RENZO ALTIERI
Três anos antes
Sicília, Itália
O mármore frio sob meus pés refletia as luzes do lustre acima com uma perfeição que só um homem como eu poderia compreender. Cada passo que eu dava era como um trovão, reverberando pelas paredes antigas da mansão Bianchini, como se o próprio inferno anunciasse minha chegada. Eu sabia como me viam - uma lenda viva, uma sombra imortal, um homem cuja presença soava como sentença de morte para todos ao meu redor. Não havia espaço para dúvidas, nem para hesitações. Eu era a Dita d'Acciaio. O pavor de quem ousasse cruzar meu caminho.
A bengala de prata que eu empunhava, com a caveira cravada na ponta, tocava o chão com firmeza e autoridade. O som era o único barulho audível, cortando o silêncio profundo enquanto meus homens me seguiam, cada um ciente do que aquele encontro significava. Marino e Lorenzo Coppolla - meus irmãos por lealdade, não por sangue. Eles estavam ali, mas sabiam que essa era uma viagem sem retorno. Não ousaram falar, porque o fardo que eu carregava era pesado demais até para eles. Não havia palavras que pudessem aliviar a carga de um destino tão traçado.
Eu estava indo conhecer minha prometida.
Uma criança.
Uma menina de quinze anos, com um destino forjado antes mesmo de seu nascimento. Filha de Juan Bianchini, um dos assassinos mais letais que já serviram à Dita d'Acciaio. Ele havia desaparecido do radar, retirando-se da vida sanguinária que levou sua esposa, e ficou em um pequeno reduto, criando a filha, Bianca. Mas meu pai, Enrico, o permitiu viver essa ilusão de tranquilidade - com uma condição. A menina, quando chegasse à maioridade, seria minha.
Dezoito anos. Essa era a minha parte no trato. Quando ela atingisse essa idade, Bianca Bianchini seria minha esposa.
A porta do escritório de Juan se abriu com um rangido leve. O ambiente estava carregado de um luxo que pouco me impressionava. As paredes estavam decoradas com fotos de um homem que parecia viver para si mesmo, mas que mal sabia que sua filha não mais pertencia a ele. A escrivaninha estava repleta de papéis ordenados, livros que jamais tocaria, e, acima de tudo, a ausência da jovem que me fora prometida. Um descaso que era quase um insulto. Nenhuma foto dela adornava o espaço - como se Juan soubesse que o destino dela estava além de seu controle, já em minhas mãos.
Sentei-me de forma imponente na poltrona de couro, a caveira de prata da bengala pressionando contra o meu aperto. Eu estava ali, mas minha mente se encontrava a quilômetros de distância. Se pudesse, eu a veria apenas no altar, cumpriria a promessa e seguiria para os meus próprios interesses - para a minha guerra. Nada mais importava.
- Bom dia, Don Altieri. - A voz de Juan interrompeu meus pensamentos, carregada de um formalismo desnecessário.
Levantei-me, movendo-me com a precisão e o peso de um predador cansado de esperar pela sua presa. O silêncio dos meus homens era profundo, mas eu sabia que seus olhos estavam fixos em mim. Estavam esperando pela minha reação.
- Seja rápido, Bianchini. Tenho coisas mais importantes a fazer. - Estendi a mão com uma frieza calculada. Juan apertou a minha mão com força, tentando disfarçar o nervosismo que transparecia em seus olhos.
- Bianca já está descendo. - Ele disse, em tom de aviso, enquanto cumprimentava meus homens.
Senti o peso do inevitável se aproximando. Um encontro sem sentido. Uma menina que mal sabia o que era o mundo. O que eu faria com ela? O que faria com alguém tão pura, tão distante do abismo em que eu habitava? Como essa criança poderia lidar com a besta que sou? Minha mente estava uma tempestade.
E então, ela falou.
- Papà!
Dio...
A voz dela, doce e melodiosa, atravessou meu peito como uma lâmina quente, cortando tudo o que havia dentro de mim. Era suave, quase etérea, mas carregava algo incontrolável - algo que não conseguia compreender. O cheiro de morango invadiu o ambiente, imenso e doce, como um veneno suave. Eu vi Marino e Lorenzo se virarem para observar com uma intensidade quase reverente. E quando me virei para vê-la... eu entendi o que estava acontecendo. Eu já sabia o que eles estavam vendo.
Ali estava ela.
Bianca.
Pequena, delicada. Como um anjo de carne e osso.
Seus cabelos brancos caiam em ondas suaves sobre suas costas, como se fossem feitos da própria neve mais pura, derretendo lentamente sob a luz quente do ambiente. Sua pele era tão pálida que parecia brilhar, quase etérea. E seus olhos... Meu Deus, os olhos dela. Um azul profundo misturado com lilás, como o céu ao amanhecer, o crepúsculo e a aurora se fundindo em uma visão que me deixava sem ar. Cílios longos e brancos, como penas, e lábios cor-de-rosa que pareciam feitos para sussurrar segredos.
Ela sorriu.
Sorriu pra mim.
Foi uma explosão dentro de mim. Minha mão apertou com força a bengala, como se ela fosse a única coisa que me mantinha em pé. E então, graças à maldita máscara, ninguém viu o que aconteceu em meu rosto. Ninguém viu o choque, a confusão. A sensação de ver algo puro demais, algo que jamais poderia ser meu.
Ela se aproximou. Cada passo dela era como um batimento cardíaco no silêncio absoluto. Seus olhos nunca se afastaram dos meus. Não hesitou. Não temeu. Ela simplesmente caminhou em minha direção com uma confiança que só uma criança inconsciente poderia ter. Uma confiança que me fazia sentir raiva e desejo ao mesmo tempo.
- Oi. - Ela disse com uma suavidade que parecia arrancar pedaços de mim a cada sílaba. Seu sorriso tímido me destruiu por dentro.
Eu não sabia o que fazer. Meu instinto era tocá-la. Saber se sua pele era tão macia quanto parecia. Se seus lábios tinham o gosto da fruta mais doce. Se seus cabelos cheiravam ao ar fresco da manhã.
Mas eu não podia. Ela era luz demais. Eu era só escuridão. Não podíamos nos misturar.
- Oi, anjinho. - Minha voz soou rouca, mais do que eu gostaria. O timbre pesado, quase possessivo, como se minha própria alma estivesse tentando se libertar de suas correntes. Eu observei cada detalhe da expressão dela, como seus olhos suavizaram ao ouvir minha voz, como seu sorriso se ampliou ainda mais. Dio... aquele sorriso...
- Você sabe quem eu sou, anjinho? - Perguntei, ainda hipnotizado, sem conseguir desviar o olhar de seus olhos.
Ela mordeu o lábio, embaraçada, mas respondeu com um brilho no olhar que me incendiou por dentro:
- Sei sim. Você é o Don da Dita d'Acciaio. Renzo Altieri... meu futuro marido.
Meu nome na boca dela. Como uma canção proibida. Como uma maldição. Como a redenção que eu jamais pedi.
Porra, aquilo era música. Era veneno. Era uma promessa amarga de algo que não poderia ser. E ainda assim, uma promessa que eu sabia que não poderia quebrar.
Ela sorriu de novo. E, nesse momento, soube. Soube que aquele sorriso jamais seria de outro homem. Jamais. Bianca Bianchini seria minha.
Ela iria atravessar as muralhas que eu construí com tanta dor e sangue. Ela caminharia entre os escombros da minha alma, e, um dia, a colocaria em meu trono. Mesmo que o mundo tivesse que sangrar por isso.
Ela ainda estava parada à minha frente, olhando para mim com aqueles olhos que pareciam ver mais do que deviam. O silêncio estava começando a me irritar. Mas ela... não parecia incomodada. Parecia curiosa. Como se eu fosse um enigma que ela estivesse prestes a decifrar.
Ela inclinou levemente a cabeça para o lado, franzindo a testa.
- Por que você usa máscara? - perguntou, do nada, como se estivéssemos conversando sobre o tempo.
Marino engasgou com a própria saliva. Lorenzo desviou o olhar, tentando segurar o riso. E Juan ficou branco como o papel.
Eu encarei a menina.
- Porque sem ela, as pessoas morrem de medo. - respondi, seco, esperando que ela se calasse.
Ela piscou. Uma. Duas vezes. Depois, sorriu.
- Mas... com ela, você parece um vilão de desenho animado.
- Desenho animado? - minha voz saiu mais incrédula do que ameaçadora.
- É. Tipo aquele lá... como é o nome, papà? O que tem uma caveira e fala grosso!
- Esqueleto? - Juan murmurou, morrendo por dentro.
- Esse mesmo! - ela apontou pra mim, rindo. - Só que você é mais alto. E menos magrelo.
Eu devia estar assustando ela. Deixando claro que era perigoso, um homem frio e calculista. Mas ao invés disso... eu estava ali. Ouvindo comparações com vilões de desenho. E, ainda pior... minha vontade era de rir.
- Já terminou, anjinho? - murmurei, tentando manter a seriedade.
Ela cruzou os braços.
- Ainda não. - E se aproximou mais. Agora perto o bastante para que eu sentisse novamente o cheiro de morango. - Você também tem nome de vilão. Renzo Altieri. Parece que você vai invadir Gotham City ou explodir alguma coisa.
- Eu sou o Don da máfia, Bianca. Eu explodo coisas.
Ela deu um passo pra trás, teatralmente chocada.
- Ai meu Deus! Então é verdade! Você é o chefão!
Lorenzo soltou uma risada abafada. Marino encarava o chão como se sua vida dependesse disso. Juan parecia pronto para pedir desculpas por ter tido uma filha.
- Você vai me jogar num calabouço se eu te irritar? - ela perguntou, os olhos brilhando com diversão.
- Vou. Com dragões. - respondi, mordendo o canto da boca sob a máscara para não sorrir. - E sem sobremesa.
Ela arregalou os olhos.
- Sem sobremesa?! Monstro! - disse com um falso drama.
- Você não tem medo de mim, tem?
Ela parou. Seu sorriso suavizou.
- Não. Você tem olhos tristes demais pra me assustar.
Silêncio.
Maldita menina.
Ela virou o rosto e voltou a andar, parando ao lado do pai.
- Posso levar ele pra conhecer meu jardim?
- Bianca... ele é o Don. Não é um convidado comum. - Juan argumentou, aflito.
- Mas ele parece cansado. E lá tem um banco. Pode se sentar. Ficar de boas. - e ela olhou pra mim. - Você senta, né? Ou vilões só ficam de pé?
- Eu sento.
- Ótimo. Então vem. Tem flores que combinam com a sua vibe sombria.
Antes que eu pudesse protestar, ela já estava saindo do escritório, com os cabelos brancos balançando, sem medo, sem hesitação.
Olhei para Juan.
- Sua filha é um problema.
- Eu sei. - ele respondeu, resignado. - Mas agora é seu problema.
E, Dio... que problema delicioso de se ter.
Acompanhei a pequena criatura de cabelos brancos até o jardim. Cada passo meu parecia deslocado naquele lugar de flores, bancos de pedra e caminhos de paralelepípedos limpos demais. Flores. Pássaros. Borboletas. E eu - Renzo Altieri, com uma bengala em forma de caveira e uma máscara de caveira no rosto.
Ridículo.
Mas lá estava ela, saltitando à minha frente como se fosse a dona do mundo. Ou melhor... como se o mundo fosse um lugar onde nada de ruim jamais acontecesse.
- Esse é meu cantinho favorito - disse, girando sobre os próprios pés e abrindo os braços como se me apresentasse o paraíso. - Quando fico triste, venho pra cá conversar com as flores.
- As flores respondem? - perguntei, cruzando os braços, entediado.
- Às vezes. - ela deu de ombros com um sorrisinho. - Mas só quando eu choro muito. A margarida é a mais fofoqueira, fala mal até da rosa. E a camélia... nossa, essa é pior que vizinha de vila.
- Você precisa de amigos. De carne e osso. - falei com sarcasmo.
Ela parou. Franziu o cenho e me olhou como se eu tivesse dito a coisa mais absurda do mundo.
- Tenho você agora. - disse com naturalidade, como se fosse óbvio.
- Eu não sou seu amigo, Bianca. Eu sou seu futuro marido.
- Ué, e não posso ser amiga do meu marido?
- Não.
- Por quê?
Suspirei, sentando no banco de pedra sob a sombra de uma árvore.
- Porque maridos mandam. E esposas obedecem.
Ela arregalou os olhos. A boca se abriu em um "O" ofendido.
- Credo! Quem te ensinou isso? O diabo?
- Meu pai.
- Ah... então o diabo mesmo.
Pela primeira vez, deixei escapar uma risada baixa. Curta. Mas verdadeira. Ela sorriu, vitoriosa, e se aproximou, parando na minha frente com as mãos na cintura.
- Escuta aqui, Don Caveirinha... eu posso até ser sua prometida, mas tem umas coisas que você precisa saber desde já.
- Estou ouvindo, anjinho. - murmurei, divertido.
Ela levantou um dedo:
- Um: eu não obedeço cegamente. Só se a ordem fizer sentido ou vier com chocolate.
- Isso é chantagem.
- Isso é inteligência feminina. Dois: você vai ter que visitar esse jardim uma vez por semana. Mesmo que esteja muito ocupado mandando explodir coisas.
- Não costumo fazer piqueniques, Bianca.
- Vai começar a gostar. Três: se você me der uma aliança feia no casamento, eu devolvo na hora do altar.
- Você é uma ameaça, menina.
Ela inclinou a cabeça com um sorriso doce.
- Eu sou um doce de ameaça. Mas sou sua, né?
Dio...
O coração bateu mais forte. A voz dela, mesmo nas brincadeiras, tinha um tom de certeza que me deixava desequilibrado. Como se já tivesse me escolhido. Como se estivesse certa de que ninguém jamais a teria, além de mim.
Levantei-me, encarando aqueles olhos encantadores.
- Vai me dar trabalho, anjinho.
Ela piscou, travessa.
- É... mas prometo que vale a pena.
E naquele momento, eu soube.
Essa menina ia me enlouquecer antes mesmo de se tornar mulher.
E eu... eu ia deixar.
Porque pela primeira vez em anos, eu queria enlouquecer.
Se fosse por ela.
Dias atuais.
O som seco da bengala batendo contra o mármore ecoava pelo escritório como uma marcha de guerra. Meu punho, coberto pela luva de couro preta, apertava com força a cabeça de caveira na bengala. Era minha âncora. Meu controle. Sem ela, eu provavelmente já teria colocado este mundo de joelhos. Meus olhos estavam fixos no celular. A tela brilhava na penumbra do cômodo, iluminando apenas parte da máscara negra de caveira que cobria minha face.
E lá estava ela.
A foto que Bianca me enviara mais cedo parecia ter sido pintada por anjos. O coque bagunçado dava um ar ainda mais encantador ao seu cabelo branco como neve. Os olhos, ah... aqueles olhos, uma mistura sobrenatural de azul com lilás, brilhavam como duas galáxias hipnotizantes. Sua pele era de um branco imaculado, contrastando com o fundo escuro do quarto onde havia tirado a selfie. E o sorriso... por Dio, aquele sorriso era a perdição de qualquer homem. Era doce, puro, angelical... e só meu.
"Bom dia, garotão! Olha minha carinha de feliz porque vou me casar com o homem mais lindo desse mundo."
Li pela milésima vez a legenda. Sem ironia. Sem dúvida. Sem hesitação. Ela estava feliz. Verdadeiramente feliz por se casar comigo. E isso me arrebentava por dentro. Como ela podia me ver assim? Como o homem mais lindo do mundo? Ela não enxergava o monstro que eu era? A máscara que escondia o que sobrou do meu rosto não era suficiente para afastá-la? Não... porque ela me via com os olhos da alma. Ela enxergava além da carne, além das cicatrizes, além do sangue que manchei.
Bianca me amava?
Senti um nó no estômago. Se ela me dissesse isso em voz alta... Dio, eu moveria o mundo para ela. Eu mataria, queimaria cidades, destruiria impérios, apagaria o nome Altieri da história se ela pedisse. Eu era um homem apaixonado. Um louco. Um amaldiçoado que finalmente tinha uma razão para viver.
A lembrança da nossa última ligação me fez fechar os olhos por um segundo. Ela tinha me ligado naquela noite, após minha primeira mensagem em anos. Passamos horas falando. Ela ria e me contava tudo - sobre os últimos três anos, sobre Loki, o lobo gigante e sobrenatural que o pai lhe dera. Falou da faculdade de dança, da nova amiga Cecília, e eu... eu apenas escutava, como um homem bobo, encantado pela melodia da sua voz.
Ela me fez criar uma conta no Instagram. Nunca tive interesse nessas porcarias de redes sociais, mas por ela? Por ela eu criei. E lá estava eu, rolando as fotos dela como um adolescente apaixonado. Ela me marcava em cada publicação. As legendas dela... Dio, me faziam rir. Me faziam sentir vivo. E então veio o WhatsApp, outro pedido dela. Eu atendi, claro. Agora conversávamos todos os dias. E cada mensagem dela era como um beijo na minha alma.
Suspirei, segurando o celular com mais força.
Eu precisava tocá-la.
Hoje era o dia. O nosso dia.
- Senhor, o carro já está pronto. - a voz robótica de Marvin ecoou pelo cômodo, quebrando o silêncio sombrio.
Marvin, minha criação mais preciosa - uma inteligência artificial programada apenas para obedecer a mim, aos irmãos Coppolla e, em breve, à minha esposa. Capaz de controlar toda a mansão, blindar janelas, fechar portas com titânio, acionar sistemas de segurança de nível militar. Aquela casa era uma fortaleza. Uma prisão dourada. Um inferno impenetrável... Igual a outra que mandei construir longe de Verona, onde morariamos.
Aos trinta e nove anos, minha mente era uma arma. Formado em ciência da computação, engenharia de software, ciência de dados e administração. Eu era o Don da Dita d'Acciaio, o chefe supremo no submundo. Na superfície? Um bilionário mascarado que comandava a Holdings Altieri com punhos de aço e uma alma rachada.
Levantei-me.
Meu terno preto se ajustou perfeitamente ao meu corpo. Corte italiano. Sob medida. Como tudo o que faço. Peguei a pequena caixa de veludo negro sobre a mesa e a abri. O anel estava lá. Uma joia única. Um diamante cor de ametista, talhado como os olhos dela, cravado em uma base de ouro negro e platina. Fechei a caixa, guardei-a no bolso interno do paletó e tirei o comunicador, encaixando-o discretamente na orelha.
Dei alguns passos.
Cada toque da bengala contra o chão reverberava como um anúncio - o Don estava a caminho. O corredor escuro da mansão parecia respirar junto comigo. Meus passos eram firmes. Cada sombra parecia se curvar diante de mim. Cada centímetro da casa me conhecia. Eu era a própria escuridão andando entre suas paredes.
E hoje... hoje, eu caminhava para a luz.
Para ela.
Para o altar onde finalmente tomaria em meus braços a única mulher que me fez acreditar, mesmo que por um segundo, que eu não era um monstro.
Bianca... mia sposa.
- Alguma movimentação estranha, Marvin? - perguntei enquanto caminhava pelo corredor escuro da mansão, a voz firme e grave, saindo abafada pela máscara de caveira que cobria meu rosto desfigurado.
- Está tudo em ordem, senhor. - respondeu a voz robótica e neutra de Marvin, ecoando suavemente pelo meu comunicador. Um sistema criptografado. Seguro. Invulnerável.
- Ótimo. - murmurei, frio, seco.
Aproximando-me da imensa porta de entrada, meus olhos captaram os vultos imponentes dos dois homens que me esperavam ali - Matteo e Vittorio, meus soldados mais antigos, sombras leais que jamais hesitaram diante de nenhuma ordem.
- Bom dia, Don Altieri. - disseram em uníssono, com o respeito impregnado na voz.
Matteo, sempre ágil, abriu a pesada porta para mim. O vento da manhã invadiu o ambiente como uma rajada cortante. Entrou pela máscara, atravessou o tecido e tocou minha pele sensível como se fosse uma adaga de gelo.
Parei por um instante.
A mansão estava cercada. Soldados armados em formação tática. O céu nublado criava uma moldura perfeita para o momento. Três SUVs negras reluziam como predadores prontos para o ataque. E na frente delas, imponente e silencioso, estava o Bentley blindado que me levaria até o altar.
Meus olhos encontraram os dois homens que me aguardavam do lado de fora.
Marino Coppolla, alto como uma muralha, corpo de aço, olhos verdes tão perigosos quanto lâminas afiadas. Aos vinte e seis anos, o consigliere mais jovem da história da Dita d'Acciaio. Um estrategista. Um predador. Um irmão de guerra.
Lorenzo Coppolla, seu irmão mais novo, de olhos azuis elétricos e sorriso provocador. Vinte e cinco anos, underboss. O sangue quente e a alma rebelde. Descontraído, mas mortal. Letal como veneno doce.
Eles me aguardavam como sentinelas. Fiéis. Prontos para a guerra, ou para o amor.
- Achei que iria se casar de rosa, Altieri. - Marino comentou, arqueando uma sobrancelha com aquele tom zombeteiro característico.
Caminhei em direção a eles com minha bengala arrastando suavemente pelo piso de pedra. O som era seco, rítmico. Uma marcha calculada. O Don estava em movimento.
- Ou de lilás. - Lorenzo completou com uma risada debochada, abrindo a porta do carro para mim como se fosse meu próprio capanga de honra.
Respirei fundo.
- Se ela pedisse. - respondi seco, mas havia um sorriso oculto por trás da máscara.
E eles sabiam.
- Dio! - Marino resmungou, levantando as mãos como se pedisse explicação aos céus. - Don Altieri sendo domado por uma fada.
- Ela é uma fada, Marino. - Lorenzo rebateu com o cenho franzido. - Ela não é igual a essas oferecidas que só falta passar a boceta na nossa cara quando a gente entra num lugar.
- Por Dio, Lorenzo! - Marino bufou, enfiando-se no banco de trás ao meu lado, revirando os olhos com o comentário desbocado do irmão.
Lorenzo deu de ombros e entrou pela frente. Matteo assumiu o volante, silencioso como sempre. Vittorio entrou no SUV logo atrás. Os motores roncaram. O Bentley começou a deslizar suavemente pela estrada de pedra que serpenteava a propriedade. O mundo lá fora era frio, cinzento, mas dentro daquele carro... havia algo mudando.
Meu celular vibrou.
Peguei o aparelho com um gesto rápido e olhei para a tela.
Era ela.
Bianca.
"Garotão, posso entrar com o Loki e com meu pai?"
O sorriso nasceu por baixo da máscara, instantâneo. Quente. Terno. Como um raio de sol atravessando a neblina.
Meus dedos digitaram com agilidade:
"Tudo que você quiser, meu anjo. Já estou indo pra igreja. E você?"
Mensagem enviada. Lida em segundos.
A resposta dela chegou tão rápido quanto um beijo:
"Você é perfeito! Estou terminando de me arrumar! Estou parecendo um marshmallow!"
Dio...
Minha risada explodiu.
Uma gargalhada profunda e verdadeira. Meus ombros estremeceram, minha cabeça tombou para trás por um breve instante. Aquele som... ecoou dentro do carro como um trovão inesperado. Eu estava gargalhando. Eu. O Don da máfia mais poderosa do mundo. Um homem que não ria há anos. Que esqueceu o som da própria alegria.
Os olhos de Marino se arregalaram. Matteo, no retrovisor, esboçou um sorriso discreto. Lorenzo virou-se com um sorriso escancarado.
- Está vendo isso?! - Lorenzo apontou como se tivesse visto um milagre. - Conhecemos ele há dez anos e o Don Altieri nunca gargalha, Marino. E agora tá aí... rindo com o celular na mão por causa da fadinha dele.
Digitei mais uma vez, com os dedos firmes, mas o coração leve:
"O marshmallow mais lindo e gostoso de todo esse mundo, meu anjo."
Enviei.
E então, guardei o celular.
Meus dedos apertaram com força a cabeça da caveira na bengala. O frio da prata atravessou a luva e me ancorou novamente.
O céu sobre Verona estava cinza, carregado de nuvens espessas como se o próprio mundo prendesse o fôlego. A estrada diante de mim era longa, mas não o suficiente para conter o frenesi que pulsava em meu peito.
O Bentley deslizou pelas ruas empedradas como uma pantera silenciosa. Três SUVs negras nos escoltavam - duas à frente, uma atrás. Dentro de cada uma, soldados armados até os dentes, prontos para atirar antes de perguntar.
Era o meu casamento. Mas também poderia ser uma guerra.
E ali, naquela manhã que parecia arrancada de um épico antigo, eu estava a caminho da catedral onde selaria meu destino com ela. Bianca.
Do lado de fora, o mundo via uma coisa.
Do lado de dentro... era outra completamente diferente.
- Don Altieri, estamos nos aproximando. - disse Matteo, o olhar atento pelo retrovisor.
Minha mão apertou a bengala. Respirei fundo, o ar frio atravessando os filtros da máscara de caveira e gelando meus pulmões. Cada passo dado naquela manhã era mais do que tradição. Era domínio. Era poder. Era posse.
Ao longe, as torres da Cattedrale di Santa Maria Matricolare, mais conhecida como Duomo di Verona, erguiam-se como sentinelas sagradas. A arquitetura românica, feita de pedra clara e escura, parecia desenhada por anjos e esculpida por demônios. O coração da fé... e o palco de um casamento entre o céu e o inferno.
Meu casamento.
- Santo Dio... - Marino murmurou ao meu lado quando viramos a esquina.
E então eu vi.
Cercando a praça diante da catedral, uma multidão. Câmeras, flashes, microfones, helicópteros sobrevoando. A mídia inteira reunida. O mundo queria ver o "Bilionário Mascarado" se casando. O recluso Altieri, o homem sem rosto, o magnata silencioso.
Ninguém sabia, é claro, que por trás da fortuna e dos investimentos estava o verdadeiro império. A Dita d'Acciaio. A máfia mais poderosa do mundo.
Na superfície, eu era o mistério que alimentava manchetes.
Mas no submundo... eu era a sentença de morte de muitos.
- Merda... isso é um circo. - Lorenzo bufou do banco da frente, franzindo a testa enquanto olhava a quantidade de repórteres, seguranças contratados, e curiosos tentando ultrapassar as barreiras.
- São vermes famintos por uma imagem. - falei, minha voz grave saindo abafada pela máscara. - Mas que olhem... e trema o mundo inteiro.
O carro parou diante da escadaria de pedra que levava à entrada da Duomo. Soldados meus já faziam um cerco discreto entre os fotógrafos. O chão era antigo, sagrado, e agora estava prestes a testemunhar o casamento de um homem que já derramou sangue demais. Um homem que nunca acreditou em redenção... até Bianca aparecer.
A porta do carro foi aberta por Matteo. Desci com calma, erguendo a bengala enquanto o vento cortante chicoteava meu sobretudo negro. O contraste entre o tecido escuro, a prata da bengala e a máscara preta era brutal. Um homem sem rosto... mas com um nome que fazia o mundo tremer.
Os flashes começaram. Gritos de repórteres. A tensão cortava o ar como navalha.
- SENHOR ALTIERI! É VERDADE QUE ESTÁ SE CASANDO COM UMA GAROTA DE DEZESSETE ANOS?
- RENZO ALTIERI, VOCÊ É MESMO UM CRIMINOSO?
- É VERDADE QUE TEM UM LOBO COMO ANIMAL DE ESTIMAÇÃO?
Ignorei.
Eles eram barulho. E eu era silêncio.
Atrás de mim, Marino saiu com passos pesados. O terno escuro moldando sua presença perigosa. Ao lado dele, Lorenzo sorria para as câmeras, como se fosse uma celebridade - aquele desgraçado adorava provocar.
Mas eu?
Eu apenas subi os degraus da catedral, um a um, como se estivesse marchando para um ritual sagrado. As portas gigantes de madeira esculpida foram abertas por dois padres atônitos. Do lado de dentro, a nave central da Duomo me engoliu com seus vitrais, colunas ancestrais e ar carregado de incenso.
Tudo estava decorado em tons claros. Branco, pérola, prata.
O altar brilhava ao fundo.
E no centro dele, havia um lugar reservado para mim. Para nós.
A cada passo meu, os convidados se levantavam. Membros das famílias mais poderosas da Europa e do mundo. Alguns criminosos, bilionários, presidentes, grandes empresários, outros reis de fachada. Todos estavam ali para ver Renzo Altieri se casar com uma menina de olhos azuis-lilás e cabelos brancos, que parecia ter saído de outro mundo.
- Ela ainda não chegou. - murmurou Marino ao meu lado, com os olhos atentos aos arredores.
- Mas ela virá. - respondi com a certeza de um homem que atravessaria o inferno por ela.
Meu coração martelava no peito.
Meu anjo estava vindo.
O monstro foi conquistado por um anjo.
- Senhor, a noiva vai entrar.
A voz de Marvin soou pelo comunicador preso ao meu ouvido como um sussurro abafado, mas foi como se o mundo parasse por um segundo.
Meu coração... aquele maldito traidor... sorriu antes de mim.
Minhas mãos cerraram ao redor da bengala e um sorriso lento se desenhou sob a máscara. Ninguém o veria - mas eu o sentia. Era o sorriso de um homem diante de um milagre. Do meu milagre.
- Como está o perímetro, Marvin? - perguntei, sem tirar os olhos das portas pesadas da catedral. Meu olhar estava afiado como lâmina. Bianca estava prestes a cruzar aquelas portas e não haveria espaço para falhas.
- Os snipers estão em seus lugares, senhor. - ele respondeu firme. - Os drones estão sobrevoando a área. A segurança foi reforçada por causa da mídia e de alguns curiosos. Temos seguranças e policiais disfarçados no meio da multidão.
Assenti em silêncio.
- E o helicóptero?
- A um minuto da igreja, senhor.
- Ótimo. - murmurei, com o mesmo tom gélido que usaria para autorizar uma execução.
A catedral estava em silêncio.
Até que a música começou.
A porra da música.
"My Only One (No Hay Nadie Más)".
A melodia invadiu os vitrais da Duomo como uma lembrança viva. O piano suave, os acordes sutis, e a voz suave de Sebastián Yatra começaram a preencher cada canto daquele templo sagrado. Eu conhecia aquela música. Ela sempre a colocava nos stories do Instagram. Sempre que estava sorrindo. Sempre que tirava uma foto. Era a trilha sonora dela.
Do meu anjo.
Dio... Aquela música me quebrava.
E então...
As portas da catedral se abriram.
E o tempo. Simplesmente. Parou.
Ali estava ela.
Minha Bianca.
Meu anjo vestido de noiva.
A luz natural invadiu a igreja pelas portas abertas, emoldurando a pequena silhueta de branco como se o próprio céu a empurrasse para mim. Vestido Mikado branco, ombro a ombro. Decote profundo, mas sem vulgaridade. Cintura fina, marcada como se tivesse sido desenhada por deuses. A saia princesa se abria com suavidade, sem exagero. Simples, elegante... e completamente letal.
Mas foi o rosto dela...
Dio... Il suo volto...
Cabelos presos num penteado que deixava algumas mechas soltas, moldando o rosto como uma pintura viva. A maquiagem era quase inexistente, mas isso só realçava a beleza crua, etérea, irreal. Os cílios brancos... as sobrancelhas brancas... intactas, naturais, perfeitas. E os lábios... aquele formato de coração, rosado, puro. Ela sorriu. Para mim.
Aquele mesmo sorriso de três anos atrás, quando a vi pela primeira vez no escritório de Juan Bianchini. O mesmo sorriso das fotos que ela me mandava, escondida, durante a última semana.
Mas os olhos...
Aqueles olhos.
Azuis e lilás. Uma mistura de céu e crepúsculo. Um paradoxo impossível. Um olhar que atravessava a máscara, a carne, os ossos... e me desnudava por inteiro.
E então, ela deu um passo à frente.
Ao seu lado esquerdo, surgiu Juan Bianchini, de terno escuro e rosto emocionado. Ele se inclinou, beijou a testa da filha e sussurrou algo que a fez sorrir ainda mais.
E do lado direito...
- Puta que pariu... - murmurei por trás da máscara.
LOKI.
Não era um cachorro.
Não era um lobo comum.
Era um monstro magnífico.
Pelagem preta, espessa, brilhando sob a luz. Olhos dourados e selvagens. A criatura caminhava ao lado de Bianca com uma elegância ameaçadora, como se soubesse que ali era território sagrado - e que ele era o guardião do próprio céu. O maldito era quase da altura dela. Um ser mitológico.
- Santo Dio... - Marino resmungou ao meu lado. - Eu pensava que era um lobo, tipo... do tamanho de um cachorro. E não a porra de um lobo modificado em laboratório do tamanho de um cavalo. Fanculo!
- Está parecendo a Daenerys de Game of Thrones. - Lorenzo comentou com um tom sério demais. - Só falta os três dragões.
Virei o rosto lentamente para eles.
Marino estava estatelado, olhos arregalados. Lorenzo engoliu seco.
- De onde o pai dela tirou esse lobo?! - Lorenzo perguntou com um tom quase infantil de pânico.
- Não faço ideia de onde ele tirou esse bicho... - murmurei, voltando o olhar para ela. - Mas ele é dela.
Bianca começou a caminhar até mim.
Sorrindo.
Caminhava como se flutuasse sobre o chão de pedra polida da catedral. Ao seu lado, o pai. E o lobo. Os três formavam uma visão que deixava todos os presentes em silêncio absoluto. Ninguém ousava se mexer. Não por medo do lobo. Mas porque... ela não parecia humana. Era como se o céu tivesse se manifestado em forma de mulher.
Um anjo.
No altar, minhas mãos tremeram pela primeira vez em anos.
Ela se aproximou... e o cheiro.
Dio... o cheiro dela.
Morango. Aquele aroma suave, adocicado, que queimava em mim como se cada partícula de ar fosse feita para me enlouquecer.
Quando parou diante de mim, senti meu mundo se alinhar.
Juan beijou os cabelos dela com reverência. Depois, ergueu os olhos e me encarou.
- Cuida da minha bambina, Altieri. - ele disse com firmeza.
- Sempre vou cuidar, Bianchini. - respondi com a voz baixa, mas tão firme quanto. Minha mão enluvada tocou a dela... minha pequena.
E quando segurei sua mão...
Dio...
Mesmo com a luva, senti a pele quente dela. Foi como se mil descargas elétricas atravessassem meus nervos e me conectassem diretamente ao paraíso. Ela sorriu, olhando para mim como se não houvesse ninguém mais no mundo. E não havia.
Bianca era minha.
E diante de Deus e dos homens, do submundo e da mídia...
Eu era o monstro que havia se ajoelhado para o seu anjo.
Juan caminhou com passos firmes até o lado esquerdo do altar. O lobo... o maldito lobo preto me lançou um olhar direto e rosnou. Mostrou os dentes. Aqueles caninos afiados pareciam dizer que ele arrancaria a garganta de qualquer um que ousasse tocar na mulher que caminhava comigo. E eu? Eu apenas encarei de volta.
Loki caminhou com a mesma elegância silenciosa de um predador e parou ao lado de Juan. Os olhos dele fitaram Marino e Lorenzo com uma intensidade tão assassina que até eu senti um arrepio subir pela espinha. E aqueles dois... bom, reagiram como qualquer homem sensato diante de um demônio peludo do tamanho de um cavalo.
- Caralho, por que ele tá olhando pra gente, Marino? - Lorenzo sussurrou, sem tirar os olhos do lobo.
O padre pigarreou, chamando nossa atenção.
- Estamos em uma igreja. - disse ele com uma voz tranquila, mas firme.
- Perdono, padre. Não irá se repetir. - Marino respondeu, ainda mantendo o olhar fixo na criatura ao nosso lado.
Então... eu ouvi. A risada. A porra da risada mais linda do mundo. Baixa. Sutil. Como uma brisa suave. Me virei, incapaz de ignorar aquele som.
Bianca.
- Está tudo bem, Loki. - ela disse com uma doçura que me destruiu por dentro, olhando para o animal como se ele fosse uma criança. - Eles são amigos.
E, Dio... o lobo... ele simplesmente se sentou. Olhou para ela como se ela fosse sua deusa pessoal. Aquela criatura mortalmente selvagem se rendeu àquela mulher. A mesma mulher que, naquele instante, era toda minha.
- Vamos começar? - perguntou o padre.
Eu puxei Bianca com suavidade para frente, até estarmos de frente um para o outro. O vestido branco realçava tudo o que ela era: etérea, intocável, celestial. O sorriso dela... o sorriso dela era a porra da luz no fim do meu inferno. E os olhos... Dio... aqueles olhos azul-lilás me desarmavam, me queimavam, me faziam querer ajoelhar e prometer minha alma.
Me aproximei mais, como se o mundo não existisse ao redor, e fechei os olhos, inalando o cheiro dela.
- Um marshmallow com cheiro de morango. - sussurrei, para ela, só para ela.
Ela sorriu. Um sorriso envergonhado que me fez sorrir também, por baixo da máscara.
- Gostou do vestido? - ela murmurou, os olhos fixos nos meus.
- Você está perfeita, meu anjo. - respondi apertando sua mão com delicadeza, como se ela fosse feita de vidro. Porque pra mim, ela era. Um anjo frágil que eu protegeria com cada gota do meu sangue.
O padre começou a cerimônia, mas eu não ouvi nada. Nada. Só via ela. A minha Bianca. A mulher que sorria pra mim como se eu fosse merecedor do céu, quando o inferno era tudo o que eu conhecia.
Ela apertou minha mão.
- Não chore, meu anjo. - sussurrei, sentindo minha garganta travar.
- Estou chorando de felicidade. - ela respondeu, a voz emocionada, o aperto intensificado.
Dio...
O padre anunciou que era hora dos votos e das alianças. Levei a mão direita ao bolso interno do paletó e retirei a caixa. Três anéis. Três promessas eternas.
Entreguei a caixa ao padre, que a abriu revelando: o anel de noivado de ouro negro com uma pedra de ametista em formato de coração, a aliança dela - de ouro negro cravejada de ametistas com meu nome gravado por dentro - e a minha de ouro negro cravejada de ametista, grossa, pesada e com o nome dela gravado por dentro...
Segurei a mão dela - junto do buquê - e respirei fundo.
- Eu, Renzo Altieri, aceito você, Bianca Bianchini, como minha legítima e única esposa e prometo te amar, te respeitar na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, e por todos os dias da minha vida, até que a morte nos separe, meu anjo. - minha voz não tremeu. Não poderia. Cada palavra era verdade.
Ela me olhou. Seus olhos brilhavam.
- Eu, Bianca Bianchini, aceito você, Renzo Altieri, como meu único e legítimo esposo. - sua voz estava trêmula, tomada pela emoção. - Eu prometo te amar em todos os momentos, principalmente na escuridão, na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, e por todos os dias da minha vida e além. E nem a morte vai me separar de você, garotão.
Dio...
O padre falou:
- Renzo Altieri, você aceita Bianca como sua esposa?
- Sim. - respondi sem pensar. Porque não havia outro destino.
- Bianca Bianchini, você aceita Renzo Altieri como seu esposo?
- Sim. - ela disse com a suavidade de um beijo.
- As alianças. - o padre estendeu a pequena caixa. - Abençoe, Senhor, estas alianças, que ides entregar um ao outro como sinal de amor e de fidelidade.
Soltei as mãos dela. Respirei fundo. Retirei a luva da minha mão esquerda.
Silêncio.
Mortal.
As cicatrizes estavam ali. Cruas. Visíveis. Uma lembrança do passado que eu nunca pude apagar. Mas eu olhava apenas para ela. Para ver o que ela via.
Bianca... ela sorriu. Mais ainda. Nos olhos dela não havia nada além de amor. Nada. Nem medo. Nem pena. Nem desconforto. Só... fascínio. Encantamento. Devozione.
Soltei o ar preso no peito. E peguei o anel de noivado.
Segurei sua mão. Quente. Macia. Perfeita. E deslizei o anel por seu dedo. Em seguida, a aliança.
- Aceite essa aliança como prova do meu amor, devoção, lealdade e proteção. - falei, a voz firme como aço.
Ela apertou minha mão, como se quisesse se fundir a mim. Depois pegou minha aliança, beijou, e...
- Receba essa aliança como prova do meu amor eterno e da minha fidelidade. - ela disse, colocando-a no meu dedo. O toque da joia foi gélido, mas o efeito dela foi o oposto.
O padre falou:
- Se tem alguém contra essa união, fale agora ou cale-se para sempre.
Silêncio.
- Eu vos declaro marido e mulher. O que Deus uniu, o homem não separa.
O "pode beijar a noiva" não veio. Eu pedi.
Olhei nos olhos dela. Ela sabia. Já esperava.
- Vou beijar você na nossa noite de núpcias, meu anjo. - disse.
Ela sorriu e assentiu. Dio, ela entendia tudo sem que eu precisasse explicar.
Segurei a mão dela. Caminhamos juntos pela nave da igreja, lado a lado. Loki se posicionou ao lado oposto, como um guardião imortal. As palmas ecoaram pela Duomo.
Marino e Lorenzo seguiram à frente, atentos. Agora não era mais só por mim. Agora... tínhamos ela. Minha esposa.
Bianca Altieri.