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REIVINDICADA PELO ALFA

REIVINDICADA PELO ALFA

Autor:: DC Ribeiro
Gênero: Romance
Elise tinha apenas um objetivo ao chegar na nova cidade: reconstruir sua vida. Com a ajuda de uma amiga, conseguiu um emprego em uma taverna local. O que ela não imaginava era que sua rotina mudaria drasticamente já no primeiro dia de trabalho. Malachi, Alfa dominante de sua alcateia, carregava a expectativa de tomar uma ômega como esposa e garantir seu primeiro herdeiro. Ainda assim, ele insistia em esperar pela parceira destinada. O que não previa era encontrá-la - e descobrir que se tratava de uma humana.

Capítulo 1 1- Elise

Reviro os olhos para o segundo bêbado da noite que derruba a caneca parcialmente cheia no chão. O barulho ensurdecedor das vozes misturado ao cheiro forte de álcool e cigarro não me incomoda, mas cada olhar dos homens ao redor, como se eu fosse um pedaço de carne, me faz querer sacar o pequeno canivete preso ao meu tornozelo.

O que diabos há com esses caras?

Não é a primeira vez que me faço essa pergunta hoje. Minha primeira noite no novo emprego, nessa cidade estranha, tem sido... peculiar. Ana havia me alertado que havia algo de diferente nesse lugar, mas ainda não tinha descoberto o quê.

Eu sinto essa diferença no ar. Algo indefinível, mas presente. Até eu, com minha percepção pouco aguçada, consigo notar a estranheza que parece impregnar o ambiente.

- Mais uma! - Berra outro bêbado, batendo a caneca vazia no balcão. Eu sei o que ele quer sem precisar perguntar, e me viro para servir, ignorando o jeito nojento com que ele percorre meu corpo com os olhos.

Todo homem aqui parece ter dois metros de altura e uma tonelada de músculos. Talvez eu seja louca por ter aceitado este trabalho, mas a necessidade falou mais alto.

- Aqui. - Entrego a bebida. Ele dá mais uma encarada antes de se afastar e se juntar a outros três que jogam cartas em uma mesa.

- Mais uma hora e você pode ir. Te pago a diária assim que o expediente acabar - Diz Eddie, meu novo chefe, parando ao meu lado.

- Entendido - Concordo, tentando soar tranquila, mas por dentro já estou comemorando.

Cinquenta pratas. Isso significa que poderei comprar mantimentos para dois dias. Dois dias sem me preocupar com o que vou comer no almoço ou no jantar. Talvez eu compre café. Não, com certeza vou comprar café!

Ana me chamou para dividir o aluguel, e, gentil como é, disse que eu poderia pagar minha parte no fim do mês. Não quero me aproveitar da boa vontade dela. Já me incomoda o fato de ter chegado há dois dias e estar comendo às custas dela. Não vou ser um peso morto para minha melhor amiga.

Ela está nessa cidade há três meses e ainda está se estabilizando. Trabalha como garçonete em um restaurante durante o dia e serve bebidas numa boate de vez em quando. Eu também pretendo arrumar um segundo emprego. Quero me reerguer, deixar para trás tudo que passei com Trevor.

Quando faltam vinte minutos para o fim do meu turno, a porta pesada da taverna se abre. Cinco homens entram juntos. Cinco armários, porque não tem outro jeito de descrever aqueles caras. Ombros largos, pernas grossas, jeans, camisas apertadas e botas pretas. Cada um com uma aparência distinta, mas todos com a mesma presença imponente e intimidadora.

Meus olhos pousam no primeiro que entra. Cabelos negros, bagunçados de um jeito sexy, lábios bonitos e marcantes. Seus olhos, tão escuros quanto a noite, me prendem. Sem querer, reparo no nariz reto e bem definido, nos movimentos lentos quando ele inspira o ar. Suas narinas se dilatam levemente, como se estivesse farejando algo. Estou hipnotizada.

Alguma coisa nele me atrai. Não é só a beleza. Tem algo mais, e nem consigo explicar.

Ele olha ao redor da taverna até que seus olhos encontram os meus. O olhar se estreita, e ele murmura algo inaudível para os outros, que parecem surpresos. Enquanto os quatro seguem para uma mesa no fundo, o homem bonito caminha direto para o balcão. Para mim.

- Boa noite. O que vai querer? - Minha voz sai trêmula, para minha vergonha.

Ele me encara em silêncio, e quase me contorço sob o peso daquele olhar. Seus braços são enormes, musculosos, cobertos de tatuagens e algumas cicatrizes. Quero me dar um tapa por me sentir tão atraída por um completo estranho.

- Qual o seu nome? - Sua voz é grossa, rouca, quase um trovão que reverbera em meu peito.

- O que... Não vejo como isso é da sua conta. - Balbucio, as palavras saindo desordenadas.

O estranho desvia o olhar para Eddie, que até então permanecia calado.

- Qual o nome dela?

- Elise. Minha nova funcionária - Eddie responde, e quase caio para trás ao ver meu chefe inclinando levemente a cabeça, quase num gesto de submissão.

- Quero que ela nos sirva esta noite - Ele ordena.

- Meu turno está quase no fim... - Começo a dizer, mas ele me corta.

- Não dou a mínima. Cinco canecas da melhor cerveja. - Sem esperar resposta, ele se vira e vai até a mesa onde estão os outros.

- Desculpe, Elise. Pode me fazer esse favor? Pago 150 hoje pela diária - Eddie diz, e seus olhos quase imploram para que eu aceite.

Ainda sem entender o que acabou de acontecer, sinto pena do meu chefe e aceno em concordância. Mas por dentro, estou furiosa.

O cretino pode ser o homem mais bonito que já vi, mas também é o mais arrogante e mal-educado.

Bufo e seguro a língua para não xingar. Encho as cinco canecas com a maldita melhor cerveja e Eddie se oferece para levá-las até a mesa. Tento ignorar aqueles homens enquanto continuo a servir os outros clientes. Pelo menos agora terei mais dinheiro para sobreviver por quatro dias.

Ainda assim, sinto-me observada durante todo o tempo em que continuo trabalhando.

Quando a madrugada chega, começo a me preocupar com o caminho de volta para casa. A cidade ainda é um mistério para mim, e Ana me mostrou o trajeto até aqui apenas duas vezes, tentando garantir que eu não me perdesse.

Vai ser um milagre se eu conseguir voltar sem me perder. E, claro, meu celular nem tem internet para usar o GPS.

Caralho de vida...

A taverna vai esvaziando, e o grupo dos cinco é o último a sair. Continuo secando um copo quando o idiota do líder paga a conta para Eddie. Sinto seus olhos me queimando, mas permaneço de costas, ignorando-o.

Quando eles finalmente saem, solto um suspiro de alívio.

- Vai pedir demissão? - Eddie brinca, encostado no balcão.

- Não está nos meus planos. - Respondo sinceramente. Mal sabe ele que estou mais do que acostumada com as merdas que a vida joga no meu colo.

- Aqui. Eu já limpei tudo e vou fechar. Pode ir para casa, garota. - Ele me entrega o pagamento, que enfio no bolso sem hesitar. - Tome cuidado. Qualquer coisa, use aquele canivete que você carrega no tornozelo.

Aceno automaticamente, mas de repente paro.

Como ele sabe sobre o canivete?

Olho para Eddie, que me encara de volta como se nada estivesse fora do comum. Balanço a cabeça, incrédula, e decido não perguntar. Já chega de estranhezas por hoje.

Uma coisa eu sei: essa cidade é realmente peculiar.

- Até amanhã - Murmuro. Ele assente com um aceno de cabeça.

Pego minha bolsa, que mais parece um trapo com alças, e saio antes que algo mais bizarro aconteça e me faça ficar até o amanhecer.

O combinado era o turno terminar à meia-noite, mas já passam das três. Não há ninguém na rua, e tenho uma caminhada de três quarteirões pela frente. Apresso o passo, mantendo os olhos atentos a qualquer movimento suspeito.

A sensação de estar sendo observada me acompanha o caminho inteiro, e eu só consigo culpar aquele cretino. Ter sido encarada por quase três horas, como se ele fosse um psicopata, me deixou paranoica.

Quando chego em casa, meus pés estão em frangalhos. Três bolhas novas no tênis apertado de segunda mão. Arranco os sapatos o mais rápido possível e solto um suspiro ao sentir o ar gelado na pele.

A casa está em silêncio. Ana deve estar dormindo.

Ignoro a reclamação do meu estômago e vou direto para o chuveiro, tomando um banho rápido antes de me jogar na cama.

Apesar de tudo, o dia não foi tão ruim. Não posso reclamar.

Recomeços são difíceis, mas, no final, valem a pena. É o que repito para mim mesma todos os dias, até que isso se torne verdade.

Capítulo 2 2 - Malachi

Nem mesmo nos meus piores pesadelos imaginei que minha parceira predestinada poderia ser uma humana.

Duas noites atrás, quando entrei na taverna de Eddie - um beta -, fui invadido pelo cheiro mais doce e um sentimento avassalador. Procurei pelo recinto até que meus olhos a encontraram.

Alta, esbelta e loira. Seus olhos verdes marcantes, boca sensual repuxada em desgosto, parecendo querer estar em qualquer lugar, menos ali, servindo um bando de brutamontes bêbados. E o detalhe mais importante: totalmente humana.

Seu cheiro não escondia isso, mesmo que diferente dos outros humanos, já que seu aroma doce me parece tão malditamente atraente.

- Pare de encarar. - Kiran rosna ao meu lado. Estamos sentados no fundo da taverna.

- Não consigo. - Retruco, irritado.

Desde que entrei aqui novamente, recebendo um olhar de desdém de Elise, meus olhos se recusam a desviar. Ela é hipnotizante, movendo-se com eficiência atrás do balcão, servindo bebida atrás de bebida.

Cerro os punhos quando mais um filho da puta olha para o corpo dela com visível desejo. A maioria são humanos, mas há alguns betas que, sabiamente, abaixaram a cabeça quando cheguei.

- Nem mesmo pense em arrumar confusão. - Kiran avisa, cruzando os braços.

- Se mais um olhar...

- Ela aceitou um emprego em uma taverna frequentemente visitada por homens. Não acredito que ela tenha tempo para se importar com alguns olhares sujos.

- Eu me importo. - Digo, nervoso.

- Ela nem mesmo o conhece, ou sabe quem você é. - Ele aponta, e entendo o que quer dizer.

A cidade de Valmont é considerada diferente. Dizem que, anos atrás, foi lar de um poderoso clã de bruxas, ou que vampiros já tomaram as rédeas da liderança. O fato é que, agora, esta cidade é território dos lobos de Fenrir, minha alcateia.

Estamos aqui há quase 500 anos, desde que o primeiro alfa colocou as patas neste lugar. Ele pode ter ou não mijado em volta da cidade, marcando o território como seu e de seus descendentes, porque não pretendemos sair daqui tão cedo.

Parte dos lobos vive entre os humanos na cidade. O restante ainda prefere o vilarejo entre a floresta e o rio. Mantenho uma casa em cada lugar. Como alfa, preciso me dividir em dois: lidar com os problemas do vilarejo enquanto cuido da Madeireira Fenrir, que gera os lucros e sustento para a alcateia. Muitos lobos trabalham e têm suas próprias vidas, mas os que cuidam da segurança do vilarejo e de tudo que o mantém em perfeito funcionamento ficam sob meus cuidados.

Para tudo há uma divisão: as tarefas, os treinamentos, a segurança. Fora as questões do vilarejo e da alcateia, cada um vive como quiser, desde que isso não me traga problemas. Desde que meu pai se aposentou e saiu, indo conhecer outros territórios, essa tem sido minha vida. Ele passou a liderança para mim, seu primogênito alfa.

Kiran é meu irmão caçula e também um alfa, mas jogue o assunto "liderança" sobre ele e o verá fugir para o mais longe possível. Ele está feliz sendo meu segundo em comando e um dos meus conselheiros.

Os outros três são nossos melhores amigos: Bren, Kieran e Aiden.

Mas o diferencial de Valmont é que os humanos sabem que estamos aqui. Desde que chegamos, sempre souberam. Há um acordo rígido com o líder da cidade, que se renova sempre que um novo assume o comando.

Os lobos vivem suas vidas sem machucar ou matar humanos, e eles nos deixam em paz.

Há nuances nesse acordo, um monte de baboseira que visa mais a proteção deles, mas funciona. E espero muito não quebrar esse acordo matando um imbecil qualquer que coloque os olhos nojentos na minha mulher.

- Ela não é sua, Malachi. - Kiran diz, olhando-me com uma sobrancelha arqueada.

- Eu não disse nada, porra. - Murmuro, irritado, virando o restante da cerveja.

- Nem precisa. Sua expressão possessiva e o olhar que promete morte e sangue já fizeram tudo. Lembre-se do seu dever para com seu povo.

- Você não precisa falar. Sou o alfa há cinquenta anos.

- Então é melhor pensar em como lidera com essa merda. O pai ligou mais uma vez para saber se você já escolheu uma esposa. Uma ômega, de preferência. - Olho para Kiran, e ele ergue as mãos. - Estou apenas dizendo.

- Você sabe que essa merda não vai acontecer agora. - Declaro.

- Ela é uma humana, Malachi. - Aponta o óbvio.

- E?

- E não nos envolvemos com humanos. - Quando as palavras saem de sua boca, solto uma risada.

Ergo uma sobrancelha e cruzo os braços, desafiando-o a seguir com essa merda de pensamento hipócrita.

- Não nos envolvemos abertamente com humanos. - Reformula, e eu bufo.

- É por isso que você fica na casa da sua humana todas as noites? Para ninguém os ver abertamente? - Ironizo.

- Você sabe o que quero dizer. - Resmunga, desviando o olhar. - Se está disposto a ficar com ela, terá que lidar com mais de um problema.

- Eu sei. - Falo e volto a observar a linda mulher no balcão. Fico obcecado ao vê-la sorrir para Eddie.

Minha. Elise vai ser minha.

Meu peito se aperta, aquele sentimento me dizendo que a conexão está ficando mais forte com nossa recém-proximidade. Não sei como será para ela; é uma humana, e nunca vi isso acontecer. Parceiros predestinados não são encontrados a cada esquina. A maioria dos lobos nem mesmo encontra uma parceira.

Sempre dei a desculpa de que não tomaria uma ômega porque esperaria minha parceira. Mas depois que me tornei alfa, a cobrança virou uma exigência do meu pai. Um alfa precisa de um herdeiro, e ele já estava cansado de me esperar tomar uma atitude.

Lisa, uma ômega bonita do vilarejo, ter ficado na minha cola ontem é prova disso. Mas ela nunca foi uma opção. Nunca será. Não com Elise tão próxima, tão inalcançável, mas inegavelmente minha.

Meu peito vibra com um rosnado baixo quando vejo Eddie se aproximar demais, um sorriso amigável demais no rosto. Elise responde com um sorriso contido, e isso já é suficiente para me fazer querer atravessar o salão e arrancar aquele beta dali.

- Controle-se. - Kiran alerta mais uma vez, embora sua voz já carregue um tom resignado.

- Não estou fazendo nada. Ainda. - Respondo, a tensão clara em cada palavra.

Meu irmão suspira, mas não diz mais nada. Ele sabe que qualquer tentativa de me dissuadir será inútil. Meu destino foi traçado no momento em que entrei nesta taverna, no momento em que o cheiro doce dela invadiu meus sentidos e tornou impossível ignorá-la.

Elise ainda não sabe quem eu sou, o que sou. Não sabe que sua vida está prestes a mudar de uma forma que nenhum de nós pode prever. Mas ela vai saber. Porque, seja por escolha ou pelo destino, ela é minha.

Me levanto e pego as duas canecas vazias.

- Malachi...

- Cale a boca, Kiran. - Rosno. - Já volto.

Sigo para o balcão e o olhar fulminante de Elise me encontra, me fazendo querer sorrir. Será interessante conquistar essa mulher.

Capítulo 3 3 - Elise

Ele está aqui outra vez. Caminha até o balcão com uma expressão indecifrável, mas os olhos brilham de um jeito perigoso.

Aquele puxão que senti na primeira vez que o vi parece ainda mais forte. Irritante e impossível de ignorar.

Quero dar as costas e fingir que ele não existe, que nem mesmo o conheço, mas não consigo esquecer como foi rude na primeira vez.

Meu turno está chegando ao fim, e hoje não vou ficar até tarde, nem que me obriguem. Meu ciclo está por vir, e o desconforto da cólica já começa a se manifestar.

Eddie percebe minha expressão desgostosa, mas o atende, enchendo as canecas. Ainda assim, ele não vai embora.

- É nova na cidade? - Ouço a pergunta e quase admiro a falta de vergonha dele.

Primeiro, me humilha. Agora, quer saber da minha vida.

- Se não me responder, perguntarei a Eddie - pressiona.

- É assim que manipula as pessoas para conseguir o que quer? Parece coisa de valentão.

- Estou tentando conversar com você - se defende, e eu solto uma risada incrédula.

- Sim, sou nova na cidade, pela segunda vez: e não é da sua conta.

Eddie suspira. Quase sinto pena dele. Tem sido um bom chefe, e, pelo que percebi, nutre algum tipo de respeito distorcido por esse homem. Mas, honestamente, não dou a mínima.

Não vou aceitar merda de ninguém.

- Meu nome é Malachi Fenrir - diz, sua voz um sussurro que desliza pela minha pele como seda. - É um prazer conhecê-la.

- Não posso dizer o mesmo - balbucio, disposta a encerrar a conversa. Vou atender o próximo cliente.

A Taverna - que, na verdade, é um bar rústico com boa bebida e petiscos - está com um movimento razoável, mas acredito que Eddie conseguirá lidar com o resto da noite sem mim.

Termino de secar os copos e limpar o balcão, torcendo para encontrar uma farmácia 24 horas. Preciso de absorventes. E vou me dar o luxo de comprar alguns chocolates.

- Aqui, Elise. - Eddie me entrega o pagamento do dia, e agradeço sutilmente. Trabalhar aqui não tem sido extremamente agradável, mas o salário é bom, e Eddie, muito gentil. - Tome cuidado, sim?

- Pode deixar. Será que consigo encontrar alguma farmácia aberta a esta hora? - questiono, e ele pensa um pouco.

- Há uma loja de conveniência a duas quadras. Siga em frente e vire à direita. Você verá a placa.

- Ok. Obrigada, Eddie. Vejo você amanhã.

Saio sem sequer olhar na direção de Malachi. Agora sei o nome dele, mas o cheiro de problema é evidente. Ele é como um farol que me avisa para ficar longe de lugares onde nunca mais quero voltar.

Seguro firme a bolsa no ombro e caminho em passos largos pelas ruas. Felizmente, encontro a loja aberta.

Aceno brevemente para o funcionário do caixa e pego tudo de que preciso. Analiso a seção de sapatos e vejo um par de tênis simples por 20 pratas. O que estou usando tem me deixado com bolhas terríveis. Suspiro, aceito o sacrifício e compro o par, torcendo para que dure pelos próximos meses.

Pago tudo e saio, ainda não me acostumei a voltar tão tarde para casa. Ana quase sempre está dormindo ou trabalhando, e mal a vejo.

Aquela sensação estranha que tem me perseguido nos últimos dias volta a inundar meu peito. Olho ao redor, mas não vejo nada nem ninguém.

Franzo o cenho. Esse incômodo tem sido constante desde que conheci aquele homem rude e bonito.

De repente, um vulto negro enorme cruza meu caminho, fazendo-me tropeçar nos próprios pés. Meu coração dispara ao olhar para frente e encontrar um lobo gigante, de pelos negros com reflexos avermelhados, me encarando.

- Puta merda - Xingo, tremendo.

A criatura vira e dispara em uma corrida anormal na direção da floresta, a poucos metros dali. Suas patas quase não fazem som ao tocar o chão.

Sinto as pernas fraquejarem, mas forço-me a testar sua força. Quando me sinto minimamente confiante, começo a correr, percorrendo os dois últimos quarteirões muito mais rápido do que o normal.

Ao chegar à porta de casa, minhas mãos tremem enquanto procuro as chaves na bolsa. A sensação de ser observada ainda está lá, pesada, sufocante. Respiro fundo, tentando controlar o pânico que ameaça tomar conta. Finalmente encontro as chaves, mas ao encaixá-las na fechadura, uma sombra se move na periferia da minha visão.

Viro bruscamente, o coração martelando no peito. Não há nada. Apenas o vento brincando com as folhas secas no chão. Mesmo assim, não consigo ignorar o arrepio que percorre minha espinha.

Entro em casa rapidamente e tranco a porta, girando todas as trancas. Encosto na madeira fria, respirando fundo.

- Calma, Elise, foi só a sua imaginação. - Digo a mim mesma, embora minha mente insista em repassar a imagem do lobo. Aqueles olhos. Aquele tamanho incomum.

A sala está mergulhada no silêncio. Ana não está em casa, o que não é surpresa, mas hoje isso me incomoda. Vou direto para o banheiro e ligo o chuveiro, deixando a água quente cair sobre meus ombros tensos.

Depois do banho, visto uma roupa confortável e vou para a cozinha, pegando um dos chocolates que comprei. O doce derrete na boca, mas não acalma os nervos. Decido ignorar o que aconteceu e focar no que realmente importa: descansar. Amanhã será outro dia.

Me jogo na cama depois de colocar meu velho celular para despertar. Mesmo assustada, pego no sono rápido e a última coisa que me lembro é de ouvir um uivo imponente ecoando pelo ar.

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