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Renascendo dos Escombros: O Retorno Épico de Starfall

Renascendo dos Escombros: O Retorno Épico de Starfall

Autor:: Su Liao Bao Zi
Gênero: Moderno
Sangrando no volante do meu carro destruído, com a visão turva e o gosto de cobre na boca, usei minhas últimas forças para ligar para o meu marido. Era a minha única chance de salvação nesta tempestade. Mas quem atendeu foi o assistente dele, com uma frieza metálica: "O Sr. Wilson disse para parar com o teatro. Ele mandou avisar que não tem tempo para a sua chantagem emocional hoje." A linha ficou muda. Enquanto os paramédicos me arrastavam para fora das ferragens, vi na TV da emergência o motivo da "ocupação" dele. Meu marido estava ao vivo, cobrindo sua ex-namorada, Gema, com seu paletó para protegê-la da mesma chuva que quase me matou. O olhar dele para ela era de pura adoração. Quando voltei para a nossa cobertura para pegar minhas coisas, encontrei no bolso daquele mesmo paletó uma ultrassonografia com o nome dela. Ao me ver, ele não perguntou se eu estava bem. Ele me chamou de "decoração quebrada", jogou um cheque em branco na minha cara e congelou todos os meus cartões de crédito. "Você não é nada sem mim," ele disse, rindo com desdém. "Vai rastejar de volta em uma semana quando a fome apertar." Ele achava que tinha se casado com uma esposa troféu inútil e dependente. O que Arpão não sabia é que a "decoração" tinha uma vida secreta. Eu sou Starfall, a lenda anônima da dublagem, com milhões escondidos em contas offshore que ele nem sonha que existem. Limpei o sangue do rosto, peguei meu microfone profissional e caminhei até o estúdio da empresa dele. Não para pedir desculpas. Mas para roubar o papel principal do filme que a amante dele desesperadamente queria, e destruir o império deles com a minha voz.

Capítulo 1 1

A chuva não caía simplesmente em Manhattan esta noite. Ela martelava contra o asfalto como se tentasse partir a cidade ao meio.

Lousa sentiu o impacto antes de ouvi-lo.

O mundo girou violentamente para a esquerda. O metal gritou contra o metal, um som que vibrou em seus dentes e se alojou fundo em sua medula óssea. Então veio a batida. Seu sedã beijou a grade de proteção com uma força que jogou sua cabeça contra o encosto do banco.

O silêncio seguiu, pesado e sufocante, quebrado apenas pelo ritmo zombeteiro dos limpadores de para-brisa.

A dor floresceu atrás de seus olhos, quente e branca. Ela piscou, tentando limpar a névoa, mas um líquido morno e pegajoso já escorria por sua têmpora, ardendo em seu olho. Ela levou a mão ao rosto, e seus dedos voltaram úmidos e escuros sob as luzes piscantes do painel.

Sangue.

O pânico, frio e intenso, rompeu o choque. Ela precisava de ajuda. Ela precisava de segurança.

Sua mão, tremendo tanto que ela mal conseguia controlá-la, tateou pelo telefone no banco do passageiro. A tela estava rachada, uma teia de aranha de vidro sobre o papel de parede que ela havia definido três anos atrás - uma foto dela e de Arpão na lua de mel em Bora Bora. Ele não estava sorrindo na foto, mas ela estava.

Ela pressionou a discagem rápida para "Marido".

Chamou. Uma vez. Duas vezes. Três vezes.

O som do toque era uma tábua de salvação, um fio fino conectando-a à única pessoa que deveria protegê-la.

A chamada caiu.

Lousa olhou para a tela, o coração falhando uma batida. Ele devia ter apertado o botão errado. Ou talvez o sinal estivesse ruim na tempestade. Seu peito apertou, restringindo o ar em seus pulmões. Ela discou novamente.

Desta vez, foi atendido no segundo toque.

- Sra. Wilson - disse uma voz. Não era Arpão. Era suave, profissional e totalmente indiferente. Elmo, o assistente executivo de Arpão.

- Elmo - Lousa grasnou. Sua voz era um sussurro quebrado. Ela tossiu, sentindo gosto de cobre. - Elmo, coloque o Arpão na linha. Por favor.

- O Sr. Wilson está atualmente em uma reunião de emergência sobre a crise de relações públicas - disse Elmo. Ele parecia estar lendo um roteiro. - Ele deu instruções explícitas para não ser incomodado.

- Eu... eu sofri um acidente - Lousa sussurrou. A dor em sua cabeça latejava agora, um tambor no ritmo de seu pulso acelerado. - Estou na estrada. Meu carro... tem sangue.

Houve uma pausa do outro lado. Um som abafado, como uma mão sobre o receptor. Então, a voz de Elmo retornou, mas o tom havia mudado. Não era preocupação. Era constrangimento.

- Sra. Wilson, o Sr. Wilson diz... - Elmo hesitou.

- Diz o quê? - ela implorou. Lágrimas se misturavam com o sangue em sua bochecha.

- Ele diz para parar com o teatro - disse Elmo, sua voz caindo uma oitava. - Ele disse, e eu cito: "Desligue. Diga a ela que não tenho tempo para a chantagem emocional dela esta noite."

A linha ficou muda.

Lousa não abaixou o telefone imediatamente. Ela o segurou no ouvido, ouvindo o zumbido oco do tom de desconexão. Era mais alto que a chuva. Mais alto que as sirenes uivando ao longe.

Ele achou que ela estava mentindo.

Ele achou que ela sangrando na beira da estrada era um truque para chamar atenção.

O telefone escorregou de seus dedos dormentes e caiu no tapete do carro. Ela encostou a cabeça para trás, fechando os olhos. A escuridão era convidativa.

Quando os paramédicos abriram a porta, Lousa flutuava em um espaço entre a consciência e um pesadelo. Ela sentiu mãos nela, eficientes e impessoais. Eles a prenderam a uma maca. A chuva atingiu seu rosto, fria e chocante, mas ela não tremeu. Ela não sentia nada.

Dentro do Pronto-Socorro, as luzes fluorescentes eram uma agressão. Um médico com olhos cansados costurou o corte em sua testa. Ela havia recusado a anestesia local. Ela precisava da ardência. Ela precisava saber que ainda estava em seu corpo, porque sua alma parecia estar pairando em algum lugar perto do teto, olhando para os destroços de sua vida.

- Você tem sorte, Sra. Wilson - murmurou o médico, dando um nó. - Mais um centímetro e você teria perdido o olho. Onde está seu marido? Precisamos de alguém para assinar os papéis de alta se você quiser sair hoje à noite.

- Ele está... fora da cidade - Lousa mentiu. A mentira tinha gosto de cinzas.

Ela virou a cabeça para o lado. Uma televisão montada na parede transmitia notícias de entretenimento. O volume estava baixo, mas a faixa no rodapé era de um vermelho vivo.

URGENTE: ARPÃO WILSON VISTO NO PLAZA COM GEMA STUART.

A respiração de Lousa falhou.

A filmagem era granulada, filmada através da chuva, mas inconfundível. Arpão, seu marido, estava conduzindo uma mulher pequena para uma limusine que esperava. Ele estava sem o paletó, que agora cobria os ombros da mulher para protegê-la da tempestade.

O rosto dele estava voltado para a mulher. Sua expressão estava gravada com uma preocupação frenética e crua que Lousa não via dirigida a ela em quatro anos de casamento.

Gema Stuart. A namorada de infância. Aquela que escapou. Aquela que estava atualmente "frágil" devido a um suposto escândalo de gravidez.

Lousa olhou para a hora na tela. A filmagem era ao vivo.

No exato momento em que Lousa sangrava em seu volante, implorando por ajuda, Arpão estava envolvendo outra mulher em seu paletó.

Algo dentro do peito de Lousa fez um som como vidro estalando. Não foi uma quebra barulhenta. Foi silenciosa, final e irreparável.

Ela se sentou. O quarto girou, mas ela forçou-o a parar.

- Eu mesma assino os papéis - disse ela à enfermeira que entrou com uma prancheta.

- Sra. Wilson, você realmente não deveria dirigir - disse a enfermeira, olhando para o curativo.

- Eu não vou dirigir.

Lousa tirou o telefone da bolsa. A tela estava estilhaçada, mas ainda funcionava. Ela passou por "Marido". Passou por "Pai".

Ela parou em "Sopro".

Ela apertou para chamar.

- Lousa? - A voz de Sopro era brilhante, cercada pelo ruído ambiente de uma sitcom na TV. - Ei, gata. Tudo bem?

- Sopro - disse Lousa. Sua voz estava firme. Aterrorizantemente firme. - Preciso que você me busque no Hospital Lenox Hill. Eu bati o carro.

- Que porra é essa? - Sopro gritou. O barulho da sitcom cortou instantaneamente. - Estou indo. Estou no carro. O Arpão está aí? Coloca ele na linha, eu vou gritar com ele.

- Não - disse Lousa. Ela olhou para a tela da TV, onde a limusine estava indo embora. - Ele não está aqui. E eu não vou voltar para a Cobertura.

- Ok - disse Sopro, sua voz suavizando instantaneamente. - Ok, querida. Estou indo. Dez minutos.

Lousa saiu do hospital vinte minutos depois. A chuva não havia parado. Encharcou sua blusa fina, gelando sua pele, mas o frio parecia uma armadura agora.

Alguns paparazzi estavam à espreita perto da entrada, esperando por uma overdose de celebridade ou um escândalo. Eles nem levantaram suas câmeras para ela. Para eles, ela não era ninguém. Apenas Lousa Graves, a esposa quieta e chata do herdeiro Wilson. A mobília.

O Ford Fiesta surrado de Sopro freou bruscamente no meio-fio. Era um contraste gritante com os carros pretos elegantes aos quais Lousa estava acostumada. Era enferrujado, barulhento e lindo.

Lousa entrou. O carro cheirava a batatas fritas velhas e ambientador de baunilha. Cheirava a lar.

Sopro não fez perguntas. Ela apenas se esticou, agarrou a mão gelada de Lousa e a apertou com força. - Vamos para a minha casa. Tenho vinho e pizza congelada.

Lousa olhou pela janela enquanto a cidade passava como um borrão. A dor em sua cabeça era um latejar surdo agora, facilmente ignorado.

Seu telefone vibrou no colo.

Uma mensagem de texto de Arpão.

Pare com o drama. Vá para casa. Eu lido com você amanhã.

Lousa olhou para as palavras. Ontem, ela teria digitado um parágrafo de desculpas. Ela teria explicado. Ela teria implorado.

Hoje, ela simplesmente apertou o botão de desligar e a tela ficou preta.

Capítulo 2 2

O sol da manhã atingiu as janelas do chão ao teto da Cobertura com um brilho agressivo que parecia pessoal.

Lousa estava no centro do quarto principal. Ela havia voltado apenas para pegar seu passaporte e seu laptop. Ela tinha dito a si mesma que não olharia. Não tocaria.

Mas o quarto era um museu de sua solidão.

A cama estava feita, esticada e militarmente justa pela equipe de limpeza. Mas jogado no pé dela estava um paletó cinza-carvão. O paletó de Arpão. Aquele que ele estava usando na filmagem do noticiário na noite passada.

Lousa olhou para ele. Ele deve ter chegado em casa nas primeiras horas da manhã, trocado as roupas encharcadas e saído novamente antes do sol nascer. Ele nem sequer verificou se ela estava na cama.

Ela caminhou até lá, seus movimentos lentos, como se estivesse se movendo na água. Ela pegou o paletó. Era pesado, feito de lã que custava mais do que os carros da maioria das pessoas.

Ela o trouxe para mais perto do rosto.

Sob o cheiro da colônia de sândalo de Arpão, havia outra coisa. Algo doce. Doentiamente floral. Gardênia e desonestidade. O perfume característico de Gema.

Uma onda de náusea rolou por seu estômago. Ela agarrou o tecido, seus dedos ficando brancos.

Algo amassou no bolso interno do peito.

Seus dedos mergulharam, passando pelo forro de seda, e puxaram um envelope grosso de cor creme. Não era uma carta comercial. O papel era texturizado, grau médico.

Ela o abriu.

Era uma impressão de ultrassom. Uma imagem granulada em preto e branco de um útero.

No topo, impresso em letras negritas e inegáveis: Paciente: Gema Stuart.

Data: 14 de Outubro.

14 de Outubro.

A respiração de Lousa falhou. Isso foi há três dias. Foi o dia em que Arpão disse a ela que estava em Boston para uma fusão de empresas. Ele até reclamou dos atrasos nos voos.

Ele não estava em Boston. Ele estava segurando a mão de Gema em uma clínica de fertilidade no Upper East Side.

O papel escorregou de seus dedos e flutuou até o chão, caindo com a face para cima. O pequeno saco gestacional borrado parecia a cratera de uma bomba.

Lousa não chorou. Ela sentia que tinha chorado toda a umidade do corpo na sala de espera do hospital. Agora, ela só se sentia seca. Oca.

O som da porta da frente sendo destrancada ecoou pelo enorme apartamento. O baque pesado da porta de carvalho se fechando. Passos, confiantes e pesados, aproximando-se do quarto.

Lousa não se moveu. Ela ficou ao lado da cama, o paletó ainda em sua mão.

Arpão entrou. Ele parecia impecável, como sempre. Recém-saído do banho da academia, vestindo uma camisa branca engomada, mangas dobradas até os cotovelos. Ele parou quando a viu.

Seus olhos correram para o curativo em sua testa. Por uma fração de segundo, sua expressão vacilou. Um lampejo de algo - surpresa? Culpa?

Mas desapareceu instantaneamente, substituído por sua máscara padrão de superioridade irritada.

- Então - disse ele, passando por ela em direção à cômoda para pegar um relógio. - Você decidiu voltar. O Elmo disse que você não dormiu aqui.

- Eu estava no hospital - disse Lousa. Sua voz estava quieta.

Arpão zombou, prendendo o relógio. - Certo. O "acidente". Sabe, Lousa, essa história de lobo em pele de cordeiro está ficando velha. Se você queria minha atenção, poderia ter apenas reservado um jantar como uma pessoa normal.

Ele se virou para encará-la, encostando-se na cômoda, cruzando os braços. - E então? Vai explicar por que fez uma cena com meu assistente?

Lousa olhou para ele. Realmente olhou para ele. Ela viu as linhas bonitas de seu rosto, o maxilar que ela costumava traçar com os dedos, os olhos que costumavam olhar para ela com desejo. Agora, ele era um estranho. Um estranho cruel e bonito.

- Como está a Gema? - ela perguntou.

Arpão congelou. Sua postura endureceu perceptivelmente. - O quê?

- Gema - repetiu Lousa. - Ela está saudável? O bebê está saudável?

O rosto de Arpão perdeu a cor. Seus olhos dispararam para o paletó na mão dela, depois para o chão. Ele viu a imagem do ultrassom no tapete persa.

O silêncio se estendeu entre eles, espesso e sufocante.

- Você revistou meus bolsos - acusou ele, sua voz baixa e perigosa. Ele não negou. Ele atacou. Era o jeito dele.

- Você mentiu sobre Boston - rebateu Lousa.

Arpão deu um passo em direção a ela, o maxilar trincado. - É complicado, Lousa. Você não entenderia. A Gema está passando por uma crise. Ela precisava de um amigo.

- Um amigo que vai às consultas pré-natais dela? - Lousa soltou uma risada curta e seca. - Você acha que sou estúpida, Arpão? Ou você simplesmente não se importa o suficiente para mentir melhor?

- Ela está sozinha! - Arpão explodiu, sua voz subindo. - A mídia está acabando com ela. Ela não tem ninguém. Tenho uma responsabilidade com a família dela. Você sabe disso.

- E quanto à sua responsabilidade comigo? - Lousa sussurrou. - Com sua esposa?

Arpão olhou para ela com confusão genuína, como se a pergunta fosse absurda. - Você tem tudo, Lousa. Você mora em uma cobertura de dez milhões de dólares. Você tem um cartão de crédito ilimitado. Você tem o nome Wilson. O que mais você quer?

- Quero um marido que não guarde o ultrassom da ex-namorada no bolso - disse ela, largando o paletó no chão. Ele caiu em cima da imagem, cobrindo a prova.

- Não é meu filho - disse Arpão rapidamente. Rápido demais. - Ela só... ela queria que eu visse. Para dar apoio.

- Eu não me importo - disse Lousa. E ela percebeu, com um solavanco, que era verdade. Ela não se importava se era dele ou não. A traição não era a biologia; era a prioridade.

Ela se virou e entrou no enorme closet.

- Onde você vai? - Arpão exigiu, seguindo-a.

Lousa puxou sua mala velha e surrada da prateleira de cima. Era a que ela trouxera de seu dormitório da faculdade, antes que o dinheiro dos Wilson substituísse tudo o que ela possuía.

- Estou fazendo as malas - disse ela, abrindo uma gaveta e pegando um punhado de roupas íntimas.

- Não seja dramática - Arpão encostou-se no batente da porta, revirando os olhos. - Você não vai a lugar nenhum. Temos o baile de gala beneficente na semana que vem. Você tem uma prova de vestido na terça-feira.

Lousa não respondeu. Ela pegou o carregador do laptop. Ela pegou o disco rígido que continha a única coisa que era verdadeiramente dela - suas demos de voz.

- Lousa! - A voz de Arpão trovejou. - Pare com isso. Você está agindo como uma criança.

Ela fechou o zíper da mala. Ela se levantou e o encarou.

- Não estou atuando, Arpão - disse ela. - Estou indo embora.

Ela passou por ele. Ele segurou o braço dela, seu aperto firme, mas não doloroso. Apenas controlador.

- Se você sair por aquela porta - ele sibilou -, não volte mais. Não vou ter uma esposa que foge toda vez que sente ciúmes.

Lousa olhou para a mão dele em seu braço. Então ela olhou nos olhos dele.

- Eu não estou com ciúmes, Arpão - disse ela suavemente. - Eu cansei.

Ela puxou o braço, libertando-se.

Arpão ficou lá, atordoado, enquanto ela caminhava pelo corredor. Ele não a perseguiu. Ele era orgulhoso demais. Ele achou que ela pararia no elevador. Ele achou que ela perceberia que não tinha para onde ir.

Lousa tirou uma foto do ultrassom no chão antes de sair do quarto. Apenas por precaução.

Capítulo 3 3

Lousa não saiu imediatamente. Ela se sentou no pufe de veludo no hall de entrada, sua mala ao lado dela como um cão leal. Ela precisava fazer isso direito.

Quando Arpão desceu dez minutos depois, ele estava totalmente vestido para o escritório, a gravata desfeita em volta do pescoço. Ele a viu sentada lá e soltou um suspiro de alívio que soou mais como condescendência.

- Ótimo - disse ele, aproximando-se. - Você recobrou o juízo. Agora, arrume essa gravata. O nó nunca fica certo quando eu faço.

Ele estufou o queixo, expondo o pescoço, esperando pelos dedos familiares dela. Era um ritual. Todas as manhãs por quatro anos.

Lousa não se moveu. - Você tem mãos, Arpão.

Arpão congelou. Ele virou a cabeça lentamente, olhando para ela como se o pufe tivesse começado a falar. - Como é?

Lousa enfiou a mão na bolsa e tirou um documento dobrado. Era uma lista manuscrita no verso de um panfleto de alta hospitalar que ela havia rabiscado na sala de espera.

Ela o colocou na mesa de console de mármore.

- Precisamos falar sobre a separação - disse ela.

Os olhos de Arpão se estreitaram. O alívio desapareceu, substituído por uma raiva fria e dura. - Você está abusando da sorte, Lousa. Eu te disse, não tenho tempo para joguinhos.

- Não é um jogo. - Ela se levantou. - Eu quero o divórcio.

A palavra pairou no ar, absorvendo o oxigênio.

Arpão a encarou, depois jogou a cabeça para trás e riu. Foi um som áspero, como um latido. - Divórcio? Você? Lousa, não seja ridícula. Você estaria na rua em uma semana. Você não tem emprego. Você não tem habilidades. Você não tem nada sem mim.

- Tenho minha dignidade - disse ela, embora sua voz tremesse um pouco. - E prefiro dormir na rua do que em uma cama que cheira a ela.

- Ah, cresça - Arpão retrucou. Ele se aproximou, pairando sobre ela. Ele usava sua altura como uma arma. - A Gema é uma estrela. Ela está sob imensa pressão. Ela é frágil. Você... você é apenas uma decoração. Uma decoração muito cara que meu pai comprou para me fazer parecer estável.

As palavras a atingiram como golpes físicos. Decoração. Comprou.

- A decoração quebrou, Arpão - disse ela, encontrando o olhar dele. - Cansei de ser seu adereço de cena. E cansei de ser a vilã na novela da Gema.

- Não se atreva a falar o nome dela - avisou Arpão, apontando o dedo para ela. - Ela é pura. Ela passou pelo inferno.

- Pura? - Lousa soltou uma risada incrédula. - Ela colocou uma foto de ultrassom no bolso de um homem casado. Isso não é pureza, Arpão. Isso é marcar território.

O rosto de Arpão ficou de um tom violento de vermelho. Sua mão se contraiu, movendo-se instintivamente em direção ao bolso do peito, depois parou. Ele sabia. No fundo, ele sabia.

- Saia - ele sussurrou.

- O quê?

- Eu disse, saia! - Ele rugiu, agarrando um vaso de cristal da mesa e arremessando-o contra a parede. Ele se estilhaçou, cacos chovendo no chão imaculado. - Você quer ir embora? Vá! Dê o fora da minha casa!

Ele enfiou a mão no paletó, tirou um talão de cheques e rabiscou furiosamente. Ele arrancou o cheque e jogou nela. Ele flutuou até o chão, caindo perto dos pés dela.

- Toma - ele cuspiu. - Pagamento de rescisão. Pegue e desapareça.

Lousa olhou para o cheque. Estava em branco. Ele nem tinha preenchido o valor. Ele estava dizendo a ela que ela podia dar o preço para ir embora.

Ela olhou para ele, vendo a raiva trêmula em suas mãos, o medo por trás de seus olhos que ele se recusava a reconhecer.

Ela passou por cima do cheque.

- Eu não quero seu dinheiro, Arpão - disse ela calmamente. - Eu só quero meu nome de volta.

Ela agarrou a alça da mala.

- Se você sair por aquela porta - gritou Arpão, sua voz falhando -, vou congelar tudo. Os cartões, as contas, as associações de clubes. Você será um fantasma nesta cidade.

Lousa abriu a pesada porta da frente. O ar do corredor estava frio.

- Eu já era um fantasma aqui, Arpão - disse ela.

Ela jogou seu cartão-chave na mesa do console. Ele caiu com um estalo seco ao lado da lista de divórcio não assinada.

Ela saiu.

A porta não bateu. Ela se fechou com um clique aterrorizantemente final.

Arpão ficou sozinho no hall de entrada. O silêncio era ensurdecedor. Ele olhou para o cheque em branco no chão. Ele olhou para o vaso estilhaçado.

O pânico explodiu em seu peito, uma sensação repentina e irracional de que ele acabara de cometer um erro catastrófico.

Ele pegou o telefone. Seus dedos tremiam enquanto discava para seu advogado.

- Cajado - ele ladrou quando a linha conectou. - Congele as contas dela. Todas elas. Agora. Quero que ela tenha acesso zero a fundos até o meio-dia.

Ele desligou e olhou para a porta, esperando. Esperando a ficha cair. Esperando que ela se virasse e batesse.

Ela não bateu.

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