Minha irmã morreu porque a amante do meu marido precisava do helicóptero para o cachorro dela. Eu liguei para ele, implorando que enviasse sua UTI aérea. Ele prometeu que chegaria em trinta minutos.
Nunca chegou. Enquanto o monitor cardíaco da minha irmã apitava continuamente, eu vi o motivo no Instagram. A amante dele, Bárbara, estava posando com o helicóptero, agradecendo ao meu marido, Leo, por salvar seu Lulu da Pomerânia que comeu um pouco de chocolate.
Quando o confrontei, ele a escolheu. Ele me empurrou e, depois do acidente de carro que se seguiu, ele a resgatou dos destroços enquanto me deixava sangrando no banco de trás.
No hospital, ele bancou o herói para as notícias, mas o golpe final veio do meu advogado. Nosso casamento de cinco anos era uma fraude; a certidão era falsa.
Então eu desapareci. Agora, dois anos depois, estou de volta. Ele construiu um império às minhas custas, e eu estou aqui para queimar tudo até o chão.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Júlia Campos:
Minha irmã morreu porque a amante do meu marido precisava do helicóptero para o cachorro dela.
Essa é a frase que se repete em um loop na minha cabeça. É o começo e o fim de tudo.
O ar do hospital era denso, com cheiro de antisséptico e medo. O bipe constante e frenético do monitor cardíaco de Clara era a única música no meu mundo, uma batida de tambor desesperada contando os segundos de sua vida.
"A especialista está em São Paulo, Júlia", disse o Dr. Esteves, com o rosto sombrio. "Não temos o equipamento aqui. A única chance dela é uma UTI aérea. Agora."
Liguei para o Leo imediatamente, minha voz tremendo. "Leo, é a Clara. O coração dela... está falhando. Eles precisam levá-la para São Paulo. Você tem o helicóptero, o de resgate médico. Você tem que mandar."
"Já estou resolvendo, Júlia. Não se preocupe", ele prometeu. Sua voz, geralmente tão imponente, era a linha de vida à qual eu me agarrava. "Estará aí em trinta minutos."
Trinta minutos se passaram. Depois sessenta. Depois noventa.
Eu andava de um lado para o outro no corredor estéril como um animal enjaulado, meu celular pressionado contra a orelha. Liguei para ele de novo. E de novo. E de novo. Cada chamada ia para a caixa postal.
"Leo, onde está? Onde está o helicóptero? Por favor, atende."
"Leo, a Clara está se apagando. Por favor."
"Leo..."
Minha décima chamada finalmente conectou. Sua voz estava apressada, irritada. "Júlia, estou no meio de algo importante."
"Mais importante que a vida da minha irmã?", berrei, meu controle finalmente se quebrando. "O helicóptero não está aqui, Leo! O médico disse que ela tem minutos!"
Houve uma pausa, um ruído de tecido. Ouvi a risadinha suave de uma mulher ao fundo, um som tão deslocado que pareceu um golpe físico. Bárbara Bastos. A garota que me atormentava no colégio. Sua nova obsessão.
"Escuta, Júlia, houve... uma complicação", disse Leo, seu tom seco. "Surgiu uma emergência de verdade. Tive que desviá-lo. Vou arranjar outra coisa, um voo comercial-"
Não ouvi o resto. A conexão foi cortada. Uma notificação do lado dele. Ele tinha desligado na minha cara. Ele tinha bloqueado meu número.
O telefone escorregou dos meus dedos dormentes e bateu no piso de linóleo.
Naquele exato momento, o bipe frenético do quarto de Clara parou.
Foi substituído por um único, ensurdecedor e ininterrupto tom.
O som da morte.
O mundo ficou em silêncio. Meu próprio coração pareceu parar, congelado no meu peito. Eu não conseguia respirar. Eu não conseguia me mover.
Uma enfermeira, com o rosto uma máscara de pena, me guiou gentilmente até uma cadeira. Alguém me entregou meu celular. Meu polegar deslizou pela tela por puro hábito entorpecido.
E lá estava.
O motivo.
O último story de Bárbara Bastos no Instagram. Um vídeo, postado há vinte minutos.
Ela estava em um heliponto, seus cabelos loiros chicoteando ao vento. Em seus braços, ela embalava um Lulu da Pomerânia branco e fofo usando uma coleira minúscula cravejada de diamantes. Atrás dela, brilhando ao sol, estava o helicóptero. Meu helicóptero. Aquele com o logo da Ricci Aviação estampado na lateral, o que foi adaptado com equipamento de suporte à vida.
A legenda dizia: "O Benjamin comeu um pouco de chocolate amargo, mas ele vai ficar bem! Um enorme obrigado ao meu herói, Leo, por mandar seu jato-cóptero particular para levar meu bebê ao melhor veterinário do estado! Você é o melhor!"
Benjamin. O cachorro dela.
O cachorro dela comeu um pouco de chocolate.
O coração da minha irmã parou.
Uma onda de náusea tão violenta que me dobrou ao meio percorreu meu corpo. Tentei vomitar, mas nada saiu. Havia apenas um vazio oco e ardente.
Rolei meus contatos, meus dedos desajeitados e trêmulos. Passei por Leo - Marido. Passei por Mãe. Passei por todos com quem eu achava que podia contar. Meu polegar pairou sobre um nome que eu não ligava há anos.
Eduardo Mendes. Meu velho amigo do colégio. O garoto quieto e gentil que sempre me olhou com mais carinho do que eu achava que merecia. Agora um investidor de risco tão bem-sucedido que era praticamente uma lenda.
Ele atendeu no primeiro toque.
"Júlia? Está tudo bem?", sua voz era calma, firme. A primeira coisa firme que eu senti o dia todo.
Eu não conseguia formar palavras. Um soluço estrangulado escapou dos meus lábios.
"Onde você está?", ele perguntou, seu tom mudando, tornando-se urgente. "Me diga onde você está, Júlia. Estou indo."
Eu disse a ele o nome do hospital.
"Estarei aí em quinze minutos", ele disse. "Não se mova."
Eu não sabia o que queria. Só sabia que não podia ficar aqui. Não podia ficar nesta cidade. Não podia ficar nesta vida.
"Eduardo", sussurrei, minha voz rouca. "Você consegue fazer alguém desaparecer?"
Houve um breve silêncio. Não de hesitação, mas de consideração.
"Sim", ele disse, sua voz firme. "Eu consigo. Um novo nome, novos documentos, um lugar seguro longe daqui. É isso que você quer?"
"Sim", suspirei, a palavra uma prece. "Eu quero sumir."
"Considere feito", ele disse. "Estou a caminho."
Depois que a ligação terminou, abri o Instagram novamente, uma mariposa atraída por uma chama que já me havia reduzido a cinzas.
Assisti ao vídeo em loop. Bárbara, sorrindo triunfante. O cachorro, latindo.
Então eu vi. No reflexo da janela polida do helicóptero, uma figura parada logo atrás de Bárbara. Era Leo. Ele estava sorrindo, seu braço possessivamente em volta da cintura dela, seus lábios roçando a têmpora dela.
Ele parecia feliz. Orgulhoso.
Ele estava salvando uma nova vida enquanto a mais importante da minha estava sendo extinta.
Meu olhar se desviou para o porta-retrato na mesinha de cabeceira ao lado da cama vazia de Clara. Era uma foto nossa do verão passado, nossos braços um em volta do outro, rindo para a câmera. Clara, tão cheia de vida, seus dedos manchados de tinta segurando uma tela inacabada. Ela era minha família. A única família que importava.
Conheci Leo quando ele ainda era um lutador clandestino, todo músculos contraídos e raiva contida, lutando para sair da sarjeta. Eu era uma estudante de música, tocando meu violoncelo em bares esfumaçados para pagar as crescentes contas médicas de Clara. Ele me disse que amava minha música, que ela acalmava a fera dentro dele.
Juntos, nós escalamos até o topo. Minha herança, embora modesta, foi o capital inicial para seu primeiro empreendimento imobiliário. Eu gerenciava seus livros, sua agenda, sua vida, enquanto ele conquistava a cidade, quarteirão por quarteirão.
"Um dia, Júlia", ele sussurrou para mim, em pé em um terreno baldio que se tornaria nossa primeira mansão, "vou construir um castelo para você. Um lar para você e para a Clara. Você nunca mais terá que se preocupar com nada."
Ele construiu o castelo. Mas o lar se foi. Clara se foi.
Minha família se foi.
Caí no chão, o azulejo frio um choque contra minha pele. Pressionei meu celular contra o peito, a imagem de Leo e Bárbara queimando em minhas pálpebras. Meus dedos traçaram o rosto sorridente de Clara na tela do meu celular. A última mensagem que ela me enviou, ontem mesmo: "Mal posso esperar para te ver, Ju! Te amo mais que todas as estrelas."
A dor era um peso físico, me esmagando, me sufocando. Eu não conseguia respirar por causa da dor.
Entorpecida, cuidei dos arranjos. A funerária, a certidão de óbito. O mundo se movia em uma névoa turva e silenciosa.
Dias depois, sentada no silêncio estéril do escritório do meu advogado, me peguei rolando meu histórico de mensagens com Leo. Suas respostas haviam se tornado mais curtas no último ano. Respostas de uma palavra. Mensagens não lidas. Chamadas não atendidas.
Então eu vi. A data do nosso aniversário, seis meses atrás. Eu o esperei em nosso restaurante favorito por três horas. Ele me mandou uma mensagem tarde da noite: "Desculpa, meu bem. Fiquei preso em uma reunião de última hora no exterior. Remarcamos em breve."
Mas no arquivo do Instagram de Bárbara Bastos daquele mesmo dia, havia uma foto de duas taças de champanhe, brindando contra um cenário da Torre Eiffel à noite. A mão do homem na foto usava um relógio que eu reconheci. O que eu dei a Leo em seu aniversário de 30 anos.
A mentira era tão descarada, tão descuidada. Não era apenas uma traição. Era um insulto.
Ele não apenas traiu. Ele me apagou.
Ponto de Vista de Júlia Campos:
Não foi algo de uma vez só. A percepção se instalou em meus ossos como um frio permanente. Leo priorizar Bárbara havia se tornado seu novo normal.
Lembrei-me do leilão de caridade há dois meses. Ele gastou cinco milhões de reais em um colar de diamantes para ela, uma joia que ela ostentou nas redes sociais no dia seguinte. Enquanto isso, o tratamento experimental que os médicos de Clara haviam recomendado, um tratamento não totalmente coberto pelo plano de saúde, era um custo que Leo havia descartado como "um investimento arriscado demais".
Lembrei-me do negócio de terras no Vale dos Vinhedos. Ele desistiu de um lucro multimilionário porque Bárbara mencionou casualmente que achava que as colinas seriam um lugar perfeito para um vinhedo um dia, e ela não queria que fosse estragado por um empreendimento comercial. Ele sacrificou o lucro de sua própria empresa pelo capricho dela.
Todos os pequenos cortes e desprezos que eu havia ignorado, justificado, agora se alinhavam como soldados, apontando suas baionetas diretamente para o meu coração.
Fiz um pequeno e privado velório para Clara. Apenas eu e alguns de seus amigos da faculdade de artes. Espalhamos suas cinzas no roseiral do jardim botânico local, seu lugar favorito. O ar estava doce com o cheiro de flores desabrochando, um contraste enjoativo com o gosto amargo do luto em minha boca. Meu celular vibrou no meu bolso. Uma mensagem de um número que eu não reconheci.
Era Leo.
"Júlia, eu sinto muito. Acabei de saber. Minha assistente não me contou. Estou voltando agora. Precisamos conversar."
Acabou de saber? Minha irmã estava morta há uma semana. A notícia havia sido uma pequena e trágica nota de rodapé no jornal local. Ele não soube porque não estava procurando. Ele não se importou o suficiente para verificar. O pedido de desculpas era um gesto oco e sem sentido, tão vazio quanto as promessas que ele um dia fez.
Ele ligou momentos depois. Deixei tocar, mas ele foi persistente. Finalmente, atendi, minha voz desprovida de qualquer emoção.
"O que você quer, Leo?"
"Júlia, meu bem, eu sinto muito, muito mesmo pela Clara", ele começou, sua voz carregada com uma atuação de luto. "Não consigo imaginar o que você está passando."
"Não consegue?", perguntei, uma risada fria e aguda escapando dos meus lábios. "Foi você quem desviou o helicóptero, Leo. Você fez sua escolha."
"Não foi assim", ele disse, sua voz instantaneamente defensiva. "O cachorro da Bárbara, ele... ele estava muito doente. Era uma emergência."
"Ele comeu chocolate, Leo. Minha irmã estava morrendo." Minha voz era plana, cada palavra um pedaço de gelo afiado. "Me diga, em que mundo a dor de estômago de um cachorro é uma emergência maior do que um coração humano falhando?"
Ele gaguejou. "Eu... eu não pensei... a Bárbara estava histérica, ela..."
E lá estava de novo. Aquela voz suave e enjoativa ao fundo, sussurrando o nome dele. "Leo, meu amor, com quem você está falando? Está tudo bem?"
O som dela era como gasolina nas brasas da minha fúria.
"Eu tenho que ir", eu disse, minha voz tremendo de raiva.
"Júlia, espere-"
Eu desliguei. Não ouviria mais um segundo de suas mentiras, não com a voz dela envenenando o ar entre nós.
Minha mão foi para a gaveta da minha escrivaninha. Puxei um envelope pardo grosso. Dentro estavam os papéis do divórcio que meu advogado havia preparado meses atrás, durante um momento fugaz de clareza depois que suspeitei pela primeira vez de seu caso. Eu nunca tive coragem de assiná-los. Eu ainda o amava então. Eu ainda tinha esperança.
Esperança era um luxo de tolos.
Lembrei-me de estar sentada em seu escritório elegante, com as luzes da cidade piscando lá embaixo, quando ele me apresentou nossa "certidão de casamento" anos atrás. Ele disse que era uma cerimônia privada, só para nós, para manter as coisas simples e fora dos olhos do público enquanto seus negócios estavam em uma fase delicada. Eu, estúpida e confiante, acreditei nele. Assinei onde ele me disse para assinar, meu coração transbordando de amor.
Agora, minha mão estava firme enquanto eu destampava uma caneta. A assinatura era nítida, raivosa. Um fim definitivo.
Escaneei o documento assinado e o enviei por e-mail para meu advogado com uma mensagem simples: "Dê entrada. Imediatamente."
Alguns dias depois, dirigi até a casa. O castelo que ele construiu para mim. Não era mais meu lar. Era apenas um prédio cheio de fantasmas e promessas quebradas. Só voltei por um motivo: as pinturas de Clara. Ela havia guardado seus primeiros trabalhos no sótão, e eu não suportava a ideia de que fossem perdidos ou jogados fora.
Estacionei na rua de baixo, meu coração batendo um ritmo nervoso contra minhas costelas. Enquanto me aproximava a pé, vi o carro dele, um carro esporte baixo e obscenamente caro, estacionado na entrada. Meu estômago se revirou.
Entrei pelo portão dos fundos, usando a chave que ainda tinha. Eu só queria pegar as coisas de Clara e sair sem um confronto. Andei furtivamente pela lateral da casa, meus passos silenciosos no gramado bem cuidado.
Através das grandes portas de vidro da sala de estar, eu os vi.
Leo tinha Bárbara pressionada contra a parede, suas mãos emaranhadas no cabelo dela, sua boca devorando a dela. Não era um beijo gentil. Era faminto, possessivo, brutal. Do mesmo jeito que ele costumava me beijar.
Uma onda de bile subiu pela minha garganta. Me agachei atrás de um grande vaso de terracota, meu corpo tremendo. A visão deles, na minha casa, no espaço onde eu havia chorado a morte da minha irmã, era uma violação que ia mais fundo do que a infidelidade.
Fechei os olhos com força, tentando bloquear a imagem.
Quando os abri novamente, eles estavam andando para fora, em direção ao roseiral que Clara me ajudou a plantar. Leo estava com o braço em volta de Bárbara, sua postura protetora, possessiva.
"É uma propriedade linda", disse Bárbara, sua voz se espalhando pelo ar parado. "Mas a casa é um pouco datada, não acha?"
Leo riu, um som baixo e profundo. "Eu estava pensando a mesma coisa. Vamos demolir. Construir algo novo, só para você."
Só para você. As mesmas palavras que ele um dia disse para mim.
Bárbara riu e envolveu os braços em volta do pescoço dele, beijando-o profundamente. "Ah, Leo. Você me mima."
Ele ia demolir nossa casa. A casa que Clara amava, onde sua risada ainda ecoava nos corredores se eu ouvisse com atenção. Ele ia apagar todo e qualquer vestígio de mim, de nós, dela.
Minha respiração falhou. Meu único pensamento era nas pinturas no sótão. A alma de Clara, capturada em tela. Eu tinha que pegá-las antes que ele destruísse tudo.
Na pressa de me levantar de trás do vaso, meu joelho raspou na terracota áspera. O som, um ruído suave e arrastado, foi quase inaudível.
Mas foi o suficiente.
Uma tábua do assoalho rangeu sob meu pé. As cabeças de ambos se viraram na minha direção.
Ponto de Vista de Júlia Campos:
Os olhos de Leo se fixaram nos meus. Por uma fração de segundo, vi um lampejo de algo - pânico, talvez até culpa - antes que sua expressão se endurecesse em uma máscara de fria irritação.
Ele gentilmente empurrou Bárbara para trás dele, um gesto protetor que pareceu um tapa na minha cara, e começou a andar em minha direção.
"Júlia", ele disse, sua voz baixa e perigosa. "O que você está fazendo aqui?"
Ele parou a alguns metros de distância, sua figura imponente projetando uma longa sombra sobre mim. Ele me olhou de cima a baixo, observando meu vestido preto simples, as olheiras escuras sob meus olhos. Um lampejo de algo que poderia ter sido pena cruzou seu rosto.
"Você está bem?", ele perguntou, a pergunta tão absurdamente falsa que me deu vontade de gritar.
Ele estendeu a mão para o meu braço, mas eu me afastei como se seu toque fosse fogo. "Não me toque."
"Por que você está aqui, Júlia?", perguntei, minha voz um sussurro quebrado que não parecia meu. "Na nossa casa? Com ela?"
Bárbara espiou por trás dele, seu rosto um retrato perfeito de inocência de olhos arregalados. Era o mesmo olhar que ela aperfeiçoou no colégio, logo antes de me fazer ser suspensa por algo que ela tinha feito.
"Ah, Júlia", ela disse, sua voz escorrendo falsa simpatia. "Sinto muito. Leo me disse que vocês dois estavam com problemas. Eu não queria atrapalhar."
Ela deu um passo à frente, colocando uma mão delicada no braço de Leo. "Talvez eu devesse ir, Leo. Claramente é um mau momento."
Ela estava se fazendo de vítima, me posicionando como a ex-esposa histérica e intrometida. Foi uma atuação magistral.
"Fique bem aqui, Bárbara", ordenou Leo, seus olhos nunca deixando meu rosto. Ele a via como frágil, necessitando de sua proteção. Ele me via como a ameaça.
"Não se atreva a falar comigo, Bárbara", retruquei, meu olhar finalmente se voltando para ela. A visão de seu rosto presunçoso e bonito fez meu estômago revirar.
Lágrimas instantaneamente brotaram nos olhos de Bárbara. Era um talento que ela tinha, chorar sob comando. "Eu... eu só estava tentando ser legal", ela choramingou, virando o rosto para o peito de Leo. "Ela está me assustando, Leo."
"Ela está certa, Leo", Bárbara soluçou, sua voz abafada contra a camisa cara dele. "A culpa é toda minha. Se ao menos o Benjamin não tivesse ficado doente... se o veterinário não tivesse insistido no helicóptero..." Ela estava girando a faca, lembrando-o, lembrando-me, da escolha que ele havia feito, mas enquadrando-a como um acidente infeliz.
Os braços de Leo se apertaram em volta dela, sua mandíbula cerrada. Ele olhou para mim, seus olhos cheios de decepção, como se eu fosse a irracional. "Júlia, pare com isso. Você está a deixando nervosa."
Meu coração, que eu pensei já ter sido quebrado em um milhão de pedaços, se partiu novamente. Ele a estava defendendo. Ele estava defendendo a mulher cujo capricho egoísta custou a vida da minha irmã.
Minha mente voltou para o colégio. Para Bárbara e suas amigas me encurralando no vestiário, me segurando enquanto cortavam pedaços do meu cabelo com uma tesoura de artesanato. Para elas colocando um sapo morto no estojo do meu violoncelo, suas entranhas manchando a madeira polida que eu economizei por meses para comprar.
Lembro-me de correr para Leo, que era do último ano na época, o garoto aterrorizante e magnético de quem todos tinham medo. Mostrei a ele meu instrumento arruinado, meu cabelo massacrado, lágrimas escorrendo pelo meu rosto.
Ele me abraçou, suas mãos surpreendentemente gentis, e prometeu: "Eu vou fazê-las pagar, Júlia. Eu juro. Ninguém nunca mais vai te machucar."
E agora, aqui estava ele, segurando a mesma garota em seus braços, protegendo-a de mim. A ironia era tão amarga que tinha gosto de veneno.
Devo ter ficado em silêncio por muito tempo, perdida nos destroços do passado, porque a expressão de Leo suavizou ligeiramente. Ele deu um passo à frente.
"Júlia, não vamos fazer isso aqui", ele disse, sua voz baixando para o tom baixo e persuasivo que ele usava em salas de reunião. "Entre no carro. Eu te levo para casa."
"Nós estamos em casa", eu disse, as palavras ocas.
Bárbara, sempre a atriz, enxugou suas lágrimas falsas e deu um passo em minha direção, sua mão estendida. "Júlia, vamos deixar tudo isso para trás. Podemos ser amigas..."
A ideia de sua mão me tocando era tão repulsiva que recuei instintivamente, puxando meu braço bruscamente. "Fique longe de mim."
Foi um movimento pequeno e defensivo, mas Bárbara o usou. Ela soltou um suspiro teatral, tropeçou para trás e desabou no gramado impecável, como se eu a tivesse empurrado com toda a minha força.
"Ai!", ela gritou, segurando o tornozelo. "Você me empurrou!"
Leo estava ao lado dela em um instante, seu rosto uma máscara de fúria trovejante. Ele olhou de suas lágrimas fingidas para o meu rosto atordoado, e seus olhos se endureceram.
"Que diabos você fez, Júlia?"