Na Prisão Wront, o calor de julho era tão intenso que dificultava a respiração.
No momento em que deixou a manga da blusa cair para cobrir a cicatriz evidente no seu braço, Maia Watson - antes conhecida como Maia Morgan - ouviu um agente penitenciário chamar: "Maia, alguém da família Morgan veio te buscar!"
Ao ouvir isso, a mão dela congelou no meio do movimento.
Ouvir "família Morgan" novamente foi como sentir um gosto amargo e familiar ao mesmo tempo.
Ela já foi filha da família Morgan, mas tudo desmoronou há quatro anos, quando a polícia bateu na porta deles e anunciou que havia encontrado a verdadeira filha de Richard e Sandra Morgan - Rosanna Morgan.
Num piscar de olhos, a identidade de Maia foi arrancada, e ela foi taxada de impostora e falsa.
Seus pais biológicos haviam morrido há muito tempo. Para manter as aparências, os Morgans fingiram aceitação, dizendo ao mundo que ainda consideravam Maia como parte da família.
Mas qualquer um que os tivesse observado por dezessete anos saberia que não era bem assim. Richard e Sandra sempre estiveram preocupados com seus empreendimentos comerciais, e Maia era mais uma convidada na casa deles do que uma filha.
Então, Rosanna voltou e, de repente, o mundo deles passou a girar em torno dela.
Depois, veio o incidente com a Joias Radiantes. Rosanna roubou uma joia valiosa e culpou Maia. Era uma armação óbvia, mas os Morgans não se importaram, acreditando em Rosanna sem questionar. Na verdade, eles até a ajudaram, fazendo acusações públicas com tanta facilidade que Maia não teve a menor chance.
A Joias Radiantes pertencia ao Grupo Cooper. Os Coopers não eram apenas poderosos, mas praticamente a realeza de Wront. Os Morgans não podiam arriscar ofendê-los, não por alguém que nem era filha biológica deles.
Então, eles retiraram o nome de Maia da família Morgan, informaram ao público que ela havia sido adotada por uma família pobre chamada Watsons e a mandaram para a prisão.
Ao se lembrar disso, Maia cerrou os punhos com tanta força que suas unhas cravaram na pele.
Ela sobreviveu a quatro anos atrás das grades por um crime que Rosanna cometeu, e agora, sua pena havia terminado. Finalmente, ela estava saindo..
..
Do lado de fora dos portões da prisão, a multidão de repórteres estava agitada e inquieta.
O calor se espalhava pelo ar, e a impaciência se mostrava em cada rosto.
Por fim, os portões maciços se abriram com um rangido.
Maia saiu sob a luz do sol, usando a mesma roupa simples que usava no dia em que foi presa.
No momento em que Sandra avistou Maia, seu rosto se iluminou como se ela tivesse acabado de encontrar uma filha perdida há muito tempo. Ela correu até lá, cercada por uma multidão de repórteres com microfones e câmeras.
Maia observou todo o espetáculo, quase revirando os olhos.
"Maia, minha querida filha, vim te levar para casa", disse Sandra, com a voz embargada enquanto as lágrimas brilhavam nos seus olhos.
Até alguns dos repórteres por perto não puderam deixar de murmurar com simpatia diante da cena emocionante.
Sem se abalar, Maia a encarou e disse friamente: "Você deve estar enganada, senhora Morgan. Não sou sua filha."
Ao ouvir isso, Sandra se enrijeceu onde estava, mas logo se recuperou e assumiu uma expressão de tristeza. "Como pode dizer isso, Maia? Fui eu quem te criou. Você morou na minha casa por mais de dez anos. Nunca deixei de te considerar minha filha."
Os lábios de Maia se curvaram num sorriso frio. "É mesmo? Então me diga uma coisa. Quatro anos atrás, quando você me incriminou e me expulsou, não me chamou de Watson? Você me deixou ir para a prisão sem pensar duas vezes. Deixei de ser sua filha no dia em que você me tirou da sua família."
Eles a incriminaram? Para completar, disseram que ela nem era uma Morgan, mas uma Watson?
As poucas palavras de Maia foram como uma bomba. Os repórteres trocaram olhares atônitos, e o caos se instalou quando eles avançaram, aproximando os microfones, ansiosos para captar cada palavra.
Com as câmeras apontadas para ela, Sandra não teve espaço para atacar, fazendo seu rosto se contrair, mas ela conteve a raiva que fervilhava dentro de si.
Nesse momento, uma voz cortou a comoção. "Maia! Que mentiras são essas que você está contando para todo mundo? A joia da Joias Radiantes foi encontrada na sua bolsa - você foi pega em flagrante! Como ousa dizer que foi incriminada? Você passou quatro anos atrás das grades, e mesmo assim viemos nesse calor para te buscar. E é assim que você nos agradece? Você parece alguém cuspindo na mão que um dia te alimentou!"
Jarrod Morgan foi quem falou - o filho mais velho de Sandra e Richard.
Maia sempre o considerou um irmão mais velho, mas quando a verdade foi distorcida contra ela, ele se voltou contra ela sem hesitar para defender Rosanna, chegando até a empurrá-la para o chão.
Ela caiu com força, e seu braço bateu na quina afiada de uma mesa, rasgando sua pele e deixando uma cicatriz que nunca desapareceu.
E aquela joia infame? Rosanna a colocou na bolsa de Maia enquanto ela lavava as mãos no banheiro.
Na época, Maia acreditava que Rosanna tinha boas intenções. Ela parecia simpática, honesta e ansiosa para fazer amizade.
Por isso, quando Rosanna se ofereceu para ajudar, Maia lhe entregou a bolsa sem pensar duas vezes.
A ideia de que alguém tão gentil e doce pudesse ter uma crueldade tão mesquinha nunca passou pela cabeça de Maia.
Isso porque Rosanna a via como uma ameaça. Com medo de que Maia pudesse se tornar mais querida na família Morgan, ela decidiu eliminá-la.
Foi nesse dia que os olhos de Maia se abriram para a verdade sobre a família Morgan.
Desde então, seu coração foi endurecido pela traição.
"Ela deve estar chateada comigo. Por isso está distorcendo tudo...", disse Rosanna, se agarrando a Jarrod com a voz trêmula enquanto seus cílios tremulavam pelos olhos marejados. "Maia, juro que não voltei para roubar seu lugar na família. Por favor, não me odeie por isso."
Lágrimas escorriam pelo seu rosto enquanto seu corpo esguio tremia.
Jarrod não suportava vê-la chorar, então a puxou para perto e disse: "Isso não é culpa sua, Rosanna. Maia roubou uma vida que era sua por direito durante dezessete anos. Ela é quem errou. Se ela não consegue admitir isso, talvez mais tempo atrás das grades a ensine."
"Já chega!", exclamou Sandra, lançando um olhar severo para ele e desviando os olhos para a imprensa que pairava por perto.
Com tantas câmeras filmando, ela não podia se dar ao luxo de perder o controle.
Diante da imprensa, ela rapidamente abriu um sorriso diplomático. "Já faz quatro anos que Maia mora com a gente. Ela ainda está se adaptando, e entendo seus sentimentos. Se ela reconhecer seus erros e mostrar alguma mudança, sempre fará parte da minha família."
'Parte da família dela?'
Maia soltou uma risada que não tinha nada de divertida. Arqueando uma sobrancelha, ela olhou nos olhos da mulher à sua frente. "Senhora Morgan, você não assinou a papelada que rompeu todos os laços entre nós? É isso? Está dizendo que quer que eu volte para sua família agora?"
O rosto de Sandra se obscureceu instantaneamente.
Naquela época, para cortar qualquer vínculo com Maia, os Morgan a forçaram a assinar um documento de rescisão - com um representante do Grupo Cooper como testemunha, apenas para limpar o nome deles de qualquer acusação futura.
Foi um ato de desespero, não de dignidade.
De repente, um enxame de repórteres se aproximou, apontando microfones para Sandra. "Senhora Morgan, isso é verdade? Você disse uma vez que não abandonaria Maia, que ela ainda era sua filha mesmo depois de se reencontrar com sua filha biológica."
Tentando manter a compostura, Sandra esboçou um sorriso que mal se sustentava. "Isso... não é verdade. Claro que não."
Com um sorriso malicioso, Maia disse: "Então, senhora Morgan, você tem coragem de ligar para alguém do Grupo Cooper e descobrir se esse documento de rescisão existe ou não?"
"Maia, não exagere! As pessoas do Grupo Cooper não são quem podemos chamar à vontade!" Jarrod gritou, com a raiva crescendo enquanto observava de longe.
Maia arqueou uma sobrancelha e olhou para ele. "Então você está admitindo que não vai ligar para eles?"
Jarrod ficou sem palavras.
A imagem que eles haviam se esforçado tanto para manter estava começando a desmoronar, e Sandra se apressou em usar a carta da simpatia. Seu corpo estremeceu com uma tosse súbita, alta e dramática.
Rosanna, percebendo a situação, correu até a mãe e esfregou suas costas em movimentos suaves. "Mãe, o que há de errado? Você está bem?"
Em seguida, seu olhar se desviou para Maia, carregado de uma mágoa exagerada. "Ela está preocupada desde que você foi presa. Ela chora todas as noites, Maia. O médico nos avisou que a saúde dela está piorando. E se você ainda se importa - mesmo que seja um pouco - com tudo o que ela fez por você durante seu crescimento, não dificulte as coisas. Só volte para casa com a gente."
Maia ficou enojada com a atitude pretensiosa de Rosanna.
Voltar para casa com eles? Essas palavras costumavam lhe trazer conforto, mas agora não significavam mais nada.
A última coisa que ela queria era se envolver com eles novamente.
A determinação em seu rosto era inconfundível. "A garota que vocês conheciam morreu há quatro anos. E os Morgan foram os responsáveis por enterrá-la", Maia falou, então atravessou a multidão e foi embora sem olhar para trás.
Assim que ela se foi, Sandra caiu no chão, fazendo um show de soluços como se seu coração tivesse acabado de se partir.
Com um suspiro dramático, ela desmaiou.
O pânico se instalou instantaneamente, com suspiros e gritos ecoando no local.
Sem perder tempo, Jarrod pegou Sandra nos braços, enquanto Rosanna o seguia de perto.
Assim que as portas do carro se fecharam e as câmeras já não os alcançavam, os olhos de Sandra se abriram e ela se endireitou sem qualquer esforço.
Se ela não tivesse fingido esse desmaio, tudo poderia ter se desvendado sem solução.
Na sua mente, toda essa confusão se devia a uma única pessoa: Maia.
Eles haviam ido à prisão, num esforço público para recebê-la de volta com dignidade. E como ela respondeu? Arrastando o nome da família Morgan na lama diante de uma multidão.
Não havia um pingo de gratidão nessa garota.
"Ela é revoltante! Demos tudo a ela e ela se volta contra nós assim!", Jarrod praguejou, apertando o volante com força.
O calor no rosto de Sandra desapareceu, substituído por um frio repentino nos seus olhos.
Uma risada amarga escapou dos seus lábios. "Sem dinheiro, com antecedentes criminais que a perseguem como uma sombra... ela não tem nada em seu nome. Sem nós, ela está acabada. Não há dúvida de que Maia voltará - e quando ela voltar, terei mais do que o suficiente para lidar com ela!".
..
Naquela tarde, Maia estava sozinha em frente à Prefeitura em Wront, com alguns documentos necessários para o registro do casamento em sua bolsa.
Ainda havia tempo antes do seu compromisso, então ela se recostou casualmente numa árvore, com os olhos baixos e os pensamentos longe do presente.
Quando ela entrou na prisão pela primeira vez, há quatro anos, o tormento parecia implacável, gravado em cada canto da sua memória.
Certa noite, quando estava à beira da morte após ser espancada, alguém interveio para salvá-la.
Não era uma guarda, mas uma mulher - uma detenta com mais influência do que qualquer outra. Sua cela parecia mais uma suíte privativa, e até os agentes penitenciários ficavam fora do seu caminho.
A maioria dos detentos a temia e se mantinha longe do seu caminho.
Mas, por alguma razão, ela se interessou por Maia. Ela ofereceu proteção, porém com uma condição. Se Maia quisesse essa segurança, teria que aceitar um acordo de casamento e realizar uma tarefa depois.
Naquela época, presa num pesadelo sem saída, Maia não teve como recusar. Afinal, a sobrevivência exigia sacrifício.
Sem hesitar, ela aceitou o acordo e prometeu lealdade à mulher que a salvou.
Cumprir essa promessa se tornou sua principal prioridade agora que estava livre, e isso significava cumprir o acordo de casamento que havia aceitado na prisão.
Não muito longe dali, um Rolls-Royce Phantom alongado estava estacionado na sombra.
"É esta a mulher que sua tia escolheu para o senhor se casar?", perguntou Brad Curtis, assistente de Chris Cooper.
A visão pela janela do carro revelava uma mulher com os olhos baixos e um corpo esbelto.
Usando uma camisa branca simples e jeans de cintura baixa, ela se movia com leveza. Quando ela se esticava, sua cintura fina aparecia por um momento.
Havia uma ousadia no seu silêncio, uma ponta de rebeldia que não pedia aprovação.
Por mais bonita que ela fosse, seu passado carregava antecedentes criminais que não podiam ser ignorados.
Brad não conseguia entender por que Zoey Cooper havia insistido nesse casamento. O que ela poderia ver numa mulher que havia cumprido pena?
Mais intrigante ainda era o fato de Chris não ter se oposto.
Reclinado no banco de trás, Chris apoiou o braço com uma confiança descontraída, sua manga arregaçada exibindo um antebraço bem definido.
Seus olhos, ligeiramente semicerrados, se fixaram na cintura exposta da mulher, e um brilho divertido surgiu em seu rosto.
Sem dizer uma palavra, ele abriu a porta do carro e saiu.
"Você é a senhorita Maia Watson?"
Maia se virou ao ouvir alguém chamá-la.
Pega de surpresa, ela ficou parada por um momento.
Um homem com uma camisa preta justa estava diante dela, alto o suficiente para bloquear o sol do seu rosto.
Ele parecia irreal, bonito a ponto de fazê-la parar para observá-lo. Cada traço era impecável, como se tivesse sido esculpido.
Será que esse era o filho ilegítimo da família Cooper que Zoey havia mencionado? Aquele com má reputação e uma série de rumores imprudentes o acompanhando?
Um lampejo de desconforto percorreu o peito de Maia. "Você é... o senhor Chris Cooper?", ela perguntou, incerta.
Em resposta, ele lhe deu um leve aceno de cabeça.
Os olhos dela se desviaram para ele, observando cada detalhe. Suas roupas eram simples, mas algo refinado o envolvia. Um sorriso sutil pairava nos seus lábios, mas nunca chegava aos olhos, deixando mistério suficiente para despertar a curiosidade dela.
"Você está me encarando há um tempo, senhorita Watson", disse Chris, soltando uma risada suave.
Saindo do transe, Maia virou a cabeça rapidamente, percebendo o quão óbvia ela havia sido.
"Desculpe... devemos entrar?", ela perguntou, tentando se recompor.
Juntos, eles entraram na Prefeitura. Quando saíram, uma certidão de casamento estava na mão de Chris.
"Vou cumprir minha parte do acordo, senhor Cooper. "Assim que o pedido de Zoey for atendido, não ficarei por perto. Pedirei o divórcio logo depois", disse Maia.
Sentimentos não faziam parte do acordo, e ela não estava iludida. A maioria dos homens não aceitaria passar a vida com alguém que tivesse antecedentes criminais.
Chris inclinou a cabeça, lançando um olhar para ela. Seus cabelos escuros balançavam com a brisa e, embora seu rosto fosse marcante, havia algo claro e honesto nos seus olhos.
Ao invés de respondê-la, ele perguntou: "Minha tia está bem lá dentro?"
Pega de surpresa pela mudança de assunto, Maia respondeu rapidamente: "Ela está bem. Nada de ruim aconteceu com ela."
Após uma breve pausa, ela cerrou os lábios.
Na verdade, Zoey não só sobreviveu na prisão, como prosperou.
Era praticamente sua zona de conforto.
"Fico feliz em saber." Chris não perguntou mais nada. Enfiando a mão no bolso, ele tirou um cartão de crédito elegante e o entregou a ela. "Aqui. Um pequeno presente para te receber."
Maia balançou a cabeça, com as mãos erguidas em protesto. "Não precisa. Tenho meu próprio dinheiro."
Era verdade que eles estavam casados legalmente, mas ainda era o primeiro dia em que se encontravam. E, pelo que Zoey havia contado, Chris poderia ter o sobrenome Cooper, mas era tratado como um estranho. Sua posição na família e no Grupo Cooper era praticamente inexistente.
Pelo que ela ouvira, ele não tinha um cargo importante e passava a maior parte dos dias vagando sem rumo.
Ela imaginou que ele provavelmente não tinha muito dinheiro guardado também, e a ideia de aceitar qualquer coisa dele a deixou desconfortável.
Mesmo assim, Chris não hesitou. Pegando a mão dela, ele colocou o cartão firmemente na palma da sua mão e não a soltou.
Seus olhos se fixaram nos dela - frios, enigmáticos e impossíveis de decifrar.
"Acabamos de registrar o casamento, o que tecnicamente me torna seu marido agora. Isso te dá todo o direito de usar meu dinheiro. Ou será que está recusando porque não está pronta para admitir que sou seu marido?"
Ouvir essa palavra - marido - fez um leve rubor percorrer as feições compostas de Maia.
"Não estou dizendo isso...", ela começou, tentando se explicar, mas sua voz se esvaiu antes que ela pudesse encontrar as palavras certas.
Sem dizer mais nada, ela pegou o cartão e lhe agradeceu educadamente.
Vendo que ela cedeu, Chris abriu um sorriso de aprovação. "Então, para onde está indo? Posso te dar uma carona."
Nesse momento, um peso se instalou no peito de Maia. Seu plano era voltar para a casa da família Morgan.
Não era a casa que ela se importava, mas a pulseira - o último presente que sua avó, Vicki Morgan, lhe dera.
Quando Richard e Sandra a tratavam como se ela não fosse nada, Vicki era a única constante. Ela ensinou Maia tudo, desde as boas maneiras à mesa até como se manter firme em meio à multidão.
Embora não houvesse laços de sangue entre elas, o amor de Vicki era tão real quanto o de qualquer avó.
Maia sabia, sem dúvida alguma, que se Vicki ainda estivesse viva, a defenderia com todas as suas forças.
Esse pensamento trouxe uma dor silenciosa que Maia não demonstrou.
Afastando o pensamento, ela abriu um sorriso calmo para Chris. "Tenho algo para resolver, senhor Cooper. Posso ir sozinha."
"Sem problemas. É só ligar se precisar de alguma coisa."
Após lhe passar seu número, ele ficou para trás enquanto ela se afastava.
Quando a silhueta dela finalmente desapareceu na esquina, ele olhou para a certidão de casamento que ainda estava na sua mão. Um sorriso conhecedor curvou seus lábios.
Divórcio? Isso não iria acontecer.
Ninguém poderia imaginar há quanto tempo ele esperava por esse momento.
Maia estava do lado de fora de Villas Vista, com o dedo pressionando a campainha da propriedade Morgan.
Ela havia escolhido esse horário com cuidado, pois se lembrava de que as tardes costumavam ser tranquilas, com cada membro da família ocupado em suas próprias distrações.
Quando a porta se abriu, era Tricia Scott, a governanta de longa data. Seus olhos se arregalaram ao vê-la. "É você mesmo, senhorita Morgan? Eu... não acredito que você está aqui!"
Assim que as palavras saíram, Tricia cobriu a boca com a mão, arrependendo-se instantaneamente.
Agora, o título pertencia a Rosanna. Para os Morgans, Maia não existia mais.
E se Rosanna ouvisse como Tricia havia falado com Maia, as consequências seriam brutais.
Com um tom calmo e comedido, Maia disse: "Só vim buscar algumas das minhas coisas." Ela entrou como se nunca tivesse saído.
Como esperava, o lugar estava vazio, e a sensação era assustadora. Nenhuma voz, nenhum passo.
Enquanto subia as escadas, Tricia correu atrás dela, aflita. "Senhorita... uh, Maia, o que exatamente está procurando? Posso te ajudar a procurar."
"Está tudo bem, Tricia. Tudo o que preciso deve estar no meu quarto. Não vou demorar."
Mas, antes que ela pudesse dar mais um passo, Tricia bloqueou seu caminho. Seu olhar se desviava para todos os lados, menos para o rosto de Maia. "Bom, hum... sobre isso..."
Diante das palavras hesitantes da governanta, uma ruga se formou na testa de Maia. Ela sentiu que algo não estava certo, e sua voz perdeu a calma ao perguntar: "Tricia, o que aconteceu?"
Com os ombros caídos, Tricia finalmente cedeu, soltando um suspiro cansado. "A senhorita Morgan jogou tudo fora depois que você foi presa. E seu antigo quarto... não é mais seu. Agora é só um depósito."
Maia congelou, seus olhos se arregalando enquanto a descrença se instalava. "Tudo?" Então a pulseira que Vicki havia lhe dado também foi jogada fora?
Um aceno lento e pesaroso de Tricia confirmou o que Maia temia.
A verdade a atingiu com força, repentina e brutal, como um raio.
Alguém como Rosanna não teria coragem de jogar suas coisas fora, a menos que Richard e Sandra também estivessem envolvidos.
Tremendo da cabeça aos pés, Maia cerrou os punhos com força.
Essa pulseira foi o último presente que Vicki lhe deu, um símbolo de amor numa casa que não lhe oferecia nada.
A raiva crescia dentro dela, feroz e incontrolável.
Ela havia tentado se afastar da família Morgan, deixar o passado enterrado, mas agora toda essa raiva estava voltando com força total.
Uma voz que ela não sentia a menor falta ecoou pela sala. "Eu sabia que você daria as caras novamente, Maia!"
Ao se virar, Maia encontrou Jarrod, parado a uma curta distância, com o mesmo sorriso presunçoso estampado no rosto.
Rosanna estava ao lado de Sandra, segurando seu braço como se estivesse interpretando a filha obediente para as câmeras que ninguém podia ver.
Percebendo a tensão, Tricia saiu da sala sem dizer mais nada.
Jarrod se aproximou, ficando ligeiramente acima de Maia enquanto a olhava com um desprezo arrogante.
"Você foi bem ousada lá fora da prisão esta manhã. Qual é o problema agora? Entrando escondida assim? Deixe-me adivinhar. Com um histórico como o seu, ninguém vai te contratar, então você veio rastejando de volta. Somos os únicos dispostos a te dar uma chance, não somos?"
Com uma sobrancelha arqueada e uma voz cheia de sarcasmo, ele continuou: "Aqui vai uma ideia: admita tudo agora. Faça um pedido de desculpas público à família Morgan, e talvez te deixemos ficar por pena. Justo, não acha?"
Jarrod estava fervendo de raiva desde aquela manhã.
A façanha que Maia fez com a imprensa prejudicou o nome dos Morgans e, embora não tivesse reagido na hora, estava cansado de se conter.
Agora que ela havia entrado na casa deles, ele pretendia acabar com qualquer rebeldia que ela ainda tivesse da prisão.
Colocar Maia no seu devido lugar já estava mais do que na hora e, agora que ela havia voltado para casa, Jarrod acreditava que era seu direito corrigi-la.
Um pedido de desculpas, um novo começo e manter distância de Rosanna - isso era tudo o que ele precisava para considerar deixar Maia voltar para a família.
O custo de mantê-la por perto mal afetaria as finanças dos Morgans. Alimentá-la e oferecer abrigo não era diferente de jogar fora algumas moedas.
Mesmo assim, até os aproveitadores costumavam ter o bom senso de serem educados. Um pouco de humildade não era demais para se esperar, mas Maia agia como se o mundo lhe devesse algo.
Essa atitude fez o sangue dele ferver.
Quando Maia deu um passo à frente, Jarrod arqueou uma sobrancelha e cruzou os braços, esperando que ela parasse e implorasse por perdão.
No entanto, ela passou por ele sem sequer olhar, indo em direção a Rosanna.
Nesse momento, a arrogância dele desapareceu.
Por outro lado, Rosanna foi a pessoa que Maia insultou publicamente. Talvez essa fosse a maneira dela de consertar as coisas.
Mas o que saiu da boca de Maia em seguida destruiu essa suposição. "Onde estão minhas coisas, Rosanna?"
Rosanna se enrijeceu no lugar. Um lampejo de surpresa passou pelos seus olhos antes de ela assumir um olhar de pura inocência. "Que coisas? Maia, não faço ideia do que está falando."
Um fogo frio e cortante iluminou os olhos de Maia.
Seu olhar se fixou em Rosanna como uma lâmina, e seu tom era neutro, desprovido de emoção. "Esta é a última vez que vou perguntar. Onde você colocou tudo o que estava no meu quarto?"
Instantaneamente, o rosto de Rosanna se contorceu numa expressão lamentável, e lágrimas começaram a escorrer pelo seu rosto. "Não fiz por mal, Maia. Eu só... achei que elas iriam estragar se eu as deixasse lá por muito tempo. Pensei em substituí-las quando você voltasse, então eu..."
Antes que ela pudesse terminar, um tapa forte ecoou pela sala, cortando o ar como um relâmpago.