Eu tinha apenas vinte e um anos, um estudante de moda com sonhos, mas a vida me forçou a vender-me.
Minha mãe precisava de uma cirurgia cardíaca que custava uma fortuna.
Então, aceitei o acordo de Raegan Lawrence, a herdeira rica que me cobriu de luxo.
Ela me tratava com uma doçura que eu acreditava ser amor.
Voei para a Islândia para ver a aurora boreal com ela.
Ela comprou uma adega inteira só porque eu gostava do vinho.
Até que o ex-namorado dela, Conrad Gordon, reapareceu e me chamou de seu "novo brinquedo".
Conrad riu, revelando detalhes que só Raegan e ele deveriam saber.
Ele me disse que eu era apenas um substituto, uma cópia barata.
Como um jogo cruel, Conrad propôs um teste.
Ele enviaria uma mensagem a Raegan dizendo que o carro dele avariou.
Eu enviaria uma mensagem dizendo que tive um acidente de moto e estava ferido.
A mensagem de Conrad foi respondida em um minuto: "Estou a ir para aí agora."
Meu telefone permaneceu em silêncio.
Ela me ignorou completamente.
A ilusão estilhaçou-se.
Ele me entregou um cheque de cinco milhões de euros e disse para eu desaparecer.
Eu era um peão no jogo dela, um animal de estimação abandonado quando o "dono" verdadeiro regressou.
Mas quando Raegan me negou publicamente em um bar, dizendo "Nunca o vi na vida", foi a gota d'água.
Aquilo não era amor.
Eu não era mais uma ferramenta.
Era hora de riscar a vida de Raegan do meu caderno de esboços.
Decidi partir para Paris e começar de novo.
Darryl Acosta sabia que estava a vender-se.
Ele tinha apenas vinte e um anos, um estudante de design de moda cheio de sonhos, mas a sua mãe precisava de uma cirurgia cardíaca urgente, uma operação que custava uma fortuna que a sua família humilde do Porto nunca conseguiria pagar.
Então, ele aceitou o acordo.
A mulher era Raegan Lawrence, a herdeira de vinte e oito anos de um império vinícola no Vale do Douro. No mundo dos negócios, ela era uma lenda, uma figura fria e implacável que esmagava a concorrência sem pestanejar.
Mas com ele, ela era diferente.
"Darryl," a voz de Raegan era suave, quase um sussurro, enquanto lhe ajeitava o colarinho da camisa. "Estás pálido. Não dormiste bem?"
Ele estava na luxuosa mansão dela na Foz, um palácio com vista para o mar que contrastava violentamente com o seu pequeno apartamento em Gaia.
"Estou bem," mentiu ele. "Apenas a pensar num novo design."
Raegan sorriu, um sorriso que raramente mostrava em público. Ela passou os dedos pelo seu cabelo. "Não te esforces demasiado. Se precisares de inspiração, diz-me. Posso comprar-te qualquer atelier de moda em Paris."
Ele sabia que ela não estava a brincar. Uma vez, ele mencionou casualmente que gostava do vinho de uma pequena adega em Vila Nova de Gaia. Na semana seguinte, ela comprou a adega inteira e deu-lha.
Outra vez, ele apanhou uma febre ligeira. Raegan cancelou uma negociação de exportação multimilionária em Lisboa e voou de helicóptero para a quinta no Douro só para se sentar ao seu lado e lhe dar sopa.
No seu vigésimo aniversário, ela levou-o à Islândia para ver a aurora boreal. Sob as luzes dançantes no céu, ela abraçou-o com força.
"Prometo, Darryl. Estarei sempre aqui para ti."
Ele acreditou nela. Acreditou que a sua gentileza, a sua proteção, era amor. Como poderia não acreditar? Ele era jovem, ingénuo, e desesperadamente grato. O dinheiro que ela lhe dava salvou a vida da sua mãe, e o carinho que ela lhe mostrava salvou a sua alma.
Até que Conrad Gordon regressou.
Estavam sentados numa esplanada à beira-rio, o sol da tarde a brilhar na água do Douro. Darryl estava a desenhar num caderno quando uma sombra caiu sobre a sua mesa.
"Então, tu és o novo brinquedo dela."
A voz era arrogante, cheia de desdém. Darryl levantou o olhar e viu um homem alto, impecavelmente vestido, com um sorriso trocista nos lábios. Era Conrad Gordon, o famoso arquiteto. O ex-namorado de Raegan.
"Não sei do que estás a falar," respondeu Darryl, a sua mão a apertar a caneta.
Conrad riu-se, um som desagradável. "Claro que sabes. Raegan sempre teve um fraquinho por artistas sensíveis. Deixa-me adivinhar, ela mima-te, faz-te sentir especial?"
Ele não esperou por uma resposta. "Ela levou-te a ver a aurora boreal? Prometeu estar sempre contigo? Comprou a tua adega favorita?"
Cada pergunta era uma facada. O sangue fugiu do rosto de Darryl. Como é que ele sabia?
Conrad inclinou-se, a sua voz baixando para um sussurro conspiratório. "Porque ela fez tudo isso por mim primeiro. Tu, meu rapaz, és apenas um substituto. Uma cópia barata."
"Isso não é verdade," gaguejou Darryl, o seu coração a bater descontroladamente.
"Não? Vamos fazer uma aposta," disse Conrad, tirando o telemóvel do bolso. "Eu vou enviar-lhe uma mensagem a dizer que o meu carro avariou na Ponte da Arrábida. Tu," ele apontou para Darryl, "envias uma a dizer que tiveste um acidente de mota e estás ferido."
A mão de Darryl tremia enquanto pegava no seu próprio telemóvel. Era uma ideia estúpida, cruel. Mas ele precisava de saber.
Ele escreveu a mensagem, o seu polegar a pairar sobre o botão de enviar.
"Envia," ordenou Conrad.
Darryl enviou. Conrad enviou a sua um segundo depois.
Eles esperaram em silêncio. O telemóvel de Darryl permaneceu mudo. Um minuto depois, o telemóvel de Conrad vibrou. Ele virou o ecrã para Darryl.
A mensagem de Raegan era clara: "Onde estás? Estou a ir para aí agora. Não te mexas."
O estômago de Darryl revirou-se. Ele olhou para o seu próprio telemóvel. Nenhuma resposta. Nenhuma chamada perdida. Nada. A sua mensagem, a sua mentira sobre estar ferido, tinha sido completamente ignorada.
A ilusão estilhaçou-se. O calor do sol da tarde de repente pareceu frio.
Conrad sorriu, vitorioso. "Vês? Ela nunca te amou. És apenas um eco do que nós tínhamos."
Ele tirou um talão de cheques da sua carteira de pele. Escreveu um número, assinou-o com um floreio e empurrou-o pela mesa.
Cinco milhões de euros.
"Pega nisto e desaparece," disse Conrad. "Ela é minha. Sempre foi."
Darryl olhou para o cheque, depois para o rosto triunfante de Conrad. A dor era tão intensa que mal conseguia respirar. Ele não era amado. Era uma ferramenta. Um substituto.
Ele pegou no cheque. A sua mão não tremia mais. Estava fria, firme.
"Vou desaparecer," disse ele, a sua voz vazia de emoção.
Mais tarde naquela noite, a chuva começou a cair sobre o Porto. Uma chuva fria e implacável, tal como a verdade que ele tinha acabado de aprender.
Darryl estava de pé em frente a um caixote do lixo, encharcado até aos ossos. Na sua mão estava o fato de gala exclusivo que passara semanas a desenhar e a costurar. Era o seu presente para o próximo aniversário de Raegan.
Ele olhou para a peça de roupa, um símbolo de todo o seu amor e dedicação equivocados.
Com um gesto lento e deliberado, ele deixou-o cair no lixo molhado.
A chuva lavava as suas lágrimas, mas não conseguia limpar a humilhação. Conrad não se contentou com a sua vitória silenciosa. Ele queria esfregá-la na sua cara.
No dia seguinte, Raegan ligou. A sua voz era casual, como se nada tivesse acontecido.
"Darryl, o Conrad vai ficar na mansão por uns tempos. A casa dele está em obras. Espero que não te importes."
Darryl sentiu o seu estômago apertar. "Não, claro que não."
Ele não tinha o direito de se importar. Ele era apenas o amante contratado.
No dia seguinte, Darryl ligou para a universidade em Paris.
"Bonjour, je m'appelle Darryl Acosta. Liguei sobre a bolsa de estudo em design de moda. Gostaria de saber se ainda a posso aceitar."
Houve uma pausa do outro lado da linha, depois uma voz calorosa respondeu em inglês. "Monsieur Acosta! Sim, claro! Ficámos muito desapontados quando recusou. A sua vaga ainda está aqui. Pode começar no próximo semestre."
"Obrigado," disse Darryl, sentindo uma pequena centelha de alívio no meio da sua dor. "Estarei aí."
Ele desligou e olhou para o calendário na parede. O próximo semestre começava dentro de duas semanas. Duas semanas para se libertar desta vida.
Ele começou a fazer as malas, mas não havia muito para levar. Quase tudo o que possuía na mansão tinha sido comprado por Raegan. Ele abriu o seu guarda-roupa, um closet do tamanho do seu antigo apartamento, cheio de roupas de marca e sapatos caros.
Ele pegou num saco do lixo grande e começou a enchê-lo. Camisas de seda, casacos de caxemira, relógios de luxo. Tudo o que ela lhe tinha dado. Ele não queria nada disso. Cada item era uma lembrança da sua estupidez.
O fato de aniversário que ele desenhara para ela já estava no lixo. Era o item mais valioso, não em dinheiro, mas em tempo e amor. Ao descartá-lo, ele sentiu uma dor aguda, o fim definitivo das suas esperanças.
O stress e o desgosto cobraram o seu preço. Na manhã seguinte, Darryl acordou a tremer, com a testa a arder de febre. O mundo parecia desfocado e distante. Ele mal conseguiu sair da cama.
O seu telemóvel tocou. Era o motorista de Raegan.
"Sr. Acosta, a Sra. Lawrence pede que a encontre no Café Majestic. Ela tem alguns amigos que quer que conheça."
A ideia de enfrentar Raegan e os seus amigos ricos fazia o seu estômago revirar. "Não me estou a sentir bem," murmurou ele.
"A Sra. Lawrence insiste," disse o motorista, a sua voz sem emoção. "O carro estará à sua espera em dez minutos."
Arrastando-se, Darryl vestiu-se e desceu. O ar frio da manhã fez com que ele se sentisse ainda pior.
Quando chegou ao Majestic, o famoso café estava cheio de gente. Ele viu Raegan sentada numa mesa de canto, a rir com duas mulheres elegantemente vestidas e Conrad.
Ele hesitou na entrada, não querendo aproximar-se. Foi então que ouviu a conversa delas.
"Raegan, querida, o que vais fazer com o teu pequeno brinquedo agora que o Conrad voltou?" perguntou uma das mulheres, com a voz carregada de malícia.
A outra mulher riu-se. "Sim, não podes mantê-lo por perto. Seria estranho."
Darryl sentiu o seu rosto a arder de humilhação. Um brinquedo. Era isso que ele era para eles.
Raegan tomou um gole do seu café, o seu olhar passando por cima deles e fixando-se em Darryl, que estava parado perto da porta. Ela sabia que ele estava ali. Ela sabia que ele podia ouvir.
"Não se preocupem," disse Raegan, a sua voz fria e controlada, mas alta o suficiente para Darryl ouvir claramente. "O Darryl sabe o seu lugar. Ele é muito obediente. Fará o que eu lhe disser."
O desespero tomou conta dele. Ela não estava apenas a descartá-lo; estava a humilhá-lo, a reafirmar o seu controlo sobre ele na frente do seu ex-namorado e das suas amigas.
Foi Conrad quem o viu primeiro e sorriu. Ele levantou-se e caminhou até Darryl, agarrando-o pelo braço com uma força surpreendente.
"Anda, junta-te a nós," disse Conrad, arrastando-o para a mesa.
Todos os olhos se viraram para ele.
"Darryl, não pareces bem," disse Raegan, a sua voz agora cheia de uma falsa preocupação. "Estás doente?"
Ele olhou para ela, depois para Conrad, que ainda o segurava firmemente. Ele viu o jogo nos olhos deles. Raegan estava a usá-lo para provocar ciúmes em Conrad, para mostrar que ainda tinha poder. Conrad estava a usá-lo para se divertir, para mostrar a sua superioridade.
Ele era um peão no jogo emocional deles.
A amargura subiu-lhe à garganta. Ele não disse nada. Apenas ficou ali, a tremer de febre e raiva, enquanto eles continuavam a sua conversa animada, ignorando-o como se ele fosse um móvel.