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Refém do Mafioso

Refém do Mafioso

Autor:: Ninha Cardoso
Gênero: Romance
Elena e Vicky cresceram juntas, órfãs e grandes amigas, enfrentando o mundo com coragem. Mas quando são sequestradas e brutalmente separadas, Elena se vê sozinha, ferida e em um lugar desconhecido, sem saber o que aconteceu com sua amiga. Ela é resgatada por Vlad, um mafioso implacável que a tira das mãos de seus captores, mas seu resgate não é um ato de bondade. Elena está presa em um mundo sombrio onde as intenções de Vlad são tão perigosas quanto o ambiente que a cerca. Ele é um homem cheio de mistérios, cuja frieza só é igualada pela intensidade com que a observa. Enquanto Elena luta para entender seus sentimentos conflitantes com relação a ele, Vlad a provoca, testando seus limites e desafiando suas certezas. A tensão entre eles cresce a cada momento, criando um vínculo estranho e poderoso que Elena não consegue ignorar, mesmo quando tudo dentro dela grita para fugir. Neste jogo de poder e sedução, onde o amor nasce nas sombras da violência e do perigo, Elena precisa decidir se pode confiar no homem que a mantém cativa e se há alguma chance de escapar com seu coração intacto.

Capítulo 1 Cuidado com o que vê

Parte 1...

Elena

A noite em Chicago estava fria e úmida, e eu sentia o vento gelado cortar minha pele enquanto segurava os pequenos buquês de flores.

O cheiro de fumaça e poluição parecia grudar na minha garganta, e o barulho constante da cidade me deixava com dor de cabeça.

As luzes da boate piscavam em vermelho e azul, refletindo no asfalto molhado, mas para mim, tudo era apenas uma mancha de cores sem vida. Eu não ligo mais para isso.

Eu estava ao lado de Vicky, minha melhor amiga, a única família que me restava desde que saímos do orfanato.

Ela puxou o casaco fino mais apertado em volta de si, seus olhos verdes brilhando com uma mistura de frustração e cansaço.

- Eu odeio isso - ela murmurou, a voz baixa, mas cheia de raiva contida. - Vendendo flores para caras bêbados que mal olham para a gente. Isso não é vida, Elena.

Eu suspirei, olhando para os buquês em minhas mãos. As flores estavam levemente amassadas, mas ainda tinham um pouco de cor, uma lembrança frágil do que restava de esperança em nossas vidas.

- Eu sei, Vicky, mas precisamos pagar o aluguel. O dono do trailer deixou claro que essa é nossa última chance. Se não pagarmos, ele nos põe na rua, e eu não sei para onde iríamos.

Vicky desviou o olhar, os olhos fixos no céu onde nuvens escuras começavam a se formar. A atmosfera ficou ainda mais pesada, como se a cidade estivesse preparando-se para algo ruim. Como sempre.

- Parece que vai chover - ela notou, mordendo o lábio, claramente ansiosa para sair dali.

Olhei em volta, sentindo o mesmo aperto no peito. As ruas estavam começando a esvaziar, e as risadas que vinham da boate soavam distantes e desconexas.

Tive um mau pressentimento, uma sensação de que algo terrível estava prestes a acontecer. E eu não gosto quando me sinto assim. Nem sempre acontece algo, mas quando acontece, acaba me deixando abalada.

- Talvez devêssemos ir embora - eu sugeri, a voz um pouco mais alta para superar o barulho da rua. - Não acho que vamos vender mais nada hoje.

Vicky concordou com um aceno, mas antes que pudéssemos nos mexer, as primeiras gotas de chuva começaram a cair, pesadas e geladas, como se o céu estivesse desabando sobre nós.

Puxei o capuz do casaco surrado sobre a cabeça e olhei para Vicky, que fazia o mesmo.

- Vamos, precisamos nos abrigar - eu disse, querendo sair logo dali.

Corremos pela calçada, desviando das poças de água que começavam a se formar sob nossos pés.

A chuva começou a bater mais forte, o som das gotas tamborilando contra o asfalto ecoando nos becos estreitos ao nosso redor.

As luzes da rua piscavam, refletindo nas poças como pedaços de vidro quebrado, e eu senti um nó apertar em meu estômago.

Eu não gosto dessa vida, não é o que quero para mim. Não foi assim que eu sonhei enquanto estava naquele orfanato.

Avistamos um beco estreito à frente, onde poderíamos nos proteger da chuva. Eu segurei a mão de Vicky e a puxei para lá, espremendo-nos contra a parede úmida.

O lugar estava escuro e fedia a lixo, mas pelo menos estávamos fora do alcance da chuva, embaixo de uma marquise.

- Não acredito que estamos vivendo assim - Vicky murmurou ao meu lado, a voz trêmula de frio e frustração. - A gente merecia algo melhor do que essa merda de vida.

Eu queria concordar com ela, mas as palavras ficaram presas na minha garganta.

A vida tinha se tornado uma luta constante desde que saímos do orfanato. Sentia falta daquele lugar horrível, porque pelo menos lá tínhamos um teto seguro.

Agora, estávamos à mercê da cidade, e a cidade não era gentil com garotas como nós. Chicago tem beleza, mas tem uma feiura que pode enlouquecer qualquer um. Não é fácil morar aqui.

Foi então que eu ouvi o som de passos apressados ecoando pelo beco.

Congelei, segurando a mão de Vicky com mais força. Nós trocamos um olhar rápido, e percebi que ela estava tão assustada quanto eu.

Os passos ficaram mais próximos, e logo vimos um homem surgindo na entrada do beco.

Ele estava ofegante, olhando em volta freneticamente como se estivesse fugindo de alguém. Minha respiração ficou presa no peito, o medo tomando conta de mim. Algo estava muito errado.

Antes que eu pudesse pensar em fazer qualquer coisa, outro homem apareceu.

Ele se movia com uma calma assustadora, como um predador que finalmente encontrou sua presa. Senti uma coisa estranha dentro de mim.

Ele era alto, ombros largos, e carregava uma arma. O brilho metálico da arma fez meu sangue gelar.

- Por favor, não! - o primeiro homem implorou, as mãos erguidas em rendição desesperada. - Eu posso devolver, só preciso de mais tempo!

O segundo homem não respondeu. Seus olhos estavam fixos no outro, frios e implacáveis, e eu sabia que ele não estava ali para negociar.

O ar ao nosso redor parecia eletrificado, e meu coração batia tão forte que eu temia que ele pudesse ouvir.

O som de um tiro ecoou pelo beco, e o homem que implorava perdão caiu de joelhos. O sangue começou a escorrer pela calçada, misturando-se com a água da chuva.

Eu segurei a respiração, cobrindo a boca com a mão, meus olhos arregalados, tentando não fazer barulho. Senti a mão de Vicky tremer violentamente na minha.

Eu queria correr, fugir dali, mas minhas pernas estavam paralisadas pelo medo e a chuva aumentava.

O homem com a arma olhou em volta, os olhos varrendo o beco como se estivesse procurando testemunhas. Eu me encolhi ainda mais contra a parede, rezando para que ele não nos visse. Puxei Vicky para que ficasse imóvel.

Depois de um momento que pareceu durar uma eternidade, ele guardou a arma e se afastou, desaparecendo na escuridão da noite.

O som dos seus passos foi engolido pela chuva que caía cada vez mais forte.

Ficamos ali, imóveis, o medo nos prendendo no lugar. Meu coração batia tão forte que chegava a doer.

Eu queria gritar, mas o pânico me sufocava. Vicky estava em choque, os olhos arregalados de puro terror.

Finalmente, ela consegui soltar um suspiro trêmulo e puxei Vicky para longe da cena, nossos passos apressados e desajeitados pelo beco molhado.

- Elena, o que a gente acabou de ver? - Vicky sussurrou, a voz cheia de pânico. - A gente precisa sair daqui. Agora!

- Eu sei - respondi, tentando controlar o medo que ameaçava me travar. - Mas temos que ser cuidadosas. Não podemos deixar que nos vejam.

Corremos sem olhar para trás, a chuva encharcando nossos casacos e cabelos. Eu estava em estado de choque também, mas sabia que não podíamos parar.

Tínhamos acabado de testemunhar um assassinato, e a realidade disso me atingiu como uma tonelada de tijolos. É muito comum em Chicago que as pessoas desapareçam pelos mais variados motivos.

Eu não quero ser uma delas.

Ninha Cardoso

Obs: Este é um romance dark, com passagens mais agressivas. Diferença de idade. Conflitos emocionais.

Capítulo 2 Temos que sair daqui

Parte 2...

Elena

Vicky tropeçou ao meu lado, quase caindo, mas eu a segurei pelo braço, puxando-a para continuar. O som da chuva era ensurdecedor, abafando nossos passos apressados pelas ruas escuras.

Minha mente estava em um turbilhão, o pânico me cegando, mas tudo que importava agora era escapar.

- Precisamos sair daqui rápido! - eu disse entre os dentes, tentando manter minha voz firme, apesar do medo que me dominava.

Vicky apenas assentiu, os olhos arregalados e a respiração descontrolada. Ela parecia prestes a desmoronar a qualquer momento, e eu sabia que precisava mantê-la em movimento.

Estávamos quase na saída do beco quando Vicky, em sua pressa desesperada, esbarrou em uma lata de lixo metálica, derrubando-a com um estrondo.

O som ecoou pelo beco como um tiro, e meu coração parou por um segundo.

- Droga, droga! - Vicky exclamou em um sussurro apavorado, os olhos arregalados de pânico. - Eles ouviram isso, Elena!

Meu sangue gelou, e a adrenalina percorreu meu corpo como uma descarga elétrica. Não havia tempo para pensar, apenas para reagir. Comecei a correr ainda mais rápido, puxando Vicky comigo.

- Não pare, só corre! - gritei, o medo apertando meu peito enquanto ouvia passos pesados se aproximando atrás de nós.

Podia ouvir vozes, gritos e ordens sendo dadas, mas tudo parecia abafado pela chuva e pelo bater acelerado do meu coração.

Viramos a esquina, e as luzes da cidade pareciam ainda mais distantes, como se estivéssemos correndo em direção a um abismo escuro.

- Ali! - ouvimos o grito - Peguem as garotas! - ouvi alguém gritar, e meu corpo entrou em modo de sobrevivência.

Corríamos pelas ruas desertas, nossos pés batendo contra as poças d'água, os respingos molhando nossos rostos.

As luzes dos postes se misturavam com as gotas de chuva, criando uma visão distorcida, quase surreal.

- Não vamos conseguir, Elena! - Vicky arfou ao meu lado, sua voz carregada de desespero. - Eles vão nos pegar!

Eu nem queria olhar para trás, com medo de que eles estivessem colados atrás de nós.

- Não vão! - eu disse com firmeza, embora minhas pernas já estivessem queimando de cansaço. - Só mais um pouco, Vicky. A gente vai conseguir!

Eu falava isso para ela, mas era muito mais para mim, porque estava apavorada, mas não queria pensar no pior.

O som dos passos estava cada vez mais perto, e eu sabia que precisávamos ser rápidas e inteligentes. Avistamos uma rua lateral à frente, quase oculta pela escuridão, e eu puxei Vicky em sua direção.

- Vamos por aqui!

Entramos na rua estreita e sem saída, com uma parede de tijolos ao fundo. O pânico me consumiu quando percebi que estávamos encurraladas. Foi uma escolha ruim.

- O que vamos fazer? - Vicky perguntou, a voz trêmula.

Eu olhei ao redor, buscando desesperadamente uma saída. Meus olhos se fixaram em uma cerca de metal enferrujada ao lado de uma lixeira.

- Vamos subir por ali - eu disse, apontando para a cerca.

Subimos a cerca com dificuldade, o metal frio e escorregadio dificultando cada movimento. Eu sou péssima em escalar as coisas, mas o medo me empurrava.

Vicky passou primeiro, e eu a segui, quase escorregando no topo. Caímos do outro lado, nossos corpos encontrando o chão molhado com um baque surdo. Bati o cotovelo com força. O impacto me fez ver estrelas, mas não havia tempo para me recuperar.

- Levanta, rápido! - eu sussurrei, puxando Vicky para ficar de pé.

Corremos por mais alguns minutos, o som dos nossos perseguidores ficando mais distante. Finalmente, avistamos a avenida principal, e meu coração deu um salto de esperança.

Um ônibus se aproximava lentamente, as luzes acesas cortando a escuridão da noite.

- Ali, o ônibus! - eu apontei, ofegante, respirando forte. - Vamos pegá-lo e sair daqui!

Corremos em direção ao ponto de ônibus, Vicky quase tropeçando novamente.

A chuva caía mais pesada agora, tornando cada passo uma luta contra o cansaço e o medo. Quando finalmente chegamos ao ponto, o ônibus estava prestes a partir.

- Espera! - eu gritei, acenando com a mão freneticamente.

O motorista olhou para nós, claramente surpreso ao ver duas garotas encharcadas e desesperadas.

Ele hesitou por um momento, mas abriu a porta, permitindo que entrássemos. Assim que nos sentamos, o ônibus começou a se mover novamente.

Eu me afundei no assento, meu corpo tremendo incontrolavelmente. Vicky estava ao meu lado, pálida como um fantasma, seus olhos fixos em algum ponto distante.

- Você está bem? - eu perguntei, a voz baixa e rouca.

Ela apenas balançou a cabeça, incapaz de falar. Eu também não tinha palavras. Tudo que conseguia fazer era respirar fundo, tentando acalmar meu coração que ainda batia como um tambor dentro do peito.

O ônibus seguia seu caminho pelas ruas desertas, as luzes da cidade piscando através das janelas embaçadas.

Tudo parecia surreal, como se estivéssemos presas em um pesadelo do qual não conseguíamos acordar.

Depois do que pareceu uma eternidade, finalmente chegamos ao nosso ponto. Saímos do ônibus em silêncio, o vento frio nos envolvendo como um manto gelado. Caminhamos abraçadas para tentar nos aquecer.

O acampamento de trailers estava escuro e silencioso, as luzes apagadas nos indicando que os moradores já estavam dormindo.

Eu não gosto desse lugar, mas foi o teto que conseguimos arranjar depois que nos colocaram para fora do orfanato, quando ficamos maior de idade.

- Temos que ser silenciosas - eu disse a Vicky, tentando manter minha voz firme. - Não queremos chamar atenção de ninguém.

Ela concordou com um aceno, e começamos a caminhar em direção ao nosso trailer. A lama grudava nos nossos sapatos, e eu me sentia pesada, como se cada passo exigisse um esforço monumental.

Quando finalmente chegamos ao nosso trailer, abri a porta com cuidado, tentando não fazer barulho. Entramos, e eu fechei a porta atrás de nós, trancando-a com todas as trancas que tínhamos.

Vicky se jogou no sofá velho e rasgado, o corpo inteiro tremendo. Eu me sentei ao lado dela, tentando encontrar as palavras certas para dizer, mas tudo parecia tão vazio.

- Isso foi muito perto - ela finalmente murmurou, a voz quebrada. - Eles poderiam ter nos matado, Elena.

- Eu sei - eu respondi, sentindo o peso da verdade em suas palavras. - Mas estamos vivas. Isso é o que importa agora.

Ela virou o rosto para mim, os olhos cheios de lágrimas.

- E amanhã? O que vamos fazer? Não podemos ficar aqui, eles podem nos encontrar. Não sabemos quem eles são, mas eles nos viram.

Eu queria lhe dar uma resposta, uma solução mágica para todos os nossos problemas, mas a verdade é que eu não tinha ideia do que fazer agora.

A única coisa que eu sabia era que precisávamos sobreviver, de qualquer maneira.

- Vamos pensar em algo - eu disse, tentando transmitir uma confiança que não sentia de verdade. - Vamos dar um jeito, como sempre fazemos. Foi um azar que vimos aquilo... Mas não vamos ficar pensando o pior agora.

Vicky assentiu, mas o medo não deixou seus olhos. Eu a abracei, tentando passar algum conforto, mas dentro de mim, o pavor ainda me segurava como uma corrente.

Capítulo 3 Um cliente estranho

Parte 3...

Elena

* Elena *

O sol mal havia despontado no horizonte quando saímos do trailer, os primeiros raios de luz refletindo nas poças d'água que ainda marcavam a chuva forte da noite anterior.

Eu estava exausta, a cabeça pesada de preocupação e cansaço. Vicky, ao meu lado, não parecia muito melhor. Seus olhos estavam fundos, como se a noite mal dormida tivesse arrancado qualquer vestígio de energia.

Andamos em silêncio pelas ruas ainda úmidas, as lembranças do que havíamos visto na noite anterior pesando sobre nós.

Eu não conseguia tirar da mente a imagem daquele homem sendo assassinado, o som seco e final do tiro ainda ecoando em meus ouvidos.

- E se eles nos encontrarem? - Vicky quebrou o silêncio, sua voz baixa e trêmula.

Olhei para ela, tentando mascarar meu próprio medo com uma expressão confiante. Eu não sou a mais corajosa de todas, mas sou um pouco mais do que a Vicky.

- Ninguém vai nos encontrar, Vicky. Só precisamos ser cuidadosas e continuar com nossas vidas como se nada tivesse acontecido.

- Não seria melhor que a gente fosse até uma delegacia pra contar tudo?

- E a gente ia contar o que, Vicky? - atravessamos a rua correndo - Nem sabemos quem eram aqueles homens, o que aquele cara fez pra merecer aquilo - enchi o peito de ar e me arrepiei só de lembrar.

- É, você tem razão - ela olhou de um lado para outro - A nossa palavra não vale nada pra essa gente.

- Vamos ficar um tempo sem voltar lá na região da boate. Podemos vender nossas flores em outros lugares. A vida noturna de Chicago é bem agitada, não temos que ficar no mesmo lugar - e nem devemos agora.

Ela assentiu, mas eu sabia que minhas palavras não a tranquilizavam de verdade.

E sendo honesta, a questão é que eu também estava apavorada. Se aqueles homens nos vissem de novo...

Não, eu não podia pensar nisso. Não sei qual o motivo daquilo e nem quero saber. Minha vida já é bem difícil com meus próprios problemas, para ficar me envolvendo com os problemas dos outros.

Seja lá o que aquele cara fez, que Deus tenha piedade da alma dele.

Chegamos à confeitaria, uma pequena loja com janelas de vidro que ficava no centro do bairro. Era um lugar acolhedor, com mesas de madeira e o aroma doce de massa assando no ar.

Era o nosso pequeno refúgio, onde podíamos fingir, por algumas horas, que tudo estava bem. Os donos eram bons pra gente.

São um casal de imigrantes franceses, que escolheram Chicago por pura necessidade. Eles estiveram em outros lugares antes, mas foi em Chicago que conseguiram prosperar.

Ao entrar, fomos recebidas pelo som familiar do sino da porta e o calor que vinha do forno. Vicky foi direto para os fundos, onde começava a preparar os ingredientes para o dia.

Eu fui para o balcão, limpando o espaço e preparando as vitrines, enchendo tudo com os doces e salgados que foram preparados ainda de madrugada.

- Preciso que você se concentre hoje, Vicky - eu disse, tentando manter um tom prático. - Temos que agir como sempre, não podemos dar bandeira.

- Eu sei - ela respondeu, mas sua voz estava distante - Mas ainda sinto medo - ela fez uma careta - Sei lá, parece que a qualquer momento vai acontecer algo.

- Pelo amor de Deus, não fique pirando - ergui a mão - Eu não aguento ficar estressada o dia todo, já basta a madrugada.

- Ok, vou tentar não pirar.

O dia começou devagar, com os clientes habituais vindo buscar seus pedidos matinais de café e doces. Aos poucos, a confeitaria foi se enchendo de vida, o que, de certa forma, ajudava a dissipar o clima sombrio que nos envolvia.

O salário não é lá grande coisa, mas temos outras vantagens. E por enquanto, temos que levar as coisas como elas acontecem, porque não temos outra alternativa.

Quando saímos do orfanato ficamos perdidas, sem saber o que fazer. Acho que ainda não sabemos direito, mas pelo menos estamos tentando.

Tudo estava relativamente normal até o fim da manhã, quando um homem entrou na loja. Ele era alto, com um porte imponente, e tinha o cabelo escuro penteado para trás, dando-lhe um ar de poder.

Suas roupas eram elegantes, e ele parecia fora de lugar naquele bairro simples. Algo sobre ele me deixou desconfortável, mas eu não conseguia identificar exatamente o que era.

- Bom dia, senhor! - o cumprimentei, tentando manter minha voz firme com um sorriso - O que posso fazer por você?

Ele olhou ao redor da loja com um ar de avaliação antes de fixar seus olhos em mim. Um sorriso lento se formou em seus lábios, e eu senti um calafrio percorrer minha espinha.

- Bom dia, senhorita. Eu gostaria de fazer uma encomenda grande para esta tarde - ele disse, sua voz baixa e controlada, com um leve sotaque e que eu não consegui identificar de imediato. - Preciso de uma variedade de doces finos, algo que impressione.

- Claro, podemos cuidar disso para o senhor - eu respondi, pegando um bloco de notas. - Alguma preferência específica? - apontei para a bancada cheia de opções.

Ele deu de ombros, ainda sorrindo de uma maneira que não chegava a seus olhos.

- Confio no julgamento de vocês. Quero que seja algo especial. Terei alguns convidados importantes.

Eu anotei o pedido, tentando ignorar o desconforto crescente que sua presença me causava. Vicky saiu dos fundos naquele momento, trazendo uma bandeja de croissants frescos. Assim que o homem a viu, seu sorriso se alargou.

- E quem é essa bela jovem? - ele perguntou, inclinando-se ligeiramente em direção a ela, colocando os braços em cima do balcão.

Vicky hesitou, claramente surpresa com a atenção repentina. Olhou pra mim.

- Ah... Eu sou Vicky - ela disse, sem jeito. - Eu trabalho aqui.

- Prazer em conhecê-la, Vicky - ele respondeu, seu olhar fixo nela de uma maneira que me incomodava. - Espero vê-la mais vezes.

Ela deu um sorriso tímido, mas não disse nada. Eu não gostei do jeito que ele a olhou, mas tentei manter a compostura.

- Sua encomenda estará pronta às dezessete horas - eu disse, tentando encerrar a conversa. - Podemos entregá-la ou o senhor prefere buscar?

- Eu virei buscar - ele disse, finalmente desviando o olhar de Vicky para mim. - Até logo, senhoritas.

O homem saiu da loja, o sino da porta tilintando atrás dele. Vicky soltou um suspiro de alívio assim que ele se foi.

- Ele era meio... Intenso, não é? - ela comentou, colocando a bandeja no balcão.

- Sim, e um pouco assustador também - eu respondi, ainda tentando afastar a sensação de que algo estava errado.

- Você acha que ele vai mesmo voltar? - Vicky perguntou, pegando um croissant e dando uma mordida pequena.

- Ele disse que sim, às cinco. E já pagou, então deve vir sim - eu respondi, sem saber se deveria me preocupar ou não. Acho que só estava cismada.

Vicky parecia pensativa, mas logo balançou a cabeça, como se quisesse afastar os pensamentos inquietantes.

- Talvez ele seja apenas um cara rico com gostos estranhos - ela deu de ombros.

- Sim... Não vamos nos preocupar com isso - eu disse, tentando sorrir - Acho que a gente ainda está com o nervosismo forte.

- Pode ser, mas ninguém vai julgar a gente por ter ficado com tanto medo que quase me borrei nas calças.

- Nem me fale - aumentei os olhos.

- Se os caras não vieram atrás da gente depois que subimos no ônibus, então acho que está de boa.

- É, talvez! - eu concordei, embora meu instinto me dissesse o contrário.

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