Quando abri os olhos, o teto branco do hospital era a primeira coisa que via.
O meu braço ardia, e uma agulha espetada nele me lembrava do terror.
Ao meu lado, Leo, meu marido, olhava para o telemóvel, a sua expressão sombria.
Eu mal consegui sussurrar o nome dele e ele levantou a cabeça, o seu olhar de um frio cortante.
"Onde está o Tiago? Ele está bem?", perguntei, a última coisa que vi antes de desmaiar foi a fúria das chamas depois de o meu cunhado, Tiago, atirar o isqueiro para o fogão.
A resposta dele gelou-me: "Estás a perguntar por ele? Mal escapaste da morte com queimaduras de segundo grau nos braços e nas costas."
A sua voz, cheia de acusação, insinuava que a culpa era minha. Pensei: "Ele tem apenas dezassete anos. Estava apenas a brincar. Foste tu que não estavas atenta."
Brincar? Ele quase me matou, e os meus próprios braços o confirmavam.
A minha sogra, Dona Isabel, veio visitar-me, exigindo um pedido de desculpas vazio do Tiago, e depois acusou-me de ingratidão por querer o divórcio.
"Tens sido tão ingrata depois de tudo o que fizemos por ti! É assim que nos pagas?", gritou ela.
Percebi que eles não iam facilitar. A mentira de Tiago, de que eu o tinha atacado primeiro, corroeu-me.
Como podiam ser tão cruéis?
Não era apenas o Tiago; era o Leo, que permitia e encorajava isto.
Senti uma raiva fria, uma determinação gelada. Eles pensavam que iriam destruir-me?
Não. Eu não ia deixar que ganhassem. E desta vez, eu ia dar o primeiro passo para o meu inferno pessoal.
Quando abri os olhos, o teto branco do hospital foi a primeira coisa que vi.
O meu braço doía. Olhei para baixo e vi uma agulha de perfusão intravenosa espetada nele.
O meu marido, Leo, estava sentado ao meu lado, a sua cabeça baixa, a olhar para o seu telemóvel.
A sua expressão era sombria.
Tentei falar, mas a minha garganta estava seca e rouca.
"Leo..."
Ele levantou a cabeça, o seu olhar frio.
"Acordaste?"
A sua voz não continha qualquer calor.
Lembrei-me do que aconteceu antes de eu desmaiar.
Eu estava a fazer o jantar quando o meu cunhado, Tiago, o irmão mais novo do Leo, entrou a correr na cozinha.
Ele estava a brincar com um isqueiro, e eu disse-lhe para ter cuidado.
Ele não gostou. Atirou o isqueiro para o fogão a gás.
O fogo explodiu.
A última coisa que vi foi o rosto aterrorizado do Tiago antes de as chamas me envolverem.
"Onde está o Tiago? Ele está bem?" perguntei.
O rosto do Leo tornou-se ainda mais frio.
"Estás a perguntar pelo Tiago? Devias estar a perguntar por ti mesma. Os teus braços e costas têm queimaduras de segundo grau."
O seu tom era acusador, como se a culpa fosse minha.
"Ele provocou o incêndio," eu disse calmamente.
Leo zombou.
"Ele tem apenas dezassete anos. Ele estava apenas a brincar. Foste tu que não estavas atenta."
Senti um arrepio no meu coração.
Brincar? Ele quase me matou.
"Leo, ele tem dezassete anos, não sete. Ele sabe o que é o perigo."
"Basta, Ana," ele interrompeu-me, a sua voz cheia de impaciência. "O Tiago já está suficientemente assustado. A mãe está em casa a confortá-lo. Não causes mais problemas."
A minha sogra, a mãe dele. Claro. O seu precioso filho mais novo nunca poderia fazer nada de errado.
As lágrimas encheram os meus olhos, mas forcei-as a recuar.
"Leo, vamos divorciar-nos."
A palavra saiu da minha boca antes que eu pudesse detê-la. Mas assim que a disse, soube que era a coisa certa a fazer.
Ele olhou para mim, chocado.
"Divórcio? Estás a falar a sério? Por causa disto?"
"Isto? Eu quase morri, Leo."
"Não sejas dramática. Os médicos disseram que vais ficar bem. O Tiago não teve a intenção. Ele é meu irmão. Somos uma família."
Família. Uma palavra que ele usava para me controlar e me fazer aceitar o comportamento irresponsável do seu irmão.
"Eu não faço parte desta família," eu disse, a minha voz a tremer ligeiramente. "Nunca fiz."
Leo levantou-se, o seu rosto vermelho de raiva.
"Estás a ser ridícula, Ana! Estás a exagerar! Precisas de descansar. Vou buscar um médico."
Ele saiu da sala apressadamente, sem me dar outra olhada.
Olhei para o meu braço enfaixado. A dor era real. O fogo era real.
O desrespeito do meu marido pela minha vida também era real.
O nosso casamento de três anos tinha sido uma longa série de desculpas para o Tiago.
Ele reprovou na escola, o Leo pagou.
Ele bateu com o carro, o Leo encobriu.
Ele roubou dinheiro da minha carteira, e o Leo disse-me para ser mais compreensiva.
Eu tinha aguentado tudo porque amava o Leo.
Mas o amor não podia ser uma rua de sentido único.
O amor não devia doer assim.
Quando o Leo voltou com uma enfermeira, eu fechei os olhos, a fingir que estava a dormir.
Não queria falar com ele. Não queria olhar para ele.
Eu só queria sair dali.
Longe dele. Longe da sua família. Para sempre.
No dia seguinte, a minha sogra, a Dona Isabel, veio visitar-me.
Ela não veio sozinha. O Tiago estava com ela, a esconder-se atrás das suas costas como uma criança pequena.
A Dona Isabel colocou uma cesta de frutas na mesa de cabeceira, o seu rosto uma máscara de falsa preocupação.
"Ana, querida, como te sentes?"
Não respondi. Apenas olhei para o Tiago.
Ele não conseguia encontrar o meu olhar. Os seus olhos estavam fixos no chão.
"Tiago, pede desculpa à tua cunhada," disse a Dona Isabel, empurrando-o para a frente.
Ele murmurou algo ininteligível.
"Fala mais alto," ordenou ela.
"Desculpa," disse ele, a sua voz mal audível.
A sua desculpa era tão vazia quanto a preocupação da sua mãe.
"Ele não teve a intenção, Ana. Sabes como ele é. É apenas um rapaz," continuou a Dona Isabel, a sua voz a suavizar para um tom suplicante.
"Leo disse-me que falaste em divórcio. Não podes estar a falar a sério. Pensa na nossa família."
"Eu pensei na vossa família," respondi, a minha voz firme. "É por isso que quero o divórcio."
A sua expressão mudou. A máscara caiu, revelando o seu verdadeiro rosto.
"És tão ingrata. Depois de tudo o que fizemos por ti. Acolhemos-te. E é assim que nos retribuis?"
"Acolheram-me? Eu trabalho, pago a minha parte das contas. Eu cozinho, eu limpo. O que é que vocês fizeram por mim, exceto esperar que eu cuidasse do vosso filho problemático?"
A Dona Isabel ficou sem fôlego, ofendida.
"Como te atreves! O Tiago não é um problema! Ele é apenas... enérgico!"
Olhei para o Tiago, que ainda estava a olhar para os seus sapatos. Enérgico. Que bela maneira de descrever um pirómano.
"Quero que saiam," eu disse calmamente.
"Não podes expulsar-nos! Somos família!" gritou ela.
"Não. Não somos. Saiam agora, ou eu chamo a segurança."
A Dona Isabel olhou para mim com puro ódio nos olhos. Ela agarrou no braço do Tiago e arrastou-o para fora do quarto, a bater a porta atrás de si.
Senti um alívio imenso.
Mais tarde naquele dia, o Leo voltou.
Ele parecia cansado e derrotado.
"A mãe ligou-me. Ela estava a chorar."
"Bom," eu disse.
Ele suspirou. "Ana, por favor. Vamos resolver isto. Eu falo com o Tiago. Vou garantir que ele se comporte."
"Já disseste isso antes. Muitas vezes. Nada muda, Leo. Porque tu não o deixas mudar. Tu e a tua mãe estão sempre a protegê-lo das consequências das suas ações."
"Ele é o meu único irmão!"
"E eu sou a tua esposa! Ou pelo menos era."
Ele passou as mãos pelo cabelo, frustrado.
"O que queres de mim, Ana? Queres que eu o mande para a prisão?"
"Eu quero que admitas que ele fez algo de errado. Quero que pares de o desculpar. Quero que me ponhas em primeiro lugar, pelo menos uma vez."
Ele ficou em silêncio.
O seu silêncio foi a resposta mais alta de todas.
Ele nunca me colocaria em primeiro lugar. O seu irmão, a sua mãe, eles seriam sempre a sua prioridade.
Eu era apenas uma adição conveniente à sua vida.
"Vou contactar um advogado," eu disse.
O Leo olhou para mim, os seus olhos a suplicar. "Ana, não faças isto."
"Já está feito, Leo."
Virei o meu rosto para a janela, a recusar-me a olhar para ele.
A cidade lá fora continuava a sua vida, indiferente ao meu pequeno mundo a desmoronar-se.
Ou talvez, a ser reconstruído.