No funeral da minha mãe, com a chuva a bater na janela da capela, a minha vida desmoronou-se.
O meu chefe ligou-me nesse mesmo dia para me despedir.
Dei por mim na miséria, a segurar o telemóvel onde acabava de perder o meu emprego, sozinha, perante o caixão simples da minha mãe.
Foi então que o meu ex-namorado, Pedro, me ligou, furioso.
"Lia, para de me ligar! Recebi cinco chamadas tuas!" ele gritava.
Eu não tinha ligado. Mal tive tempo de pensar, a voz suave da minha prima, Eva, surgiu no fundo.
"A tua mãe acabou de falecer, eu entendo que estejas triste, mas o Pedro não te pode ajudar."
Eles estavam juntos. A minha prima, a "doce e frágil" Eva, que a minha mãe me pedia para cuidar, tinha-me apunhalado pelas costas.
A humilhação era insuportável. Decidi vender a única coisa de valor que me restava: a casa da minha mãe.
Foi aí que a fúria deles explodiu.
"Não podes fazer isso! Essa casa pertence à minha família! A tua mãe prometeu à minha mãe que a Eva podia ficar lá!"
Acusaram-me de ser egoísta, um monstro sem coração, "igual ao meu pai" .
Não compreendiam, nem queriam compreender, que a tragédia era a minha, não a deles.
Os olhos desesperados do meu ex, as palavras venenosas da minha tia quando Eva encenou uma alegada tentativa de suicídio para me prender.
Como pude ser tão ingénua? Porque é que a minha própria família me odiava tanto?
Por uma promessa que a minha mãe já não podia cumprir, viram-se contra mim como abutres.
Quando pensei que estava completamente sozinha e sem saída, a vender a minha casa a um estranho, um homem misterioso e poderoso apareceu.
E disse algo que mudaria tudo.
"Eu fiz uma promessa à sua mãe. E eu cumpro sempre as minhas promessas."
Quando o meu chefe me ligou, eu estava no meio do funeral da minha mãe.
A chuva caía sem parar lá fora, batendo contra as janelas da capela, um som monótono e deprimente.
Eu tinha acabado de perder o emprego.
"Lia, eu sei que este é um momento difícil," disse ele, a sua voz sem qualquer simpatia, "mas a empresa não pode esperar. Precisamos de alguém que esteja totalmente focado, e tu, obviamente, não estás."
Eu não respondi, apenas segurei o telemóvel com força, olhando para o caixão de madeira simples à minha frente.
A minha mãe estava lá dentro, quieta e fria.
E eu estava sozinha.
Foi nesse momento que decidi vender a casa. A casa que ela me deixou, a única coisa de valor que tínhamos.
O meu telemóvel tocou novamente. Era o Pedro, o meu namorado. Ou melhor, ex-namorado.
A voz dele soou distante e irritada quando atendi.
"Lia, para de me ligar. Eu já te disse que acabou."
"Eu não te liguei," respondi, a minha voz rouca.
"Não mintas. Recebi cinco chamadas perdidas tuas. A sério, tens de seguir em frente. Eu estou com a Eva agora, ela precisa de mim."
"A tua mãe acabou de falecer, eu entendo que estejas triste," a voz suave da Eva surgiu ao fundo, "mas o Pedro não te pode ajudar. Ele está a construir uma nova vida comigo."
Eva. A minha prima. A filha da irmã da minha mãe. A menina doce e frágil que a minha mãe sempre me pedia para cuidar.
Sorri, mas não havia humor no meu sorriso.
"Pedro," eu disse, a minha voz surpreendentemente calma, "eu só quero que saibas de uma coisa."
Ele ficou em silêncio, provavelmente à espera de mais um apelo desesperado.
"A casa da minha mãe. Eu vou vendê-la."
Houve uma pausa do outro lado da linha, mais longa desta vez. Depois, a fúria dele explodiu.
"O quê? Tu não podes fazer isso! Essa casa também pertence à minha família! A tua mãe prometeu à minha mãe que a Eva podia ficar lá sempre que precisasse!"
"A minha mãe está morta," eu disse simplesmente. "As promessas dela morreram com ela."
"Tu és inacreditável, Lia! Tão egoísta! A Eva não tem para onde ir! Tu sabes como a vida dela é difícil, a mãe dela maltrata-a!"
A vida dela é difícil? E a minha? A minha mãe acabou de morrer, perdi o meu emprego, e o homem que eu amava deixou-me pela minha prima. Mas claro, a vida da Eva é que é a tragédia.
"Isso já não é problema meu," eu disse, e a minha voz não tremeu.
"Tu vais arrepender-te disto! Achas que alguém vai querer uma pessoa fria e sem coração como tu? Vais acabar sozinha, tal como a tua mãe!"
Ele desligou na minha cara.
O telemóvel caiu da minha mão, mas não fez barulho no tapete grosso da capela.
Olhei para o caixão. Sozinha, como a minha mãe. Talvez ele tivesse razão. A minha mãe dedicou a vida inteira a cuidar da irmã e da sobrinha, e no final, morreu sozinha num hospital frio.
Mas eu não ia ser como ela. Eu não ia sacrificar a minha felicidade pelos outros.
A casa era a minha única saída. O meu recomeço.
E eu não ia deixar que ninguém mo tirasse. Nem o Pedro, nem a Eva.
No dia seguinte, coloquei a casa à venda.
O agente imobiliário, um homem baixo e com um bigode demasiado grande, percorreu a casa com um olhar crítico.
"É uma boa casa," ele admitiu, "localização excelente. Mas precisa de algumas reparações. A pintura está a descascar, a canalização é antiga."
"Eu sei," respondi, "mas não tenho dinheiro para arranjar nada. O preço tem de refletir isso."
Ele deu de ombros. "Como quiser. Mas vai demorar mais tempo a vender."
Eu não tinha tempo. Precisava do dinheiro o mais rápido possível.
Poucas horas depois de o anúncio ir para o ar, recebi uma chamada. Um número desconhecido.
"Estou a ligar por causa do anúncio da casa na Rua das Flores," disse uma voz masculina, profunda e calma. "Gostaria de a ver."
Fiquei surpreendida. "Claro. Quando?"
"Agora. Estou aqui perto."
Hesitei por um momento. Era estranho, mas eu estava desesperada.
"Está bem. Dê-me dez minutos."
Desliguei e corri pela casa, tentando arrumar a desordem que refletia o caos na minha vida. Não adiantou muito.
A campainha tocou exatamente dez minutos depois.
Abri a porta e deparei-me com um homem que não se parecia em nada com um comprador de casa típico.
Ele era alto, vestia um fato caro que parecia feito à medida, e tinha um ar de poder silencioso. Os seus olhos, de um cinzento penetrante, avaliaram-me de cima a baixo antes de se focarem na casa atrás de mim.
"Sou o Miguel Costa," disse ele, estendendo a mão. A sua mão era quente e firme.
"Lia. Entre, por favor."
Ele entrou e o seu olhar percorreu a sala de estar. Não se focou na tinta a descascar ou nos móveis velhos. Em vez disso, olhou para as fotografias na prateleira. Uma foto minha e da minha mãe, a sorrir num dia de sol.
"Conhecia a sua mãe," disse ele, sem desviar o olhar da fotografia. "Ela era uma mulher boa."
Fiquei paralisada. "Conhecia-a? Como?"
"Negócios," ele respondeu vagamente. "Ela mencionou que tinha uma filha. E que esta casa era tudo o que ela tinha para lhe deixar."
O seu tom não era de pena. Era uma constatação.
"Ela falou de si?" perguntei, confusa. A minha mãe nunca mencionou um homem como este.
"Ela pediu-me um favor uma vez," disse ele, finalmente virando-se para mim. "Pediu-me que, se alguma vez lhe acontecesse alguma coisa, eu garantisse que a filha dela ficava bem."
Um nó formou-se na minha garganta. A minha mãe, sempre a pensar em mim, mesmo quando eu não sabia.
"Eu não preciso de ajuda," disse eu, a minha voz mais dura do que eu pretendia.
Miguel Costa ergueu uma sobrancelha. "Toda a gente precisa de ajuda, Lia. A questão é se a aceita ou não."
Ele caminhou pela casa, em silêncio. Não fez comentários sobre o estado dela. Apenas observou, como se estivesse a memorizar cada detalhe.
Quando voltou para a sala de estar, parou à minha frente.
"Eu compro a casa," disse ele.
Fiquei boquiaberta. "Assim? Sem negociar? O agente disse que..."
"Eu não me importo com o que o agente disse. Eu pago o valor que pediu. Na totalidade. Amanhã."
Aquilo era demasiado bom para ser verdade.
"Porquê?" perguntei, desconfiada. "Porquê está a fazer isto?"
"Porque eu fiz uma promessa à sua mãe," disse ele. "E eu cumpro sempre as minhas promessas."
O seu olhar era intenso, quase avassalador. Havia algo nele, uma profundidade que me assustava e ao mesmo tempo me atraía.
"Não há nenhuma condição?"
"Apenas uma," disse ele, e um leve sorriso surgiu nos seus lábios. "Jante comigo amanhã à noite. Para celebrar o acordo."