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Recomeçando Outra Vez

Recomeçando Outra Vez

Autor: Nayara Barbosa
Gênero: Romance
Livro.II - Recomeçando Outra Vez Após a perda de Rose, Nina e Steve tentam reconstruir suas vidas em meio ao legado que ela deixou: o bebê que agora faz parte de suas rotinas e a família que precisa ser cuidada. Nina já sente seu coração completamente entregue a Steve, mas ele ainda não percebe a profundidade de seus próprios sentimentos, mantendo-se gentil, protetor e distante ao mesmo tempo. Entre dias de descobertas, pequenas alegrias e a convivência intensa com Lily, a irmã de Nina, e o bebê, laços de amizade se fortalecem, e novos desafios surgem. Cada gesto de cuidado, cada olhar compartilhado, aproxima Steve do que ele ainda não se permitiu sentir: amor verdadeiro. "Recomeçando Outra Vez" é uma história sobre perdas que se transformam em esperança, sobre corações que aprendem a amar de novo e sobre a força que surge quando a família se torna a base de tudo. Entre risos, lágrimas e segredos do passado, Nina terá que lidar com a intensidade de seu amor e esperar o momento em que Steve finalmente enxergará o que sempre esteve diante dele.
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Capítulo 1 Prólogo

Nina

O choro dele ainda ecoava nos meus ouvidos, mesmo depois que o silêncio tomou conta do quarto. Eu não sabia que um som tão pequeno poderia carregar um mundo inteiro dentro de mim. Meu filho. Nosso filho.

Estava madrugada adentro e eu ainda não tinha conseguido dormir. O corpo doía, a mente oscilava entre exaustão e uma euforia que me fazia querer abraçar o universo. Mas havia também o medo. Medo de falhar, medo de não ser suficiente.

O quarto da maternidade estava iluminado apenas pela luz suave do abajur. Ele estava no bercinho ao lado, ressonando baixinho, tão pequeno, tão frágil. Meus olhos ardiam de tanto chorar - de dor, de alegria, de um vazio estranho que só as mães conhecem nos primeiros dias, quando a vida muda completamente e não há manual para ensinar a viver de novo.

- Você devia descansar. - a voz de Steve quebrou o silêncio, doce, quase um sussurro.

Ele estava sentado na poltrona, mas parecia não ter pregado os olhos a noite toda. Quando olhei para ele, percebi o quanto estava cansado também, o quanto o parto mexeu com ele. Aquele homem que parecia feito de ferro, de repente, estava despedaçado em ternura.

- Não consigo. - respondi, tentando sorrir. - Cada vez que fecho os olhos, parece que vou perder alguma coisa.

Ele se levantou, aproximou-se do berço e olhou o bebê. Eu o observava em silêncio, meu coração disparando com uma cena tão simples e tão poderosa. Steve estendeu o dedo, e a mão minúscula do bebê se fechou ao redor dele. Foi ali que eu vi. Aquele homem, que ainda não ousava me olhar com o coração, já estava completamente rendido ao filho.

E eu? Eu estava cada vez mais rendida a ele.

---

Steve

Eu nunca pensei que algo pudesse me quebrar desse jeito. Eu já tinha perdido Rose, já tinha chorado como se o mundo tivesse acabado. E agora... agora eu estava diante de uma vida que me devolvia um pedaço de mim mesmo.

Ele respirava, tão pequeno, tão real. Meu filho.

Era como se Rose tivesse deixado nele um fio invisível, algo que nos unia ainda. Eu sabia que nunca mais a teria de volta, mas naquele choro frágil, naquele olhar curioso que ele já ensaiava quando abria os olhos, eu podia sentir que ela estava ali de alguma forma.

E Nina...

Eu não sabia como descrever. A vi lutar no parto, a dor estampada em cada traço do rosto, mas também a força. Eu nunca vou esquecer a maneira como ela segurou minha mão, como gritou, como chorou, e mesmo assim não desistiu nem por um segundo. Ela me mostrou uma coragem que eu não conhecia.

E agora, olhando-a encarar o filho com tanto amor, eu percebia que ela estava exausta. Os olhos vermelhos, os cabelos bagunçados, o corpo tremendo entre os hormônios e a entrega. Mas, para mim, Nina nunca pareceu tão bonita.

- Eu cuido dele um pouco, pode dormir. - falei, sem pensar.

Ela me encarou, surpresa. - Você...?

- Claro. Ele é meu filho também, Nina. Eu quero estar aqui em cada detalhe.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, tímido, mas carregado de emoção. Eu segurei o bebê com cuidado, e quando o coloquei contra meu peito, senti o coração disparar. Tão leve, tão meu. A respiração dele se ajustava à minha, e foi ali, naquele instante, que percebi que não havia mais volta.

Eu estava conectado. Para sempre.

---

Nina

O puerpério é um vendaval. Ninguém te prepara para isso. O corpo ainda dói, os pontos ardem, os seios latejam cheios de leite, e a mente... ah, a mente parece uma tempestade. Ora eu queria chorar sem motivo, ora eu sorria só de ouvir aquele choro agudo.

Mas havia algo que me sustentava: Steve.

Ele não me olhava como homem, eu sabia. Ele me via como amiga, como mãe do filho dele, e eu tentava me convencer de que isso bastava. Mas os gestos... os gestos dele eram diferentes. Quando ele ajeitava o travesseiro atrás de mim para que eu pudesse amamentar, quando passava a mão nos meus cabelos dizendo "vai dar tudo certo", quando passava horas embalando o bebê para que eu conseguisse dormir um pouco... nesses momentos, meu coração se rendia mais um pouco.

Eu já estava apaixonada. E isso doía tanto quanto curava.

---

Steve

Eu observava Nina quase em segredo. Ela era forte, mas também frágil. Às vezes a pegava chorando baixinho, escondendo o rosto nas mãos. Às vezes ela sorria para o bebê como se ele fosse o próprio sol. Eu não sabia como ajudar, mas estava decidido a não deixá-la sozinha.

Rose tinha pedido isso. Que eu cuidasse dela, que fosse gentil. E eu estava tentando honrar cada palavra.

O bebê chorava, e eu me adiantava para pegá-lo. Nina sorria, cansada, agradecida. E cada vez mais eu sentia que estávamos aprendendo a ser uma família - não a que eu planejei, mas a que a vida me deu.

E talvez fosse o suficiente.

---

Nina

Naquela madrugada, quando finalmente o bebê dormiu e Steve também adormeceu na poltrona com ele nos braços, eu os observei. E chorei.

Porque aquele homem que dizia que não tinha espaço para mais nada além da dor, estava se entregando sem perceber. Ele já não era o mesmo.

E eu... eu só podia esperar. Esperar que um dia ele me enxergasse além da promessa feita a Rose, além do luto que ainda o consumia.

Por agora, bastava olhar para eles e sentir meu coração bater com força, como se me dissesse que, apesar de tudo, eu tinha encontrado meu lugar.

---

Steve

Naquela noite, antes de dormir por fim, olhei para Nina. Ela estava deitada, exausta, mas mesmo assim sorria. Eu não sabia o que ela sentia, não conseguia decifrar. Mas dentro de mim uma certeza crescia: eu nunca mais a deixaria sozinha.

Porque, no fim, a vida havia nos colocado juntos. E talvez, só talvez, isso fosse um recomeço.

{...}

Capítulo 2 01

Nina

Acordei naquela manhã com o coração disparado. A primeira coisa que meus olhos buscaram foi o berço ao lado da cama... vazio.

Meu peito gelou. O quarto, antes silencioso, de repente pareceu grande demais, vazio demais. Onde estava Lui?

Me levantei de súbito, mesmo com os pontos ainda me incomodando, e cambaleei até a porta. O corpo estava frágil, os seios pesados e doloridos, latejando como se gritassem pela presença do meu filho. No instante em que girei a maçaneta, a porta se abriu e uma enfermeira entrou, firme, mas com um olhar doce.

- Senhora, não pode sair assim sem ajuda! - disse, me apoiando pelos ombros.

Senti a garganta fechar. Minhas lágrimas desceram sem permissão.

- Onde está meu filho? Ele não está aqui... ele deve estar com fome, eu sinto. - minha voz saiu trêmula, quase infantil.

- Calma, senhora - respondeu, acariciando meu braço como quem acalma uma criança. - Ele só foi fazer alguns exames de rotina. Está bem, logo volta.

Ainda tremia quando ouvi a maçaneta girar outra vez. Steve entrou, e em seus braços estava o que meu coração tanto clamava: Lui, enrolado em um cobertor azul, pequeno, sereno.

Estiquei os braços instintivamente, e Steve me entregou com cuidado. Segurei meu filho contra o peito, o coloquei para mamar e, naquele instante, o mundo inteiro se resumiu ao barulho suave dele sugando o leite. Era vida. Era amor. Era também dor.

Lágrimas escorreram pelo meu rosto. Eu não queria chorar, mas parecia impossível segurar.

- Me desculpe por ser tão boba... o puerpério está mais difícil do que imaginei que seria.

Steve se sentou ao meu lado, apoiando a mão em minhas costas.

- Não peça desculpas. Eu deveria ter te acordado, deveria ter dito para onde íamos. - inclinou-se e beijou o topo da minha cabeça. - Desculpe, Nina.

A enfermeira sorriu para nós, como quem observa algo precioso.

- Amanhã vocês dois recebem alta.

Alta. A palavra caiu como um peso. Alta significava ir para casa, para a vida real. Além de Lui, eu teria Lily também. O medo me invadiu como uma onda gelada. Será que eu daria conta? Será que conseguiria ser mãe de verdade?

Percebi que Steve notou minha expressão, porque ele segurou minha mão e disse, firme:

- Eu estarei com você até que se sinta melhor. E não estamos sozinhos, Nina. Vamos ter ajuda, sempre que precisar.

Assenti, mas a insegurança latejava dentro de mim.

- Obrigada... - minha voz saiu baixa, quase um sussurro.

Por dentro, eu estava em pedaços. Tão diferente do que imaginei ser a maternidade: não era só luz, era também sombra, medo, exaustão. Mas ali, com Lui no meu colo e Steve ao meu lado, decidi que enfrentaria. Um dia de cada vez.

---

Steve

Quando entrei no quarto e vi o olhar desesperado de Nina, senti uma pontada de culpa que quase me sufocou. Eu tinha o dever de protegê-la, de apoiá-la, mas não pensei que o simples ato de levar Lui para exames sem avisar poderia machucá-la tanto.

Ela estava frágil, mas ainda assim lutava para se manter forte. E eu... eu ainda estava aprendendo o que significava estar ali para alguém de verdade.

Deixei os dois juntos e desci até a cantina do hospital. Precisava de um café, precisava de alguns minutos para respirar. O cheiro de café fresco invadiu minhas narinas, mas o cansaço era tão grande que até segurar a xícara pareceu difícil.

- Como está se sentindo, papai do ano? - ouvi a voz de Ravena e ergui os olhos.

Ela estava ali, com Otto e Eddy. A visão deles trouxe um alívio imediato, como um lembrete de que eu não estava sozinho.

- Que bom que vocês vieram. - murmurei, e um sorriso cansado escapou.

Otto, sempre debochado, me olhou de cima a baixo.

- Você está acabado, meu amigo.

Revirei os olhos.

- Obrigado pela parte que me toca.

Ele gargalhou alto, estalando a mão no meu ombro.

- Vai por mim, você ainda vai sentir falta de noites inteiras de sono quando ele crescer.

Sorri sem vontade, mas Ravena se aproximou e segurou minhas mãos. Seus olhos estavam marejados, mas cheios de força.

- Steve... eu sei que não é fácil, mas você está indo bem. E tem algo que precisa ver.

Ela tirou da bolsa um envelope. Meu coração parou. Reconheci a caligrafia delicada antes mesmo de abrir. Rose. Outra carta.

Minhas mãos tremeram. Apertei o envelope contra o peito, sentindo uma onda de emoção me invadir. Era como se ela estivesse ali, falando comigo.

- Abra. - Ravena disse baixinho. - É para esse momento.

Respirei fundo, engoli a ansiedade e rompi o lacre. O cheiro do papel antigo me atingiu, como uma lembrança de tardes em que ela escrevia no quarto, cercada de livros. Comecei a ler em voz alta, com a voz embargada:

---

*"Meu amor,

Se você está lendo essa carta, é porque nosso pequeno Lui já chegou ao mundo. Antes de qualquer coisa, quero que feche os olhos por um instante e agradeça. Ele é vida. Ele é a prova de que o amor não morre.

Eu sei que o puerpério será difícil para Nina. Eu a conheço - ela vai querer ser forte, mas também vai chorar, vai duvidar de si mesma, vai sentir medo de não dar conta. É aí que você entra, Steve. Seja o braço firme, o olhar paciente, o abraço silencioso que ela precisa.

Lembre-se: ela não roubou nada de você, ela devolveu. Devolveu o futuro que eu não poderia dar. Não a trate como substituta, porque ela não é. Nina é Nina. E ela merece todo o respeito, toda a amizade, toda a gentileza que você tem dentro de si.

Cuide de Lui. Cante para ele. Conte histórias. Mostre ao nosso filho o quanto o mundo pode ser bonito, mesmo quando parece duro. E, por favor, ame-o sem medo. Ele é metade de você, e eu sempre soube que você seria o melhor pai do mundo.

E nunca esqueça: o amor que tivemos não acabou. Ele só mudou de forma. Ele agora vive no riso de Lui, no olhar de Lily, na coragem de Nina, na união de vocês todos.

Eu te amo. Sempre.

Rose."*

---

As palavras se embaralharam diante dos meus olhos marejados. Não conseguia parar de chorar. Rose, mesmo longe, continuava sendo a bússola que me guiava.

Fechei a carta e pressionei contra o peito. Ravena chorava ao meu lado. Otto enxugava discretamente os olhos. Eddy apenas me abraçou forte, sem dizer nada.

- Você não está sozinho, Steve. - Ravena sussurrou. - Nós estamos aqui.

E naquele instante, percebi que a família que Rose me deixou não era apenas Lui. Era Nina. Era Lily. Era Ravena, Otto, Eddy. Era todo um círculo de amor que continuava vivo, mesmo na ausência dela.

Voltei para o quarto, ainda com os olhos vermelhos. Nina estava deitada, Lui dormindo sobre o peito dela. A cena me parou no tempo.

Cheguei perto, ajeitei o cobertor sobre eles e sentei ao lado. Nina abriu os olhos e me olhou cansada, mas com um sorriso suave.

- Tudo bem?

Peguei sua mão e a apertei com força.

- Agora está. - sussurrei.

Enquanto observava meu filho respirar tranquilo, entendi: a vida não parava. O amor não morria. Ele só se transformava.

{...}

Capítulo 3 02

Nina

A minha primeira noite em casa foi um borrão de emoções. Entre mamadas, trocas e tentativas desesperadas de dormir com o coração acelerado, as horas pareciam derreter. Edy, Lily e Ravena fizeram plantão como anjos - rindo, cantando desafinado no karaokê portátil, ocupando a casa com uma espécie de barulho acolhedor para que Steve e eu pudéssemos descansar de verdade, mesmo que por instantes.

Mas aquela noite eu não consegui pregar um sono que valesse. O corpo doía; as hormonas me puxavam para um mar de sensações que eu mal entendia. Levantei com cuidado, cada movimento parecia medir os limites do meu corpo ainda recuperando-se do parto. Desci as escadas devagar, só para preparar um leite quente e tentar aquietar o peito que continuava latejando de amor e de medo.

E foi ali, na cozinha, que levei um susto bom: Steve estava em pé perto da bancada, à meia-luz, com os olhos cansados mas vigilantes. Quando me viu, sorriu do jeito que só ele sabia - tímido, bonito, protetor.

- Também não consegue dormir? - perguntou, e eu acenei, sem forças para falar.

Sentamos os dois no sofá, cada um com um copo de leite quente. O silêncio entre nós não era desconfortável; carregava um conforto mudo, feito de cumplicidade, de cuidado. Não precisávamos de palavras. O bebê dormia no quarto, seguro, e por um momento o mundo cabia dentro daquela sala iluminada pela luz da madrugada.

---

Steve

As noites tinham se tornado uma rotina silenciosa: o som do leite sendo aquecido, os passos cuidadosos, o soprar leve para acalmar o choro, o silêncio que vinha depois - como se estivéssemos pendurados num fio que balançava entre o cansaço e a gratidão. Aquela tradição de nós dois tomando leite no sofá virou um pequeno ritual que eu guardava como quem protege um tesouro.

Sete meses se passaram desde o parto, o puerpério foi ficando para trás e começávamos a sentir os dias mais leves. A barriga da Nina já não me lembrava de um processo estranho; agora lembrava apenas do nosso filho. E então veio o primeiro grande susto.

Lui acordou no meio da madrugada com temperatura alta. A febre não cedia. O pediatra parecia preocupado, e o tom das palavras dele fez meu estômago gelar. "Possível falência medular", disse ele. Aquelas palavras caíram como uma avalanche, destruindo todo o chão firme que eu achava ter.

- Eu posso doar. Eu sou o pai. - minha voz saiu desesperada, quase sem controle.

- Vamos testar você e a Nina - respondeu o médico. - Precisamos descobrir a compatibilidade o quanto antes.

O eco da frase fez meu pensamento correr em círculos. Se existia a possibilidade de eu ser doador, corria também aquela dúvida traiçoeira: e se...? Ainda assim, o instinto foi mais forte do que a razão.

- Doutor, eu sou apenas a barriga de aluguel. O óvulo é de Rose. - Nina disse, a voz colada ao fio da esperança, mas completamente abalada.

- Mesmo assim, vamos testar todas as possibilidades - respondeu o médico com firmeza profissional.

Aquela sala branca, com o cheiro característico dos hospitais, ficou pequena para o peso que nos esmagava. Eu andava de um lado para o outro, incapaz de me prender a qualquer coisa além do medo. Nina também estava em seu canto, olhos perdidos. Entre nós havia um abismo feito de silêncio e de dor - cada um sofrendo à sua maneira, sem saber como alcançar o outro.

---

Nina

Eu sabia que a cabeça do Steve fervilhava de pensamentos: perder um filho era um medo que percorria cada fibra do corpo dele desde a morte de Rose. Mas a verdade é que eu também estava à beira do desespero. Partos, noites sem dormir, perguntas sem resposta - tudo parecia explodir naquele instante.

- E as crianças? - perguntei, a voz embargada.

- Estão na escola. - Ravena respondeu, chegando por trás e me envolvendo num abraço apertado. Ela tinha aquela habilidade de sustentar sem perguntar demais. - Vai ficar tudo bem, Nina. Estamos aqui. Vamos ajudar no que for preciso.

Segurei o abraço como se fosse respirar por ele. Precisava de alguém que me lembrasse que eu não estava sozinha. Mas, no fundo, temia pelo que meu coração pressentia: Steve estava no limite. Eu via nos olhos dele uma tensão que prometia explodir.

A porta do consultório se abriu e o médico entrou, arrastando consigo uma informação que faria todo o cenário girar. Steve praticamente pulou sobre ele:

- E aí, doutor, sou compatível? - a pergunta veio crua, a voz tensa.

O médico meneou a cabeça. - Infelizmente o senhor não é compatível, mas a senhora sim.

Naquele segundo, meu mundo estremeceu de outro modo. Havia um alívio contido, e junto uma perplexidade sem nome. Como poderia eu ser compatível? Eu que sempre pensei que era apenas a barriga, que tudo aquilo era uma doação de mim por amor à Rose e ao Steve - como?

- Vamos logo. - disse eu, tentando agir antes que o turbilhão me pegasse de vez.

---

Steve

A afirmação do médico me deixou em estado de choque. Nina compatível? Como isso era possível se a versão que tínhamos vivido até então - e acreditado - era outra: que Rose tivera seus óvulos fecundados com meu esperma e que eu, de certa forma, tinha apenas um filho que eu e Rose criariam, com Nina apenas como a gestante.

- Eu não entendo. - disse, sentando pesado na poltrona e puxando os cabelos para trás. Estava perdido. - Vou entrar em contato com a clínica agora mesmo. - Ravena prometeu sair para ligar.

Era incontornável: precisávamos de respostas. Minha cabeça borbulhava de perguntas. E no meio daquele caos, a insegurança se transformou numa necessidade quase instintiva de confirmar: - Quero um exame de DNA, do meu com o bebê e da Nina com o bebê. - falei, tentando controlar a voz.

Otto segurou meu braço, firme. - Steve, por favor. - disse ele com cuidado. Eu sabia que estava sendo impulsivo, mas o medo corria nas veias.

- Você está achando que a criança não é sua? - perguntou Johny, tentando entender a minha necessidade de confirmação.

- Eu não sei mais de nada. - respondi, honesto e cru. A ideia de ter sido enganado me queimava por dentro. E se Nina já estivesse grávida antes e ocultara isso de Rose? E se... tantas possibilidade sórdidas que me faziam perder o chão.

Nina entrou no quarto naquele exato instante, o rosto pálido mas decidido.

- Eu não enganei ninguém. - disse com firmeza.

Otto, ansioso, perguntou: - Você já tirou sangue?

- Não - respondeu Nina. - Mas precisamos de mais doadores, e se eu for compatível, Lily também pode ser. Preciso conversar com ela, explicar tudo e só assino a autorização se ela quiser ser doadora.

- Otto, você pode buscar a Lily? - Nina pediu. Otto saiu em disparada, responsabilidade assumida com a leveza de quem sabe lidar com crianças.

Eu tentei falar, estendi a mão para ela - - Nina... - mas ela me cortou, frio:

- Não precisa gastar saliva. Se quisesse conversar, teria me consultado antes. Agora sai, por favor.

E assim fui puxado para fora, segurado pelo braço por John, humilhado mais pelo meu próprio medo do que pelos outros. Dentro do corredor, o ar parecia pesado demais para respirar.

---

Nina

Ouvir Steve desconfiar de mim doía como facadas. Ele pediu o DNA pelas minhas costas - não tentou sequer falar comigo. Senti como se a consideração que eu esperava não existisse mais. Eu poderia entender a preocupação, poderia entender o medo, mas esperar que, quando as dúvidas surgissem, ele viesse até mim antes de agir... isso doía.

- Agora que já tirou o seu sangue, pode sair do quarto. - disse, controlando a voz enquanto uma enfermeira recolhia minhas amostras.

- Nina, precisamos conversar. - murmurou Steve, num tom que misturava súplica e culpa.

- Não. Não precisamos. - respondi, dura. - Se quisesse conversar, teria me procurado antes. Agora sai, por favor.

John levou-o para um canto, e eu deixei as lágrimas saírem baixinho, sem pressa. Foi então que Ravena entrou, com Lily e Eddy ao lado. Lily me olhou e, num gesto que me quebrou e me curou ao mesmo tempo, disse:

- Mana, tio Otto me explicou e tudo bem. Eu vou fazer com você para salvar o Lui.

A coragem daquela menina foi um soco no coração. Eu a abracei com todas as forças - ela era pequena, mas já tão grande em coragem.

- Obrigada, meu amor. Você é tão corajosa. - beijei sua testa.

A enfermeira perguntou se podia levá-la para a coleta, e Lily pulou animada, quase sem entender a gravidade, com a simplicidade de quem quer apenas ajudar. Eddy quis ir junto; o cuidado deles me deu um pouco de calma.

Quando olhei para Ravena, vi que o rosto dela não estava bom. Havia algo que precisava dizer, algo que mudaria tudo.

- Houve um erro na clínica. - disse ela, voz pesada.

- Que tipo de erro? - perguntei, já sentindo o chão ceder.

- Os óvulos de Rose... estavam comprometidos pelo câncer. Absolutamente todos. - A frase cortou o ar em volta.

- O quê? Eles fizeram isso? E Rose? - a incredulidade me esmagou.

Ravena respirou fundo e explicou, com uma tristeza contida: - Rose sabia. Ela sabia de tudo. Ela autorizou que o esperma do Steve fosse implantado... mas não nos óvulos dela. Por segurança, e por amor, o procedimento foi realizado com os seus óvulos - Nina. Eles trocaram os rótulos, e o implante foi feito com seu material - porque os óvulos de Rose não eram viáveis. Ela assinou papéis, autorizou. Foi uma decisão difícil, pensada para que o bebê tivesse uma chance de vida.

A cada palavra, minha cabeça rodopiou. Então... Lui era, de fato, meu filho biológico? Ou melhor - ele era meu e de Steve. A surpresa, a revolta, o alívio, tudo se misturava numa bagunça que era difícil de traduzir em ar.

- Então o Lui é meu filho, e não apenas de Rose? - perguntei, a voz falhando.

- Sim. - confirmou Ravena. - Foi assim que as coisas aconteceram. Rose queria que vocês tivessem esse filho de qualquer forma. Ela confiou em você, Nina. Em vocês dois.

Nesse instante Steve apareceu na porta do quarto, pálido, os olhos cheios de uma dor nova. Ele trouxera mais uma carta - uma carta da Rose, endereçada a nós.

Ele veio até o lado da cama, sentou, abriu o envelope com mãos trêmulas e começou a ler em voz baixa. Eu queria arrancar Lui do colo e voar para longe com Lily; a confusão dentro de mim era uma tempestade. Mas, quando a voz do Steve fez as palavras de Rose entrarem no ar, algo mudou.

---

"Meus amores,

Se esta carta chegou até vocês, é porque, de algum modo, consegui planejar uma saída para o que o destino poderia nos reservar. Sei que a notícia pode ser um choque, mas por favor, leiam com calma e com o coração aberto.

Quando os médicos descobriram que meus óvulos estavam comprometidos, eu poderia ter desistido. Mas eu não quis. Eu quis que a vida - a vida que eu e o Steve criamos no nosso coração - tivesse uma chance. Por isso, com toda a lucidez que tive até o fim, autorizei que o procedimento fosse adaptado. Confiei em Nina porque sempre acreditei na pureza do coração dela. Pedi que, se fosse preciso, ela carregasse essa vida. Pedi que, se fosse possível, o nosso amor continuasse de uma forma diferente: vivo na alegria de um filho.

Não escondi nada deles. Assinei, autorizei, expliquei. A decisão foi minha, dolorosa, mas tomada com amor. Eu sabia que seria difícil para vocês aceitarem que o laço fosse outro do que o planejado, mas confiei que o que construímos era mais forte que rótulos ou biologia. Pedi que cuidassem um do outro, e principalmente que cuidassem do nosso filho com todo carinho do mundo.

Não quero que haja mágoas entre vocês. O que eu quis foi garantir uma chance de vida, e sei que Nina faria isso com a maior coragem. Não quero que ninguém se sinta enganado, porque nada foi feito às escondidas - foi uma escolha minha, pensada para proteger aquela vida que nos une.

Se algo restou em mim de medo, era que o amor se perdesse no caminho. Por isso escrevi isto: cuidem um do outro. Permitam-se entender que o amor muda de forma, mas não some. E por favor, façam dele - do Lui - o centro de alegria que ele merece ser.

Com todo o meu amor,

Rose."

---

As palavras ecoaram na sala como se tivessem vida própria. Havia explicação, e havia, também, pedido - um pedido que trazia responsabilidade e perdão. Senti o nó apertar minha garganta: Rose havia governado tudo mesmo depois de partir. Ela havia decidido que o futuro daquele bebê valia mais do que qualquer cerimônia de rótulos.

Steve fechou os olhos, as lágrimas escorrendo silenciosas. Eu olhei para ele; aquilo tudo ainda doía - principalmente o fato de ele ter agido sem me procurar antes - mas a carta também abriu uma fresta de compreensão. Rose escolhera, Nina interveio, e a vida de Lui estava ali, pulsando, inocente de toda nossa confusão de adultos.

No corredor, Lily voltou com um curativo na mão, orgulhosa por ter ajudado. Eddy acariciava o rosto dela com um sorriso tímido. Ravena me segurou a mão. Steve aproximou-se, hesitante, como quem teme que eu afaste o mundo com um sopro.

- Eu sinto muito - murmurou ele, baixo, com a voz rachada. - Eu errei em não conversar. Fui tomado pelo medo.

Respirei fundo. As emoções ainda eram um emaranhado, difícil de desfazer. Mas havia uma coisa clara diante de nós: Lui precisava de amor, de fraqueza e força ao mesmo tempo, de união. E Rose deixou instruções, e coragem, e um legado que exigia que nós respondêssemos com a mesma coragem.

- Vamos cuidar dele - disse finalmente, segurando a mão do Steve e sentindo, pela primeira vez naquele dia, um fio de paz. - Por ele. Por Rose. Por nós.

E ali, naquele quarto de hospital cheio de perguntas e respostas tardias, começava um novo capítulo: doloroso, confuso, mas de uma responsabilidade tão grande que nos chamou a ser melhores do que havíamos sido até então.

{...}

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