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Querido Imperador

Querido Imperador

Autor:: QuaseRomancista
Gênero: Romance
O prelúdio do romance. A introdução dessa saga vem nos apresentar a princesa Norman Fleur. Terceira filha do trono de Gogh. Reino em meio a um universo fictício, onde as regras patriarcais assombram as mulheres e lhes impedem de tomar suas próprias decisões. Embora Norman tenha nascido para se tornar uma esposa obediente que renderia uma ótima aliança aos seus pais, a princesa decidiu que sua vida jamais estaria nas mãos de um homem e no decorrer de sua vida ela passou a se agarrar ao sonho de se tornar uma líder. No entanto, ela teria que ser um rapaz para isso e já que não poderia ter o que queria, Norman começou a pregar peças em todos os pretendentes que eram arranjados para desposá-la fazendo-os desistirem de ter sua mão. Tantos sonhos e tramoias tornaram ela dura demais com as pessoas a sua volta e principalmente com as jovens que viam o casamento como algo bom. Isso fez com que a jovem ganhasse nomes pelo mundo como "a princesa fujona" ou fosse vista de forma tão arrogante que todos preferiam estar longe de suas ofensas venenosas. Em um de seus momentos de insultos, a princesa acaba por desafiar o grande destino que decide colocar em seu caminho um homem que se apaixonará exatamente por esse seu lado e fará o impossível para conquistá-la.

Capítulo 1 Um

O amanhecer caloroso, que surgiu depois de tantos dias frios, se misturou aos gritos eufóricos para despertar as montanhas brancas da ilha. No horizonte havia surgido o navio de bandeiras vermelhas, o qual já estava sendo esperado havia dias. O Selo De Gogh era uma das maiores ilhas de exportação alimentícia do mundo e aquela embarcação trazia o acordo de paz que nosso rei precisava.

Um novo imperador das ilhas orientais tomara o posto de líder e como de costume do continente, saíra em uma expedição para conhecer seus aliados. Gogh era o fim de sua jornada.

Depois da morte do terceiro imperador de Chogo, o jovem Tadaki teve que se tornar lorde de seu domínio mais cedo do que o esperado. Aos 18 anos, o rapaz mal havia conhecido o mundo e já precisava se ver presente em reuniões com a assembleia dos grandes lordes continentais.

Eu imaginava como aquilo deveria ser cansativo e tedioso para o garoto, por perder o pai e assumir um império muito rapidamente. Além de antecipado, já que ele só se tornaria imperador dali três anos caso nada ocorresse. Também imaginava se ele era como o pai.

O antigo imperador Tzuki Kiu Amino tinha sessenta e nove anos. Um homem exageradamente alto, de cabelos e olhos escuros, esguio demais e um amante do álcool. As poucas vezes que o tinha visto, percebi como era ridículo ao falar com os seus semelhantes e inconveniente ao observar as pobres serventes do castelo. Sempre abusando de seu enorme poder sobre nosso governo inferior. Se o filho fosse igual, logo seria envenenado como o pai havia sido.

Ouvindo os comerciantes ao longe gritarem entre si que o navio atracaria, me preparei para o que aconteceria dali em diante. Notei também o movimento agitado das arrumadeiras ao lado de fora enquanto implorava internamente que todos se esquecessem da minha existência naquele momento, porém sabia que não me deixariam sem participar de tudo aquilo, não a terceira filha do trono. Logo a porta foi aberta e eu me limitei a fingir ainda dormir.

Todos da casa deveriam estar reunidos à mesa do café, com os burburinhos se espalhando pelo grande salão enquanto comiam. Eu deveria me juntar a eles, mas todos os dias, nos últimos três anos, eu fugia de minhas obrigações. Principalmente porque teria que me apresentar a diversos rapazes ao decorrer do dia, até que decidisse qual seria meu futuro marido. Além dos deveres da realeza, aquele era o pior pesadelo de uma garota como eu.

A dama de companhia agitou meus pés quando não reagi com sua presença. O que me fez resmungar, ainda torcendo para que fosse deixada ali. Contudo, outras mãos auxiliaram a primeira, sacudindo meu corpo enquanto as ouvi rir da situação. Soltei mais um som tedioso ao me sentar na cama, lutando para abrir completamente meus olhos. Anika, minha dama, já se encontrava ao meu lado. Com seus olhos verdes claros empolgados apontando para o enorme e - provavelmente - apertado, vestido azul-claro com pedrarias pelo corpete. Eu sorri completamente feliz com sua escolha, ela sabia de minhas travessuras e se divertia com cada uma. Claro que minha mãe lhe puxava as orelhas por dar cordas às minhas loucuras, mas Anika era tão querida que a rainha sempre deixava passar.

Em Gogh a tradição se seguia pelas cores. Os homens tinham o costume de olhar primeiro as damas de rosa, pois acreditavam que as mulheres mais delicadas gostavam de usar aquela tonalidade, demonstrando que seriam dedicadas com seus futuros maridos da mesma forma que a cor se esforçava para ser fiel à elegância. Mesmo sendo ridículo acreditar que cores poderiam definir o caráter de cada ser humano. Havia explicações diferentes para todos os tons, mas o vermelho e o azul sempre foram os últimos da lista, os mal vistos. Diziam que mulheres com a capacidade de usar cores tão fora dos padrões, não seriam obedientes o suficiente com seus maridos ou qualquer homem e eu queria mostrar ser exatamente assim.

"Escolha sempre o rosa, menina. Todos querem uma garota muito delicada". Dizia minha mãe me motivando a fazer o contrário de suas ordens. Meu pobre e velho pai se deliciava com essas atitudes, enquanto mamãe me xingava em pensamentos e me dizia sem parar que eu a estava matando aos poucos. Ainda assim, eu adorava observar as estúpidas garotas se atirando aos seus visitantes, como se estivessem desesperadas para ter um homem entre suas pernas depois do altar e realmente estavam. Mas a última coisa que eu faria seria lançar-me a alguém daquela forma.

Otto, meu pai, era o rei do Selo De Gogh. A quinta geração Fleur para ser exata e um ótimo professor de história. Depois de perceber minha curiosidade em aprender sobre tantos assuntos cativantes referentes ao governo, ele passou a não se importar se eu me casaria ou permaneceria o auxiliando. Por essa questão eu havia criado desejos internos de liderança e uma rebeldia que se desenvolveu ainda mais, por conta de uma infância dentro do escritório do rei aprendendo sobre as guerras, desavenças políticas e brincando com o príncipe como se fossemos soldados protegendo nossas irmãs, as pobres donzelas. Aquilo havia sido o pontapé inicial para criação de Norman Fleur. Conhecida pelos pretendentes do mundo como a princesa fujona por nunca aceitar uma proposta de casamento.

Eu não queria um marido. Para falar a verdade, meu maior sonho era ter um domínio regido por mim e não um homem. Por isso, preguei peças em todos os pretendentes que surgiam com alguma intenção em me desposar durante os anos. Afastá-los e mantê-los longe eternamente, era o meu objetivo principal, pois eu sabia que não precisava de ninguém além de minhas ideias e desejos para o futuro, mesmo que fosse apenas um sonho bobo. Um sonho que me faria uma grande solteirona pelo resto da vida. Pobre rainha Gaya, se soubesse de meu desejo teria um infarto.

Deixei que as damas me vestissem e Anika cuidasse de meus longos cachos, enquanto tentava treinar em frente ao espelho os sorrisos que precisaria fazer no salão de baile. Por mais que fosse fugir de qualquer assunto que se resumisse a flores e grinaldas, ainda teria que mostrar uma boa impressão aos convidados para não estressar tanto a rainha. Afinal, era exatamente o que aconteceria se eu não seguisse a etiqueta. Ainda assim, isso não me impediria de dar minha opinião sobre tudo o que não gostasse, mesmo que tivesse as orelhas arrancadas no fim das contas.

Quando já estava apresentável, deixei meu conforto do quarto, indo de encontro a tortura que seria aquele evento. Implorei aos deuses um pouco de paciência, só até que pudesse retornar e me enfiar embaixo das cobertas novamente.

Capítulo 2 Dois

- Você não parece animada com a chegada dos convidados de nosso pai - disse o rapaz colocando-se ao meu lado. Eu sentia a leve brisa invadir as janelas grandes do salão, enquanto meu estômago digeria a farta comida de minutos antes.

- Não me concentro em eventos chamativos - falei com os olhos fixos na imagem da parede à minha frente. Era um quadro antigo, mas ainda mantinha a pintura em perfeito estado. Ali estavam pintados meu pai e mãe ao lado do futuro rei que na época, teria não mais do que nove anos. Virei-me então ao rapaz ao meu lado, notando sua semelhança com a criança. Depois de uma breve observação, corri também os olhos pelo ambiente parando nas duas figuras mais distantes quando as encontrei. - Ao contrário de Brienne e Cármen que estão se deliciando com as especiarias.

Fiz menção às nossas irmãs gêmeas perambulando pelo salão atrás de carne nova. Ambas eram meninas de corações frágeis e alegres ao mesmo tempo, qualidades que lhes tornavam damas iludidas que seriam facilmente arrebatadas por um amor incondicional, o qual apenas elas sentiriam.

- Sei que prefere qualquer outro lugar - tornou ele a falar também observando-as. - Mas sabe que precisa de um marido, minha irmã. Já está chegando sua décima sétima primavera e nem sequer tentou se apaixonar, ainda. Veja que eu disse: se apaixonar.

- Para umas é mais fácil do que para outras, meu caro. - Tentei esclarecer. Ele me olhou com certa confusão.

Eu não era uma dessas damas que se dava por vencida em uma briga contra o amor e nós dois já estávamos batalhando por um bom tempo. Tentei, por anos, ser diferente de nossas gêmeas, pois nem o juízo conseguia me dominar e o único homem que sabia argumentar comigo estava ao meu lado, tentando mudar minha mente como sempre. Mesmo ele sabendo que eu jamais cederia ao casamento ou qualquer rapaz, ainda que precisasse deles para ter um status.

- Tento imaginar como funciona sua mente, senhorita Fleur, mas não consigo chegar aonde queria - murmurou o jovem, enquanto víamos nosso pai se aproximar com um largo sorriso em sua face e uma coroa muito bem polida em sua cabeça reluzindo o brilho do ouro.

- Digam-me que não estão discutindo. - Os lábios do grande homem mal se moviam, ele falava baixo para os convidados próximos dali não entenderem e na medida certa para que o ouvíssemos. - Seria constrangedor que começassem tudo de novo no meio do povo, já basta sua mãe em minha cabeça reclamando do vestido azul.

Olhei ligeiramente para o lado, tentando fugir de sua reprovação em relação a minha vestimenta.

- Desisto de tentar arrumar um pouco de juízo a sua filha, meu pai. - O rapaz quebrou o breve silêncio que havia se formado e olhou cada canto do salão para se certificar se haveria curiosos observando nossa conversa. - Pelo que vejo, a princesa Fleur não irá ao altar antes de qualquer um de nós.

- O príncipe Fleur tem uma santa mania de me mencionar dessa forma em uma igreja - falei um tanto irritada, afinal a conversa me deixava exatamente daquela maneira. - Eu apenas entrei em uma para as rezas do domingo, jamais para fazer o bom grado de um homem. Claro que se houver alguém deste mundo disposto a se submeter a mim e não o inverso, talvez possamos entrar em um consenso.

- Ainda que diga: não, o destino lhe enviará a exata contradição para seus devaneios e no fim, dirá que a relutância foi inútil - avisou-me o rei, e eu apenas dei de ombros ajeitando meus longos e castanhos cabelos.

- Seria um sonho para vocês me verem rebaixada a um lorde, eu sei. Mas o bom destino nunca me castigaria dessa forma - retruquei, saindo de perto dos dois homens para não ouvir outros de seus argumentos.

Sempre fui decidida com aquela questão de minha vida e homens seriam, nada mais do que uma mera distração estúpida. Eu precisava arrumar uma forma de ter status e isso não caberia em um casamento. Durante minha caminhada para longe dos leões, o guarda se posicionou no alto da escadaria do castelo batendo com sua lança no chão, chamando atenção dos convidados. Os olhos de todos do salão, foram ao seu encontro e o homem engoliu em seco antes de anunciar:

- A cidade de Lonth no Selo de Gogh, tem a honra de apresentar a este evento: O conselheiro e general, Turu Sasato Zang. A princesa Mariko Kiu Amino e o senhor, e mestre do império de Chogo, Tadaki Kiu Amino.

Os convidados do salão aplaudiram quando as figuras surgiram no alto das escadas, após a saída do guarda para nos dar a visibilidade dos visitantes. Mariko foi a primeira que vi, não parecia ter mais de 15 anos. Suas vestes em uma tonalidade avermelhada, eram cheias de sombras em forma de galhos. Os olhos escuros, pequenos e desenhados com o contorno dos cílios longos pareciam tentar decifrar cada um que a observava. Suas maçãs pintadas em um vermelho forte, - pelo excesso de maquiagem - deu uma palidez a sua face deixando-a ainda mais jovem e radiante. Ela usava a joia do império, uma coroa diferente das que eu e minhas irmãs tínhamos. Era feita de um bronze desenhando galhos grossos de árvores, que envergavam balançando os pingentes de jade. A peça estava enfeitando os cabelos retorcidos em um enorme coque, deixando-os mais volumosos.

Já o conselheiro e general Zang, estava totalmente adepto ao estilo de gala de nossa ilha. O terno azul-claro dava destaque ao ouro de suas medalhas e ombreiras. Os cabelos pareciam ter sido raspados para o evento, pois não havia uma risca em sua brilhante careca. O que deixava o homem com sua expressão ainda mais fechada ao salão e um olhar apavorante, totalmente ameaçador.

O imperador, por outro lado, tinha alguns centímetros a mais que o general. Os cabelos eram longos e tão pretos como os da irmã. As linhas que desenhavam seus olhos tinham um efeito cansativo nas orbes vibrantes e escuras do homem. Lábios finos, pareciam sorrir sutilmente e a vestimenta de um verdadeiro imperador cobria seu corpo de aparência rústica. Os ombros largos eram acariciados pelo grande manto branco entalhado em vermelho e dourado, e sua veste era muito bem acoplada por uma enorme quantidade de tecido em torno do homem com a faixa desenhada em ouro, lhe dividindo a cintura, destacando o traje tradicional de seu império.

Os três desceram a escadaria para cumprimentarem minha mãe, rainha do Selo e depois meu pai que já havia deixado meu irmão para recebê-los.

- Ele é lindo! - falou Brienne em meu ouvido, depois de se aproximar para nossa formação.

Os olhos claros de minha irmã, cintilaram de empolgação enquanto sua cópia se prendia no braço de Perrie com a mesma obsessão no olhar. Tanto eu quanto o príncipe, respiramos profundamente esperando o momento em que ambas começariam sua briga pelo homem. Por sorte, elas não fizeram escarcéu e se arrumaram corretamente.

A jovem Mariko tinha um sorriso para nós, caminhando com seus acompanhantes rumo aos quatro filhos do trono, demonstrando sua admiração por estar ali e os três tinham o mesmo andar gracioso e confiante que todos de Chogo mostravam ter quando estavam em nossa ilha.

- Príncipe Perrie Fleur - cumprimentou o imperador ao filho mais velho do Selo. Percebi que havia me colocado no lugar errado na fileira, pois estava por último no cumprimento. Eu devia ser a segunda na formação, já que Néfler não estava ali há um bom tempo e sabia que Gaya, passaria o resto da vida em meu ouvido por ter deixado aquilo acontecer. Suspirei derrotada, já imaginava as mil broncas da rainha - Princesas Brienne e Cármen Fleur - continuou o imperador, depois de apertar a mão de meu irmão e seguir para as gêmeas desesperadas que fizeram questão de brigar pelo cumprimento imperial. Em seguida, o líder parou diante de mim com uma expressão desafiadora, como se já me conhecesse. Ele limpou os lábios e disse: - Princesa Norman Fleur.

- O mestre do império de Chogo e sua irmã, podem se referir a mim pelo simples nome - fiz o cumprimento que sabia ser comum em seu império. Colocando as mãos em frente ao corpo, com a direita fechada em punho e a esquerda sobre ela. O Imperador estreitou seus olhos, já sua irmã sorriu contente.

- Norman! - ela disse com êxtase e eu lhe abri um sorriso amigável, fazendo-lhe a mesma saudação. O rapaz cravou os olhos escuros na doce irmã que pareceu ter medo daquele ato, pois baixou seu olhar dizendo algo em sua língua de origem.

- Desculpe, princesa - ele falou ao retornar para mim. - Isso tiraria as formalidades de nossa presença em sua morada e não queremos passar uma impressão errada.

Pude ver o brilho forte em seu olhar, ele realmente me desafiava.

- Não se preocupe imperador - deixei que meu sorriso se tornasse o mais cínico que consegui naquele instante. Se eram desafios que ele queria, teria um jato de palavras ameaçadoras. - Precisa convencer apenas meu pai e uma de minhas irmãs. Que já estão loucas para se tornarem presas fiéis de seus futuros maridos. Não há necessidade de me provar muita coisa.

- Norman! - repreendeu-me Perrie, mas nossas gêmeas e a própria irmã do imperador, não conseguiram disfarçar os sorrisos pelo constrangimento nos olhos do jovem líder de Chogo.

- A princesa quer dizer que não tem intenções de mostrar seus dotes ao imperador? - interveio o conselheiro e general Sasato. - Pensa que nosso senhor não seria digno de sua companhia?

Tadaki ergueu a mão, pedindo ao seu homem para se manter fora do assunto e ele assim o fez, se endireitando para observar o salão sem questionamentos. Porém, sua pergunta havia ficado no ar, pronta para mim.

- Creio que seja o contrário, meu senhor - ajeitei minha postura, mantendo o queixo erguido e o líder arqueou uma sobrancelha com a surpresa de meu seguimento. - Eu diria que não tenho dotes interessantes ao seu mestre e que não quero ser digna de homem algum.

- Princesa! - repreendeu-me, dessa vez, minha mãe que se lançou em nossa direção como uma águia pronta para capturar seu jantar.

- Está tudo bem, vossa alteza. - O imperador se prontificou a falar, fazendo-a parar e me olhar furiosa. - Parece que sua filha gosta de divertir as visitas. Mas gosto de sua recepção e isso quer dizer que pode me chamar pelo simples nome então, já que tenho esse privilégio. Certo Norman?

Foi minha vez de arquear a sobrancelha e encará-lo com certa incredulidade. O homem realmente havia me desafiado com minha própria má-criação, dando risos em meus irmãos e levando o líder a seguir seus passos para cumprimentar os demais convidados.

Capítulo 3 Três

- Norman! - exclamou a princesa de Chogo ao descer as escadas, vindo em minha direção.

Diferente do dia anterior, suas vestes eram aparentemente mais confortáveis. O vestido prata com um brilho fosco, se estendia por sua silhueta jovem e a sútil penugem nas alças davam um ar de maturidade à peça, mesmo que isso não conseguisse esconder a idade de sua usuária. Seus cabelos lisos e escuros, desciam por seus ombros mostrando o comprimento exageradamente incrível.

- Parparadi, princesa. - Cumprimentei-a, dizendo a saudação costumeira de Gogh. A jovem sorriu sutilmente e me abraçou pela cintura para minha surpresa.

- Mariko - corrigiu-me ela ao sussurrar em meu ouvido. - Meu irmão permitiu o uso do simples nome, se lembra?

- Oh! Sim, claro. E como está essa manhã?

A garota mantinha seu sorriso estampado em face. Fiz a pergunta por mera educação, pois era óbvio que ela estava adorando tudo ao seu redor.

- Ótima! Gogh é maravilhosa! - exclamou ela. - Todos são fascinantes!

- Já havia viajado antes? - perguntei-lhe intrigada com sua empolgação. Ela negou sem tirar o sorriso do rosto, enquanto seus olhos jovens brilhavam como estrelas de tão extasiados. - Então realmente está sendo um achado.

- Papai dizia que mulheres não precisavam viajar, a menos que fosse para encontrar o prometido e eu não havia sido prometida ainda. Tadaki não gostava de me ver presa, então me deu mais liberdades após assumir o império. - Ela girou com a alegria emanando de si pelo corredor, fazendo o vestido abrir ligeiramente sua saia. - Agora estou dançando longe de casa!

- Vejo que está se divertindo! - comentei, sendo contagiada por sua empolgação.

- Oh! Não apenas isso! - A garota se pendurou em meu braço, se aproximando ligeiramente para sussurrar outra vez. - Todos os reinos e ilhas foram maravilhosos conosco, mas desde o porto de Portube até a entrada desse castelo, as pessoas os superaram! Vocês são realmente receptivos, cativantes e, pelos deuses, a ilha é incrível!

- Mariko, você andou conversando com meu irmão? - questionei. Só havia uma pessoa que a deixaria daquela forma depois de longas horas falando sobre as montanhas da ilha.

- Sim! - Ela confessou em forma de comemoração. - O príncipe passou essa manhã me ensinando tudo sobre o Selo e as montanhas! Como Gogh é linda, preciosa e gigantesca. Amanhã vamos passear pelas redondezas e eu estou ansiosa para saber mais!

- Querida, o príncipe pode exagerar em algumas coisas. Considere que somos apenas mais uma ilha aliada.

- Não, Norman! - Ela sentou-se em um dos bancos ao lado das enormes portas de madeira. - Durante três meses viajei com Tadaki para conhecer os aliados e ninguém nos tratou como vocês. Todos sempre seguiam as etiquetas de Chogo e tanto eu quanto meu irmão, estávamos fartos disso - ela gesticulava ao falar, como se estivesse me vendendo o melhor peixe do mercado. O que me divertia. - Por essa razão, ele resolveu fazer a expedição a Gogh o quanto antes. A ilha pode ser pequena aos seus olhos, mas aos dele é preciosa.

- Desculpe, querida. - Sentei-me ao seu lado para analisar aquela conversa com mais delicadeza. O assunto iniciado me pareceu interessante. - Explique melhor. Aos olhos dele em que sentido?

- Tadaki quer mudar muita coisa em nosso território. Mas acredita que alterando algo sozinho, irá causar revolta no povo. - Ela falava em cochichos naquele momento para que os guardas espalhados pelo castelo, não pudessem nos ouvir. - Então se ele tiver os reinos aliados ao seu favor, além das tropas a postos para uma rebeldia do povo, talvez consiga suas mudanças sem muito alarde.

- E quais mudanças poderiam causar essa revolução que ele tanto teme? - Ela deu de ombros como se não soubesse o restante da informação. Porém, seus olhos diziam que ela tinha suas suspeitas e apenas não poderia dizer-me, por hora.

- Mas poucos aliados gostaram das ideias e parece que só seu pai concorda cem por cento. Por essa razão, Tadaki se apressou para chegar aqui e quando te vimos ontem com toda sua superioridade, soubemos que era o lugar certo.

Ela finalizou. Seus olhos esperançosos e brilhantes foram de encontro a porta ao nosso lado fazendo uma breve observação do local onde estávamos, depois retornaram para mim enquanto eu sorvia suas informações.

- Eles estão lá dentro? - questionou a jovem curiosa e eu assenti. - Estava tentando ouvir?

Desviei o olhar, o que deve ter entregado-me por completo. Não tive como negar, já que ela havia encontrado minha face colada às portas. Então assenti novamente e ela riu de minha expressão de culpa. Dei de ombros a sua sátira e fingi ignorá-la em brincadeira.

- É uma pena que você não queira se casar. Eu adoraria tê-la como irmã...

Lamentou Mariko. Os dedos finos da moça apertaram o vestido como se mostrasse vergonha de suas palavras.

- Mas eu não preciso ser esposa de seu irmão para isso. Podemos ser amigas e escrever uma para outra - dei um tapa amigável em sua mão nervosa, vendo os olhos cintilantes da jovem se direcionarem aos meus ainda mais empolgados. - Além disso, pode nos visitar sempre que quiser agora.

- Fico tão feliz com isso. Vocês também! Todos vocês! Seria maravilhoso que nos visitassem.

- Não se preocupe, uma de minhas irmãs fará com que seja nossa obrigação.

A garota riu de minhas palavras, pois notou o desdém nelas. Eu revirava os olhos, já imaginando no que as duas deveriam tramar para terem o imperador aos seus pés. Até senti dó do homem, pois o desespero de minhas gêmeas iria deixá-lo confuso ou paranoico, mas seria divertido ver aquilo. As portas francesas finalmente se abriram ao nosso lado. Eu e Mariko nos colocamos de pé, enquanto os conselheiros reais saíam da sala nos cumprimentando. Logo veio o senhor e general, Turu Sasato acompanhado de seu imperador e o primeiro conselheiro de meu pai.

- Princesas, bom dia!

- Parparadi, Chesco. Faz tempo que não o vejo - dei o cumprimento ao homem que nos dirigiu a primeira palavra.

- Muitas viagens, querida. Porém, você tomou conta de tudo enquanto estive fora e pelo que seu pai me disse fez um ótimo trabalho, como sempre. - O Imperador me observava durante a conversa com o conselheiro. Talvez por eu não o ter cumprimentado, o que me deixou constrangida ao lembrar.

- Oh! Desculpe-me, meus senhores. Bom dia! - novamente Tadaki me deu um sorriso sutil, como na noite anterior e seu conselheiro sempre mantinha o olhar apavorante de homem destemido.

- Parparadi, senhorita Norman - disse o imperador, usando nossa saudação local. - Creio que seja nosso acordo o uso do simples nome, certo?

Não consegui esconder o riso constrangido com sua indireta sobre minha recepção e assenti para não fazer mais feio do que já havia feito. Ele nada disse, apenas me fez uma reverência. Em seguida, deu sinal a sua irmã que me lançou um aceno de despedida para enfim, poder acompanhá-lo junta de Sasato.

Tornei os olhos para Chesco que tinha um brilho diferente e intenso nas irises. Um sorriso de canto em seus lábios se revelou quando o imperador já estava distante.

- O que foi? - perguntei-lhe. Ele analisou com cuidado o corredor por onde partira os três e depois voltou seu olhar para mim.

- O que aconteceu aqui? - questionou por fim, franzi as sobrancelhas sem entender e o homem riu. - "Senhorita Norman". Não me diga que...

- Que o novo imperador é diferente do pai e viu como uma brincadeira.

- Interessante. Acredito que você deva estar se mordendo de raiva por dentro - Chesco riu descontrolado, começando a andar antes que eu lhe ofendesse com minhas palavras ácidas. - Seu pai lhe espera.

Ele disse seguindo seu caminho por fim. Eu sabia que ria por ter visto alguém entrar em meus desafios depois de muito tempo, mas não entendia o motivo de tanta graça.

Respirei fundo me preparando pelo que viria e entrei no escritório de meu pai. Cerrei as portas da sala para que pudéssemos ficar a sós enquanto o rei observava a paisagem pela enorme janela. Seus olhos não vieram até mim, mas eu sabia que me analisava de canto.

- E então? - iniciei. O homem suspirou de maneira pesada, virando-se para me encarar e caminhar pela sala.

- O mesmo que todo jovem aprendiz. - Ele seguiu. Sentou-se em sua mesa apoiando os pés ali, me parecendo que estava mais tenso do que de costume. - Um rapaz com sonhos lindos que sabemos serem impossíveis e um acordo de paz vindo de um casamento.

- Ele já se interessou por uma das gêmeas, então?

- Na verdade, ele quer conhecer todas e decidir qual será a mais qualificada para os seus planos.

- Todas? - meu coração parou por um instante e papai meneou a cabeça em afirmação. - Isso incluirá...

- Você. - Ele apontou em minha direção. Meu corpo se tornou tenso ao imaginar que o imperador não se importou com minhas ações para me descartar de uma vez. Tentei iniciar um de meus discursos ao meu pai naquele instante, mas quando movi os lábios ele ergueu sua mão me calando. - Eu não posso contrariá-lo, é o imperador e sabe o que os homens fariam.

Baixei os olhos em busca de calmaria para mim mesma e vasculhei minha mente atrás de artifícios que me livrasse daquilo. Meu pai suspirou tentando chamar minha atenção.

- Lilah, posso organizar passeios maiores entre ele e suas irmãs, priorizá-las dizendo todos os dotes de cada uma, como fiz com Néfler. Mas se ele pedir um encontro com você, terá que aceitar.

- Mas pai, meu propósito não...

- Querida, logo Perrie será rei e eu não viverei para sempre. Por hora, posso deixá-la sonhar como adora. Contudo, precisará acordar em algum momento, meu anjo. - Ele se levantou caminhando até mim com seus braços abertos e o rosto sereno tentando me passar tranquilidade.

No início neguei seu contato. No entanto, aquilo não era culpa dele. As pessoas haviam decidido por mim, muitas gerações antes e mudar bruscamente as leis destruiriam o reino. Se o aumento de impostos já causava revoltas, uma mulher líder poderia iniciar uma guerra. Não entre reinos, mas do povo contra o castelo.

- Talvez Perrie também a deixe sonhar, porém logo o povo questionará. As pessoas de fora já fazem isso - deixei que seu abraço me acolhesse naquele instante. Eu ainda pensava em formas de ser ignorada pelo imperador, procurava meios de fugir de todos os homens enquanto meu pai falava. Contudo, em minha cabeça eu sempre acabava apedrejada ou ignorada até por minha família, pelo fato de não querer me casar.

Todos os anos até ali, tive sorte por meu pai querer me ensinar tudo o que uma mulher não poderia aprender e de ter irmãos que me auxiliavam a fugir dos pretendentes. Sorte de opinar sobre os ocorridos no reino, mas sempre daquela forma. O rei fazia as reuniões com os homens e eu esperava do lado de fora do escritório. Quando terminava, eu e ele discutíamos os assuntos a sós. Sempre seria assim até que Perrie assumisse o trono e se ele me permitisse continuar, não mudaria nada.

Eu acabaria velha e sem status, sendo cuidada por minha família enquanto aconselhava o rei secretamente. Ninguém nunca saberia que as medidas para cuidar dos soldados em batalhas, reduções na economia e organizações sociais haviam sido regidas de ideias minhas. Pequenas e aprimoradas, mas minhas. Apenas meu pai, Chesco e Perrie.

Papai tinha razão, por hora eu poderia sonhar e fugir dos pretendentes. O imperador escolheria uma de minhas irmãs, depois surgiria outro rapaz que escolheria a gêmea disponível, mas uma hora só restaria eu e mesmo que o pretendente não quisesse, seríamos obrigados ou eu seria nada. Pois era o que as pessoas viam de uma jovem solteira.

Era injusto viver em um mundo tão grande dominado por mentes tão pequenas.

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