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Razões para não te amar

Razões para não te amar

Autor:: Josy Ribeiro
Gênero: Romance
Após a morte de seus pais Elisa foi obrigada a se casar para pagar uma dívida com os Valença. O então marido, Manuel, não consegue disfarçar nem um pouco seu asco por ela e nem por qualquer outra mulher, a tratando mal, de forma violenta e agressiva. Quando tudo parecia perdido, Elisa, se apaixona perdidamente pelo Valença errado, Fernando, um homem completamente oposto do irmão, cavalheiro, doce e gentil. Nascendo assim um sentimento puro e perfeito, porém extremamente proibido. Quando há razões para não se amar, entretanto, a paixão é mais forte.

Capítulo 1 1

Recado da autora:

Olá, fico feliz em tê-lo (a) aqui para embarcar em mais uma emocionante história.

Preciso que saiba de algumas questões antes de começar a leitura.

⚜️ Esta se trata de uma história de ficção, os personagens e nomes, são inventados, qualquer semelhança com a realidade é coincidência.

⚜️Estarei usando da liberdade poética para escrever cenários, personagens e ambientação, talvez fuja do contexto real histórico do ano de 1810.

⚜️Este livros é de autoria minha Josiane Ribeiro, não copie, ou publique sem a minha autorização. Plágio é crime.

⚜️Sou viciada em ler comentários, então não os poupe❤️

No mais, boa leitura...

⚜️⚜️⚜️

POR VOLTA DE 1810...

- Preciso... falar com... minha filha... - lamentou João Alvares Carvalho com bastante dificuldade. O homem estava num estágio avançado de uma doença desconhecida e misteriosa.

- Sua filha não pode se aproximar, ninguém de sua família, senhor João, pode ser muito perigoso - afirmou o doutor, pela quarta ou quinta vez naquele dia, desde que João insistira em falar com a filha. Ele parecia pressentir que estava morrendo, pois a aflição do homem tão fraco e esquelético sobre a cama era intensa.

A filha, que aguardava ao lado de fora nos braços de sua mãe, estava muito angustiada. Elisa temia que aqueles fossem os últimos minutos de vida de seu pai e desejava ansiosamente estar ao seu lado.

O vento balançava as frestas das janelas, anunciando uma forte tempestade. Era uma noite assustadora, e toda a angústia presenciada naquela casa anunciava que o pior estava por vir.

Após momentos terríveis de espera, Elisa e a mãe ouviram gritos vindo de dentro do quarto. A dor que queimava ambas era muito grande, ouvir a voz de João junto à voz do médico que tentava inutilmente acalmá-lo não as deixava pensar com clareza.

- Senhor João, não pode ficar agitado desta forma.

E o homem doente tossia por várias vezes e praticamente sem ar, ele se esforçava de uma forma descomunal, chamando pela filha.

- Pelo amor... de Deus... Preciso... Falar... Com ela... Elisa!...

De dentro, a porta se abriu de repente e com força, o som do rangido da madeira soou forte. Uma jovem de cabelos castanhos, pele clara e bem vestida entrou no quarto seguida pelos gritos da mãe, Teresa, que implorava para que a menina não se aproximasse do pai.

Porém, a falta de coragem da mulher mais velha ou talvez a forte emoção por ver o estado do marido, a fez ficar paralisada no mesmo lugar.

- Elisa, minha filha, pelo amor de Deus, a doença de seu pai pode ser contagiosa – gritou de onde estava em lágrimas.

Mas a jovem não se importava. Seu sofrimento com a possibilidade de nunca mais ver o pai era maior naquele momento. Havia ficado três meses impedida de vê-lo desde que os primeiros sintomas da doença surgiram. Ela sentia muita falta do pai. João sempre fora um homem carinhoso, dedicado, e mesmo depois da falência da família, das perdas financeiras, ele nunca deixou de lhes dar a devida atenção.

Então, Teresa respirou fundo e se aproximou também. De perto, as duas ficaram em choque ao ver o quanto ele estava magro e fraco, nem de longe se parecia com o homem forte que andava para todos os lados, administrando as coisas da casa e da família. Elisa e sua mãe caíram em lágrimas no quarto. O doutor parecia insatisfeito com a presença de ambas por causa do perigo da contaminação, lhes havia comunicado por diversas vezes, ele usava algum tipo de roupa especial que lhe cobria o corpo.

A mulher mais velha, de cabelos negros em um penteado simples, ficou parada mais uma vez, quase sem forças. Já a moça se ajoelhou aos pés da cama em soluços e mais lágrimas. Devagar, ela segurou a mão do pai e deixou ali um beijo carinhoso, pois, no fundo, Elisa sabia que seria o último.

- Papai, estou aqui. Não se esforce.

João a olhou aflito, talvez por temer que a filha estivesse exposta à doença, ou talvez o único motivo de tratar da necessidade que ele tinha em dizer algo à moça.

Com sua voz ainda mais fraca do que antes, João balbuciou:

- Ah... Elisa...- mas o restante da frase simplesmente não saiu. O homem virou para o lado a fim de tossir.

Elisa chorou com mais força, era muito triste ver seu pai terminar assim. Logo ele, sempre tão forte, andando pela fazenda, dando ordens aos criados, resolvendo tantos assuntos administrativos e que sempre sobrava tempo e amor para cuidar da esposa e dos filhos, ela e Joaquim, seu irmão que servia no exército e do qual não tinham notícias há mais de seis meses, outra angústia que os assolava, uma possível morte em combate do rapaz. Talvez esse também fosse um outro motivo aparentemente que tenha deixado João tão frágil a ponto de a doença lhe tomar tão depressa.

- Papai... Eu te amo tanto...

Quando a crise de tosse cessou por um instante. João se virou para a filha com os olhos semicerrados pela fraqueza. Sua pele pálida estava mais branca que o normal, em torno de seus olhos uma grande marca escura demonstrava seu cansaço por tanto esforço.

- Filha minha... Me perdoe...

Os olhos de pai e filha derramaram lágrimas de dor.

- Não tenho que lhe perdoar, papai, você foi o melhor pai que qualquer filha poderia ter.

Ele se agitou e, por isso, a tosse lhe acometia com mais violência, sendo necessária a intervenção do doutor.

- João, chega, pare de se esforçar.

Mas João estava decidido, ainda precisava dizer algo à filha. Fez um gesto reprimindo o doutor e novamente se virou para Elisa.

- Eu fiz algo... Para você... Elisa... pensei que fosse o melhor... Me perdoe...

Elisa não fazia ideia do que fosse, mas conhecia bem o pai e sabia que ele não seria capaz de fazer mal a nenhuma mosca, principalmente se tratando dela, sua filha caçula. Então, a fim de deixá-lo mais calmo, se mostrou compreensiva:

- Eu te perdoo, papai, agora fique calmo.

Entretanto, o homem não se aquietou. João continuava insistindo nas mesmas palavras.

- Me perdoe... Elisa...

Teresa finalmente conseguiu forças e se aproximou. Os olhos do casal se encontraram de uma forma especial, diferente dos matrimônios da época, frios e convenientes. Ali havia amor verdadeiro e... dor... porque era nítido que se tratava do fim.

A angústia do homem foi crescendo de tamanha forma que as palavras não saíam mais, ele não conseguia respirar. João agarrou a manga do vestido de renda que Tereza usava. A mulher já não se importava mais com a doença, deitou seu rosto sobre o dele e chorou com toda a sua força.

- João...

O vento soprou com mais força ao lado de fora, provocando um som assustador.

O homem foi desfalecendo devagar sobre o pranto de sua família, o doutor já não conseguia conter nenhuma das duas. E lentamente o corpo de João foi perdendo completamente os movimentos, a tosse cessou, restando apenas um som angustiante de um pouco de ar restante saindo de sua boca. Devagar, seu corpo parou de se mover e um silêncio pairou sobre o quarto.

Ele havia partido.

Capítulo 2 2

Dias se passaram após a morte do pai de Elisa e lá estava ela novamente usando seu vestido preto, sobre mais lágrimas e angústia. Sua mãe não havia suportado a dor da perda de João e supostamente do filho Joaquim. Teresa esteve mal nos dias que se seguiram, a mulher não saía mais da cama e recusava se alimentar, ficando fraca, e tanta tristeza a sufocou, a ponto de seu coração não aguentar.

Sofrendo com sua perda, Elisa terminava de se despedir dos conhecidos que haviam estado no funeral. A maioria se tratava apenas de curiosos, ela sabia que todos faziam conversas sobre o quanto desamparada estava, afinal se tratava apenas de uma jovem de vinte anos, solteira e sem família. Muitos estavam certos de que ela cairia na vida fácil, já que rondava outro boato de que o grande fazendeiro João Álvares havia deixado apenas dívidas, e esta parte Elisa sabia muito bem que não eram apenas mexericos. Ela e sua mãe ficaram assustadas com a quantidade de promissórias que haviam encontrado no escritório do pai após sua morte.

Entre todas as pessoas ali presentes, havia um casal do qual Elisa nunca tinha visto antes, o que também levantou certas conversas entre o povoado. Tratava-se de pessoas muito bem vestidas, o homem tinha os cabelos médios levemente encaracolados sob a cartola, olhos escuros e uma barba impecável, além de uma expressão fria e séria. A mulher não era muito diferente, tinha aparência de ter a idade para ser sua mãe, uma senhora de chapéu elegante e um vestido caro, além das joias exuberantes.

Mesmo curiosa, Elisa não tinha forças para se aproximar, ainda estava presa em tanta dor pelo luto dos pais, era uma dor profunda e devastadora, talvez nunca passasse.

A voz do padre Pedro sobre seus ouvidos a tirou do transe:

- Minha filha, vá para casa e descanse um pouco, você parece exausta.

Ele, que era a única referência de família que lhe havia restado, a amparava com carinho. O padre Pedro era primo de segundo grau de sua mãe, e agora, Elisa sabia que ele se sentia responsável por ela de alguma forma. Porém, tinha suas obrigações com a igreja e já não era tão jovem assim para assumir tanta responsabilidade.

- Ai, padre, aquela casa... Tudo ali me lembra... Minha família.

Ela suspirou fundo ao lado do padre.

As pessoas saíam para fora e, aos poucos, a igreja ficava vazia... Então, Elisa fitou o casal misterioso com mais clareza, naquele instante eles pareciam se aproximar, algo dentro dela lhe dizia que não iria gostar do que eles tinham a dizer, seja lá o que fosse.

- Boa tarde, Elisa. Gostaríamos de prestar nossas condolências - a mulher foi a primeira a falar.

Como havia recebido uma boa educação, Elisa correspondeu ao cumprimento, estendendo com um gesto de cabeça. A mulher continuou:

- Você é ainda mais bonita do que seu pai a descreveu.

A forma como a mulher lhe analisava deixou Elisa desconcertada.

- Obrigada, senhora. E... A senhora conhecia meu pai?

- Sim, eu e meu filho... Ora, acho melhor nos apresentarmos.

Imediatamente, o homem deu um passo à frente, interrompendo a mãe como se toda aquela formalidade fosse dispensável.

- Sou Manuel Valença, e esta é minha mãe, Edna Valença.

Ele estendeu-lhe a mão e Elisa ainda demorou para tocá-la e sentiu que tinha algo muito estranho com os dois à sua frente.

Percebendo o desconforto, o padre Pedro foi logo tentando ajudar.

- Me desculpem, mas Elisa está exausta, ela precisa se retirar para descansar.

Naquele instante, Elisa agradeceu mentalmente ao padre por ajudá-la.

- Não vamos demorar, na verdade, também desejo partir logo. Só vim buscar o que me pertence.

Elisa estreitou os ombros, inquieta, e olhou para o padre, que devolveu o olhar, ambos estavam confusos.

A mulher pigarreou ao notar o clima que se instalou.

- Desculpem o meu filho, paciência não é muito o forte dele - falou, esboçando um falso sorriso.

Manuel bufou, irritado com a intromissão da mãe, mas a deixou falar.

- Acho que podíamos tomar uma água, assim podemos conversar com tranquilidade, afinal está bem quente o clima hoje.

A mulher abriu seu leque e o balançou a fim de se refrescar.

Elisa estava começando a se irritar com as duas figuras à sua frente, afinal, que tipo de pessoas eles eram por não respeitar seu momento de luto e serem tão inconvenientes? Respirou fundo e tentou ser o mais educada possível.

- Olha, me perdoem, mas estou muito indisposta. Se quiserem conversar comigo, podemos marcar um outro dia...

- Não, senhorita - Manuel interrompeu, mais irritado que antes.- Tenho um negócio no qual preciso tratar o mais rápido possível.

Ainda mais desconfortável com a indelicadeza do homem, Elisa respirou fundo.

- Cavalheiro, seja qual for o motivo que os trouxe aqui, infelizmente não poderei tratá-lo neste momento. Desculpe minha indelicadeza, mas preciso me retirar.

Decidida, Elisa se virou de costas para sair. De repente, ela sentiu um mal estar, como se o casal ali presente não lhe trouxesse nada de bom, mas se manteve firme até ouvir o que viria a seguir:

- A senhorita terá que se casar comigo - a voz do homem saiu em tom exageradamente autoritário.

Elisa parou no exato momento, sentindo cada parte do seu corpo paralisar.

Ela engoliu seco e olhou para o padre em desespero, como se aquelas palavras fossem uma loucura.

A mulher, que se apresentou como Edna, novamente se manifestou na tentativa de amenizar as coisas:

- Então... O que vocês acham de, além de tomarmos uma água bem fresquinha, nos servirmos um suco também?

*

Elisa não tinha outra alternativa que não fosse levá-los até a casa do padre, que ofereceu de bom grado. O clima não era dos melhores, havia um silêncio torturante enquanto aguardavam as bebidas. Era nítido que o tal Manuel não estava com muita paciência, ele balançava os pés enquanto Edna sacudia o leque com uma intensidade exagerada enquanto reclamava do calor pela terceira vez seguida.

Um servo lhes serviu as bebidas.

- Queria algo mais forte - resmungou Manuel, carrancudo.

Edna lhe repreendeu:

- Você está na casa de um sacerdote, se comporte!

Ele, no entanto, revirou os olhos como se não se importasse.

Enquanto isso, as palavras daquele homem ainda gritavam na cabeça de Elisa : A senhorita terá que se casar comigo!

Aquilo não poderia ser possível.

Edna bebeu um gole insignificante de sua bebida, demonstrando que a ideia de beber água havia sido apenas uma desculpa, enquanto Manuel nem havia tocado no copo.

Ao perceber que Elisa estava à beira de um colapso nervoso, o padre tentou ajudá-la a resolver aquele engano e liberar a jovem para descansar.

- Então, acho que devíamos ouvir o que vocês têm a dizer à Elisa para que ela possa se retirar e descansar.

Manuel, apressado, foi logo dizendo:

- Eu já disse tudo. Senhorita Elisa, você terá que se casar comigo.

O padre ainda argumentou:

- Deve estar havendo algum engano...

- Não há engano algum. Eu tenho alguns documentos como prova do que digo. O senhor João Álvares devia à minha família uma quantia considerável em dinheiro, então fizemos um acordo com ele: se não quitasse a tempo a dívida, sua fazenda e a mão de sua filha seriam minhas. Então, eu vim com essa finalidade, para me apropriar do que é meu.

Elisa ficou trêmula diante das palavras de Manuel, sentiu seu corpo fraco e se sentou rapidamente.

- Isto é... Uma loucura... Não é possível - o padre quase gritou.

- Talvez você tenha se confundido... Eu...- Elisa tentou achar alguma explicação, mas acabou se perdendo nas palavras.

Edna levantou e colocou seu copo na bandeja.

- Não, querida. Meu filho está certo, e já consultamos um juiz, trouxemos toda a documentação necessária. A fazenda Álvares nos pertence, e como ainda restam muitas dívidas, você deverá se casar com meu filho. E não se preocupe, você terá uma vida digna de uma rainha, se sinta lisonjeada com esta oportunidade que seu pai lhe deixou, afinal, você não tem mais ninguém e só lhe restariam uma fazenda que, acredito eu, está em ruínas, e muitas dívidas. Seu pai pensou em garantir o seu futuro. Você tem sorte, menina!

A animação no final da frase da mulher deixou Elisa ainda mais perdida, aquelas eram muitas emoções para apenas um dia, na verdade, tinha enterrado os pais há pouco, não tinha notícias do irmão, e agora mais essa.

- Me perdoem, mas preciso falar com o meu primo em particular - Elisa falou ainda trêmula enquanto olhava para o padre.

O casal pareceu inquieto, como se desejassem acabar com aquilo logo, no entanto, não se opuseram.

- Mas é claro - a mulher falou enquanto se abanava por causa do calor.

O tal Manuel parecia irritado, mas não se manifestou.

Ali, a sós com o padre, Elisa desabou em mais lágrimas.

- Isto é um absurdo...

- Acalme-se, minha filha.

Ela fungou enquanto se sentava na cadeira ao lado, sendo amparada com ternura pelo único parente que lhe sobrara.

- Elisa, vamos procurar um escrivão, talvez haja algo que possamos fazer.

Aquilo acendeu uma chama de esperança. Elisa limpou os olhos com as costas das mãos.

- O senhor acha que há esperança?- perguntou enquanto segurava as mãos do padre já marcadas pela idade.

- Tenha fé, menina, acredito que tudo nesta vida tenha um propósito maior. Agora se recomponha e vamos ao cartório.

Ela apenas engoliu seco, perdida em um emaranhado de dúvidas. Tinha muita fé, entretanto, ela travava uma batalha contra um mau presságio que a assombrava.

Capítulo 3 3

O escrivão confirmou a autenticidade do documento, aquilo deixou Elisa devastada. Sentia-se sentenciada por algum crime não cometido. Apenas pôde ir até sua casa e buscar um vestido que não fosse de luto. O casamento aconteceria ali naquele mesmo dia. Era isso ou ir presa pelas altas dívidas acumuladas por seu pai, e a família Valença não estava de brincadeira quando prometeu fazê-lo se não aceitasse.

Como qualquer jovem da sua idade, Elisa sonhava em ter um casamento incrível, com doces caseiros servidos e feitos em sua casa, escolhidos com muito carinho por ela e sua mãe. Um vestido bordado com pedras e rendas escolhidas a dedo, flores colhidas nos seus próprios jardins. Mas seu sonho havia se tornado um grande pesadelo, e subir ao altar com um desconhecido, tendo apenas a mãe dele como testemunha, foi tudo o que lhe restou. Então se casou, uniu-se em matrimônio a um completo estranho. Elisa desejava desesperadamente que tudo isso se tratasse de um pesadelo.

A viagem até a cidade de Serrana era longa e exaustiva, pelo menos não havia restado tempo para uma possível lua de mel, Elisa agradeceu por poder adiar esta parte, não entendia muito sobre o assunto, mas o suficiente para saber que era algo íntimo e invasivo, pois tinha visto como os animais da fazenda faziam para procriar, e sua mãe havia lhe dito que era bem parecido com os seres humanos, principalmente em núpcias, aquilo lhe apavorou, mas ela não entrou em detalhes, disse que quando chegasse o momento em que ela se casasse, ambas teriam uma conversa sobre tal assunto, apenas lhe adiantou que não haveria motivos para temer, pois um bom marido, era paciente e carinhoso, e que mesmo sendo um pouco doloroso para ela, se tratava do momento em que se tornaria uma mulher. Levando em consideração a frieza e arrogância de seu então marido, Manuel, Elisa tinha plena certeza de que não haveria paciência nem muito menos carinho, o que a deixava ainda mais temerosa a cada instante, sabendo que certamente lhe restaria apenas a dor.

Felizmente, Elisa fora acomodada em uma carruagem separada, não teve que enfrentar as oito horas ao lado daqueles dois seres tão frios, que lhe conheciam apenas há um dia, mas era o suficiente para carregar sentimentos nada bons, afinal, a mulher havia lhe obrigado a se prender a um casamento sem lógica alguma com seu filho, e Elisa não entendia o verdadeiro motivo pelo qual Manuel fazia tanta questão do matrimônio, já que lhe tratava com tanto desprezo, como se ela fosse apenas uma mercadoria, entretanto, era assim mesmo que ela se sentia, como uma propriedade recém-adquirida.

Sua viagem foi cansativa além do que deveria, pois Elisa chorou na maior parte do tempo. Já não tinha mais lágrimas, seu corpo doía, esmagado pela tristeza de tantos acontecimentos amargos. Desejava ter ao menos Joaquim ao seu lado, seu irmão a defenderia, e não permitiria que ela se submetesse ao casamento forçado. Mas ela sabia que as chances de Joaquim estar vivo eram mínimas, afinal enviara mensageiros avisando sobre a doença do pai, depois sobre sua morte, e na terceira mensagem, a perda de sua mãe. Se Joaquim estivesse vivo, teria vindo no primeiro momento. Elisa suspirou e limpou o canto dos olhos com um lenço que carregava, notou que a carruagem havia parado, só então ela notou a beleza do lugar, se tratava de uma fazenda dez vezes maior que a sua, onde viveu. Além do mais, era linda, de uma paisagem exuberante, um jardim incrível, e aos arredores quilômetros de terra produtiva, havia passado ao lado de muitos cafezais, então suspeitou que eles cultivassem o fruto. Seu pai já havia dito durante as refeições algumas vezes sobre fazer negócios com cafeicultores, mas ele sempre dizia que precisava de bastante dinheiro para investir em tal negócio e eles não possuíam.

Elisa continuou observando a paisagem enquanto o cocheiro lhe abria as portas para descer. Ela segurou a barra do vestido cor creme, era simples, na verdade ela não tinha muitos vestidos novos, fazia tempo que seus pais não lhe levavam à modista, realmente estavam numa situação financeira muito ruim.

Quando pisou no pátio principal, cheio de pedras bem colocadas, seguido de um jardim lateral incrivelmente lindo, com rosas, orquídeas, margaridas, todas bem organizadas em seus grupos, de alguma forma ela pôde respirar fundo, a beleza daquele lugar lhe trouxe paz. Notou um bosque cheio de árvores bem podadas e se imaginou ali, debaixo de uma árvore, lendo seus livros preferidos e se perdendo nas histórias mágicas, podendo fugir da realidade cruel que lhe assolava. Quando olhou à frente, ficou pasma com o tamanho e modernidade da casa principal, havia uma enorme quantidade de janelas que chegavam a ser absurdas para uma residência familiar. A fachada era toda pintada na cor branca, com molduras e sancas ao redor de toda a lateral. Na porta principal havia um grande arco como naqueles descritos em livros mitológicos vindo de Roma. Elisa quase teve certeza de que as colunas fossem de mármore, uma pedra muito bonita e cara. Na sequência, ficou chocada com a quantidade também de empregados que estavam enfileirados de forma impecável e bem vestidos, lhes aguardando à frente da entrada. Então, ela teve certeza de que aquela se tratava de uma família muito rica, tão rica quanto ela jamais imaginara ser. Seus pais haviam sido bem estabilizados financeiramente um dia, eram produtores de algodão e possuíam uma pequena produção de leite, o que lhes havia rendido anos de conforto e requinte, proporcionando a Elisa e Joaquim uma boa educação, além de ingressar o rapaz no exército, porém não a esse nível. Elisa estava diante de uma fortuna imensurável, e a cada instante entendia menos o que aquela família queria tanto com ela, já que não lhe restava nenhuma posse nem ao menos foi pago um dote. Era apenas uma órfã desabrigada e sem um tostão.

Ainda ficou parada assimilando tudo que estava vivendo, seu então marido, que nem lhe dirigia a palavra ou um gesto educado de cordialidade, estava à frente dando ordem aos empregados enquanto a mãe se aproximou, sempre com aquele tom irônico que Elisa não estava mais suportando.

- Então, querida, seja bem-vinda ao seu novo lar - falou, puxando Elisa pelo antebraço, tentando ser o mais discreta possível. Talvez fosse porque as pernas de Elisa haviam simplesmente paralisado ali naquele lugar e não conseguiam se mover.

Edna parecia mais desejar exibir a moça aos empregados. Ela fazia questão de dizer alto e repetir por várias vezes que se tratava da nova esposa de Manuel, deixando ordens expressas de que ela fosse recebida e bem cuidada por todos na casa. Os olhares direcionados à jovem eram bem discretos, porém ela percebia o quanto todos estavam surpresos. O coração de Elisa batia cada vez mais forte com todas as sensações que estava sentindo, sentia medo e angústia, uma ansiedade sem fim e, quando pensou que seu corpo lhe pregaria uma peça, lhe lançando ao chão com tantas emoções, um grito soou vindo de trás, uma voz em tom de indignação se manifestou no pátio principal ao lado dos veículos parados, uma voz rouca e grave, máscula e bem diferente de tudo que ela já havia escutado. Mesmo diante de tudo que estava passando, naquele instante ela desejou conhecer o autor daquela voz que havia entrado em seus tímpanos e percorrido cada extremidade do seu corpo, causando-lhe mais sensações nunca experimentadas. Elisa olhou para trás e quase se desfaleceu de vez com a imagem que viu. Um homem alto e forte, de porte atlético, bem parecido também com os descritos nos livros de romance e aventura dos quais ela lia. Ele tinha uma pele corada, talvez fosse do exército e ficasse exposto ao sol por muito tempo, por isso tinha aquele tom de pele tão atrativo. Seu cabelo era muito bem cortado e penteado para trás, ele não tinha barba, e ao redor do rosto seu cabelo se encontrava bem desenhado em uma costeleta elegante. Seu terno caro o deixava bem vestido como um príncipe vindo de alguma parte real, seu rosto de traços perfeitos, sobrancelhas e lábios grossos o deixavam ainda mais charmoso, apesar de todo mau-humor e irritação em sua expressão. Elisa engoliu seco, nunca havia sentido isso, era a primeira vez que experimentava a sensação de ter seu mundo parado e seu corpo arrebatado apenas com a presença de um homem. E o homem em questão estava a uma distância considerável e discutindo calorosamente com o seu suposto marido.

- Fernando? - ouviu Edna declarar surpresa.

- Vocês dois estão ficando loucos, perderam o juízo de vez?- O homem gritou.

Manuel encarou o homem como se não lhe devesse explicações, era nítido que não havia nenhum vínculo de amizade entre ambos. Aliás, cada palavra dita mais parecia uma grande arena de batalha onde o ganhador era aquele que fosse mais ríspido e arrogante.

- Não lhe devo explicações, maninho, mas você sim, me deve felicitações, afinal finalmente terá uma cunhada - Manuel respondeu com tom de ironia.

O tal Fernando se contorceu de raiva com as palavras do então irmão.

- Isto é um absurdo, Manuel. Saiba que não concordo. Goste ou não, ainda sou o chefe desta família, havíamos decidido...

Edna, que havia soltado Elisa e se aproximado dos cavalheiros, o interrompeu:

- Senhores, acho melhor acalmarem os ânimos, os criados estão assistindo - ela sussurrou para ambos entre os dentes.

Fernando ainda se manifestou contra a mulher:

- Isto é um absurdo, e você sempre conivente, não é mesmo, Edna? Eu sei bem o que querem.

- Fernando, acabamos de retornar de uma viagem exaustiva, nos poupe de suas lamúrias - ela virou na direção de Elisa com aquele sorrisinho falso. - A esposa de Manuel está exausta, a pobrezinha acabou de enterrar os pais e ainda se submeteu a esta viagem. Vamos deixá-la descansar.

As veias saltavam das têmporas do homem. Porém, naquele instante, ele se virou para Elisa, como se apenas neste momento houvesse observado a jovem.

Elisa nunca imaginou que apenas o olhar de um homem fosse capaz de penetrar dentro do seu corpo e tirar tudo do lugar como se fosse algo normal, causando uma inquietação absurda. Ela não sabia como lidar com aquele sentimento. Mais uma vez, respirou fundo e engoliu seco, mas Fernando ainda olhava no mais profundo dos seus olhos. Aquele contato visual durou mais tempo do que deveria e, de alguma forma, ela acreditou que tudo que havia sentido fora recíproco. Em algum lugar, dentro das íris esverdeadas cor de esmeralda e coberto por uma névoa acinzentada de sentimentos sombrios, aquele homem ficara mexido. Ela o viu se endireitar, e por um segundo todo seu mau-humor e irritação desapareceram, dando lugar a uma misteriosa agitação e desconforto. Ela então fitou o chão, temendo que mais alguém percebesse o que aconteceu, eles pareciam estar em outra dimensão, e era nítido que não eram notados. Somente então Fernando se recompôs, mas não conseguiu disfarçar o tamanho do esforço que precisou fazer para ignorar o que havia acontecido.

Elisa sentiu os braços de Edna lhe tocarem novamente no antebraço, sentiu-se uma prisioneira sendo levada para o cárcere, embora fosse verdadeiramente o que acreditava ser. Estava presa a um casamento de faixada, com um homem pelo qual ela sentia pavor, e uma família completamente descontrolada.

Adentrou a casa sendo praticamente arrastada pelo sogra, ainda ouviu parte da discussão entre os irmãos que não havia cessado, mas logo estavam longe o suficiente para abafar o som das vozes. Por dentro, a casa era ainda mais magnífica, com móveis impecavelmente colocados em cada canto, todos feitos de madeira e tecidos nobres. Um gigantesco lustre enfeitava o teto alto do centro da sala. Elisa imaginou os melhores bailes que essa família certamente oferecia, e que, mesmo não se atraindo para tais eventos enfadonhos e cansativos, não pode deixar de imaginá-los. Ela foi apresentada à sua mais nova dama de companhia, uma senhora de meia idade, séria e rígida, nada diferente do que já havia conhecido até ali. Então não se espantou, apenas não se imaginou na companhia de uma geleira, já havia lido em algum livro sobre as supostas geleiras que existiam em algum lugar do mundo. Talvez se comparasse a essa mulher à sua frente, ela respirou fundo e se lembrou de seu então marido, chegou à conclusão de que ele sim chegava bem próximo das descrições que ela bem conhecia de uma geleira, a senhora Francesca Magnoli era apenas uma água fria perto dele.

- Senhora Valença, já ordenei aos criados que lhe preparassem um banho. Suas coisas já estão sendo acomodadas em seu devido lugar, e a propósito...- ela pigarrou e se virou para Edna, logo Elisa pôde perceber a cumplicidade que havia entre ambas. Francesca não havia sido escolhida por acaso como dama de companhia. - A nova senhora Valença precisa de ir à modista com urgência.

Elisa se sentiu incomodada com o comentário um tanto abusado de sua criada, entretanto sabia que precisava concordar com ela, sendo parte de uma família tão rica, ela precisaria de roupas novas.

- Oh, claro, Francesca, em breve levaremos minha nora à cidade, ela precisa sim de novos vestidos. - Edna ergueu as sobrancelhas como se aquilo fosse algo de suma importância. Elisa, no entanto, apenas se calou. Na verdade, era a única coisa a que tivera direito desde que conheceu aquela família, ficar em silêncio.

Francesca continuou:

- Aliás, um para baile, ora, acredito que a senhora Edna deverá organizar um em breve, esta joia precisa ser apresentada à sociedade local, afinal, como eu disse, se trata da nova senhora Valença!

A criada sugeriu, olhando de canto para Edna, que sorriu satisfeita, achando aquela ideia brilhante.

No entanto, as palavras da mulher deixaram Elisa inquieta, ela não estava a fim de baile algum, principalmente se tratando de expô-la como troféu a seja lá quem fosse, no entanto, não se manifestou. Então, viu os olhos escuros e completamente cheios de soberba de Edna cintilarem com os planos que a serva lhe sugerira.

- Vamos organizar tudo, precisa ser o melhor baile que esta cidade já recebeu! E sabemos que isto leva tempo para organizar, devemos escolher o melhor vinho e champanhe imediatamente para fazer as encomendas, decidir um menu, flores e uma orquestra...

Elisa não se sentiu nada empolgada, felizmente Edna se livrou rapidamente dela, pois pretendia ordenar a imensa lista de tarefas para o tal baile que aconteceria no próximo mês.

Elisa dispensou os servos mesmo sob a recriminação de Francesca. Queria ficar a sós, respirar um pouco. Já em seu quarto, agradeceu milhares de vezes por aquele momento de privacidade, finalmente estava livre de todo aquele teatro ridículo, agradeceu também quando notou que se tratava de uma acomodação simples e não a principal da mansão, pois não precisaria dormir junto a Manuel. Felizmente, as regras da sociedade atual permitiam que casais ficassem em quartos separados para que ambos tivessem privacidade.

Então, ali sozinha, ela se despiu e entrou em sua banheira a fim de relaxar e tentar organizar suas emoções. A água quente tocava sua pele, proporcionando uma tranquilidade e, mesmo sabendo que fosse passageira, decidiu se deleitar naquele momento de paz, pois tinha plena certeza de que seria raro dali em diante.

Após alguns instantes, ainda com todo o sabão sobre seu corpo, Elisa refletiu acerca de algumas coisas. Sabia que algo estava errado. A discussão dos cavalheiros havia deixado nítido que ambos eram irmãos e inimigos, ela não entendia como isso era possível, afinal fora criada em um lar amoroso e sempre tivera um bom relacionamento com seu irmão Joaquim. Mas o que a deixava inquieta não era apenas a rivalidade entre irmãos, mas Elisa era inteligente o suficiente para entender que ela era apenas uma mercadoria, e que de fato seu pai lhe havia vendido para pagar as dívidas, porém sabia que ainda havia muito o que descobrir a este respeito, além do mais, a família Valença tinha propósitos bem definidos ao escolhê-la como esposa e Elisa estava disposta a descobrir o motivo.

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