"Sei que neste mundo imenso, radiante, é tradição o papai e a mamãe anunciarem a chegada do bebê. Bem, ainda faltam sete meses para eu nascer, mas já estou me anunciando. Vejam bem... Mamãe está mantendo segredo sobre minha existência. E a indiferença dela deixa papai vacilante. Mas mamãe sempre amou papai... e apesar da intimidade da noite em que eu apareci, ele nunca pronunciou aquelas três palavrinhas (Não, não são: "troque minha fralda"). Ah... os pais! Sei que eles vão se entender, porque os bebês são sinônimos de esperança, e tudo o que este bebê aqui deseja é um final feliz...
CAPITULO I
Praia, madrugada. Hora em que os namorados, ainda em trajes de gala, pés descalços, andam pela areia, de mãos dadas, dan¬çando o próprio ritmo, rindo, sonhando, beijando-se, enquanto o sol surge no horizonte.
Nessas ocasiões, os funcionários da prefeitura, mochilas a tiracolo, recolhem moedas, brincos e outros pequenos tesouros esquecidos pelos turistas na praia de Ocean City, Nova Jersey. Eles param, observando os casais, sorriem com saudade e re¬tornam ao trabalho.
Momento em que rapazes musculosos passeiam com seus cães enormes e brincalhões, que em geral atendem pelos nomes de Rex, Tobby ou Apoio. Animais de aparência assustadora, mas que não passam de adoráveis bebês brincando na água sob os olhares vigilantes de seus donos.
Uma mulher solitária senta-se na areia, queixo apoiado nos joelhos dobrados, para assistir à neblina desaparecer, dando lugar ao Sol, que, indiferente à angústia que a invade e a seu mundo pessoal, muito abalado, brilhará soberano no céu.
Jéssica Chandler, vinte e oito anos, quase vinte e nove, alta, magra, corpo bem-feito. Os cabelos castanho-claros, quase loi¬ros, normalmente presos num coque, estavam soltos, caindo-lhe no rosto, escondendo as feições aristocráticas e os olhos azuis úmidos pelas lágrimas.
Executiva de sucesso, era rica por herança familiar e pelo próprio trabalho. De licença da empresa que ela e Ryan, o irmão mais velho, dirigiam em Allentown, Pensilvânia, fora para a residência da família em Nova Jersey, para pensar e caminhar pela areia.
Era mais uma pessoa naquela manhã, olhando as gaivotas, sem na verdade vê-las, enterrando os dedos na areia molhada, soltando suspiros e soluços que a brisa suave carregava para longe, mas que não conseguia sufocar.
Um dos tipos musculosos focalizou Jéssica e lançou o dálmata na direção dela, de propósito.
- Não, Buster! Para cá! Cuidado com a moça! - Correndo, ele se aproximou de Jéssica, desculpando-se pelo cão.
O rapaz era alto, bonito, com músculos desenvolvidos graças a muitas horas de exercícios diários, e sorriso largo e confiante.
- Tudo bem - disse Jéssica, mal olhando para ele, sem que seu cérebro registrasse a beleza atlética, sem considerar a atenção dele como um cumprimento.
Levantando-se, ela tirou a areia do short verde e afastou-se. Caminhou em direção às ondas, sem se virar para trás.
Dando de ombros, o moço seguiu seu caminho, acompanhado pelo fiel Buster.
Jéssica Chandler estava só naquela manhã de julho, mas não queria companhia, fosse masculina, fosse canina.
A mansão Chandler, uma construção de pedra grande de¬mais para ser chamada de casa, localizava-se num subúrbio, na parte oeste de Allentown, Pensilvânia, e a algumas horas, seguindo na direção noroeste, de Ocean City, Nova Jersey.
Lá, viviam Jéssica, o irmão mais velho, Ryan, a avó Almira, muitos empregados e, até dois meses antes, Maddy, a irmã caçula.
Agora, Maddy estava casada. Com Joe O'Malley, o homem a quem ela abandonara à porta de igreja, em Las Vegas, quase dois anos atrás, e que voltara às vésperas do casamento de Maddy com Matthew Garvey.
Maddy e Joe haviam comprado a magnífica residência vi¬zinha à mansão Chandler. Tinha acabado de voltar da longa lua-de-mel, e só não estavam mais felizes porque Jéssica não se encontrava ali para recepcioná-los.
- Não acredito - disse Maddy Chandler O'Malley, sentada na banqueta da cozinha, observando a avó colocar sorvete em três taças.
- É isso mesmo, minha querida. - Almira entregou uma taça para Joe O'Malley, e depois apontou o freezer de portas duplas, do outro lado da cozinha. - Adoro os dias de folga da sra. Hadley. Sorvete no almoço... Existe alguma coisa mais decadente? Pelo menos, em minha idade.
Almira piscou, marota. Cuidava dos três netos fazia mais de doze anos, desde a morte dos pais deles. E levara a sério a responsabilidade, numa fase da vida em que conviver com netos deveria ser apenas um passatempo.
Ela amava a vida e os netos. Sempre acreditara que eles eram seres inteligentes e espertos o bastante para cuidar de si próprios. Apenas precisavam dela para colocá-los na direção certa.
Almira pusera Maddy na direção de Joe. Nunca sequer con¬siderara suas ações como uma intromissão. Considerava-as, sim, como simples empurrões.
- Deixando de lado o sorvete e a folga da sra. Hadley, diga-me, Allie, o que Jéssica foi fazer em Ocean City? Minha irmã nunca vai antes de agosto, quando encerra o ano fiscal.
- Maddy esperava encontrar Jéssica aqui, Allie, curiosa de ouvir tudo sobre nossa lua-de-mel. - Joe beijou o alto da cabeça da esposa. - Não é, querida?
Maddy, a eterna criança da família, de olhos verdes e cabelos pretos, encostou-se no marido, oferecendo os lábios para o beijo.
- É sim, meu amor.
Eles formavam um casal perfeito. Duas pessoas bonitas que se completavam em todos os sentidos. Pareciam mais jovens, mais belos e mais felizes do que seria possível. Joe, loiro, com olhos azul-cobalto. Maddy, com rosto em formato de coração e corpo roliço, que parecia feito sob medida para os braços do marido.
Almira tinha certeza de que agira bem. Era o que repetia a si mesma, não pela primeira vez, nem pela centésima.
- Bom apetite! - Almira brincou, fechando os olhos e deliciando-se com uma colherada de sorvete.
Joe riu, sentando-se na banqueta, ao lado de Maddy. Depois, fitou Almira com expressão carinhosa.
- Oh, Allie, e pensar que, se não fosse por você, Maddy e eu ainda estaríamos fingindo que não nos amamos! A esta altura, ela estaria casada com...
- Não - Maddy interrompeu-o, meneando a cabeça. - Não, eu não estaria. Lembre-se, querido, Matt pretendia romper o noivado antes mesmo de eu confessar que ainda estava apaixo¬nada por você. Ele só tentava criar coragem para dizer que não poderia se casar comigo. Matt e eu jamais chegaríamos ao altar.
- Isso é verdade - Almira confirmou. - E, como sou a responsável por essa imensa harmonia que vocês fazem questão de demonstrar, acho muito propício lembrá-los de que, algum dia, ficarei velha, e que espero que cuidem de mim.
- Fique tranqüila, vovó! - brincou Maddy. - Providencia¬remos uma villa na Espanha, no alto das montanhas. Há na Espanha aquelas montanhas inacessíveis por terra, não é, Matt?
- E distante de todo e qualquer tipo de civilização - Joe respondeu de imediato. - Com vigilância vinte e quatro horas, claro, para impedir possíveis tentativas de fuga.
- Com a sra. Ballantine como carcereira-chefe? Impossível! - Maddy arrematou, referindo-se à governanta da família Chandler, uma mulher a quem Almira jurava odiar, mas que era seu braço direito havia tantos anos que quase dava para perder a conta.
- Em vez das montanhas espanholas, por que não a An¬tártida? - Joe sugeriu, entre risos.
- Vocês não se atreveriam! - Almira exultava por aqueles dois jovens enamorados. - Bem, não é nada agradável ouvir isso dos próprios netos, sobretudo porque nunca planejei envelhecer.
- Allie, "envelhecer" é um termo que não consta de seu vocabulário. - Joe ainda ria. - Não enquanto você conseguir vencer Maddy no tênis.
- Até mesmo a sra. Ballantine bate Maddy no tênis, meu querido. De olhos fechados! - Almira largou a colher no prato de porcelana. - Agora que estamos todos servidos, quero que me contem como foi a lua-de-mel. Nada de descreverem aqueles cartões-postais que nos enviaram durante as sete semanas. Vamos ver. Qual foi mesmo meu favorito? Ah, sim, aquele em que es-creveram "Estamos nos divertindo muito, e contentes por vocês não estarem aqui". Céus, que falta de criatividade! Eu até entendo. De tão envolvidos, não tinham tempo para a originalidade. Bem, deixando certos detalhes de lado, podem começar a contar tudo.
- Não vamos dizer uma só palavra sobre nossa lua-de-mel enquanto você não nos contar por que Jéssica foi para Nova Jersey, Allie. Está feliz demais por minha irmã estar lá, e não aqui, e eu quero saber por quê.
- Você não tem de saber, querida. Quem deveria saber de tudo, saberá, em muito pouco tempo. Ponto final. E, já que não querem falar sobre a lua-de-mel, acho que vou chamar Julie para cuidar de minhas unhas. Até mais, crianças.
- Mas...
- Desista, Maddy. - Joe colocou as três taças na pia, dei¬xando a água escorrer sobre elas. - Não adianta insistir. Allie está usando um daqueles velhos truques. Não está, Allie?
- Eu? - Almira, que já estava saindo da cozinha, parou com expressão inocente. - Lógico que estou, meus amores! E também estou surpresa com a pergunta, Joe. Se você percebeu, nem deveria indagar.
Depois de assinar a última folha de papel, Matthew Garvey reclinou-se na cadeira.
- Parabéns, amigo Ryan. Liquidando o empréstimo dois anos antes do prazo e aumentando seu capital de giro, você está proporcionando uma grande alegria aos banqueiros.
Ryan sorriu, evitando sustentar o olhar do amigo. Aquela atitude provocava-lhe uma enorme e inexplicável dor de cabeça.
- Creio que você não gostaria que eu me diversificasse, Matt. Isto é, creio que prefere que eu continue trabalhando só com seu banco, em vez de abrir conta nos concorrentes.
- Cite os nomes deles, e eu mesmo os descartarei, com seus cumprimentos - Matthew resmungou.
Ryan levantou-se e colocou as mãos na cintura, fazendo um alongamento.
- Rapaz, mais uma noite de serviço até altas horas, e me sentirei de novo um estudante em época de provas. Jessie não poderia escolher momento mais errado para enfrentar uma crise existencial.
Assim que as palavras saíram de sua boca, Ryan estremeceu, e não pelos músculos contraídos. Contou até três, sentindo outra vez as têmporas latejarem, e até cinco, esperando que Matthew não registrasse sua indiscrição.
A culpa era dê Allie, revelando-lhe coisas que ele preferia não saber, deixando-o, depois, em conflito com sua consciência, perguntando-se o que era mais errado: contar ou calar-se.
De certa fora, sua língua comprida decidira por ele.
Apenas contara até quatro quando Matthew quis saber:
- Crise existencial? Isso não combina com Jéssica, Ryan. Ela é a pessoa mais controlada e equilibrada que já conheci.
- É mesmo. Competente... eficiente... trabalha como nin¬guém aqui na fábrica. Jéssica é muito mais esperta e dedicada do que eu, caso você não tenha notado. Não sei o que faria sem minha irmã.
- Mas está enfrentando uma crise existencial... - Perce¬bendo a intenção de Ryan de mudar de assunto, Matthew agar¬rou-se à tênue informação com a tenacidade de um buldogue.
Jéssica o estava evitando desde antes do casamento de Maddy. Para ser exato, desde que Maddy rompera o noivado deles para comprometer-se com J.P. O'Malley, o novo rei do mundo da informática.
Matthew telefonara e mandara e-mails. Aparecia na mansão de surpresa, com o pretexto de conversar com Ryan, esperando ver Jéssica.
Quase dois meses, e ela nem sequer permitira que ele se apro¬ximasse. Se Matthew a procurava nos escritórios das Industrias Chandler, diziam que Jéssica se encontrava em conferência. Se chegasse à mansão Chandler, ela sempre acabara de sair. Jéssica não tomava conhecimento dele. Não queria falar com ele.
Matthew não a vira mais, desde aquela manhã em que eles...
Estremecendo, tentou reconsiderar as palavras "aquela manhã em que eles", mas elas não podiam ser substituídas, nem negadas. Assim como não iria negar que Jéssica o estava evitando.
Pelo que entendia, Jéssica Chandler saíra de seus braços direto para o isolamento.
Matthew se levantou e caminhou ao redor da imensa mesa de reuniões. Os dois amigos eram altos. Como Maddy, Ryan tinha cabelos pretos e olhos verdes. E Matthew reparara que, também como os de Maddy durante algumas semanas antes do rompi¬mento do noivado, o olhar de Ryan parecia evasivo e misterioso.
Alguma coisa estava acontecendo, Matthew sabia. E, se o arrepio na nuca tivesse algum significado, sentia que o desa¬parecimento de Jéssica tinha muito a ver com o que acontecera entre eles.
- Onde ela está, Ryan? Para onde foi?
Ryan deu-lhe as costas e parou junto à janela que dava para o pátio da fábrica de roupas que levava o nome da família Chandler por três gerações.
Almira tinha razão ao afirmar que, mais cedo ou mais tarde, Matthew iria se aproximar dele querendo saber de Jéssica.
E agora, de acordo com as previsões da avó, Ryan acabaria contando-lhe, quebrando, assim, a promessa que fizera à irmã, e diria a Matthew Garvey que Jéssica estava se escondendo na residência da família em Ocean City.
Almira dera-lhe instruções para criar o maior mistério sobre a atitude de Jéssica. Depois, deveria observar com atenção a reação de Matthew e soltar mais informações, caso ele se mos¬trasse preocupado.
Muito bem, Matthew reagira. E "preocupado" era uma pa¬lavra amena. Como Almira podia prever tudo? Ele não indagara à avó por que a revelação do segredo deveria ter se dado de forma tão dramática. Bem, aquela era uma das coisas que Ryan achava melhor não entender. Mas tinha suas suspeitas.
E aquela dor de cabeça...
- Estou quebrando uma promessa, Matt.
- Não está autorizado a contar a ninguém? Ou só não pode a mim?
Ryan estremeceu, porque Matthew era seu amigo e estava sofrendo.
- Se algum dia você decidir vender o banco, poderá traba¬lhar como detetive ou advogado. Acertou no alvo, Matt. Eu não deveria lhe contar. Claro, não devo sair por aí dizendo a meio mundo, mas seu nome foi o único que Jéssica mencionou.
Os olhos de Matthew faiscaram e os punhos cerraram-se. Tensão, estresse, ansiedade eram seus companheiros havia se¬manas, e Matthew temia perder por completo o controle, caso Ryan não revelasse tudo o que sabia. E bem rápido.
- E você não só manteve sua palavra, como também não me procurou para saber o que estava acontecendo, certo?
- Pensei nisso. - Ryan friccionou a nuca. - Daí, lembrei que você nunca bateu a nossa porta para perguntar se Jéssica queria vê-lo ou não. Sei que Allie desejava que eu esperasse até.... - Fez um gesto evasivo com a mão. - Deixe para lá. Digamos que eu estava esperando o momento propício. Oh, que desculpa esfarrapada! Sinto muito, amigo.
Matthew respirou fundo, sentindo a zanga desaparecer, dan¬do lugar a uma sensação de desconforto. Muitas vezes chegava a desejar que Jéssica não fosse irmã de Ryan.
Ryan era um bom amigo. O tipo de homem em quem todos confiavam, contavam seus problemas financeiros, sentimentais ou de qualquer outra ordem.
Mas as questões com Jéssica não poderiam ser discutidos com Ryan. Não sem provocar uma catástrofe.
- Ryan, nós... hum... Jéssica e eu conversamos na noite... Bem, na noite em que Maddy decidiu cancelar o casamento. Depois do jantar, me senti deslocado à mesa. Então, fui para o jardim, e Jéssica seguiu-me, tentando confortar-me. Ficamos conversando no mirante...
- Você conversaram? No mirante? No escuro? Os dois so¬zinhos?! Ficaram fora por algumas horas, se bem me lembro.
Ryan ficou hirto. Uma de suas suposições transformava-se quase em certeza.
- Não! Agora tudo se encaixa. Vocês conversaram, e, oito semanas depois, minha irmã desaparece para local ignorado, pelo menos para você, depois de passar esse tempo todo evitando-o como uma praga. Deve ter sido uma conversa e tanto!
- Sim! Sim, foi. - Matthew pegou os papéis espalhados sobre a mesa, e empilhou-os. - Na manhã seguinte, nos falamos de novo, e Jessie me tratou muito mal. E se ela descobrir que, desde então, tenho vivido no inferno, e que já fiz penitência suficiente para pagar meus pecados, talvez, concorde em ver-me de novo.
Matthew se apoiou no tampo.
- E então, Ryan? Vai me dizer onde sua irmã está ou não? Ou terei de contar-lhe coisas que você não gostará de saber?
Ryan encostou-se na parede, encarou o amigo e viu o sofri¬mento nas íris azuis, sempre tão radiantes.
- Serei honesto com você, Matt, porque é meu amigo e também porque deve se precaver. Primeiro, Jéssica não quer que você saiba. Segundo, Allie quer. Agora, se não teme que algum desses dois itens possa espicaçá-lo ainda mais, contarei onde minha irmã está. O resto fica por sua conta.
Considerado o balneário das famílias mais tra¬dicionais do país, Ocean City tinha vida pró¬pria e intensa, durante o ano inteiro.
Além de residências, escolas, igrejas, comuns em todas as ci¬dades do mundo, havia hotéis e pousadas suficientes para receber muitos turistas de verão. E, ultimamente, os visitantes tinham outra opção. Por toda a ilha, proliferavam os condomínios de luxo, de prédios ou casas, alugados por semana, mês ou temporada.
Muitas residências antigas tinham sido demolidas, sacrifi¬cadas em nome da construção do maior número possível de imóveis num pedaço mínimo de terra. Assim, as ruas compridas eram ladeadas por vários edifícios altos, ultramodernos, com vista fantástica para o oceano Atlântico.
Ali e acolá, algumas residências antigas de veraneio que, tei¬mosas, resistiam à febre do progresso e da especulação imobiliária.
Existiam também as mansões dos primeiros residentes de ve¬rão, construídas anos atrás, até mesmo antes da Segunda Guerra Mundial. Algumas delas, ao norte da ilha, eram mais deslum¬brantes do que a maioria das modernas e inovadoras construções de três andares com janelas panorâmicas de frente para o mar.
A mansão Chandler era uma dessas jóias raras, um dos doze bastiões de uma era áurea. Conservava o projeto inicial e original, com exceção da reforma da cozinha e dos banheiros, e a colocação do sistema de ar-condicionado. Tinha duas salas de visitas, uma de jantar e escritório, no térreo. No segundo andar, cinco dormi¬tórios, transformados em suítes, com móveis de cerejeira e tapetes orientais. No terceiro ficavam os aposentos de hóspedes.
A casa era rodeada por uma cerca viva, que floria quase o ano inteiro. Os registros giratórios dos esguichos eram abertos duas vezes ao dia para umedecer aquele oásis no meio de areia e cimento. A alameda curva levava à garagem para quatro carros, e o terreno um tanto elevado permitia uma vista pri¬vilegiada, o que, por si só, fazia com que o valor do imóvel chegasse aos milhões de dólares.
Nem por isso os Chandler pensavam em vender aquele pa¬raíso de verão, que lhes pertencia fazia seis décadas.
Sentada na varanda, segurando um copo com leite, Jéssica chorava.
Estava sozinha. Muito mesmo. Acreditara que lá encontraria um refúgio natural. Mas não. A casa imensa, vazia, só acen¬tuava sua solidão.
- Sou uma grande idiota. - Bebeu o restante do copo e fez uma careta. - Uma grande idiota que odeia leite.
Pelo menos, podia ser sincera consigo. Afinal, não tinha ninguém por perto para ouvi-la.
Ninguém...
E esse era o problema. Jéssica pedira aos familiares que a deixassem só, e todos obedeceram.
Para muitas famílias, isso faria sentido. Alguém faz um pedido razoável, e todos reagem de uma forma razoável.
Mas a dela? A avó? Deixar Jéssica partir e ainda ajudá-la a fazer as malas?! E depois, não telefonar todos os dias, não visitá-la duas vezes por semana, nem fazer-lhe mil e uma perguntas?
Allie nunca se preocupara em arrumar desculpas para te¬lefonemas, visitas... Seria comum que chegasse, se sentasse na varanda e, sem preâmbulos, perguntasse:
- E então? Disposta a falar ou terei de arrancar as palavras com saca-rolhas?
Não. Jéssica não aceitava isso. Não deveria estar sozinha, mesmo depois de afirmar que queria solidão.
E pensar que sempre acreditara que os parentes a amavam...
Pelo visto, enganara-se.
Allie deveria estar ocupada com Joe e Maddy, que na certa teriam voltado da lua-de-mel. Afinal, até mesmo os milionários, proprietários de grandes empresas, precisam voltar ao traba¬lho, um dia.
Joe e Maddy moravam na residência vizinha à mansão. De¬certo, Allie estaria se metendo na vida deles. Isso até o casal cansar-se de palpites e decidir colocar o imóvel à venda...
Jéssica meneou a cabeça. Pelo menos, Joe e Maddy tinham a atenção de alguém.
Mas ela estava abandonada à própria sorte. E se, de repente, caísse na cozinha e ficasse impossibilitada de alcançar o tele¬fone para pedir ajuda? E se tivesse sofrido um acidente na estrada? Ninguém ficaria sabendo. Ninguém!
Não, a família não pensara em nada disso. Ninguém ligara uma única vez, desde que ela chegara a Ocean City.
Uma semana. Sete dias. Sete noites.
Jéssica foi para a cozinha. Deixou a velha porta de madeira bater com estrondo a sua passagem.
Esquecida. Ignorada. Negligenciada. Era muito triste. So¬bretudo porque sempre fora uma boa menina. Nunca causara problemas, nem desgostos, nem aborrecimentos.
Olhou a geladeira repleta de comidas saudáveis. Depois, observou o freezer cheio de sorvetes de vários sabores.
- Não é um derivado de leite? - justificou-se, servindo-se de uma porção de sorvete de chocolate.
Voltou à varanda e sentou-se no parapeito. Na rua, algumas pessoas seguiam em direção à praia. Gente alegre, conversando e rindo.
Os olhos de Jéssica encheram-se de lágrimas. Era bom ver pessoas felizes. Lembrou-se da infância, quando, de mãos da¬das, ela e Maddy seguiam Ryan por aquele mesmo caminho. Allie e o avô vinham logo atrás, carregando cadeiras, guarda-sóis e brinquedos.
Mesmo quando os pais eram vivos, eram os avós quem os levavam à praia, ensinando-os a pular ondas, auxiliando-os a construir castelos de areia.
Dias de liberdade, verões fantásticos. Depois, os pais deles morreram num desastre aéreo. Apesar da tragédia, as crianças não ficaram traumatizadas, nem tiveram o futuro comprome¬tido, protegidos pelo amor e o carinho de Allie e do avô.
Agora, o avô também partira. E Allie, graças aos cosméticos modernos e às cirurgias milagrosas, parecia mais jovem a cada ano que passava.
Maddy estava casada e radiante. Ryan dirigia com sucesso os negócios da família e, pelo jeito, não pretendia casar-se tão cedo.
E Jéssica? Suspirou, colocando a mão no ventre.
Oh, sim. Jéssica não podia ser esquecida...
Jéssica Chandler, vinte e oito anos, quase vinte e nove, logo trinta.
Uma confusão hormonal, com o estômago sensível e a mente fervilhando com pensamentos que nada tinham a ver com seu modo de encarar a existência.
Jéssica, a menina bem comportada, estava prestes a tor¬nar-se mãe solteira.
Comeu outro bocado de sorvete, deixando-o derreter na boca. Mais cedo ou mais tarde, teria de contar a todos que ia ser mãe.
Sorriu, triste. Isso os obrigaria a acreditar que a filha do meio também era capaz de causar-lhes aborrecimentos.
Matthew atravessou a ponte e entrou em Ocean City, ainda ensaiando o discurso, corrigindo frases, eliminando parágrafos e incluindo outros.
Estava difícil condensar aquela novela de explicações, desculpas, justificativas. Isso se Jéssica lhe desse oportunidade para recitá-la.
E, com tudo o que ele tinha a dizer, com tudo o que tinha a explicar, não podia falar a única coisa que prenderia a atenção de Jéssica.
Na véspera, Matthew saíra do escritório de Ryan direto para a mansão Chandler. Encontrou Allie que estava jogando tênis com a governanta e inimiga cordial, a sra. Ballantine. A empregada levou-o até a quadra.
A indiscrição de Ryan, deixando escapar que a avó reco¬mendara-lhe para revelar o paradeiro de Jéssica, dera-lhe co¬ragem para procurar a sra. Chandler. Matthew tinha certeza de que havia algo mais no desaparecimento de Jéssica, além da misteriosa "crise existencial" que ela enfrentava.
Matthew não acreditara nessa versão. Jéssica Chandler era uma mulher consciente, responsável e racional. Jamais ficaria re¬clusa em casa ou sairia em férias, deixando as Indústrias Chandler de lado, em pleno ano fiscal. Não precisava ser um gênio, ou um mago, para perceber que havia alguma coisa errada. Muito errada.
Não que Matthew não soubesse disso. Afinal, era ele o cau¬sador de tudo.
Errara, sim. O primeiro erro fora apaixonar-se por uma mulher que, a exemplo de sua própria irmã, estava totalmente comprometida com a carreira. E Matthew queria uma esposa, filhos, família.
O noivado com Maddy fora o segundo erro. Ele e Maddy pareciam ter os mesmos objetivos, os mesmos sonhos. Acredi¬tara que seria suficiente fazer parte da adorável e aconchegante família Chandler.
Contudo, não contar a Jéssica que sentira-se aliviado quando Maddy rompera o noivado, ter permitido que Jéssica o confor¬tasse e que esse conforto atingisse níveis de maior intimidade... Bem, isso poderia colocá-lo em segundo lugar no concurso de Idiota do Ano.
O pedido de desculpas, na manhã seguinte, por ter feito amor com ela, sem sombra de dúvida, o levaria ao pódio, com coroa de folhas de louro e tudo.
O engraçado foi que, ao vê-lo, Almira interrompera o jogo e, lançando um olhar significativo para a sra. Ballantine, fora ao encontro dele. Parecia ansiosa para conversar.
Matthew se lembrava com uma clareza impressionante cada sílaba que trocaram, como se estivesse revivendo tudo naquele exato instante.
- Querido Matt, há quanto tempo! - Allie era uma maravilha. Setenta anos confessos e aparência de cinqüenta. Talvez, trinta. Era muito mais do que avó de três netos. Era amiga de verdade, a pessoa que os ensinara sobre amor e respeito. E também a não se sentirem ridículos por amarem e respeitarem.
- Desculpe-me por não ter vindo antes, Allie. - Matthew ofereceu-lhe o braço para entrarem na casa. - Foi o aviso de "Entrada proibida" que Jéssica colocou no jardim que me man-teve a distância.
- Você deveria sentir-se envergonhado por tê-la atendido. - Almira encostou a cabeça no ombro dele. - Mas, obediente, você tem seus limites. É sempre bom confirmar o que eu já sabia há muito tempo. Confio muito em você, Matt. Ryan contou onde Jessie está? E deixou escapar que eu disse que era para contar-lhe?
Jéssica ouviu o ruído de um carro na alameda. Prendeu a respiração, esperando que desse meia-volta e se afastasse.
O único inconveniente de morar no final da avenida à bei¬ra-mar era aquele. Muitos motoristas costumavam manobrar o automóvel na entrada da mansão para fazerem o retorno.
Era ingenuidade ficar apreensiva, preocupada com o veículo. Tolice achar que o motorista tinha alguma coisa a ver com ela.
Mas Jéssica era assim e continuaria sendo assim: ingênua. Muitas vezes, até um pouco irracional, apesar da aparente sensatez. E grávida, então, tornara-se um poço de sensibilidade e de imaginação fértil.
Ora, era apenas um carro. Nada que justificasse os arrepios de alarmes e as reviravoltas no estômago muito frágil.
Só que aquele automóvel não fez a manobra para o retorno. Jéssica ouviu o ruído do motor cessar e as batidas aceleradas de seu coração. Depois, ouviu a porta se fechando.
Não era um bom sinal.
Maddy? Podia ser. Afinal, ela e Joe tinham voltado da lua-de-mel. Seria natural que a irmã, ignorando seus apelos para deixarem-na sozinha, aparecesse para invadir sua solidão, que no início parecera-lhe uma boa idéia, mas que agora a estava enlouquecendo.
Não podia ser Allie, A avó nunca ia para a praia antes do final de setembro, quando a maioria dos turistas já retornara para seus lares, deixando a praia vazia o suficiente para ela aproveitá-la.
Se Allie não irrompera logo nos primeiros dias, decerto, não o faria agora, uma semana depois. Esse não era seu estilo.
Quem seria, portanto?
Ryan? Não, Ryan não. Sem Jéssica para ajudá-lo, ele estaria atolado no trabalho. Além disso, Ryan nunca se divertia.
Como Jéssica, o irmão era um Chandler sério, com uma dose bem pequena de senso de humor, ao contrário da avó e da irmã caçula. Abelhas operárias, assim eram Jéssica e Ryan. Allie e Maddy eram as abelhas-mestras. Jéssica apertou a taça de sorvete.
O processo de eliminação deixava-a com um nome, uma pes¬soa, e não sabia se ficaria contente ou furiosa por vê-lo, se o mandaria embora ou se cairia nos braços dele.
Jéssica gostaria de poder olhar para Matthew, de lembrar o que acontecera, sem mergulhar num mar de amor, confusão e culpa.
Antes que tivesse tempo de considerar as possíveis reações, Matthew apareceu no jardim, caminhando apressado em dire¬ção à entrada. Não parecia estar melhor do que ela.
Acostumada a vê-lo sempre vestido com roupas formais, com ternos e camisas impecáveis, Jéssica até sentiu um certo as¬sombro ao deparar-se com Matthew de calça esporte e camiseta.
Jéssica gostava dos cabelos dele, pretos como as noites sem luar, mas nunca os vira tão desarrumados e compridos.
Havia alguma coisa diferente nos passos sempre seguros dele, como se Matthew tivesse vindo para cumprir uma missão. Jéssica lamentou não poder ver através dos óculos escuros que cobriam-lhe as íris azuis, duas turquesas que ela considerava serem as janelas da mente calma, fria, controlada, às vezes crítica, de Matthew Garvey.
Não, Jéssica não conseguia ler nos olhos dele. Podia apenas ver os lábios comprimidos, os passos largos, fazendo diminuir a distância entre ambos. Ela inclinou a cabeça. Era impressão sua, ou Matthew parecia zangado?
Quem era ele para ficar bravo?!
Jéssica endireitou os ombros e ergueu o queixo, pronta para a batalha. Afinal, Matthew aparecera sem ser convidado, inva¬dindo a privacidade dela... mais sexy e irresistível do que nunca...
Droga! O queixo não ficava firme, insistindo em tremer. As lágrimas, tão comuns de uns tempos para cá, assomaram, anuviando a visão.
Abandonada pela coragem, traída pelas incontroláveis rea¬ções emocionais a todos os estímulos, desde um sorvete até ao canto matinal de um sabiá, Jéssica fez algo brilhante. Virou-se e saiu correndo em direção à porta.
- Jéssica, espere! Por favor, Jessie!
Na certa, foi o "por favor" que a deteve. Ou talvez, o tom cansado, ainda que esperançoso, da voz de Matthew. De costas, ela indagou:
- O que quer, Matt? Se estiver sentindo necessidade de desculpar-se de novo, saiba que perdeu a viagem. Não quero mais ouvir isso.
Quando ele falou, já estava bem atrás dela. Jéssica podia sentir o calor do corpo dele, a respiração morna em sua nuca.
- E se eu pedir desculpas só por pedir? Adianta? - Matthew sentiu um arrepio ao ouvir as próprias palavras, que soaram meio irreverentes, petulantes. Mas estava sendo sincero.
Jéssica assumiu sua postura usual e perfeita. Depois, se voltou, encarando-o.
- Você sabe como me senti, Matt?
- Péssima. Posso imaginar. - Ele a segurou pelo cotovelo, tentando conduzi-la para dentro de casa.
Jéssica soltou-se, afastando-o.
- Péssima?! Você disse "péssima"?!
Algumas pessoas que retornavam da praia olharam para ver o que estava acontecendo na varanda da mansão. Ao per¬ceber a audiência inesperada, Jéssica entrou e foi direto para a cozinha, seguida por Matthew.
- Sabe de uma coisa? Essa é a palavra exata. Péssima. Fizemos amor. Na manhã seguinte, você me confessou seu arrependimento. O que você esperava? Como eu devia ter ficado depois disso? Lisonjeada?
- Eu sei, Jéssica, eu sei. - Estava encantado com rubor que cobriu as faces pálidas, com a chama que inflamava seu olhar sempre sereno, com as mechas caindo-lhe no rosto.
Ela parecia... desalinhada. Matthew nunca a vira assim. Jéssica estava ainda mais placidamente bonita. E vulnerável. Matthew gostou do que viu.
- Por favor, Jéssica, deixe-me explicar. No momento em que falei aquilo, percebi que fizera bobagem. Expressei-me mal, acredite. Quis pedir desculpas por ter me aproveitado de você, de sua amizade, de seu apoio... e acabei estragando tudo, como um perfeito idiota.
- Não me diga! - Jéssica exclamou, contente com a nova sensação de liberdade que a invadia. A liberdade de ficar furiosa e poder extravasar essa fúria. Talvez, alguns daqueles novos e latentes hormônios não fossem assim tão maus. - Não po¬deria ter escolhido melhor os termos quando disse que aquilo não tornaria a acontecer.
Ela colocou a taça de sorvete na pia.
- "Bebi demais, estava carente, então agarrei a primeira mu¬lher que se ofereceu para mim, a que estava mais à mão, e usei-a"- zombou Jéssica com expressão séria. - Acredita mesmo que eu poderia ser usada, Matthew Garvey? Que concordaria com algo assim? Tem idéia do quanto isso é insultante?!
Matthew abriu a boca para dizer alguma coisa, mas Jéssica interrompeu-o, sabendo que ele diria algo parecido com "Sinto muito, Jessie". E ela não suportaria ouvir isso de novo.
- Sabe de uma coisa, amigo? Eu não lamento o acontecido. Nem um pouco. E agora? O que me diz, Matt?
Matthew sorriu.
- Obrigado? - ele arriscou, com ar angelical.
De imediato, a ira de Jéssica evaporou-se como o orvalho numa manhã de verão.
- Bobo! - resmungou, abrindo um dos armários e pegando dois copos. - Quer limonada? São duas horas e meia de Allentown até aqui. Você deve estar com sede.
- Hoje é sábado, Jéssica, dia em que todo o mundo resolve ir à praia. Saí de casa antes das seis e dirigi quase quatro horas. A estrada estava repleta de vans e peruas lotadas de gente, ba¬gagens e bicicletas. Mas, como só ontem descobri que você estava aqui, não tinha outra opção senão enfrentar o transito.
- Que doçura... - Jéssica entregou-lhe um copo de suco. Depois, sentou-se diante da enorme mesa de pinho. - Não sei se você percebeu, mas não perguntei quem lhe deu a informação.
Matthew riu, relaxando ainda mais. Estava ali, junto de Jéssica, e ela não o matara. Quanta sorte para um só dia!
- Como é mesmo que as crianças falam? Vou lhe dar três chances, mas não vale adivinhar nas duas primeiras. Não é isso mesmo?
- Allie. Diga-me, vovó lhe forneceu um mapa também?
- Não foi preciso. Lembre-se, eu já estive aqui.
Jéssica retesou-se, e Matthew desejou ter mordido a língua. "Seu tonto! De novo, falando besteiras. Dois passos para a frente, dois para trás", pensou ele. Sim, Matthew já estivera no chalé de praia dos Chandler. Com Maddy, logo depois do anúncio do noi¬vado. Na verdade, a grande festa de comemoração acontecera ali.
- Oh, sim.. - Jéssica disse, após um breve momento. - Tinha esquecido. Maddy e Joe já voltaram, não?
- Chegaram logo que você veio para cá, bronzeados e felizes, abrindo as dezenas de caixas que trouxeram na viagem. Não sei qual será o estilo da decoração da residência deles, mas decerto trouxeram tantos objetos de arte e antigüidades, que poderiam até vender.
Jéssica achou graça. Conhecia o gosto eclético da irmã, que ia desde as peças mais requintadas até as mais estranhas, como abajures feitos de sucata.
- Eu diria que a decoração será bem democrática. E sou capaz de apostar como Maddy levou tudo o que encontrou pela frente em matéria de livros de receitas e utensílios de cozinha. Joe não sabia, mas se casou com a rainha do lar. Se ele não se cuidar, daqui a seis meses estará redondo como uma moeda.
Logo o sorriso de Jéssica desapareceu, e perguntou:
- Como está enfrentando, Matt? Deve ser embaraçoso ver Maddy e Joe juntos, não?
Esse era o momento ideal para a verdade. A hora de revelar a Jéssica o que o irmão dela, Ryan, já adivinhara. O que Allie, de alguma forma, descobrira meses atrás. Tanto que tratara de trazer Joe de volta à cena.
Deveria confessar a Jéssica que ele estava a ponto de romper o noivado quando Maddy revelou que amava Joe O'Malley.
Não. A ocasião certa teria sido aquela, no mirante. Se tivesse dito a verdade naquela noite, Jéssica teria percebido que Matthew não aceitara a entrega dela, porque estava com o coração partido.
Já deveria ter tido coragem para revelar seus sentimentos semanas, meses, anos atrás. Antes de, num impulsivo mara¬vilhoso, ter feito amor com ela.
Agora, não. Não, com Jéssica carregando um filho seu no ventre.
Ela não acreditaria nele. Pensaria, sim, que Matthew se aproveitara dela. De fato, não era muito agradável imaginar que ele aceitara a docilidade de Jéssica sem revelar seu amor.
Jéssica imaginaria que Allie contara-lhe sobre a gravidez e, por esse motivo, Matthew a procurara, fingindo estar apai¬xonado, querendo casar-se por uma questão de obrigação, de pena ou de culpa.
Sabendo que Ryan jamais o trairia, e rezando para Maddy não abrir a boca, ele fez a coisa mais óbvia. A mais lógica. A mais correta, acima de tudo.
Mentiu descaradamente.
- Estou ótimo, Jessie. Começo a achar que Maddy tomou a decisão mais adequada.
Jéssica mordeu o lábio.
- Sei. Sempre bancando o cavalheiro, não é mesmo? Maddy esperou até as vésperas do casamento para dizer-lhe que amava outro homem. Um milionário; quase bilionário, se as revistas estiverem certas. Se bem que Joe era um ilustre desconhecido quando Maddy o conheceu.
Inclinando a cabeça para um lado, Jéssica o fitou com os olhos semicerrados.
- O dinheiro de Joe não tem importância para Maddy. Importa para você?
- Jéssica, temos mesmo de falar sobre isso? Não tem nada a ver conosco e...
Com um gesto de mão, ela pediu-lhe silêncio.
- Você está começando a achar que Maddy tomou a decisão certa? O que isso significa, Matt? Não se trata de escolher entre carne ou peixe, ou entre vinho branco ou tinto, e sim de um casamento entre duas pessoas que se amam, percebeu?
- Nós tínhamos muito em comum, Jéssica. - Matthew entrou no caminho da verdade, pelo menos parcial, consciente de que o que dizia fazia-o parecer lógico, calculista demais para um noivo apaixonado. - Tínhamos as mesmas metas.
- Metas? Que romântico! Você amava minha irmã, ou esse enlace seria assim uma espécie de parceria comercial? Agora, que ela o trocou por outro melhor, você está começando a achar que Maddy fez o movimento certo, a fusão certa? É patético! Ora, Matthew, o que é isso? Será que estou sendo irracional por começar a acreditar que suas razões para casar-se com minha irmã eram patéticas? E minha preocupação por seus sentimentos, minha iniciativa de segui-lo até o mirante naquela noite, foram piores do que isso? Meu Deus! Maddy sabe a sorte que teve ao escapar de seu conceito de matrimônio?
Matthew a fitou por um longo momento, tentando lembrar que Jéssica estava grávida e que mulheres grávidas poderiam ser irracionais.
Só que Jéssica Chandler nunca fora assim. Ela sempre se mostrara ponderada e comedida. Mesmo naquele momento, esta sendo racional, de uma forma meio distorcida, usando o intelecto e as emoções para chegar às conclusões lógicas que o faziam parecer menos terrível.
- Não vou responder a essas últimas perguntas, Jessie. - Matthew colocou o copo vazio na pia, deixando a água correr sobre ele, para a polpa do limão não grudar nas bordas. Suas mãos tremiam de leve. - Na verdade, não direi mais nem uma palavra, neste momento. Porque, se eu disser, acabaremos dis¬cutindo, e não foi por isso que vim até aqui. Mas quero dizer-lhe que, o que parecia ser boas razões para Maddy e eu nos casarmos, de repente perdeu o sentido. Maddy rompeu o noivado porque o amor por Joe era muito maior do que o sentido de segurança e conforto que tinha comigo. Maddy está feliz, e eu me congratulo por ela. Fim da história. Agora, diga onde é meu quarto, certo?
- Seu... seu quarto? Quem disse que vai ficar aqui?
Ele gostou do tremor na voz dela.
- Allie, Ryan e Maddy. - Sorriu. - Como vocês têm par¬ticipação igual no imóvel, você foi voto vencido. Bem democrá¬tico, não?
Jéssica conteve-se para não atirar o copo direto na cabeça de Matthew. Porém, se o fizesse, teria de limpar a sujeira e o ferimento dele. Então, preferiu não fazê-lo.
- Não o quero aqui, Matt. Isso conta?
Ele fingiu refletir.
- Não, acho que não. Você não deveria ficar sozinha... - Quase acrescentou "no seu estado". Mas calou-se a tempo. - Além disso, uma vez que eu não tive lua-de-mel, creio que mereço umas férias. A propósito, tenho o mês todo livre. Nada mal, sendo o patrão.
- Um mês? Vou subir e fazer minhas malas.
Matthew deixou-a dar três passos em direção ao hall, de¬pois disse:
- Fugindo de novo, Jessie? Não combina com você. É bem contrário a seu caráter.
Jéssica parou e voltou-se, enfurecida.
- Não diga! O que sabe a meu respeito?
- O suficiente para saber que você não está aqui em férias, Jéssica. Está fugindo. De mim, de meus telefonemas, do que aconteceu entre nós. Sei também que não pode continuar fu¬gindo, porque vou segui-la, Jessie, acredite, até o fim do mundo, se for preciso. Nada de melodramas. Você e eu vamos resolver este assunto, de um modo ou de outro.
- Resolver? Não estou entendendo.
Matthew encostou-se na pia.
- Sou o melhor amigo de Ryan. Quase casei com sua irmã. Freqüento a mansão Chandler há uns cinco anos. Fiz amor com você no mirante da família. Temos de assumir esse último fato. Ou colocamos uma pedra sobre tudo, ou então, enfrenta¬mos a realidade, juntos. Faço parte da família Chandler, e pretendo continuar fazendo. E sendo parte de sua vida.
Jéssica baixou o olhar.
- Mesmo que eu não o queira?
- Mesmo que você pense que não me quer. Nós partilhamos algo muito especial, Jéssica. Raro, intenso, quase surreal. Não tem curiosidade de entender por que aconteceu?
- Já sei. Você bebeu demais depois de ser rejeitado por Maddy. Então, ficou ali, bancando o cavalheiro ofendido, mas resignado. Aconteceu, porque eu senti... pena, e resolvi confor¬tá-lo, e nós... Bem, fomos arrastados pelo momento. Foi um erro, Matt, um grande erro.
- Entendo. - Suspirando, Matthew afastou-se da pia. - Quan¬do você conseguir dizer tudo isso olhando dentro dos meus olhos...