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Red Queen - Feita para Queimar

Red Queen - Feita para Queimar

Autor: Jay Loz
Gênero: Romance
HARÉM REVERSO - BULLY ROMANCE - INIMIGOS A AMANTES - CORRIDAS CLANDESTINAS Ela sempre correu para sobreviver. Agora vai ter que correr deles. Red aprendeu cedo as regras do submundo: não confie, não ame, não perca. Entre roubos, corridas clandestinas e apostas que custam a própria vida, ela achava que conhecia o perigo. Até roubar dos The Cove Boys. Sebastian, Oliver, Max e Nate Blackwood são os reis absolutos da Black Circuit. Poderosos, cruéis e intocáveis. Eles não perdoam. Não esquecem. E nunca dividem o que é deles. Só que ninguém avisou a Red que eles iam querer dividir... ela. Sequestrada. Humilhada. Forçada a conviver com os quatro inimigos. Entre jogos de poder, corridas ilegais e uma atração que queima mais rápido que gasolina, a linha entre ódio e desejo some. Porque quando você coloca fogo na vida de monstros, eles retribuem. Com obsessão. Com ciúmes possessivos. Com uma guerra que pode destruir a cidade inteira. E no fim, Red vai ter que decidir: Será que ela consegue sobreviver ao fogo que ela mesma acendeu? Ou vai se queimar junto com eles?
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Capítulo 1 Prólogo

PRÓLOGO

Existe uma gaiola no meio do quarto. Uma gaiola de verdade, grande o suficiente pra eu entrar em pé, dormir e aparentemente viver ali igual à porra de um animal exótico problemático. Tem uma caminha de cachorro no canto, preta, ridiculamente macia, e um pote de ração cravejado em diamante logo ao lado. É como se aqueles filhos da puta realmente tivessem sentado juntos para discutir qual seria a maneira mais humilhante possível de me deixar ali dentro.

No momento, estou sentada no chão dessa humilhação arquitetônica, tentando decidir qual foi exatamente a decisão catastrófica que me trouxe até aqui. E, honestamente? A lista é longa.

A pior parte é que eu ainda consigo ouvi-los rindo do lado de fora, como se isso aqui fosse divertido e se me trancar numa gaiola depois de destruir minha vida fosse só mais um jogo particular deles.

E o pior? Nem é a gaiola, a porra da caminha ou o pote de ração. É a coleira, porque aqueles filhos da puta colocaram uma em mim.

Uma coleira preta, cara, pesada o suficiente pra eu sentir o couro roçando contra minha garganta toda vez que respiro. E bem na parte da frente, gravadas em rubis brilhantes como um troféu doentio, estão as palavras que provavelmente deveriam me fazer querer matar todos eles: "Propriedade dos The Cove Boys".

Agora eu sou aparentemente propriedade de quatro homens completamente desequilibrados que alternam entre querer me matar, me possuir ou arrancar minhas roupas. Às vezes os três ao mesmo tempo. O que provavelmente diz coisas horríveis sobre eles e sobre mim também.

Mas, antes de você começar a me julgar - e, sinceramente, eu julgaria também -, talvez eu devesse voltar um pouquinho e te contar exatamente como eu me fodi o suficiente pra acabar presa numa porra de gaiola, usando uma coleira com o nome dos The Cove Boys gravado nela.

Capítulo 2 Roxanya

ROXANYA

Eu acordei antes do sol, não por escolha, mas porque pessoas como eu não tinham esse tipo de privilégio.

Abri os olhos devagar e fiquei encarando o teto rachado acima da cama, onde uma mancha antiga de infiltração se espalhava como uma ferida mal curada. Àquela hora da manhã, com a luz fraca atravessando a cortina fina, ela parecia ainda maior, quase viva. Acho que é por isso que o quarto cheirava a mofo.

Fiquei imóvel por alguns segundos, ouvindo os barulhos ao redor. O cano da parede vibrava com aquele gemido irritante de sempre e, lá fora, alguma coisa de vidro tilintou na calçada enquanto o cachorro da vizinha latia como se estivesse brigando com o mundo.

Todos os dias eu prestava atenção nesses sons; era quase como se fosse uma rotina, porque ali ninguém dormia de verdade, só descansávamos o suficiente para continuar sobrevivendo no dia seguinte.

Que bonito, pensei, mais uma manhã como qualquer outra. Por isso eu afastei o cobertor e me sentei devagar. Senti o frio do chão atravessar a sola fina da minha meia favorita, que se encontrava rasgada no instante em que meus pés tocaram o piso. Fiz uma careta, mas me levantei mesmo assim, afinal, reclamar nunca mudou porra nenhuma.

Meu caminho seguiu até o banheiro minúsculo, onde precisei desviar do quarto da minha mãe sem encarar sua porta, como se virar o rosto evitasse de alguma forma o bacanal que acontecia lá dentro. As paredes eram finas demais para esconder qualquer tipo de segredo naquela casa, e o colchão rangia sem parar, fazendo questão de denunciar a atividade praticada.

Abri a torneira e deixei que a água corrente preenchesse o ambiente, oferecendo um barulho constante para abafar os gemidos que ecoavam pelo corredor. O espelho quebrado encostado na parede me devolveu uma versão minha que eu já conhecia bem demais. Mesmo sob a luz fraca do banheiro, meu semblante continuava firme e desafiador, porque eu simplesmente me recusava a permitir que qualquer coisa tirasse a minha paz de espírito.

A minha pele parecia feita de porcelana, o que era estranho para alguém que tinha crescido conhecendo a fome e as dificuldades da vida. Eu sei que havia algo quase cruel nisso, porque o meu rosto era bonito demais para combinar com a vida fodida que eu levava. As minhas maçãs do rosto eram altas e marcadas, o que dava à minha expressão uma beleza afiada que não pedia permissão para existir. Meu nariz era de bonequinha e minha boca carnuda e naturalmente desenhada; tinha um ar perigoso e sexy. Se você me encontrasse na rua, você poderia jurar que eu tinha feito algum tipo de preenchimento labial, mas eu malemá tinha dinheiro para sobreviver, quem dirá bancar procedimentos estéticos. Graças a Deus, era tudo natural.

O conjunto todo era bem bonito, mas eram os meus olhos que realmente prendiam as pessoas. A tonalidade era um azul que lembrava um oceano, idêntico aos da minha mãe. Quando eu me olhava no espelho, às vezes tinha a sensação incômoda de encarar uma versão mais jovem dela, porém, o que nos separava de verdade era o cabelo.

O cabelo dela era loiro e impecável demais para aquele lugar - bonito como alguma coisa frágil que nunca deveria ter sido tocada pela miséria. O meu era preto, liso e comprido, descendo pelas costas como uma sombra derramada. Eu sabia que esse cabelo preto obviamente era a marca deixada pelo homem que me colocou no mundo e desapareceu dele antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa. Engravidar uma puta de Rust Bay por si só já era uma loucura, quem dirá ficar e assumir a responsabilidade, não é mesmo?

Se eu fosse apenas um reflexo da minha mãe e do que esperam das mulheres de Rust Bay, eu estaria condenada a repetir sua história. Usar a minha beleza e meu corpo como moeda de troca para sobreviver um pouquinho a mais a cada dia, e acho que esse era um dos motivos pelos quais eu agia como se eu sempre estivesse aguardando um sinal para correr e não olhar para trás.

Quando desliguei a torneira e saí do banheiro enrolada na toalha, voltei para o quarto rapidinho, sentindo o cabelo úmido colado às costas. Entrei no quarto já pensando na roupa que eu iria vestir e, para continuar mantendo uma rotina, a gaveta da cômoda emperrou quando puxei, como fazia quase toda manhã, e precisei dar um tranco mais forte para abri-la. Escolhi o primeiro cropped preto que encontrei e um jeans gasto nos joelhos e vesti meu bom e velho coturno surrado.

Quando terminei, fui até a janela do quarto, encostei a testa no vidro e comecei a pensar no quanto eu odiava aquela sensação constante de aperto. A pobreza escancarada em cada esquina e, principalmente, a facilidade com que a miséria se agarrava às pessoas, como se, uma vez que ela tocasse em você, ela nunca mais fosse soltar de verdade.

A verdade é que eu entendia que odiar aquele lugar era quase como odiar a mim mesma, porque Rust Bay tinha me ensinado a não esperar demais, não confiar em ninguém e, acima de tudo, que, se eu quisesse algo, eu tinha que aprender a tomar.

Um barulho seco no corredor me arrancou dos pensamentos e então escutei passos rápidos e familiares.

Meu corpo inteiro ficou em alerta antes que minha cabeça organizasse o motivo, por isso soltei a cortina devagar e me virei para a porta, sentindo aquela tensão antiga deslizar para dentro de mim como uma lâmina conhecida. Os passos pararam do outro lado e, por um instante, houve silêncio.

E então a maçaneta girou e a pessoa que eu menos queria ver naquele momento entrou no meu quarto sem bater ou pedir permissão.

Capítulo 3 Roxanya

A porta se abriu, batendo na parede com força demais para aquela hora da manhã, e Ravenna apareceu no batente, como se aquele corredor miserável fosse a entrada de um palácio. Ela estava com um vestido azul que parecia chique demais para aquela casa e sustentava aquele ar irritante de princesa que ela cultivava como se o mundo realmente lhe devesse reverência.

O tecido azul se ajustava com perfeição no corpo dela, e o jeito como erguia o queixo parecia feito para lembrar a qualquer um que ela se considerava melhor do que o lugar onde tinha nascido, o que era uma piada, considerando onde morávamos.

Eu e Ravenna éramos gêmeas idênticas, e as semelhanças acabam na aparência. Enquanto ela era o arquétipo da doçura fingida e controlada, eu era uma verdadeira explosão de sentimentos e impulsos. Talvez fosse esse o motivo pelo qual ela nunca soube lidar comigo de forma equilibrada, sempre me medindo e nutrindo uma inveja enrustida e mal disfarçada que só deixava um rastro amargo e tóxico por onde passava, dominando todo o espaço ao nosso redor e transformando qualquer tentativa de convivência em um campo minado emocional.

Os olhos dela deslizaram por mim, medindo dos pés à cabeça, carregados daquele desdém elegante que ela usava como joia - uma expressão aprendida cuidadosamente ao longo dos anos para me ferir e diminuir.

- Então é verdade? - sua voz soou cheia daquela inveja mal contida e do veneno habitual. - Você realmente terminou com o Zack?

Levantei os olhos para ela, sentindo uma irritação que começava a se acumular dentro de mim antes mesmo que qualquer palavra pudesse escapar pelos meus lábios. Seu comportamento e sua energia contaminavam qualquer ambiente, e a manhã prometia ser ainda mais difícil com aquela tempestade prestes a explodir entre nós.

- Não acredito que você entrou no meu quarto a essa hora da manhã só pra vir com esse tipo de conversa inútil - resmunguei.

Ravenna arqueou uma sobrancelha, demonstrando que minha grosseria não tinha surtido o efeito esperado; afinal, ela nem se surpreendia mais com a minha reação agressiva e hostil.

- Que resposta charmosa - murmurou, com uma voz cheia de sarcasmo e uma pitada de diversão amarga. - Então, sim, pelo visto é verdade.

Cruzei os braços diante do peito, sem qualquer intenção de ceder ou suavizar a atmosfera tensa que se estabeleceu naquele quarto apertado.

- E desde quando eu te devo satisfação? - retruquei, deixando claro que não pretendia me submeter a nenhuma espécie de interrogatório.

Ela inclinou a cabeça ligeiramente, como se fosse uma emoção natural e sublime que só ela tinha direito de expressar.

- Ninguém pediu satisfação, Roxanya - disse, sua voz carregando um tom de falsa inocência. - Eu só fiz uma pergunta simples.

Uma risada curta e sem qualquer sinal de humor escapou dos meus lábios, uma reação rápida que denunciava o quanto eu não via graça naquela encenação.

- Para começar, Roxanya é o caralho - afirmei, a voz tremendo de raiva. - Eu detesto que me chamem assim e, para piorar, você invadiu o meu quarto com toda essa cara de quem veio pronta para me irritar só para confirmar uma fofoca antiga e irrelevante. Então, para poupar seu tempo, vou dizer logo: eu não te devo explicação alguma sobre Zack, nem sobre minha vida ou sobre porra nenhuma do que eu faço.

O brilho nos olhos dela ganhou um tom satisfeito, quase como se fosse exatamente essa a resposta que ela esperava arrancar de mim desde o momento em que seus pés pisaram no meu quarto.

- Bom, primeiramente, até onde sei, Roxanya ainda é o seu nome de batismo, então, talvez devesse reclamar com quem te deu esse nome e, em segundo lugar, touché - sussurrou com um sorriso irônico. - Isso só confirma que vocês terminaram, já que a pergunta te afetou tanto assim.

Soltei uma risada seca, carregada de desprezo.

- Você entrou aqui só para confirmar isso? Que patético - respondi com sarcasmo.

Um sorriso pequeno e cruel surgiu nos lábios dela, como se tivesse alcançado algum tipo de vitória silenciosa.

- Talvez eu esteja apenas curiosa para entender por que o Zack finalmente se cansou de você - provocou, soltando as palavras como facas afiadas.

A provocação teve um efeito forte, mas não no sentido que ela desejava. Em vez disso, soltei uma resposta afiada que ela não esperava.

- Talvez você esteja acostumada demais a se contentar com migalhas do que nunca conseguiu ter inteiramente - retruquei, sentindo um prazer frio em desarmar sua provocação.

Pude ver o choque e o fogo no olhar dela, mesmo sabendo que poucas pessoas conheciam melhor as expressões de Ravenna do que eu mesma.

- Você se acha muito especial, não é? - rebateu com veemência. - Como se todo mundo estivesse constantemente atrás de algo que você acha que pertence só a você.

- Não todo mundo - respondi friamente. - Só você.

Ravenna lentamente descruzou os braços, e novamente seu olhar percorreu meu corpo inteiro, com aquele desprezo cuidadosamente ensaiado.

- Não seja ridícula - respondeu. - Nem tudo gira em torno de você.

- Não? - inclinei a cabeça com ironia, imitando seu tom. - Então, explica por que você entrou no meu quarto assim que soube de qualquer coisa?

Seus dedos apertaram a moldura da porta com força. Nossa relação sempre fora uma guerra incansável, feita de farpas afiadas demais para serem chamadas de conversa. Era uma dança amarga entre duas irmãs que não conseguiam se amar, mas também nunca conseguiam se afastar de verdade.

Ravenna gostava de se comportar como a versão polida e perfeita da família - a filha bonita, delicada, refinada, a garota que parecia trazer a elegância de outro mundo. Já eu, parecia que arruinava toda a perfeição e ordem que ela tentava exibir ao mundo.

- Sabe qual é o seu problema, Roxanya? - ela perguntou com aquele tom que usava quando se sentia superior. - Você destrói tudo o que toca e, depois, se faz de incompreendida, fingindo que é vítima das circunstâncias.

Dei um passo firme em sua direção, e foi o bastante para paralisá-la no lugar.

- E sabe qual é o seu problema, Ravenna? - disse sem vacilar. - É mil vezes pior porque você passou a vida toda querendo o que é meu, mas nunca teve coragem de admitir isso. Então, aproveita, porque eu já joguei tudo fora.

O silêncio que pairou entre nós era pesado, do tipo que só existe entre pessoas que dividem o mesmo rosto e, ainda assim, se odeiam por saber exatamente onde doía mais. Não havia nada de bonito naquela tensão carregada - só rancor profundo.

- Você sempre estraga tudo com essa arrogância nojenta - sibilou Ravenna, a voz repleta de desprezo. - E depois fica aí, se fazendo de forte, como se ninguém pudesse tocar em você.

Ri baixo, o som rouco carregado de desafio.

- Você adoraria me tocar se pudesse, não é mesmo? - Provoquei.

Ela me deu um leve empurrão no ombro como uma forma de provocação, achando que eu não iria revidar. Talvez Ravenna se sentisse corajosa naquela manhã, porque aquilo foi o limite para minha paciência. Agarrei seu pulso com força antes que sua mão descesse, apertando com vigor suficiente para fazê-la prender a respiração.

- Não encosta em mim de novo, vadia - falei, palavra por palavra, com ameaça explícita.

Ela tentou puxar a mão, porém não permiti que escapasse imediatamente. Os olhos azuis dela ardiam em fúria e ressentimento.

- Me solta, Roxanya - ordenou, a voz saturada de irritação contida.

- Então aprende a se colocar no seu lugar, porra - respondi com firmeza, sem relaxar o aperto.

Ela soltou uma risada incrédula, como se aquilo tudo fosse um tipo ridículo de teatro.

- Meu lugar? - replicou com sarcasmo. - Você que está confundindo tudo, já que, pelo que sei, você ainda mora nesta casa, mesmo sabendo que não é bem-vinda aqui.

Aquilo atingiu bem lá no fundo de uma forma rápida e suja, exatamente onde ela queria que doesse. Imediatamente soltei o pulso dela com força suficiente para fazê-la dar meio passo para trás.

- Sai do meu quarto - exigi.

- Ou o quê? - provocou, desafiante.

Minha respiração ficou lenta e controlada, o tipo de calmaria que em mim sempre vinha um segundo antes do estrago.

- Ou eu esqueço que você é minha irmã e arranco esse aplique de segunda qualidade que você usa na cabeça - ameacei.

Ravenna sustentou meu olhar por mais um instante e, dentro dos seus olhos, havia raiva, mas havia outra coisa também. Aquela inveja antiga, feia, impossível de esconder por completo, e não importava o quanto ela tentasse ser perfeita, polida, admirada, ela ainda precisava entrar no meu espaço para se sentir melhor.

Ela alisou a própria roupa como se pudesse apagar o momento de tensão entre nós duas.

- Você não merece ninguém ficando do seu lado por muito tempo, aliás foi só questão de tempo até Zack perceber isso.

Sorri de forma cruel, porque seu discurso feria profundamente, mas eu não daria esse gosto a ela.

- Então aproveita e vai correndo logo - respondi sarcástica - que o caminho já está totalmente livre, tenho certeza de que você já decorou a rota.

Por um instante, imaginei que ela poderia retomar a ofensa ou que buscaria uma nova forma de me ferir com frases afiadas e ensaiadas, mas, para minha surpresa, Ravenna lançou um último olhar carregado de desprezo, sustentou a postura e girou nos calcanhares com toda a dignidade ensaiada e artificial que conseguiu montar naquele instante.

Antes de sair, ela parou na porta e deixou escapar seu último recado venenoso.

- Um dia, Roxanya, todo mundo vai querer sua cabeça, e eu vou adorar cada segundo desse espetáculo quando esse dia chegar.

Encostei o ombro na parede fria e cruzei os braços.

- Melhor isso do que passar a vida inteira invejando a própria irmã - respondi sem hesitar.

Ela ficou imóvel por um segundo, seu rosto tomando a forma de uma expressão de raiva reprimida, antes de bater a porta com tamanho ímpeto que a parede inteira estremeceu sob o impacto.

O silêncio que permaneceu no quarto depois de sua saída não trouxe conforto algum; muito pelo contrário, deixou no ar aquele gosto amargo e pesado de ressentimentos antigos, como se a atmosfera estivesse impregnada de um odor podre formado pelas antigas feridas que nunca cicatrizaram. Ravenna sempre soube exatamente onde enfiar a faca para machucar, e eu sempre soube exatamente como revidar na mesma moeda e intensidade.

Após sua saída, a sensação que ficou no ar parecia errada, desconfortável - aquele tipo de pressentimento inquietante que parece escorrer lentamente pela pele, como o silêncio pesado que antecede uma tempestade, quando o céu escurece e tudo ao redor parece parar em expectativa tensa.

Desde cedo, aprendi a confiar nesses instintos e a reconhecer quando algo não está certo. Quase sempre, essas intuições trazem notícias ruins e, naquela manhã em particular, antes mesmo de cruzar a porta do meu quarto, eu já sabia que o dia reservava muito mais do que uma simples discussão com minha irmã.

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