soluçou. A luta estava se esvaindo dela.

Ele a pegou no colo. Era forte, levantando-a sem esforço do chão molhado. Ela apertou os olhos, odiando o fato de que seus braços ainda pareciam seguros, mesmo sabendo que eram o lugar mais perigoso do mundo.

Ele a levou para a cama e a deitou gentilmente. Correu para o armário e pegou o kit de primeiros socorros. Suas mãos, geralmente tão firmes ao assinar acordos bilionários, tremiam enquanto ele abria o antisséptico.

"Eu posso fazer isso", disse Evelyn, tentando se sentar.

"Fique quieta", ele rosnou. Mas não havia mais raiva naquilo. Apenas pânico.

Ele aplicou a pomada. Era desajeitado, sem saber quanta pressão aplicar. Ele nunca tinha feito isso. Evelyn cuidara dele durante gripes, ressacas, lesões esportivas. Ele nunca tinha sequer colocado um curativo nela.

"Me desculpe", ele murmurou, com os olhos fixos na perna dela. "Eu não sabia."

"Ignorância não é uma desculpa, Julian. É uma escolha."

Ele olhou para ela. Seus olhos azuis estavam escuros como uma tempestade. "Eu sou seu marido. Eu cuido de você. Esse é o acordo."

"O acordo acabou."

Evelyn estendeu a mão para a mesa de cabeceira, onde estava a pasta que Sarah lhe dera. Ela puxou o documento.

ACORDO DE DIVÓRCIO.

Ela o jogou na cama entre eles.

Julian olhou para ele. Leu o título. Seu rosto ficou inexpressivo. O pânico desapareceu, substituído por uma máscara fria e dura. O Julian Vance da sala de reuniões retornou.

"Isso é uma piada?", ele perguntou em voz baixa.

"Parece uma piada?"

Ele se levantou, impondo-se sobre Evelyn. "Você vai se divorciar de mim? Por causa de um incêndio? Porque eu ajudei uma amiga?"

"Porque estou sozinha neste casamento, Julian. Estou sozinha há três anos."

Ele riu. Foi um som áspero e cruel. Ele pegou os papéis.

"Você não consegue sobreviver sem mim, Evelyn. Você não tem carreira. Nem família. Nem dinheiro. Você acha que o mundo é gentil com divorciadas de trinta anos sem currículo?"

"Vou arriscar."

Ele a encarou, esperando que ela cedesse. Esperando que ela pedisse desculpas e implorasse por perdão, como geralmente fazia quando brigavam.

Quando Evelyn não vacilou, seu orgulho se quebrou.

Ele rasgou os papéis ao meio. Depois em quatro.

"Eu não vou assinar isso", disse ele, deixando o confete chover sobre a cama. "Você está chateada. Está traumatizada. Não está pensando com clareza."

"Nunca estive mais lúcida."

Seu telefone tocou.

O toque cortou a tensão como uma faca. Ele olhou para a tela.

Serena.

Evelyn olhou para ele. "Atenda."

"Evelyn..."

"Atenda, Julian. Mostre-me que estou errada."

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