Oito anos de casamento. No dia do nosso aniversário, Pedro Silva me presenteou com novecentas e noventa e nove rosas vermelhas, quase sufocando a sala com seu perfume.
Qualquer outra mulher choraria de emoção, mas meu coração estava frio como uma pedra de gelo, afinal, eu acabara de receber alta do hospital após uma cirurgia.
Disquei o número dele e uma jovem atendeu, a voz de Ana, sua secretária, chorosa e acusatória: "Dona Silva... me desculpe... foi tudo culpa minha."
Ao fundo, a voz de Pedro, terna e consoladora: "Não chore, não foi culpa sua. Fique tranquila, eu resolvo."
Minutos depois, ele finalmente atendeu, mas sua voz era fria, desprovida de qualquer afeto: "O que você quer?"
Foi então que a bomba explodiu: "Pedro, vamos nos divorciar."
Ele não hesitou, apenas respondeu com uma indiferença cortante: "Como você deseja." E desligou.
Naquela noite, o cheiro de álcool caro e o perfume feminino de Ana impregnavam seu terno. Ele se sentou ao meu lado, oferecendo uma bolsa de grife como um suborno por sua ausência.
Eu o confrontei diretamente: "Você está tendo um caso com a Ana?"
Ele negou, desdenhando da minha desconfiança, me acusando de ser amarga, de afastar até nosso filho.
A humilhação de ter sido impedida de buscar João na escola por sua ordem, porque "eu faria uma cena", ainda ardia.
Ele se inflamou em raiva, gritando que eu não sabia "ser a esposa de Pedro Silva", que eu o envergonhava.
Em meio à fúria dele, uma clareza fria me atingiu: não havia mais dor, apenas um vazio profundo.
Então, com a voz mais calma e firme que consegui reunir, revelei a verdade que o mergulhou no mais absoluto silêncio: "Eu tive um aborto espontâneo hoje."
Oito anos de casamento, e no dia do nosso aniversário, Pedro Silva me enviou novecentas e noventa e nove rosas vermelhas.
As flores ocupavam quase toda a sala de estar, o perfume intenso e adocicado era quase sufocante.
Qualquer outra mulher talvez chorasse de emoção, mas eu apenas olhei para aquele mar de pétalas com o coração frio como uma pedra de gelo.
Eu tinha acabado de receber alta do hospital após uma cirurgia.
Segurei o celular com a mão que não tremia e disquei o número dele.
A chamada demorou a ser atendida. Quando finalmente alguém atendeu, não foi a voz grave e familiar de Pedro que ouvi, mas sim o choro contido de uma jovem.
"Dona Silva... me desculpe... foi tudo culpa minha, por favor, não brigue com o Sr. Silva."
Era a voz de Ana, a secretária e amiga de infância de Pedro. A voz dela era suave e frágil, carregada de uma culpa que soava ensaiada.
Pude ouvir ao fundo a voz de Pedro, baixa e reconfortante, acalmando-a. "Não chore, não foi culpa sua. Fique tranquila, eu resolvo."
Ele passou um bom tempo consolando-a, sussurrando palavras que eu não conseguia distinguir, mas cujo tom carinhoso eu conhecia muito bem, pois um dia fora dirigido a mim.
Depois de um silêncio que pareceu uma eternidade, ele finalmente falou comigo. Sua voz, agora desprovida de qualquer calor, era apenas um ruído distante e indiferente.
"O que você quer?"
Eu respirei fundo, o cheiro das rosas me dando náuseas.
"Pedro, vamos nos divorciar."
Do outro lado da linha, um silêncio pesado. Então, a resposta veio, curta e fria, como se ele estivesse apenas concordando com o tempo.
"Como você deseja."
E desligou.
Eu fiquei ali, parada no meio da sala, o celular ainda na mão. Olhei para as rosas, para o luxo absurdo daquele gesto, e um riso amargo escapou dos meus lábios. Novecentas e noventa e nove rosas. Faltava apenas uma para completar mil.
Uma rosa para o fim.
Ele chegou em casa tarde da noite, como de costume. O cheiro de álcool caro e do perfume feminino de Ana impregnava seu terno de grife.
Ele não olhou para mim, apenas afrouxou a gravata e jogou o paletó no sofá.
"Já comeu?", ele perguntou, a voz monótona, um roteiro repetido noite após noite.
"Não."
Ele foi para a cozinha e, minutos depois, voltou com uma tigela de macarrão instantâneo, o mesmo que a empregada preparava. Colocou na minha frente, na mesinha de centro.
"Coma."
Eu continuei olhando para a televisão, onde passava um programa qualquer de variedades. Eu não sentia fome, não sentia nada.
Ele se sentou ao meu lado, mas a uma distância segura, e ligou para o seu assistente, discutindo números, fusões e aquisições. O mundo dele, um mundo do qual eu não fazia mais parte há muito tempo.
Ele desligou o telefone e notou meu olhar vazio. Talvez sentindo uma ponta de culpa, ele buscou algo em sua pasta de couro.
"Comprei para você."
Ele colocou uma caixa de uma marca famosa na mesa. A última bolsa de edição limitada que todas as mulheres da alta sociedade desejavam. Um troféu. Um suborno.
Eu nem sequer olhei.
"Pedro", eu disse, a voz calma, quase um sussurro. "Você está tendo um caso com a Ana?"
Ele franziu a testa, a sua expressão se fechando. A paciência dele comigo sempre foi curta nos últimos anos.
"Maria Eduarda, não comece com isso. Você sabe que a Ana é como uma irmã para mim. Ela é filha da nossa antiga governanta, crescemos juntos."
"Uma irmã que chora no seu ombro e precisa que você a console por horas?", retruquei, o sarcasmo pingando da minha voz.
"Ela está passando por um momento difícil. O noivo dela terminou com ela. Eu estava apenas sendo um bom amigo." Ele se levantou, a irritação evidente em seus gestos. "Por que você sempre tem que ser tão desconfiada e amarga? É por isso que nem o João gosta de ficar perto de você."
O nome do nosso filho me atingiu.
João.
Ele tinha seis anos e passava mais tempo na mansão da família Silva, sob os cuidados da minha sogra, Dona Silva, do que comigo. Eles diziam que era para o bem dele, que eu não era uma influência estável.
"Você não tem o direito de falar do João", minha voz tremeu pela primeira vez.
"Eu não tenho o direito? Eu sou o pai dele! Fui eu que o ensinei a andar de bicicleta, enquanto você estava trancada no quarto se lamentando sobre como sua vida é miserável."
"Você me proibiu de buscá-lo na escola na semana passada", eu o lembrei, um incidente que ainda ardia em minha memória. Eu tinha ido até a escola, animada para surpreendê-lo, apenas para ser informada pela professora que o Sr. Silva havia dado ordens expressas para que apenas ele ou sua secretária, a Srta. Ana, pudessem buscá-lo.
A humilhação foi pública e cortante.
O rosto de Pedro se contraiu de raiva. Ele deu um passo em minha direção, o dedo em riste.
"Eu fiz isso porque você ia fazer uma cena! Você sempre faz uma cena! Você não sabe se comportar como a esposa de Pedro Silva! Você envergonha a mim e à minha família!"
O grito dele ecoou na sala silenciosa. A máscara de marido indiferente caiu, revelando o homem zangado e ressentido que ele havia se tornado.
Eu o encarei, a tempestade de emoções dentro de mim finalmente se acalmando, dando lugar a uma clareza fria e assustadora. Eu não sentia mais dor, nem raiva. Apenas um vazio profundo.
Esperei que ele terminasse seu discurso inflamado. Esperei que o silêncio voltasse a preencher o espaço entre nós.
Então, eu olhei diretamente em seus olhos e disse, com a voz mais calma e firme que consegui reunir.
"Pedro."
Ele ainda bufava, o peito subindo e descendo.
"Eu tive um aborto espontâneo hoje."
A cor sumiu do rosto dele. O homem poderoso, o CEO implacável, de repente parecia um menino assustado. O silêncio que se seguiu foi mais alto do que qualquer grito.
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O dia do nosso oitavo aniversário começou com uma dor surda no meu abdômen.
Ignorei, pensando que era apenas mais um sintoma do estresse que se tornara meu companheiro constante. Pedro havia saído cedo para uma reunião importante. Ele me deu um beijo rápido na testa, um gesto automático, e disse que me compensaria à noite.
A dor piorou.
Por volta do meio-dia, tornou-se aguda, me dobrando ao meio. Fui ao banheiro e vi o sangue.
O pânico me tomou.
Eu estava grávida. Havia descoberto há duas semanas, em segredo. Ainda não tinha contado a Pedro. Eu não sabia como. Como se traz uma nova vida para um casamento que já está morto?
Agarrei o telefone e liguei para ele. A chamada foi para a caixa postal.
Liguei de novo. E de novo. E de novo.
No total, liguei doze vezes.
Desisti e chamei um táxi. No hospital, sozinha, passei pela emergência, pelos exames, pela ultrassonografia que confirmou o que eu já temia.
O médico me olhou com pena. "Sinto muito, senhora. Não há mais batimentos cardíacos."
Enquanto eu estava deitada na maca, esperando pelos procedimentos, peguei meu celular por hábito e abri uma rede social. A primeira coisa que vi foi uma foto postada por um conhecido em comum.
Era de um almoço de negócios. Em um restaurante chique, Pedro estava ao lado de Ana. Ela segurava uma taça de vinho, e ele tinha a mão levemente à frente dela, como se a estivesse protegendo de alguém que insistia em oferecer bebida. A legenda dizia: "O Sr. Silva é um verdadeiro cavalheiro, protegendo sua secretária. Um chefe desses!"
A foto fora postada na hora exata em que eu estava dobrada de dor no chão do banheiro, ligando para ele desesperadamente.
Ele não atendeu minhas chamadas porque estava ocupado sendo um "verdadeiro cavalheiro" para outra mulher.
Naquele momento, algo dentro de mim se partiu de forma definitiva. Não foi a dor da perda do bebê, que era real e avassaladora. Foi a constatação da minha completa e absoluta solidão.
Quando o médico me perguntou se eu queria um momento para me despedir, uma reação estranha tomou conta de mim.
Eu senti alívio.
Um alívio terrível, que me encheu de vergonha. Alívio por essa pequena vida não ter que nascer em um lar sem amor, com um pai ausente e uma mãe quebrada.
E foi ali, na cama fria do hospital, que a decisão se solidificou. Acabou.
De volta à nossa sala de estar, o rosto de Pedro estava pálido. Ele me encarava, chocado, sem palavras.
"O quê... O que você disse?", ele gaguejou.
"Eu perdi o bebê", repeti, a voz sem emoção. "Fui para o hospital sozinha. Tive uma cirurgia. Liguei para você doze vezes, Pedro. Você não atendeu."
Eu o vi engolir em seco. Ele sabia. Ele sabia que eu tinha ligado.
"Eu estava... eu estava em uma reunião importante", ele disse, a desculpa soando fraca até para ele.
"Eu vi a foto", falei calmamente. "Você estava protegendo a Ana de beber vinho. Um verdadeiro cavalheiro."
A culpa finalmente pareceu atingi-lo. Ele deu um passo em minha direção, a mão estendida.
"Duda, eu..."
Mas então ele parou. A expressão dele mudou. A culpa foi substituída por algo mais feio: a defensiva.
"E o que você queria que eu fizesse?", ele disse, a voz subindo de tom novamente. "Você nem tinha me contado que estava grávida! Como eu ia adivinhar?"
Ele deu mais um passo para trás, criando distância, como sempre fazia.
"Talvez seja melhor assim", ele disse, as palavras saindo da boca dele como veneno. "Nós não estamos bem. Ter outro filho agora só pioraria as coisas."
Ali estava. A verdade crua e brutal. A confirmação de que ele não se importava. A perda do nosso filho era, para ele, um inconveniente que fora convenientemente resolvido.
Eu não chorei. Eu não gritei. Eu apenas senti o último fio que me prendia a ele se romper.
"Acabou, Pedro", eu disse, minha voz agora firme como aço.
Ele me olhou, uma mistura de raiva e talvez, pela primeira vez, um pingo de medo. O medo de quem percebe que perdeu o controle.
"Não use isso para me manipular", ele rosnou.
Eu ri. Um riso oco e sem alegria.
"Não se preocupe. Eu não quero mais nada de você."
Virei as costas para ele, para as rosas moribundas, para os oito anos de casamento que se transformaram em cinzas. Fui até o nosso quarto, peguei uma pequena mala que eu já havia deixado pronta há semanas, sem saber quando teria a coragem de usá-la.
Coloquei apenas o essencial: algumas roupas, meus documentos, o pouco dinheiro que eu tinha guardado.
Quando saí do quarto, ele estava parado no mesmo lugar, me observando.
Eu passei por ele sem dizer uma palavra, sem olhar para trás. Caminhei até a porta, abri-a e saí para a noite fria.
Na manhã seguinte, Pedro acordou em uma casa silenciosa. A cama ao seu lado estava fria e intocada. Ele andou pela casa, procurando por um sinal dela. As rosas ainda estavam lá, começando a murchar. A bolsa de grife estava intocada na mesa. A tigela de macarrão, fria, no mesmo lugar.
Mas Maria Eduarda não estava em lugar nenhum.
Pela primeira vez em muitos anos, a ausência dela era um buraco palpável na casa, um silêncio que gritava mais alto do que qualquer briga. E pela primeira vez, ele sentiu uma pontada de um pânico que não conseguia nomear.
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