Larissa
Abril de 2010
Acordo com o cheiro de hospital antes mesmo de abrir os olhos.
É aquele cheiro inconfundível de desinfetante misturado com ar condicionado frio, com algo levemente adocicado que não tem origem identificável. Já estive em hospitais antes. Sei o que esse cheiro significa: que o mundo lá fora parou de existir por um tempo, e aqui dentro só existem máquinas, monitores e o som baixo de passos que vêm e vão no corredor.
Demoro alguns segundos antes de me mover. O teto branco me confirma onde estou. Uma agulha fininha presa no meu braço esquerdo, presa com esparadrapo cor de pele. O frio nos pés. Os lençóis de um branco desbotado que só hospitais têm. A luz fria do teto que não tem hora, podia ser manhã, tarde, ou madrugada, e aquela luz seria exatamente igual.
Então percebo.
Tem uma mão segurando a minha.
Quente. Firme. Presente do jeito que só uma presença real consegue ser, não o presente descuidado de quem está distraído, mas o presente atento de quem escolheu estar ali.
Viro o rosto devagar, com mais cuidado do que imagino ser necessário, como se meu corpo soubesse antes de mim que qualquer movimento brusco pode quebrar alguma coisa frágil que ainda não identifiquei.
Gabriel está adormecido na cadeira ao lado da maca. A cabeça levemente inclinada pro lado, os ombros largos curvados pra frente, a respiração lenta e regular de quem dormiu ali sem planejamento, foi pegando no sono enquanto vigiava, e simplesmente ficou. Os dedos dele estão entrelaçados nos meus como se, mesmo dormindo, tivesse medo de me perder.
Fico olhando para ele por um tempo que não consigo medir.
Gabriel. Com toda a sua seriedade silenciosa, com aquele jeito de cuidar sem anunciar. Aqui. Segurando a minha mão enquanto dorme numa cadeira de hospital que com certeza é desconfortável, com aquela postura que vai fazer ele acordar com dor no pescoço.
A memória volta em fragmentos, do jeito que memórias voltam quando o corpo esteve tão perto do limite que a mente resolveu poupar energia e guardou as coisas em camadas.
O jantar. A mesa posta com cuidado, as velas. O vinho que eu quase não bebi. A conversa que começou sobre nada e foi ficando mais funda sem que eu percebesse quando cruzou a linha do superficial pro essencial.
O mar. A brisa que eu senti na pele quando fomos até a varanda. A calma de Angra, ali nos fazendo companhia.
E as palavras de Gustavo. A voz dele baixa, séria, sem enfeite. A probabilidade.
Fecho os olhos de novo.
Não por fraqueza. Mas porque ainda não sei como olhar para o mundo, para Gabriel dormindo ao meu lado, para a agulha no meu braço, para a luz fria do teto sabendo o que sei. Ou o que posso saber. Ainda não tenho certeza. Essa é a parte que me assusta mais do que qualquer outra coisa: a incerteza. O espaço entre o que foi e o que pode ter começado sem que eu soubesse.
Naquela noite, enquanto o oceano cantava lá embaixo e Gustavo me olhava como se eu fosse a coisa mais real que ele tinha visto em muito tempo, ali meu destino foi traçado sem que eu percebesse? Foi ali, naquele momento de jantar e vinho e brisa e conversa, que tudo mudaria de direção?
Dentro de mim pode estar a resposta de uma noite que eu jamais vou esquecer, que não teve fim. Diogo.
Tudo está confuso. E agora?
Como uma pessoa recomeça quando ainda não sabe ao certo o que terminou?
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Interior de Minas Gerais, 2007.
Serra acordava devagar nas manhãs de semana letivo.
As ruas de paralelepípedo recebiam a luz do sol em camadas - primeiro as pontas das telhas, depois as janelas, depois o chão onde as crianças ainda não tinham chegado mas chegariam em breve. A padaria da esquina já estava aberta. O sino da igreja soava uma vez, como um lembrete suave de que o mundo continuava girando.
Era nesse ritmo que eu me movia toda manhã, e aquela manhã não deveria ter sido diferente de nenhuma outra.
- Mãe, vou indo! - gritei já na porta, as sandálias na mão e a mochila com o zíper meio aberto, que eu ia fechar no caminho como sempre fazia. - Estou atrasada!
- Larissa! - A voz da minha mãe cortou o ar pela janela da sala antes que eu chegasse ao portão. Tinha aquela tonalidade específica - não de raiva, mas de aviso. - Volta aqui, menina. Seu pai não está bem hoje. Falta de ar de novo.
Parei na calçada.
Coloquei as sandálias nos pés. Respirei fundo. Voltei.
Subi os dois degraus da varanda, atravessei a sala com o cheiro de café passado e de flores artificiais que minha mãe insistia em manter na estante, e parei na entrada do quarto dos meus pais.
Meu pai estava recostado nos travesseiros empilhados - sempre precisava de dois, às vezes três, desde que o enfisema tinha piorado e a posição deitada ficou difícil. O peito dele subia e descia com um esforço que você só percebia se soubesse procurar, mas eu sabia procurar fazia tempo. Aprendi a ler aquele ritmo como quem aprende a ler o tempo - por necessidade, porque a alternativa era ser pega de surpresa.
Minha mãe se levantou quando me viu entrar. Saiu sem dizer nada. Nos deixando a sós, como sempre fazia nesses momentos. Ela sabia que existia uma linguagem entre meu pai e eu que precisava de privacidade pra funcionar direito.
Sentei na beira da cama. Peguei a mão dele - já mais fina do que um ano atrás, os ossos mais visíveis, a pele mais translúcida como se o tempo estivesse tornando-o gradualmente menos sólido.
- Não precisa ficar, querida. - A voz saiu rouca, mas o sorriso chegou antes das palavras. Sempre foi assim com ele. O sorriso chegava primeiro. - O que eu quero é que você vá à escola.
- O senhor está com falta de ar, pai. Posso faltar. Já fiz todas as provas, já passei de ano.
- Pode. - Apertou minha mão. - Mas não vai.
Olhei para ele por um momento. Para o rosto que eu conhecia melhor do que qualquer outro rosto no mundo - as rugas ao redor dos olhos que apareciam quando ele ria, os cabelos que tinham ficado mais brancos nos últimos dois anos, o sulco entre as sobrancelhas que só aparecia quando estava pensando em algo sério.
Ele estava pensando em algo sério.
- Quero que você me prometa uma coisa, Larissa.
- Pai...
- Me deixa falar. - Disse com gentileza, mas com firmeza. A firmeza suave que era a marca registrada do meu pai. - Quero que você me prometa que vai seguir em frente. Que vai errar, vai chorar, vai cair. E que vai se levantar mesmo assim, todas as vezes. - Fez uma pausa pra tossir - curta, contida. - Que a sua felicidade não vai depender de ninguém. Que ela vai morar dentro de você, e você vai levá-la pra vida das pessoas que ama, em vez de esperar que elas tragam a felicidade pra você.
As lágrimas queimaram antes de cair.
- Não fala assim. Parece despedida.
- Tudo é despedida, minha filha. - E ele sorriu de novo, com aquele jeito que tinha de rir de si mesmo nas horas mais sérias, como se o humor fosse a única armadura que nunca pesava. - A questão é o que a gente deixa antes de ir embora.
Me abracei a ele com mais força do que eu deveria - com a força da urgência, da criança que ainda morava dentro de mim e não queria crescer o suficiente pra encarar o que estava vendo. Ele me deixou. Pôs a mão no meu cabelo e ficou assim por um tempo.
Quando me levantei, parei na porta e me virei uma última vez. Não sei por quê. Talvez alguma coisa dentro de mim já soubesse que precisava gravar aquele momento.
- Vou te dar muito orgulho, pai. Pode esperar.
- Já tenho. - A voz saiu fininha, cansada, mas inteira. - Vai com Deus, minha menina. E não se esquece: onde eu estiver, estarei do seu lado.
Saí. Fechei a porta com cuidado, como se barulho pudesse quebrar alguma coisa frágil dentro daquele quarto.
E só me permiti chorar quando a porta já estava bem fechada atrás de mim, e os dois degraus da varanda já estavam embaixo dos meus pés, e a rua já recebia a minha sombra misturada com a sombra das outras pessoas que iam e vinham sem saber que dentro daquela casa, naquela manhã de sol, alguma coisa importante estava terminando.
Fui para a escola.
Aprendi coisas que não lembro mais.
E quando voltei, a tarde tinha um jeito diferente.
Larissa
Serra tinha esse dom de parecer que o tempo andava diferente.
Era algo que eu percebia mais quando estava prestes a ir embora - aquela sensação de que a cidade inteira respirava num ritmo próprio, descompassado do resto do mundo, como se aqui as horas tivessem mais textura. Mais peso. Como se cada momento deixasse uma marca mais visível.
Voltava da escola naquele fim de tarde do mesmo jeito que voltava todo dia. Com a mochila pendurada no ombro, a cabeça cheia de coisas sem importância - o que ia almoçar, uma conversa que tinha tido com uma colega, a prova de física que tinha saído melhor do que esperava.
Parei pra chutar uma bola pra um menino de uns seis anos que corria mais do que dribla. Ele gritou obrigado com voz esganiçada e voltou pro jogo sem olhar pra trás. Brinquei de roda por uns três minutos com três meninas de tranças que me puxaram pela mão antes que eu pudesse recusar. A mais velha tinha uns sete anos e levava o brinquedo mais a sério do que qualquer adulto levaria qualquer coisa.
Cumprimentei a dona Marlene que ficava na janela de tarde, sempre na janela, sempre com aquele ar de quem está esperando por algo que nunca chega, mas continua esperando mesmo assim. Me perguntou como estava a minha mãe. Disse que bem. Ela assentiu como se soubesse mais do que estava dizendo.
Cidade pequena. Todo mundo sabe de tudo. É bom e ruim ao mesmo tempo.
Quando dobrei a esquina de casa, o ritmo mudou.
Não foi uma coisa gradual. Foi imediato, como quando você está andando no escuro e pisa em falso - o seu corpo sabe antes que sua cabeça processe. O coração acelera antes que os olhos terminem de catalogar o que estão vendo.
Carros que não deveriam estar ali. Três, quatro. Gente na calçada, no portão, na varanda. Rostos conhecidos que não tinham motivo pra estar ali num fim de tarde de dia de semana. A movimentação silenciosa de pessoas que não sabem o que fazer com as mãos.
Travei no meio da rua.
Os pés deixaram de funcionar antes que minha cabeça mandasse parar. Fiquei parada no asfalto quente com a mochila no ombro e o coração batendo rápido demais, e o meu inconsciente me dizia com uma clareza brutal que eu não queria ouvir: não vai perguntar nada, porque não vai gostar da resposta.
Então Diogo apareceu.
Saiu do grupo de pessoas na calçada e veio na minha direção com aquele passo dele. Eu conhecia o passo de Diogo de cor - tinha crescido olhando pra ele. O passo calmo do dia normal, o passo apressado quando estava animado com alguma coisa, o passo pesado quando estava com problema na faculdade. E esse passo - esse eu reconheci antes de reconhecer os outros, porque era o que ele usava quando precisava me proteger de alguma coisa que eu ainda não sabia que precisava de proteção.
Veio calmo por fora. Desesperado por dentro.
Chegou até mim e me abraçou sem dizer nada.
Eu deixei. Fiquei no abraço dele com os braços ao lado do corpo por um momento - não correspondendo, não recusando, só existindo naquele estado intermediário entre saber e não querer saber. Enquanto ele não dissesse nada em voz alta, enquanto as palavras não saíssem e se tornassem reais no ar entre nós, ainda existia a chance de que eu estivesse errada.
Nunca havia estado tão certa na vida.
Depois de alguns segundos os meus braços foram ao redor dele, e nós ficamos assim na esquina de casa, enquanto as pessoas nos olhavam sem parecer que estavam olhando, do jeito que pessoas de cidade pequena fazem.
Diogo me conduziu devagar pela calçada. Não apertou minha mão - pôs o braço ao redor dos meus ombros, que é diferente, é mais parecido com suporte do que com condução. O caminho até a porta foi curto, mas pareceu mais longo. As pessoas na sala eram como ruído de fundo numa cena que só eu estava vivendo.
Procurei minha mãe.
Não estava na sala.
Diogo me guiou pelo corredor que eu conhecia de cor, até o quarto dos meus pais. A porta estava aberta, mas eu parei no vão, incapaz de entrar, como se atravessar aquele limiar fosse aceitar alguma coisa que ainda não estava pronta pra aceitar.
Minha mãe estava recostada na cabeceira da cama, com uma das mãos segurando a mão do meu pai e a outra tampando a boca num gesto silencioso de conter o que estava tentando sair. O peito do meu pai subia e descia.
Lento.
Cada vez mais lento.
Fiquei imóvel no vão da porta.
Se eu me movesse, o inevitável aconteceria. Eu sabia que era irracional - que ele não estava esperando por minha permissão, que as coisas iam acontecer como já estavam acontecendo independente de onde eu ficasse. Mas o corpo tem a sua própria lógica, e a lógica do meu corpo naquele momento era: para. Não se mexa. Enquanto você não se mover, o tempo também não se move.
Foi então que meu pai abriu os olhos.
Não foi um processo gradual. Foi de uma vez - os olhos simplesmente abriram, e ele varreu o quarto com o olhar até me encontrar parada no vão da porta. Por um momento nos olhamos, eu e ele, através do quarto cheio de luz fraca e da presença silenciosa da minha mãe.
Com um gesto quase imperceptível, pediu que todos saíssem.
Minha mãe protestou. Meu pai insistiu - sem palavras, só com o olhar. E as pessoas que estavam no quarto foram saindo uma a uma, minha mãe por último, relutante, os olhos cheios.
Diogo me ajudou a sentar na beira da cama.
Saiu. Fechou a porta.
E o quarto ficou em silêncio - aquele silêncio específico de quando você sabe que o que está prestes a ser dito vai mudar alguma coisa fundamental.
- Filha. - A voz do meu pai era um fio, mas ainda era a voz dele. Ainda tinha aquela inflexão que eu reconheceria em qualquer lugar, em qualquer condição. - Vai até o guarda-roupa. Lá no fundo, atrás das calças. Tem uma caixa de madeira.
Me levantei com cuidado, como se movimentos suaves pudessem proteger aquele momento de algum estrago. Abri o guarda-roupa, afastei as calças penduradas, e no fundo, quase invisível na escuridão da última prateleira, estava a caixa.
Pesada de um jeito que não tinha a ver com tamanho.
Voltei. Sentei ao lado dele. Ele me pediu pra abrir.
Dentro: uma foto de um bebê. Um envelope com o meu nome escrito à mão. Outras coisas que eu ainda não processava - um sapatinho, alguns objetos pequenos que minha visão recusava a focar.
- Leia com o coração aberto. - Fechou os olhos. A voz quase desapareceu. - E com a bondade que sempre esteve nele.
Peguei o envelope com os dedos que tremiam só um pouco. Abri devagar. A letra do meu pai preenchia as folhas dobradas dentro - miúda, inclinada, a caligrafia que eu conhecia desde os bilhetinhos que ele deixava na minha lancheira quando eu era pequena.
E li o que ele não teve coragem de me dizer olho no olho.
Larissa
A carta começava com um pedido de desculpas.
Querida filha,
Sei que fui covarde. Mais uma vez na minha vida fui covarde, e talvez essa seja a maior das covardias - não ter tido coragem de te dizer isso com a voz, olhando nos teus olhos, enquanto ainda tinha tempo e fôlego pra isso. Mas se você está lendo essa carta, é porque já parti pro meu descanso eterno, e pelo menos a dor de ver a sua decepção não precisarei carregar.
Levantei os olhos do papel.
Meu pai estava com os olhos fechados, a respiração curta e cadenciada. Mas não estava dormindo - eu sabia que não estava. Havia uma tensão nos ombros dele, uma atenção no silêncio, que me dizia que ele estava acordado e presente e esperando.
Pela primeira vez na minha vida, vi vergonha no rosto do meu pai.
Não a vergonha performática de quem diz "que vergonha" pra situações cotidianas. A vergonha real - a que mora fundo, que envergonha a pessoa pra dentro antes de aparecer pra fora, que muda o jeito que alguém carrega o próprio corpo.
Voltei pra carta. Precisava continuar antes que perdesse a coragem.
Antes de conhecer minha mãe, meu pai era outro homem. Ele deixou isso bem claro desde o começo - não como desculpa, mas como contexto. Jovem, sem família por perto, sem ninguém pra colocar rédeas. Os avós tinham morrido cedo demais, e ele tinha ficado num vácuo de responsabilidade que durou mais do que deveria. Fazia o que queria, vivia como queria, sem prestar contas a ninguém.
Não me orgulho de quase nada desse período. Mas era quem eu era, e não tem como mudar o que já foi.
Numa festa numa clareira perto da cidade, havia bebido mais do que nunca havia bebido na vida. Perdeu o fio, perdeu o juízo, perdeu a memória. Na manhã seguinte sabia que algo tinha acontecido pela expressão dos amigos, mas não sabia exatamente o quê. Não queria saber, o que era uma diferença importante.
Dois meses depois, conheceu Laura. Minha mãe.
Foi amor à primeira vista. Eu sei que parece clichê, mas foi exatamente isso. Olhei pra ela e soube. Mudei. Não de um dia pro outro, não sem esforço, mas mudei - porque tinha encontrado algo que valia a pena ser melhor pra ter.
Quase um ano de namoro. Os meus avós maternos exigiram tempo pra ver se ele era de confiança. E ele querendo provar que era.
E então, quando tudo parecia estar se encaixando no lugar certo...
Eis que chegou na minha porta uma jovem. Tinha entre vinte e vinte e cinco anos. Trazia um bebê nos braços. Cinco meses de vida. E disse que aquela criança era minha.
Parei de ler.
Olhei pra cima por um segundo, pro teto do quarto, enquanto a informação se assentava.
Continuei.
O pânico que tomou conta do meu pai naquele momento era palpável mesmo através das palavras escritas meses ou anos depois. O que vai acontecer com Laura. Com os sogros. Com o casamento que estava sendo construído tijolo por tijolo. Com a vida que finalmente estava tomando uma forma que fazia sentido.
E então veio a parte que meu pai chamou de "o pior que fiz".
Em vez de ouvir. Em vez de olhar para aquele bebê. Em vez de admitir sequer a possibilidade - ele a expulsou.
Disse que aquele filho podia ser de qualquer um, porque naquela festa não faltou "todo mundo com todo mundo". Disse que não queria saber. Que ela estava tentando estragar sua vida. Que fosse embora e não voltasse mais.
Não olhou pro rosto da criança.
Não deixou a possibilidade existir por um segundo sequer.
Fui um canalha. Não tem outro nome. E vivo até hoje com isso. Só que chegar a essa conclusão depois que o estrago foi feito não serve de muita coisa.
A carta continuava. Contava que anos depois a mulher tinha mandado uma caixa - a caixa que eu tinha nas mãos. Com um sapatinho vermelho, roupinhas de aniversário, fotos, lembranças das festinhas do menino que cresceu sem o pai. E uma carta dela, também guardada ali dentro, que meu pai dizia que eu deveria ler também.
Tentei encontrá-la. Fui ao endereço que constava no pacote. Mas ela tinha se mudado pra outro estado. Não descobri pra qual. Perdi a chance de me redimir, mesmo que parcialmente.
A carta terminava assim:
Filha, esse segredo é seu agora. Você tem um irmão em algum lugar do mundo - um meio-irmão, filho de uma noite que eu mal lembro e de uma mulher que agiu com mais dignidade do que eu merecia. Não sei onde ele está. Não sei como encontrá-lo. Só sei que ele existe, que nunca tive a chance de pedir desculpas, e que isso vai comigo pro túmulo.
Eu quis te poupar disso por muito tempo. Quis morrer sem te contar, deixar esse segredo comigo. Mas você merece saber. Você merece a verdade, mesmo que seja essa.
Me perdoe se puder. E se não conseguir perdoar, ao menos tente não me odiar.
Te amo pra sempre.
Seu pai imperfeito - João
Dobrei as folhas devagar.
Uma vez, duas vezes. Com cuidado excessivo, como se o papel fosse mais frágil do que era, como se precisasse de mim pra se manter inteiro.
Quando levantei os olhos, meu pai já não estava mais aqui.
Os olhos fechados. A respiração parada. A mão na minha, que até um momento atrás tinha aquela pressão fraca mas presente de quem ainda está lutando pra continuar - agora estava quieta, afrouxada, como quando você solta alguma coisa que segurou por tempo demais.
Fiquei assim por um tempo. Não sei quanto - o tempo tinha ficado sem referência.
A mão do meu pai estava na minha, mas já iria começar a esfriar.
Só saí do transe quando minha mãe entrou no quarto. Ouvi o som da porta, depois os passos, e então o desespero dela quebrou o silêncio de uma forma que me trouxe de volta ao mundo de um golpe só.
Com movimentos que meu corpo fez no piloto automático, juntei todas as folhas, guardei tudo dentro da caixa, fechei. Abracei minha mãe com a caixa presa contra o meu peito.
O segredo do meu pai tinha passado pra mim.
Ia ser meu agora.
Só meu.