Ponto de vista do narrador
O baile da família Blackthorne não parecia uma festa. Parecia uma coroa prestes a cair. O ar estava pesado de dinheiro e ambição. Homens permaneciam em pequenos grupos silenciosos, trocando olhares como se fossem dicas da bolsa de valores. Mulheres brilhavam como diamantes atrás de vidro, cada sorriso afiado, cada movimento calculado. Aquela noite não era sobre amor. Era sobre poder.
O salão ocupava o topo da Blackthorne Tower, setenta e cinco andares acima de Chicago. As janelas do chão ao teto transformavam a cidade em um mapa de luzes, mas ninguém se importava. Todos os olhos estavam voltados para Damien Blackthorne, o homem capaz de mudar vidas apenas pronunciando um nome. Naquela noite, ele escolheria uma esposa. E todos ali queriam assistir a história se curvar diante dele.
A banda tocava baixo, suave o bastante para deixar os sussurros correrem livres. Rumores saltavam de boca em boca.
"Ouvi dizer que é Elise. A filha do senador."
"Não. Muito delicada. Ele vai escolher Vivian. Ela é cruel o suficiente para se manter ao lado dele."
"Dizem que ele já decidiu. Todo esse espetáculo é apenas para nós."
Damien estava perto do centro de tudo, alto, imóvel, ilegível. Vestia preto, sem gravata, a própria imagem do controle. Ao lado dele estava seu irmão, observando a multidão, pronto para agir se necessário. Em volta deles, investidores e aliados circulavam como abutres esperando restos.
O apresentador se aproximou do microfone. A música diminuiu. O salão inteiro pareceu inclinar-se para frente.
"Senhoras e senhores," disse ele, com uma voz suave e ensaiada. "Esta noite encerramos um capítulo e começamos outro. O herdeiro do império Blackthorne nomeará sua futura esposa, uma mulher digna de permanecer ao lado de um homem que carrega uma cidade inteira nas mãos."
A multidão vibrou em excitação contida. Alguns sorriam confiantes. Outros apertavam suas taças de champanhe como se fossem salva-vidas. As mulheres alinhadas próximas ao palco mantinham o queixo erguido e os olhos atentos, escondendo os nervos atrás de batons perfeitos.
O apresentador continuou, prolongando o suspense, deixando a pressão crescer.
"Essa união não apenas moldará o futuro. Ela garantirá um legado."
E então as portas se abriram com violência.
O som foi limpo, forte, brutal em sua simplicidade. A banda parou no meio da nota. Cabeças se viraram imediatamente em direção à entrada.
Evelyn Lockwood entrou como uma tempestade envolta em seda.
Vermelho. Foi a primeira coisa que todos viram. Um vestido vermelho que se espalhava sobre o mármore como fogo sobre gelo. Seus cabelos estavam presos para trás, seus olhos vivos, perigosos, famintos. Cinco anos desaparecida. Cinco anos enterrada em sussurros, funerais sem corpos, mentiras transformadas em verdade. E agora ela estava ali, não apenas viva... furiosa.
Ela atravessou a multidão como uma faca cortando seda. Cada passo do salto ecoava pelo salão, como um batimento cardíaco, uma contagem regressiva.
Um murmúrio se espalhou rápido.
"Evelyn Lockwood?"
"Ela deveria estar morta."
"Isso não pode ser real."
Sem sequer olhar, ela pegou uma taça de champanhe de uma bandeja e a segurou como uma arma. Sua voz atravessou o salão, firme e cortante.
"Olá, ex-marido. Estou de volta."
O salão congelou.
Todos os olhares se voltaram para Damien.
Ele não se moveu. Nem um centímetro. Nem um piscar de olhos. O homem mais poderoso da cidade encarou a mulher que havia perdido, amado, destruído, ninguém sabia ao certo, e seu rosto permaneceu feito de pedra.
Sem choque. Sem raiva. Apenas uma calma fria e constante.
Aquilo fez os dentes de Evelyn rangerem.
Ótimo, pensou ela. Se ele não vai queimar, eu queimarei tudo por ele.
Ela se virou para que todas as mulheres alinhadas perto do palco e todos os homens observando com olhos gananciosos pudessem ouvir suas próximas palavras.
"Antes que todos finjam que nada aconteceu, vamos deixar algo claro," disse ela. "Damien Blackthorne e eu ainda somos casados. Separados, sim. Mas nenhum divórcio foi assinado. O que significa..." ela fez uma pausa, deixando o silêncio se estender como uma lâmina "...que ninguém aqui ficará noivo esta noite."
Suspiros cortaram o ambiente. Futuros se quebraram como gelo fino. Uma mulher deixou sua taça cair; o vidro explodiu alto no silêncio. Investidores amaldiçoaram baixinho. Mães apertaram seus colares de pérolas. Os sussurros viraram caos sob a luz dos lustres.
Evelyn bebeu o champanhe devagar, saboreando a destruição.
Então caminhou em direção a Damien.
A multidão abriu caminho como se ela carregasse uma faca.
Ela parou diante dele. Perto o bastante para sentir o perfume que ele nunca havia trocado. Seu coração batia como um tambor que ela queria destruir.
"Surpreso em me ver?" perguntou ela, com um tom calmo, quase brincalhão. "Você não deveria estar. Sabia que eu não ficaria longe para sempre."
A expressão de Damien não mudou, mas seu peito parecia uma armadilha de aço prestes a se fechar.
"Você achou que eu tinha morrido depois do que fez comigo?" ela insistiu, o calor queimando em suas palavras.
Ainda assim, ele não respondeu.
Os lábios dela se curvaram em um sorriso pequeno e mortal.
"Eu voltei," sussurrou ela, "para transformar sua vida em um inferno."
O silêncio dele não era medo. Era pior. Era desprezo.
Aquilo rachou algo dentro dela. A raiva floresceu quente e pura.
Ele apenas a observava.
Tudo bem, pensou ela. Vamos ver até quando você consegue fingir.
Ela sorriu para as câmeras e se virou como se não tivesse acabado de lançar uma bomba no meio da sala mais poderosa da cidade.
Pegou o microfone. Ninguém a impediu.
"Boa noite, Chicago," disse ela. "Eu sou Evelyn Lockwood. O único fantasma que Damien Blackthorne não enterrou fundo o bastante... e o único pesadelo do qual ele jamais vai acordar."
O salão explodiu.
Vozes se sobrepunham em choque e sussurros. Câmeras disparavam flashes. Celulares transmitiam tudo ao vivo. Em algum lugar, alguém soltou um grito abafado. Mas Damien não se moveu. Ele não conseguia.
Ela colocou uma pasta preta e dourada sobre o púlpito com uma batida pesada. O som ecoou pelo salão inteiro.
"Isso," disse ela, "é um contrato de casamento."
Murmúrios atravessaram o ambiente como uma onda.
"Assinado. Datado. Legalmente válido."
Evie voltou os olhos para ele, agora queimando em intensidade.
"Você se lembra dos votos, Damien? Aqueles que ignorou quando me jogou fora?"
Ele não falou. Não conseguiu.
A voz dela baixou apenas o suficiente para puxar a multidão ainda mais para perto.
"Eu pensei em destruir tudo. Acabar com tudo o que é seu. Sua empresa, seu nome, seu pequeno reino de vidro. Expor seus segredos. Encerrar seu império com um único comunicado à imprensa."
Ela sorriu sombriamente.
"Mas não. Isso teria sido bondoso demais. Não teria torturado você o suficiente."
O público estava paralisado. Celulares estavam erguidos. As transmissões ao vivo já corriam pela internet e ninguém ousava interrompê-la.
Evie observou o salão lentamente, depois voltou o olhar para ele.
"Então... vamos reescrever a história, certo?"
"E desta vez, todos aqui serão testemunhas."
Ela se inclinou levemente para frente, os olhos afiados o suficiente para cortar.
"Então decidi lhe dar uma escolha. Assine ou veja tudo o que construiu desmoronar. Tijolo por tijolo. Mentira por mentira. Até seu império virar cinzas."
O salão inteiro estava congelado.
Ninguém ousava interrompê-la.
"Vamos ver que tipo de rei você é quando sua rainha volta dos mortos."
Ela se afastou do microfone.
Damien finalmente respirou. Sua voz arranhou o fundo da garganta, mas nenhuma palavra saiu. Seu corpo inteiro parecia ter sido arrastado para uma tempestade que ele acreditava ter enterrado anos atrás.
Evie o encarou, calma e mortal.
"Seu movimento, marido."
Ponto de vista do narrador
Damien Blackthorne permaneceu imóvel.
Por um longo segundo, seu próprio corpo o traiu: a garganta apertada, as mãos dormentes. Ele continuou parado naquele palco, enquanto os flashes das câmeras explodiam como pequenos sóis, os convidados sussurravam em meio ao silêncio sufocante, e no centro de tudo estava a mulher que um dia havia sido o centro do seu mundo.
Evelyn.
Cinco anos. Cinco anos desde que ela desapareceu sem deixar uma única explicação. E agora estava ali diante dele, viva, respirando, segurando um contrato de casamento com o mesmo sorriso afiado que ele um dia confundira com amor.
"Querido," ela disse, deixando sua voz deslizar pela multidão atônita, "ouvi dizer que você é um homem que valoriza o tempo. Vai mesmo fazer uma mulher linda como eu esperar e arriscar sua reputação perfeita?"
O vestido vermelho caía ao redor dela como chamas vivas. Cada passo que dava parecia, para Damien, uma lâmina sendo lentamente cravada em seu peito.
"Então," ela inclinou a cabeça num movimento casual e mortal, "o que me diz, Damien Blackthorne? Tem coragem de assinar o documento?"
Ele não respondeu. Não imediatamente.
Colt, seu braço direito, permanecia ao seu lado, rígido, com a expressão impossível de decifrar. A mão de Damien teve um pequeno espasmo involuntário.
"Passe-me a caneta," disse por fim, com a voz baixa e fria.
Colt hesitou antes de obedecer.
Damien abriu a pasta e passou os olhos pelas páginas. No fundo, sabia que aquilo não era um simples contrato. Era uma armadilha disfarçada em tinta e papel. Ainda assim, recusava-se a lhe dar o luxo de hesitar em público.
Ele assinou.
Uma onda atravessou o salão. Celulares se ergueram como bandeiras. Flashes atingiram o mármore em rajadas violentas. Em algum lugar, a taça de uma mulher caiu no chão, quebrando-se em sons agudos.
Evelyn se aproximou um pouco mais, um pequeno sorriso curvando o canto dos lábios. A satisfação tinha gosto de vitória.
"Você acabou de assinar uma guerra, Damien. Observe enquanto eu destruo você, pedaço por pedaço."
Ela girou nos calcanhares, desceu do palco como alguém que acabara de reivindicar um trono e lançou as próximas palavras por cima do ombro.
"Mande seus homens buscarem minhas malas. Vou morar na casa dele."
Então desapareceu no meio da multidão.
Damien permaneceu onde estava, encarando o risco da tinta no papel. Seu peito parecia comprimido. Seu rosto, porém, não demonstrava nada. O passado havia retornado com intenção. Não voltara para reconciliação. Voltara para acertar contas antigas.
Sua secretária surgiu correndo, pálida e eficiente.
"Senhor, devo prosseguir com a festa?"
Ele nem sequer olhou para ela.
"Cancele tudo. Não estou com humor para isso."
Ela saiu apressada, os saltos ecoando como pequenos alarmes.
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Damien atravessou a mansão como se a própria casa o tivesse traído. Arrancou o smoking do corpo, jogando-o para longe, e caminhou pelos corredores que guardavam memórias dele.
"Colt!" rugiu.
Colt o seguiu de perto, preocupação marcada profundamente em seu rosto.
"Seus remédios," disse Colt, colocando a mão no bolso interno do paletó.
Damien arrancou o pequeno estojo de sua mão e engoliu os comprimidos com força. O gosto amargo era insignificante comparado à pressão latejante dentro de sua cabeça. A expressão triunfante de Evelyn ainda queimava diante dos seus olhos.
"Mande Blake segui-la. Discretamente. Quero olhos nela até que se mude para cá."
Colt hesitou.
"Chefe, se Blake seguir Evelyn, ficaremos expostos. Você sabe dos riscos..."
"Faça isso," Damien o interrompeu. "Ela é mais importante. E mande meus homens buscarem a bagagem dela."
Colt estava quase saindo quando o telefone vibrou. Ele olhou a tela. Seu rosto endureceu imediatamente. Atendeu, encerrou a chamada e voltou-se para Damien como se o chão tivesse inclinado.
"Fale," Damien ordenou. "Hoje já teve surpresas suficientes."
"Nosso contrato foi rejeitado," Colt informou.
O maxilar de Damien travou.
"Por quê?"
"Nenhuma razão foi dada. O conselho escolheu outro concorrente. Uma empresa chamada Avielle & Co. Estão ativos há apenas dois meses, mas já conseguiram três contratos de médio porte."
Damien franziu a testa.
"Avielle & Co?"
Colt assentiu.
"Sim. Ninguém esperava que nos ultrapassassem."
"Quem é o dono?"
"Não existe rosto público. Apenas um representante legal cuidando da imprensa e da papelada. A documentação registra um homem como proprietário, mas ninguém o viu."
Um sorriso estreito surgiu nos lábios de Damien.
"Ele, é?"
"Chefe... acha que é ele?" Colt perguntou cuidadosamente.
"Talvez. Continue monitorando essa empresa. Quero olhos nele. Se ele quer entrar no meu território, é melhor estar preparado para sangrar."
"Entendido."
"Agora vá. Quero dormir."
"Sim, senhor. Boa noite."
Colt saiu.
Damien ficou parado diante da janela por alguns segundos, observando a cidade. A noite era um emaranhado de luzes indiferentes. Seu passado havia retornado não como um sussurro, mas como uma exigência. E acabara de arrancar um contrato de suas mãos.
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Em um restaurante silencioso, escondido do caos da cidade, Evelyn estava sentada diante de sua melhor amiga, Sophie. A mesa era reservada, o tipo de lugar feito para guardar segredos. Uma taça de vinho tinto tremia suavemente entre seus dedos enquanto ela a girava com calma calculada.
"Eu não esperava que ele assinasse," Sophie admitiu antes de beber um gole.
Os lábios de Evelyn se curvaram num leve sorriso enquanto observava a luz refletir na borda da taça.
"Eu conheço Damien," disse suavemente. "Ele sabe fingir. Máscaras são o negócio dele. Sempre foi excelente em interpretar papéis."
Quando olhou para Sophie, seus olhos carregavam cicatrizes antigas.
"Você se lembra do que ele fez? Cinco anos atrás, quando eu acreditava que ele me amava... ele me destruiu completamente. Eu não consigo perdoar isso."
Sophie estendeu a mão e cobriu a dela.
"Você sobreviveu, Evie. Olhe para você agora. Mas vai mesmo morar com ele? Como viver sob o mesmo teto vai ajudá-la a derrubá-lo?"
Evelyn pousou a taça sobre a mesa com um único som firme e recostou-se na cadeira.
"Sim. Vou me mudar para lá. Existem batalhas que você não consegue vencer do lado de fora das muralhas. Você precisa entrar na fortaleza para explodir suas fundações."
Um sorriso perigoso surgiu lentamente em seus lábios.
"Vou destruí-lo de dentro para fora."
Sophie piscou, depois riu em descrença antes de abrir um sorriso admirado.
"Você está falando sério."
"Muito sério," Evelyn respondeu. "E obrigada por permanecer ao meu lado."
Sophie fez um gesto despreocupado com a mão.
"Sempre. Então, qual é o plano?"
O sorriso de Evelyn se aprofundou. Ela pegou o celular e tocou na tela.
"Você verá uma nova versão de mim. Uma que ele nunca esperou."
"Claro que sim," Sophie respondeu, metade brincando, metade impressionada.
Evelyn discou um número. O telefone mal tocou uma vez antes de uma voz firme atender.
"Está pronto?" ela perguntou.
"Sim. Tudo está preparado," respondeu a voz, calma e controlada.
Evelyn inclinou-se para frente, a voz ficando afiada.
"Ótimo. Damien, observe bem. Isso vai ser divertido."
Ela bateu levemente os dedos na mesa, o som parecendo um pequeno tambor anunciando uma guerra prestes a começar.
"Isto não é casamento, Damien. Isto é guerra."
Ponto de vista do narrador
Mansão Blackthorne
O carro preto e elegante parou diante dos enormes portões da Mansão Blackthorne. Quando a porta se abriu, Evelyn saiu como se fosse dona do mundo. Um vestido preto curto abraçava suas curvas, deixando seu decote exposto sem qualquer vergonha. Uma mão deslizava preguiçosamente pela tela do celular enquanto a outra afastava uma mecha de cabelo do rosto.
Seus lábios, pintados na cor de sangue fresco, se curvaram lentamente quando a manchete surgiu na tela:
"Evelyn Lockwood invade a festa de Damien Blackthorne com um contrato de casamento."
"Um caos maravilhoso," murmurou, satisfeita consigo mesma.
Dois seguranças avançaram imediatamente para pegar suas malas de grife com obediência treinada. Evelyn mal lhes deu atenção. Caminhou pelos grandes portões dourados que um dia chamou de lar. As paredes ainda brilhavam com os mesmos detalhes extravagantes, o lustre antigo derramava luz exatamente como antes, e o cheiro familiar de rosas a recebeu logo na entrada.
"Tsc. O mesmo gosto velho e entediante," comentou, deixando o desprezo escorrer pela língua.
Ela se virou bruscamente para o homem que a acompanhava.
"Diga-me... onde está Damien Blackthorne? Um marido não deveria vir receber sua esposa?"
Antes que o homem pudesse responder, uma voz surgiu atrás dela.
"Aqui estou."
Evelyn se virou, e sua respiração falhou por um instante.
Damien estava parado no meio da escadaria, a camisa parcialmente aberta, os músculos do abdômen definidos como pedra, o short caindo baixo sobre os quadris. Uma taça de vinho tinto girava lentamente em sua mão, como se o próprio tempo se dobrasse ao ritmo dele.
Por um segundo perigosamente longo, o coração de Evelyn a traiu. O tempo não havia feito nada além de torná-lo ainda mais afiado. Se fosse possível, ele estava pior agora... mais devastador. Mas ela afastou o pensamento antes que criasse raízes.
Os lábios dela se curvaram em um sorriso perigoso. Caminhou até ele balançando os quadris em pura provocação.
Damien não se moveu. Apenas observou, calmo e ilegível, como se ela fosse uma tempestade que ele já tivesse calculado.
Evelyn parou diante dele e pousou a palma da mão sobre seu abdômen, os olhos presos aos dele.
"Olá, marido," ronronou ela. As unhas deslizaram lentamente pelo torso dele. "Será que isso ainda vai estar aqui quando eu terminar de destruir você? Que desperdício... um corpo perfeito desses em um homem de sangue frio. Aproveite enquanto dura, querido."
Damien não respondeu. Bebeu o vinho como se as palavras dela fossem fumaça. Então, sem sequer olhar para ela, dirigiu-se ao homem segurando suas malas.
"Leve-as para o quarto preparado para ela."
"Sim, senhor," respondeu o segurança, já se movendo.
Mas a voz de Evelyn cortou o ar.
"Não. Essas malas vão para o seu quarto."
Seu dedo subiu lentamente pela linha do maxilar dele, desafiando-o.
"Ou pretende discutir comigo, querido?"
O segurança hesitou, esperando.
Damien apenas assentiu levemente, os olhos ainda indecifráveis.
"Como ela quiser."
Evelyn sorriu vitoriosa e virou-se, caminhando mais fundo pela mansão.
"Você sabe," disse por cima do ombro, "se tivesse fingido ser tão agradável naquela época, não teria feito o que fez há cinco anos."
O olhar de Damien acompanhou sua figura se afastando. Seus lábios se curvaram em algo que não era exatamente um sorriso enquanto ele inclinava a taça em silêncio.
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Mais tarde, Damien estava sentado na sala de estar, circulando o dedo pela borda da taça. Colt entrou silenciosamente, falando em tom baixo.
"Blake deve voltar ou permanecer onde está?"
Damien não respondeu imediatamente. Seus olhos ainda estavam fixos no corredor por onde Evelyn havia desaparecido.
Finalmente, sua voz surgiu, fria e precisa.
"Deixe-o onde está. Ela não está segura."
Colt piscou, surpreso.
"Chefe, você quer dizer..."
"Não aqui," Damien o interrompeu.
Colt assentiu rigidamente.
"As notícias estão se espalhando rápido. O conselho exige um pronunciamento. Devo preparar uma coletiva?"
"Não." O tom de Damien cortou o ambiente. "Não se preocupe em esclarecer nada."
"Mas senhor, a empresa..."
"A empresa ficará bem."
Damien recostou-se no sofá, um sorriso indecifrável surgindo lentamente enquanto lançava mais um olhar para o corredor onde Evelyn havia desaparecido.
Colt o observou atentamente. Algo estava errado. Durante cinco anos, Damien nunca faltou um único dia ao escritório. Agora estava ali, relaxado, bebendo, sorrindo discretamente enquanto seu império queimava em rumores.
Colt não conseguia lembrar da última vez que viu o chefe sorrir daquele jeito.
Algo havia mudado.
---
A suspeita dele foi interrompida quando Evelyn reapareceu... desta vez usando um biquíni que deixava pouco para a imaginação.
A sala inteira ficou imóvel.
O olhar de Damien percorreu o corpo dela antes de se voltar friamente para Colt.
"Você pode sair agora," disse Damien, colocando a taça sobre a mesa.
Colt hesitou próximo à porta quando Evelyn soltou uma risadinha.
"Para onde está indo, bonitão? Venha brincar comigo."
Colt congelou, mas não se virou.
"Eu disse que pode sair, Colt."
O tom de Damien escureceu.
Colt obedeceu imediatamente, fechando a porta atrás de si.
O maxilar de Damien se tensionou enquanto seus olhos queimavam sobre Evelyn.
"Você realmente acha que isso é quem você é agora? Desfilando como uma..."
"Como uma o quê?" Evelyn rebateu, veneno escorrendo das palavras. "Diga."
A voz dele ficou baixa, carregada de tensão.
"Você mudou, Evie. O que aconteceu com a mulher que eu conhecia?"
A risada dela saiu afiada, amarga como vidro quebrado.
"Ah, por favor. Não fique aí fingindo que se importava. Você não me conhecia naquela época. E com certeza não me conhece agora."
"Eu conhecia você melhor do que qualquer um."
"Não." Ela ergueu a mão como uma lâmina. "Você só conhecia a versão de mim que podia controlar. Você me destruiu, me quebrou e me deixou apodrecer. Você se importou por um segundo sequer com o que aconteceu comigo depois que saí por aquela porta há cinco anos?"
"Eu me importo!" ele retrucou.
"Não se atreva." Os olhos dela queimavam. "Você não pode bancar o salvador agora. Você gostava de mim doce, fraca, silenciosa. Uma mulher que podia esmagar e ainda chamar de sua. Foi isso que você amou cinco anos atrás, não foi?"
O maxilar de Damien se contraiu.
"Isso não é verdade..."
"Você acha que eu não tenho perguntas?" ele sibilou. "Acha que eu não mereço respostas depois do que você..."
"Merece?" ela disparou, aproximando-se, o tom congelante. "Você acha que eu não mereço estar furiosa?" Sua voz cortava como aço. "Onde estava todo esse fogo quando você me destruiu e chamou aquilo de amor?"
Sua voz baixou ainda mais, fria como gelo.
"Você faz ideia do que eu me tornei depois que fui embora? Depois de tudo o que fez comigo? Ou estava ocupado demais construindo seu império sobre ossos quebrados e promessas esquecidas?"
"Você foi embora," ele murmurou.
"Porque você me arruinou!" O grito dela atravessou a sala. "Você me despedaçou e saiu sem culpa nenhuma. Como se eu devesse sorrir e agradecer."
O maxilar dele endureceu.
"Eu não..."
"Pare com isso, Damien. Eu fiz o que precisava fazer. Se quer detalhes, imagine o pior."
Os olhos dela brilhavam com algo mais sombrio que raiva.
O silêncio pressionou o ambiente.
Ela deu mais um passo à frente, a voz baixa e mortal.
"E agora? Não estou aqui para reconciliação. Não estou aqui por amor. Estou aqui por um único motivo. E você, Damien Blackthorne, está exatamente no centro dele."
O olhar dele endureceu.
"Do que diabos você está falando?"
Evelyn tirou algo da bolsa e jogou sobre a mesa. O contrato que ele havia assinado.
"Oh, querido," ela ronronou, veneno em cada palavra. "Você nem leu, leu? Típico Damien. Sempre assinando a vida das pessoas como se não valessem nada."
Os olhos dele baixaram para o documento, a confusão aparecendo por um breve instante.
"Vá em frente." O sorriso dela ficou perverso. "Leia as cláusulas. As que você ignorou porque acreditava ser poderoso demais para se preocupar com letras pequenas."
Sua voz baixou, cada sílaba mergulhada em fogo.
"Desta vez, Damien... fui eu quem escreveu as regras. E você acabou de entregar sua alma ao diabo que criou."