O som alto do vizinho, em vez de me irritar, me faz querer levantar e dançar. ..
- Foco, Aurora, você precisa terminar esse livro ou Mari vai te xingar novamente - digo a mim mesma.
Esse é o livro favorito de Mariana, minha melhor amiga, filha dos meus padrinhos Camila e Ricardo. Foi um sacrifício convencê-la a me emprestar.
A música que está tocando agora é eletrônica, e meus dedos se movem involuntariamente. Olho para a porta do meu quarto, para ter certeza de que está fechada, e então me levanto e começo a me requebrar de um lado para o outro, seguindo a batida da música. Meus cabelos balançam junto comigo, e observo, divertida, meus passos no reflexo do espelho.
- Requebra mais, maninha! - Escuto a voz de Nando e me volto para ele, encontrando-o sorrindo com o celular na mão.
- Nando, você estava gravando?! - Ele nega, mas a risada o entrega. - Eu não acredito em você! Me mostra seu celular.
Vou até ele e tento pegar o aparelho de suas mãos, mas ele desvia.
- Se você me pegar, deixo você ver. - Nando começa a correr pelo quarto.
- Nando, para de agir como uma criança. – Mas, mesmo contrariada, corro atrás dele.
Quando me canso, decido fingir que torci o pé e me sento na cama, gemendo de dor. Nando para a sua fuga e vem até mim, o rosto pálido pela preocupação.
- Onde está doendo? - Seus dedos envolvem o meu tornozelo, o toque tão suave que mal sinto, e um calor estranho se espalha pelo meu corpo. Com um suspiro, eu ignoro a sensação e aproveito a sua distração para tomar o celular. Em um segundo, apago rapidamente o vídeo. - Aurora, você me enganou? - Ele sobe em cima de mim e começa a me fazer cócegas. - Eu estava aqui, preocupado com você.
Minha gargalhada ecoa pelo quarto e tento afastá-lo, em vão. E quando Nando aproxima o rosto do meu, sinto meu coração acelerar e minha respiração ficar mais pesada. O que há de errado comigo?
- Você está bem? Suas bochechas estão coradas. - Seu hálito quente me faz arrepiar.
- Saia de cima de mim - as palavras saem um pouco rudes, e Nando se levanta com a testa franzida.
- O que foi? Você ficou brava comigo?
- Não é nada.
Me levanto e vou até a janela.
- Ei. Você sabe que pode me contar qualquer coisa. - Ele me segue. - Além de irmão, somos amigos.
- Já falei que não é nada.
Vejo pela janela Henry estacionar o carro em frente a nossa casa.
- Seu namorado mané chegou, foi? - Ele também olha para fora.
- Ele não é mané, Nando – o repreendo.
- Se você diz. - Ele dá de ombros. - Eu não gosto dele. É perfeitinho demais. Pra mim, é tudo fingimento. Agora vou pro meu quarto, não quero dar de cara com ele. - Dá um beijo na minha bochecha e sai.
Me sento na cama e solto um longo suspiro. Fico olhando para as minhas mãos, perdida em meus pensamentos. O que foi aquilo que senti? Seu toque e sua aproximação fizeram meu coração acelerar. Mas por quê?
Henry e eu já estamos namorando há dois anos. O conheci em um churrasco na casa de uma conhecida, e logo de cara ele já chamou a minha atenção, tanto por sua beleza quanto pela simpatia. Manu e Caio aceitaram o meu namoro com ele super bem, apesar de Caio ter dito, com todas as palavras, que se Henry me machucasse, iria acabar com ele.
- Oi, amor. - Henry vem em minha direção e beija os meus lábios – um beijo rápido, contido.
- Oi, como você está?
Ele se senta ao meu lado e me abraça.
- Estou melhor agora que estou com você. E você? Parece pensativa. Aconteceu alguma coisa?
- Estou bem. Não aconteceu nada. - Tento sorrir para ele. - A que devo a sua ilustre visita?
- Vou precisar viajar até a casa do meu pai. Aconteceu um problema lá com a família perfeita dele - diz, em um tom irônico.
Os pais deles se separaram quando Henry tinha dez anos de idade. E ele não aceita a nova família de seu pai. Sua mãe sofreu muito com a separação, e isso o encheu de raiva. Já pedi para não ser tão rancoroso. É melhor separar do que trair. Ficar juntos só para manter as aparências não vale a pena. Mas ultimamente ele tem ido bastante à casa do pai. É possível que a relação deles esteja melhorando.
- E seu trabalho? Você sabe quanto tempo vai ficar por lá?
- Consigo terminar o projeto do novo cliente em qualquer lugar, amor. Só preciso do meu notebook, papel e lápis. E quanto ao tempo, não tenho certeza, mas acho que uma semana.
Me solto dos seus braços e o encaro sem acreditar.
- Uma semana? Não faz muito tempo que voltou de lá. - Cruzo os braços.
- Eu sei, mas meu pai está precisando da minha ajuda, amor. Eu não posso deixá-lo na mão. - Ele acaricia a minha bochecha.
- Engraçado. Seis meses atrás você nem ligava pra ele. Agora vive mais lá do que aqui comigo - digo, tirando a sua mão do meu rosto.
- Amor... Nós dois tivemos uma boa conversa e decidimos que nossa relação merecia uma nova chance. Agora que estamos bem, estou tentando ajudar no que for possível, mesmo ainda não gostando da mulher dele. Você mesma disse que deveria tentar melhorar as coisas com ele, lembra?
Eu suspiro, ainda contrariada, mas entendendo o seu ponto.
- Vou sentir sua falta - é o que acabo dizendo, e o abraço.
- Eu também vou sentir a sua. - Henry beija a minha testa. - Agora vou arrumar minhas malas. A viagem pra Bahia é demorada.
Antes que ele possa se levantar, seguro o seu braço e o puxo para um beijo, mas quando está ficando mais intenso e profundo, ele para. Eu queria mais, mas, pelo jeito, Henry não. Isso me desanima mais do que gostaria de admitir.
- Tchau, amor. Assim que chegar lá, te ligo. - Ele se levanta e caminha até a porta, sem nem mesmo esperar a minha resposta.
- Tá - murmuro, vendo-o sumir.
Já irritada, me levanto e vou para a sala. Vejo Manu e Caio sentados no sofá, abraçados. Formam um casal tão lindo... Tenho orgulho de fazer parte dessa família, e serei eternamente grata por terem me adotado quando minha mãe morreu. Quando eu era criança, os chamava de pai e mãe, mas depois que cresci, preferi me referir a eles pelo nome mesmo.
Me sento ao seu lado no sofá.
- Alguém não está com uma cara boa. Henry foi embora rápido. Vocês brigaram? - Sinto a preocupação na voz de Caio.
- Ele vai viajar pra casa do pai de novo.
- Já estou começando a achar estranho ele ir pra lá tantas vezes - Manu diz, e eu me vejo obrigada a concordar.
- Está chegando a hora do jantar. Que tal uma pizza? Hoje é sábado - Caio sugere.
- Pode ser. Vou tomar uma banho e já desço.
Subo as escadas em direção aos quartos e escuto Nando xingando sem parar. Preocupada, vou até a sua porta e bato, mas ele não responde. Abro a porta devagar e entro. O quarto de Nando é a cara dele. Limpo e organizado. Cada coisa tem o seu devido lugar. As paredes são brancas e os móveis em um tom de mogno. Vejo-o em frente ao computador. Vou até ele e toco o seu ombro, e ele se vira para mim com uma expressão assustada. Estou sorrindo, mas assim que avisto o que está na tela, meu sorriso cessa.
É uma foto de Henry beijando outra garota.
Lágrimas se formam em meus olhos com o sentimento de traição que cresce em meu peito. Eu não posso acreditar. Não quero acreditar nisso.
Nando se levanta e me abraça.
- Eu planejava te contar de outra forma. Não era pra ser assim. Acabei de receber essa foto. Foi uma colega que tem essa garota nas redes sociais que tirou print e me mandou. Eu sinto muito, Aurora, mas, pela data, foi semana passada. - Nando me leva até a cama e, quando me sento, ele limpa as minhas lágrimas.
- Ele não estava indo pra casa do pai dele. Estava indo ficar com outra. Como sou idiota.
- Você não é idiota. Você é alegre, divertida e muito inteligente. E sempre ilumina tudo ao seu redor. Você é maravilhosa, Aurora. O idiota é ele.
Seu rosto está a poucos centímetros do meu, e ele me olha com uma intensidade que me atordoa. Meu coração acelera quando a sua mão toca o meu queixo, com a mesma suavidade de antes, e os meus olhos, inconscientemente, se fecham. Os pensamentos embaralhados demais para compreendê-los. Sinto os seus lábios tocarem os meus com delicadeza; e só então a realidade me encontra.
Nando está realmente me beijando?
Os lábios de Nando ainda estão colados aos meus. Nosso beijo é doce e gentil, e a sensação é tão boa - tão diferente dos outros que já experimentei. Quando minha ficha cai e percebo que o que estamos fazendo é errado, me afasto rapidamente e tento voltar a respirar.
- Meu Deus. Isso é loucura! - Me levanto da cama nervosa.
- Desculpa, foi culpa minha. - Ele abaixa a cabeça, as bochechas corando com a vergonha.
E estou ainda mais envergonhada que ele, por ter sentido o que senti.
- Só esquece, Nando. Isso nunca aconteceu. Está me ouvindo? Nunca.
Sem ter coragem de olhar em seu rosto novamente, saio do quarto em disparada. Nando me chama, mas o ignoro. Entro no meu quarto e tranco a porta.
- Que droga! - Me jogo na cama e afundo o rosto no travesseiro, soltando um grito.
Deixo as lágrimas caírem. Estou confusa e com o coração em pedaços. Henry me enganou durante todo esse tempo, jogou nossos dois anos no lixo! Ele foi o meu primeiro namorado, o homem a quem me entreguei por amor. Depois de tanto chorar e remoer tudo que aconteceu, acabo pegando no sono.
Acordo com os olhos ardendo. Me sento na cama, pego meu celular de baixo do travesseiro e vejo que já é quase meia-noite. Há chamadas de Henry não atendidas, e só de olhar seu nome na tela, com vários corações ao lado, dói o meu peito. Bloqueio o celular, me levanto e vou até o guarda-roupa, separo uma camisola e vou direto para o banho.
***
Abro a porta do quarto. As luzes já estão apagadas. Todos já devem estar dormindo. Decido descer até a cozinha para arrumar algo para comer. Abro a porta da geladeira e vejo um prato com dois pedaços de pizza e um pequeno bilhete ao lado. Pego-o e começo a ler.
"Pequena, guardamos pra você. Espero que esteja melhor. Nando nos contou o que aconteceu. Te amamos. Caio"
Não sei se fico feliz por não ter que explicar o que aconteceu ou se fico com raiva por Nando ter contado. Mas Manu e Caio são sempre tão atenciosos e amorosos comigo. Eu amo tanto os dois.
Coloco a pizza no microondas para esquentar, dobro o bilhete e o coloco na bancada. Encho um copo de coca, pego o prato no microondas e me sento à mesa. Fico aqui, comendo e pensando em várias coisas ao mesmo tempo.
- Posso me sentar com você? - Levo um susto ao ver Nando em pé ao meu lado. - Desculpa, não queria te assustar. Não consigo dormir.
Por que será que não consegue? Será que aquele beijo também significou algo para ele? Será que as mesmas dúvidas que pairam na minha cabeça também estão na dele? Minha cabeça parece que vai explodir! Queria que tudo isso não tivesse acontecido. Queria minha vida perfeita de volta.
- Pode sentar. Você está na sua casa. - Aponto para a cadeira.
- Estou na nossa casa, Aurora. - Ele se senta e fica me observando.
- Não vou conseguiu comer com você me encarando. Quer um pedaço? - Levanto o garfo com o último pedaço de pizza.
- Obrigado, já comi mais cedo. Aurora... Eu não sei como dizer isso, mas não quero que nada entre nós mude. O que aconteceu mais cedo foi algo de impulso, eu não deveria ter feito aquilo. É que te ver chorar daquele jeito mexeu comigo, e ver seus olhos inchados do jeito que estão agora me faz querer ir até onde aquele mané do seu namorado está e acabar com ele - Nando diz, cerrando os punhos.
- Já falei pra você que temos que esquecer o que aconteceu. Vamos seguir em frente, Nando. Não precisa se preocupar. - Minha mão já se move para a dele, quase que inconscientemente, mas hesito e, por fim, desisto. E isso não passa despercebido a ele, que observa cada movimento meu.
- Não consegue nem me tocar e fala pra seguimos em frente? - Seu olhar é triste, sua voz, baixa.
Me levanto, fingindo não ouvi-lo, e levo a louça até a pia. Então murmuro um "boa noite, Nando" e parto rapidamente para as escadas.
Minha vontade nesse momento é sumir. Eu sei que, mesmo afirmando o contrário, nosso relacionamento jamais voltará a ser como antes. Entro rapidamente no quarto, sigo para o banheiro e escovo os dentes. Em seguida, me olho no espelho e percebo como estou um caco. Em questão de horas, perdi todo o equilíbrio que demorei anos para juntar. Suspiro e me arrasto até a cama, aconchegando-me sob as cobertas.
(*** Nando ***)
Não consigo dormir. Me viro de um lado para o outro na cama e aperto a cabeça contra o travesseiro e tento não pensar em nada, mas a lembrança do que aconteceu continuando voltando à minha mente, se repetindo sem me dar um único segundo de descanso. Devo estar ficando louco. Como pude beijar minha própria irmã? Aurora e eu sempre fomos muito ligados, companheiros um do outro. E agora vejo que coloquei tudo a perder por causa de um simples beijo. Por um sentimento que só eu devo estar sentindo.
Não consegui me controlar. Quando dei por mim, meus lábios já estavam colados aos dela. E foi tão bom e tão errado.
Cansado de esperar o sono vir, me levanto e vou até a cozinha pegar um copo d'água. Ao abrir a porta do meu quarto, vejo que a do dela também está aberta. Penso em entrar, mas logo desisto. Mas, para a minha surpresa, assim que desço as escadas e noto a luz ligada, vejo Aurora sentada à mesa, comendo, perdida em seus pensamentos. Mesmo não tendo certeza do que dizer, sei que preciso conversar com ela.
Meus olhar passeia pelo seu corpo. Aurora está usando uma camisola de seda rosa, e seus cabelos estão presos em um rabo de cavalo; a pele branquinha está muito à mostra. Mas por que estou prestando tanta atenção nisso? Parece que depois aquele beijo, algo se desencadeou dentro de mim e me deixou assim. Que droga! O que estou fazendo?
Mas não posso evitar. Enquanto ela come, fico, em silêncio, admirando-a. E vejo que seus olhos estão inchados. Culpa daquele idiota do Henry. Como ele teve coragem de trair uma garota como ela? Aurora é a garota mais incrível que conheço. Tudo o que eu queria era parti-lo ao meio. Como pode ser tão otário?
- Posso me sentar com você? - pergunto, e, em pouco tempo, percebo que me reaproximar de Aurora não será tão fácil como esperava.
Quando ela fica com receio de me tocar, sinto meu coração se quebrar no peito. Quero continuar conversando, mas Aurora foge novamente. Uma certeza eu tenho: não vou deixá-la se afastar de mim. Me levanto e vou até o quarto dela, decidido a resolver isso de uma vez por todas. Entro devagar e a vejo encolhida, a luz de sua luminária em formato da Torre Eiffel iluminando o local. Meu coração se aperta ao perceber que está chorando.
- Nando, o que está fazendo aqui? - murmura assim que me vê.
Me sento ao seu lado e acaricio seus cabelos.
- Não quero que se distancie de mim novamente, Aurora. Pare de fugir. Eu sou seu irmão e quero cuidar de você. Sei que seu coração está despedaçado. Lembra de quando você tinha medo dos trovões e ia correndo pro meu quarto pra dormir comigo? - Ela balança a cabeça, confirmando. - E quando alguém te irritava na escola, quem era que te defendia no mesmo instante?
- Você. - Sua voz sai embargada.
- Eu sempre estive ao seu lado e sempre estarei. Não existe Nando sem Aurora.
Ela abre um pequeno sorriso.
E eu não estou mentindo. Aurora sempre esteve ao meu lado desde quando nasci. Não tenho ideia de como seria a vida sem ela.
- Lembra quando caí da bicicleta na primeira vez que andei sem rodinhas? Manu te deu uma bronca daquelas - Aurora diz, ainda sorrindo, e acabo rindo da lembrança.
- Sim. Mas você a convenceu que fui forçado a te deixar andar na minha bicicleta, mesmo não sendo verdade. Fui eu que te desafiei a andar nela. Sabe porque você fez isso?
- Porque somos parceiros - fala, baixinho.
Eu assinto.
- Um nunca quer ver o outro na pior, mesmo que isso signifique aguentar as consequências de uma coisa que não fez. Posso me deitar do seu lado, como fazíamos quando éramos pequenos?
Aurora vai mais para o lado e levanta o edredom rosa com estampa de corações. Tiro meus chinelos e me deito ao seu lado. Ficamos virados um para o outro em silêncio por um tempo.
- Eu queria tirar essa dor do seu peito. Não gosto de te ver assim desanimada. - Acaricio sua bochecha. - Posso te perguntar uma coisa?
- Pode.
- Você sentiu alguma coisa quando te beijei? Eu sei que você pediu pra esquecer o que aconteceu, mas quero muito saber.
- Não sei se é uma boa entrar nesse assunto novamente, Nando.
- Só me responde isso, por favor.
- Estou confusa com o que senti. Nós somos irmãos. Nunca era pra ter acontecido aquilo.
Mesmo falando isso, consigo sentir que sua respiração acelera quando minha mão toca o seu rosto.
- Mas aconteceu. E pra ser sincero com você, estou com vontade de te beijar novamente. - As palavras saem sem que eu tenha qualquer controle sobre elas, e Aurora me olha surpresa.
Aproximo meu rosto do seu e olho profundamente em seus olhos. Minha mão desliza para a sua nuca e a sinto estremecer com meu toque. Tomo seus lábios em um beijo intenso. Desço e começo a beijar seu pescoço.
- Aurora, você só precisa pedir pra eu parar.
- Eu não posso, Nando.
Nesse momento, já estou por cima dela na cama. Nosso beijo é maravilhoso. O gosto de Aurora é diferente. Seus dedos entram por minha camisa, as unhas arranhando minhas costas. Ela me excita como nenhuma outra. Enquanto a beijo, uma de minhas mãos passeia pelo seu corpo, tocando-a como se pudesse desaparecer a qualquer momento. Encosto a ponta do dedo em seus seios e vou descendo até a cintura. Separo os nossos lábios e olho em seus olhos; brilhantes, tão perdidos quanto os meus.
Sua respiração está irregular, pesada, e vejo quando a expressão muda em seu rosto e os primeiros traços de pânico começam a surgir.
- O que estamos fazendo, Nando? - ela pergunta.
Tentando esconder a decepção, me afasto e me deito ao seu lado. É claro que ela está arrependida.
- Pra ser sincero, nem eu sei - confesso. - Pode parecer loucura, mas a sensação de estar com você em meus braços é tão boa.
- E se Caio e Manu descobrirem? Não quero decepcionar nenhum dos dois. - Aurora recua, distanciando-se cada vez mais de mim, e se senta. - Não quero ser uma decepção pra eles.
- Você nunca será uma decepção - murmuro. - Eles te amam e sentem muito orgulho de você. Assim como eu.
- Acho que é melhor ir para o seu quarto, Nando - ela diz, fugindo do meu olhar.
- Você não vai tentar me afastar novamente nem me pedir pra esquecer o que aconteceu aqui, né?
Mesmo sabendo que Aurora é legalmente minha irmã, não consigo vê-la mais da mesma forma. Agora tudo mudou. Nós mudamos. E por que isso deveria ser errado?
- Não vou te pedir pra esquecer e nem vou te afastar - ela diz, mas não sinto nenhum pingo de firmeza em suas palavras.
- Aurora, não faz isso comigo. - Seguro seu rosto e a faço olhar para mim novamente. - Quero ficar com você, nem que seja escondido.
Aproximo nossos rostos e a beijo. E quando os seus lábios se movem com os meus, devagar, hesitantes, meu peito se aperta com o gosto de despedida em minha língua. Ela se afasta e acaricia a minha bochecha. Há tristeza em seu olhar.
- Boa noite, Nando - ela sussurra.
- Você tem certeza que quer que eu vá? - pergunto, baixinho, e ela assente.
Mesmo contra minha vontade, me levanto, calço meus chinelos e saio do seu quarto sem fazer barulho. Volto para o meu e me deito com as mãos embaixo da cabeça.
Tudo isso está parecendo uma montanha-russa. Uma hora as coisas fluem bem, na outra tudo desmorona. Não sei o que fazer! Ela diz estar confusa com tudo isso, mas eu também estou. Mesmo assim, quero ficar ao seu lado. Por que ela não compreende que não há mal quando não somos irmãos de sangue? Por que insiste em me manter longe?
***
Acordo meio atordoado. Não consegui dormi bem essa noite. Me levanto e vou ao banheiro, tomo um banho, me arrumo e desço para o café da manhã.
- Bom dia - digo, me sentando à mesa.
Percebo que só meus pais estão presentes. Aurora ainda deve estar dormindo.
- Vejo que nenhum dos dois acordou muito bem hoje - minha mãe fala, preocupada.
Então quer dizer que Aurora já acordou. Será que já voltou para o quarto?
- Só estou com dor de cabeça, mãe. Não precisa se preocupar. Aurora já tomou café?
- Já. Ela se levantou cedo, tomou um café rápido e foi pra casa de Camila.
Ela está me evitando. Já imaginava que isso fosse acontecer.
- Como rolou tudo aquilo com o vagabundo do Henry, ela deve estar precisando de um tempo com sua melhor amiga. Tenho dó daquele garoto. Quando ele aparecer na minha frente... - Meu pai balança a cabeça; um sorriso perigoso nos lábios.
- Caio, você não vai dar uma surra nele! Já conversamos sobre isso. - Minha mãe cruza os braços e o encara, séria.
- E eu já disse que não garanto nada. Aquele moleque safado machucou minha filha e não vai sair impune. Pode ter certeza disso.
Enquanto os dois discutem sobre dar uma surra em Henry ou não - se bem que ele merece, e eu até ajudaria meu pai com isso - meu pensamento está em Aurora. Estará mesmo buscando consolo com a amiga ou uma fuga?
(**** Aurora ***)
Estou deitada no colo de Mari e ela tenta me animar. Hoje estou me sentindo pior que ontem.
- Amiga, não fica assim. Pensa pelo lado bom. É melhor ter descoberto agora do que nunca descobrir e Henry te enganar por anos. Você já falou com ele?
- Não. Ele me ligou várias vezes, mas não tive coragem de atender.
Meu celular começa a tocar, e sei que é ele. Mari o toma de minha mão e atende. Olha-a sem entender.
- Oi, Henry. Ela não pode atender. Agora estamos na casa de uns amigos. Aurora está na piscina nadando com Júlio. Sim, esse Júlio mesmo. Você já vai voltar pra casa?! Mas ela disse que você ficaria uma semana fora. Vou avisar, espera aí... Aurora, amiga! - Ela faz uma pausa. - Henry, ela está muito distraída conversando, mas depois eu aviso. Até. Tchau!
- Não acredito que fez isso. Ele morre de ciúmes de Júlio.
Mari abre um grande sorriso.
- Eu sei. Você tinha que ouvir, ele ficou louco.
Eu rio.
- Você é maravilhosa, Mari! - Me sento e a abraço.
- Nós somos. Mas sinto que não é só isso que está te incomodando. Aconteceu mais alguma coisa?
Mari me conhece tão bem. Ela, Nando e eu sempre fomos muito ligados. Crescemos juntos e seus pais são nossos padrinhos.
- Aconteceu uma coisa ontem que me deixou mais atordoada.
Mari me olha com curiosidade.
- Coloca tudo pra fora. Você sabe que não vou te julgar.
Respiro fundo para tomar coragem de entrar nesse assunto.
- Nando e eu nos beijamos.
Mari fica literalmente de boca aberta.
- Menina, que babado! Me conte os detalhes.
Nós duas nos deitamos na cama e ficamos olhando para o teto.
- Eu te contei como descobri sobre Henry, mas omiti a parte do beijo. Quando estava sentada na cama dele, estava com os olhos fechados, sentindo seu toque. Nem sei por que fiz isso, mas Nando aproximou seus lábios dos meus e me beijou.
- O que você sentiu? Seja sincera.
- Eu gostei muito! Isso me deixou ainda mais confusa. Ele é meu irmão! - Coloco as mãos no rosto, a angústia me consumindo.
- Nem sei o que dizer sobre isso. É muita coisa pra uma pessoa só! Nem sei como você não surta.
- Mas estou a ponto de enlouquecer - admito. - E ainda tem mais - Mari se vira para mim. - Nando foi ao meu quarto após uma conversa rápida que tivemos na cozinha. Já era de madrugada.
- Vocês...?
- Não! Mas foi por tão pouco. Estava tão perdida no momento. Sério, Mari, Nando me deixou louca de desejo. - Solto um suspiro só de lembrar de seu toque, seus beijos.
- Imagino, amiga. Nando é um pedaço de mau caminho, igual ao pai.
- Mari!- exclamo, em tom de repreensão.
- Amiga, eu não tenho culpa se os dois são gostosos. Pegaria pai e filho juntos se eles quisessem. - Ela dá um sorrisinho. - Só não dou em cima deles por respeito a você e sua mãe.
- Mari, você é muito safada!
- Só sou realista. - Dá uma piscadela. - Agora, voltando ao assunto, o que vai fazer em relação a Nando? E a Henry?
- Ainda não sei sobre Nando. Vou tentar evitá-lo ao máximo, até entender tudo. E claro que vou terminar com Henry assim que o vir pessoalmente. Vou esfregar aquela foto na cara dele. Mas pra isso preciso falar com Nando, pra que ele me envie. Sabe qual a pior coisa, Mari?
- Não faço ideia.
- Nando disse que quer ficar comigo mesmo que seja escondido.
- Se fosse eu, já estava afogando minhas mágoas no leite, se é que me entende.
- Você não disse isso! - Olho para ela incrédula.
- Ah, eu disse sim! E você me ama pelo jeito que sou, então não reclame. - Dá um tapinha em meu braço. - Tive uma ideia! Vamos nos levantar, separar uma roupa bem bonita, fazer o cabelo e uma maquiagem perfeita, pra quando Henry chegar, ver o que realmente perdeu. Ele vai se arrepender amargamente de ter te traído.
- Não sei o que faria sem você. - A abraço e beijo sua bochecha.
- Nós somos irmãs. Mas não vamos nos pegar! - Mari ri dá própria piada. Essa menina é impossível. - Agora vamos começar nosso programa de beleza.