Eu sacrifiquei a carreira dos meus sonhos pelo meu noivo, apenas para descobrir que ele me traía com sua investidora mais velha - uma traição que levou à morte da minha mãe. Ele atingiu um novo nível de crueldade quando jogou as cinzas da minha mãe no lixo e conspirou para que meu vestido de noiva se desintegrasse no meu corpo, em pleno altar. Eu desapareci por cinco anos, construí uma nova vida com uma nova família, mas agora ele nos encontrou - e acabou de salvar a vida da minha filha para forçar sua volta à minha vida.
Capítulo 1
Ponto de Vista de Alina Oliveira:
O fim do meu mundo não chegou com um estrondo, mas com o baque suave de uma caixa de papelão na minha porta.
Era uma caixa preta, elegante, do tipo que guarda coisas caras que eu nunca compraria para mim. Abaixei-me, franzindo a testa para a etiqueta de envio. O endereço era o meu, o apartamento que eu dividia com meu noivo, Caio. Mas o nome impresso em uma fonte nítida e sofisticada era Fabiana Montenegro.
Antes que eu pudesse processar a confusão, um conversível prateado parou na calçada. A própria Fabiana saiu do banco do motorista, toda angulosa e envolta em um perfume caro. Ela era a maior investidora em potencial de Caio, uma mulher de negócios na casa dos cinquenta anos, com fama de ser implacável na sala de reuniões e, aparentemente, descuidada com suas compras online.
"Alina, querida, você é um anjo", ela chamou, sua voz suave como uísque envelhecido. Ela gesticulou para a caixa. "É minha. Que boba, devo ter colocado o endereço errado. O Caio tem me ajudado a instalar uns equipamentos de tecnologia novos, e seu endereço deve ter preenchido automaticamente. Você sabe como é."
Eu assenti, forçando um sorriso que pareceu tenso no meu rosto. "Sem problemas, Fabiana."
Ela pegou a caixa, seus dedos com unhas perfeitas roçando nos meus. A interação pareceu... estranha. Era uma sensação que eu vinha tendo muito ultimamente, um zumbido baixo de ansiedade que eu não conseguia identificar.
Afastei o pensamento enquanto entrava. Caio estava prestes a garantir o financiamento que salvaria sua startup. Meu trabalho era apoiá-lo, não ser paranoica.
Meu celular vibrou na bancada da cozinha. Era uma notificação da nossa conta conjunta. Meu coração não apenas afundou; ele despencou, uma pedra caindo em um abismo gelado.
Alerta de Transação: Hotel Imperador Palace - R$ 2.500,00. Compra de Frigobar: Dom Pérignon, Venda de Seda.
Minha respiração falhou. Estávamos economizando cada centavo para o casamento e para a empresa de Caio. Uma despesa de mais de dois mil reais em um hotel era impensável.
Havia apenas uma pessoa que tinha acesso àquele cartão além de mim.
A corda que me mantinha inteira por meses finalmente se rompeu. Não foi um rompimento barulhento e violento, mas um corte silencioso e limpo que me deixou oca por dentro.
Peguei minhas chaves, minhas mãos tremendo tanto que mal consegui colocar a chave na ignição. O trajeto até o Hotel Imperador foi um borrão de semáforos vermelhos e o baque frenético do meu próprio coração contra minhas costelas.
Na recepção, mantive minha voz firme, uma proeza de atuação que eu não sabia que era capaz. "Oi, estou aqui para pegar a chave do quarto do meu noivo. Caio Ferraz. Ele disse que deixaria meu nome na recepção."
O recepcionista, um jovem com uma expressão entediada, digitou algo no teclado. "Sim, Sra. Oliveira. Quarto 1208." Ele deslizou um cartão-chave pelo balcão polido sem levantar o olhar.
A subida de elevador pareceu uma eternidade. Cada andar apitava com uma lentidão agonizante. Quando cheguei ao décimo segundo andar, minhas palmas estavam úmidas de suor. O corredor era acarpetado, abafando o som dos meus passos enquanto eu me aproximava do 1208.
Eu não precisei do cartão-chave.
Eu podia ouvi-los através da porta. A risada baixa e rouca de uma mulher, seguida pela risada mais grave de Caio. Os sons eram íntimos, carregados de uma familiaridade que fez meu estômago revirar.
"Você é incrível, Fabiana", a voz de Caio ronronou, densa com um tom que ele não usava comigo há anos. "Absolutamente incrível."
"E você, meu rapaz", a voz de Fabiana era inconfundível, "aprende muito rápido."
O nome me atingiu como um golpe físico. Fabiana. A mulher cujo pacote estava na minha porta uma hora atrás. A mulher que Caio deveria estar cortejando para negócios, não... para isso.
Uma onda de náusea me invadiu, quente e ácida. Eu tropecei para trás, longe da porta, pressionando a mão na boca para abafar um engasgo.
Uma memória surgiu em minha mente, nítida e indesejada. Algumas semanas atrás, eu tinha olhado para o notebook de Caio e visto seu histórico de busca. "Mulheres mais velhas poderosas." "Fetiche em coroas." Na época, eu descartei como um pop-up estranho ou um clique aleatório. Agora, a memória se solidificou em uma verdade horrível.
Então veio a voz de Caio novamente, gotejando uma crueldade casual que era de alguma forma pior que os gemidos. "Não se preocupe com a Alina. Ela é só... cômoda. Leal, como um cachorrinho. Ela vai estar lá esperando quando eu chegar em casa."
O ar fugiu dos meus pulmões. Minha visão embaçou com lágrimas de pura e absoluta humilhação. Olhei para o diamante na minha mão esquerda, aquele que ele deslizou no meu dedo oito meses atrás em meio a uma névoa de promessas e futuros sussurrados. Oito anos. Eu dei a ele oito anos da minha vida. Eu engavetei uma prestigiosa bolsa de pesquisa em ética de Inteligência Artificial em uma das maiores empresas de tecnologia do país - um sonho pelo qual trabalhei a vida inteira - para apoiá-lo e sua startup em dificuldades.
Lembrei-me de todas as vezes que Fabiana ligou para ele, precisando de "ajuda urgente" com algum problema técnico menor. Os fins de semana que ele passou na mansão dela, "fazendo networking". A vez que ele cancelou nosso jantar de aniversário porque Fabiana teve uma "crise de investidores" de última hora.
Ele até me deixou sozinha com 39 graus de febre uma vez porque o novo sistema de casa inteligente de Fabiana estava com defeito.
Meus dedos, dormentes e desajeitados, tentavam tirar o anel de noivado. Estava apertado, agarrado ao meu dedo como uma algema. Com um puxão final e doloroso, eu o arranquei.
Naquele exato momento, meu telefone tocou, vibrando contra o cartão-chave na minha mão. O nome na tela fez meu coração doer com um tipo diferente de dor. Arthur Corrêa. Meu antigo orientador da universidade.
"Alina?", sua voz era gentil, respeitosa - tudo o que a de Caio não era. "Desculpe incomodar. Sei que você disse que não estava interessada, mas o desenvolvedor líder do projeto Quimera acabou de desistir. A bolsa... ainda está aberta. Se você reconsiderar, a vaga é sua. Precisaríamos que você começasse imediatamente."
Lágrimas escorriam pelo meu rosto, quentes e silenciosas. Apoiei a testa na madeira fria da porta do quarto de hotel. Lá dentro, eu podia ouvir Fabiana rindo de novo.
"Sim", sussurrei, minha voz falhando. "Sim, Arthur. Eu aceito. E eu sinto muito, muito mesmo, por como deixei as coisas antes."
Lembrei-me do dia em que disse a ele que estava recusando a bolsa para apoiar Caio. A decepção em seus olhos tinha sido algo físico. Ele investiu tanto em mim, acreditou no meu talento. E eu joguei tudo fora por um homem que me via como um cachorrinho conveniente. A startup de Caio levou todas as minhas economias, e minha decisão quase causou um infarto no meu orientador.
"Não se desculpe, Alina. Estamos felizes em ter você de volta", disse Arthur, seu alívio palpável. "Mas você conhece os termos. É um compromisso de cinco anos. Alta segurança, totalmente isolada. Sem contato com o mundo exterior assim que você entrar."
"Eu entendo", eu disse, uma estranha sensação de calma se instalando sobre os destroços do meu coração. "Eu aceito."
Desliguei a chamada e guardei o anel de noivado no bolso. Virei-me e me afastei daquela porta, da vida que eu havia construído, do homem que eu havia amado. Eu não corri. Eu andei, cada passo deliberado, me levando para mais longe da humilhação e mais perto da vida que eu deveria ter escolhido desde o início.
As lágrimas não pararam até eu entrar na nossa garagem. Ele já estava lá. O carro de Caio estava estacionado, e a porta da frente estava entreaberta.
Ele estava na sala de estar, com um olhar presunçoso no rosto que rapidamente se transformou em confusão quando viu minha expressão.
Eu não perdi tempo. A pergunta arranhou minha garganta, crua e áspera. "Você já me amou, Caio? Nem por um segundo?"
Seu rosto endureceu. O charme desapareceu, substituído por uma irritação familiar. "Do que diabos você está falando, Alina? Não comece com isso. Tive um longo dia de reuniões."
"Reuniões?", eu ri, um som quebrado e feio. "É assim que você chama?"
Naquele momento, a porta da frente se abriu mais, e Fabiana entrou, uma imagem de falsa preocupação. "Está tudo bem? Ouvi gritos."
O comportamento de Caio mudou completamente. Ele se suavizou, seu foco imediatamente se voltando para ela. "Não é nada, Fabiana. A Alina só está sendo... dramática."
Ele se moveu em direção a ela, um gesto sutil e protetor que fez minha última gota de esperança murchar e morrer.
Depois de um momento, ele acompanhou uma supostamente abalada Fabiana para fora, prometendo cuidar de mim. Quando ele se foi, ela se virou para mim, sua máscara de preocupação caindo para revelar um sorriso frio e triunfante. "Aprenda o seu lugar, queridinha."
Minha voz era gelo. "Não se preocupe, tiazinha. Eu aprendi."
Seu sorriso vacilou. Então, em um movimento tão chocante que me tirou o fôlego, ela levantou a mão e deu um tapa no próprio rosto. Com força. O som estalou no apartamento silencioso.
Caio voltou correndo, seus olhos arregalados. Ele viu a bochecha vermelha de Fabiana, as lágrimas brotando em seus olhos, e então olhou para mim. Sua expressão se tornou furiosa.
"O que diabos você fez?", ele rosnou, avançando sobre mim. Ele agarrou meu pulso, seu aperto como ferro. "Você vai pedir desculpas a ela. Agora."
Ponto de Vista de Alina Oliveira:
"Eu não toquei nela", tentei explicar, minha voz tremendo com uma mistura de raiva e incredulidade. Mas ele me interrompeu, seus dedos cravando no meu pulso até eu gemer de dor.
"Não minta para mim, Alina."
Ele me arrastou pelo tapete da sala, forçando-me a ficar na frente de Fabiana, que agora soluçava delicadamente em suas mãos. "Peça desculpas", ele rosnou, sua mandíbula tensa.
Foi isso. Aquele foi o momento. A última brasa de calor que eu guardava por ele em meu coração se extinguiu, não deixando nada além de cinzas frias e mortas. Oito anos de amor, de sacrifício, de acreditar nele - tudo se foi.
"Por quê?", sussurrei, minha voz falhando. "Por que você não acredita em mim? Caio, sou eu. Fui eu por oito anos. Você sabe que eu não faria isso."
A dor crua na minha voz o fez hesitar por um momento. Por uma fração de segundo, vi um lampejo do homem que eu costumava amar em seus olhos - uma breve hesitação.
Mas desapareceu tão rápido quanto apareceu. Fabiana, uma manipuladora mestre, aproveitou a oportunidade. Ela deu outro tapa no próprio rosto, ainda mais forte desta vez. "A culpa é minha", ela chorou, sua voz embargada de falsa culpa. "Eu não deveria ter ficado entre vocês. Caio, eu vou... eu vou arrumar minhas coisas e me mudar. Não quero ser um fardo."
A ameaça era clara. O investimento dela, a startup dele, todo o seu futuro - tudo estava ligado a ela.
A hesitação de Caio evaporou, substituída por uma nova onda de fúria dirigida inteiramente a mim. "Veja o que você fez?", ele rugiu.
Com um empurrão violento, ele chutou a pequena mesa de centro entre nós. Ela deslizou pelo piso de madeira e bateu na parede. O porta-retrato em cima - nossa primeira foto juntos, tirada há oito anos, o braço dele em volta de mim, seus olhos brilhando com o que eu confundi com amor - caiu no chão, o vidro se estilhaçando em mil pedaços.
Eu encarei a imagem quebrada no chão. O rosto sorridente dele, agora fraturado além do reparo. O simbolismo era tão dolorosamente óbvio que parecia uma cena de um filme ruim.
Lentamente, enxuguei as lágrimas das minhas bochechas. Olhei para o vidro quebrado, depois para ele. Sem outra palavra, passei por cima da bagunça e saí da sala. Eu cansei de tentar colar os pedaços de algo que estava tão completa e irrevogavelmente quebrado.
Na noite seguinte, meu celular vibrou com uma mensagem dele. "Jantar em família na casa dos meus pais hoje à noite. Esteja lá."
Antes que eu pudesse digitar uma recusa, outra mensagem chegou. "Sua mãe já está aqui."
Meu sangue gelou. Minha mãe, Dona Elza, tinha uma condição cardíaca grave. Qualquer estresse, qualquer sinal de problema entre Caio e eu, poderia ser catastrófico. Ele sabia disso. Ele a estava usando como uma arma.
Engolindo meu orgulho e minha dor, coloquei uma máscara de coragem e dirigi até a casa dos pais dele. No momento em que vi minha mãe, seu rosto se iluminou com um sorriso amoroso que quase me quebrou. "Alina, meu bem! Aí está você. Onde está o Caio? Pensei que vocês viriam juntos."
Antes que eu pudesse formular uma mentira, ele apareceu na porta. E não estava sozinho. Fabiana estava agarrada ao seu braço, vestida com um elegante vestido de noite. Ela sorriu para minha mãe. "Elza, você está maravilhosa esta noite!"
Minha mãe, abençoado coração inocente, sorriu de volta. "Fabiana, que bom te ver. Alina, eu não sabia que sua amiga vinha."
O sorriso de Caio era tenso, falso. "Fabiana é mais do que uma amiga, ela é praticamente da família", disse ele, seus olhos fixos nos meus com uma ameaça silenciosa. "Na verdade, a Alina deve a ela um pedido de desculpas por um mal-entendido ontem."
Ele me puxou de lado, seu aperto no meu cotovelo me machucando. "Faça", ele sibilou, sua voz baixa e ameaçadora. "Peça desculpas a ela na frente de todo mundo, ou eu juro por Deus, eu vou dizer à sua mãe que o casamento está cancelado. Aqui mesmo, agora."
O mundo girou. Olhei para minha mãe, rindo e conversando com o pai de Caio, completamente alheia. A ideia dela desmaiar, do pior acontecer por minha causa... era insuportável.
Meu orgulho era um preço pequeno a pagar pela vida dela.
Caminhei até Fabiana, meu corpo se movendo como se estivesse debaixo d'água. "Fabiana", eu disse, o nome com gosto de veneno. "Me desculpe."
Seu sorriso era triunfante. Ela pegou uma taça de champanhe de uma bandeja que passava e a estendeu para mim. "Desculpas aceitas, querida. Vamos beber para selar."
Ponto de Vista de Alina Oliveira:
Eu recuei instintivamente. "Não posso. Sou alérgica a álcool."
Era verdade. Uma alergia severa. Um gole poderia me levar a um choque anafilático. Caio sabia disso melhor do que ninguém.
O rosto de Fabiana se contorceu em uma máscara de tristeza teatral. "Oh, céus. Estou te deixando desconfortável de novo? Talvez eu devesse ir embora", ela fungou, virando-se para Caio com olhos grandes e suplicantes.
O rosto dele escureceu de raiva. Os olhos de seus pais, da minha mãe e dos convidados estavam todos em nós. "Alina, não faça uma cena", ele rosnou, sua voz um grunhido baixo que só eu podia ouvir. "Apenas beba."
Uma memória emergiu, nítida e amarga. Anos atrás, em uma festa da faculdade, um playboy bêbado tentou forçar uma cerveja na minha mão. Caio o derrubou com um soco sem pensar duas vezes, sua voz ecoando com fúria protetora. "Ela disse não. Você é surdo?" Ele me abraçou a noite toda, sussurrando como nunca deixaria ninguém me machucar.
A ironia era uma dor física no meu peito.
Com as mãos trêmulas, peguei a taça de Fabiana. Fechei os olhos, pensei no rosto sorridente da minha mãe e bebi o líquido borbulhante de uma só vez. O gosto era ácido, um prenúncio do veneno se espalhando pelas minhas veias.
Levou menos de cinco minutos. Primeiro veio a coceira, depois as urticárias vermelhas e raivosas florescendo na minha pele. Minha garganta começou a fechar, minhas respirações se tornando ofegantes e superficiais.
O pânico brilhou em meus olhos, mas eu não podia chamar uma ambulância. Não podia arriscar que minha mãe me visse assim, não podia arriscar o choque em seu coração frágil.
Caio, vendo a gravidade da minha reação, finalmente agiu. Ele me pegou nos braços e me levou para o carro, seu rosto uma máscara de preocupação forçada.
Enquanto ele acelerava em direção ao hospital, ele não se desculpou. Ele a defendeu. "A Fabiana não sabia, Alina. Ela se sente péssima. Ela é apenas uma pessoa muito direta, não quer fazer mal."
Eu estava caída contra a porta do passageiro, fraca demais para discutir, o som de sua voz irritando meus nervos à flor da pele. Eu queria gritar, rir do absurdo de tudo aquilo. Em vez disso, não disse nada, um silêncio amargo preenchendo o espaço entre nós.
No hospital, eles me colocaram em um soro intravenoso. Os anti-histamínicos fizeram sua mágica, e o aperto sufocante no meu peito lentamente aliviou. Exausta, caí em um sono agitado.
Acordei no meio da noite com uma dor aguda e ardente nas costas da mão. Meus olhos se abriram. O quarto estava escuro e vazio. Caio tinha ido embora. Olhei para a minha linha de soro; sangue vermelho escuro estava fluindo de volta pelo tubo. O soro tinha acabado.
Tateei em busca do botão de chamada da enfermeira preso ao meu travesseiro. Pressionei-o repetidamente, mas ninguém veio. Um pavor frio me invadiu. Estava quebrado.
Com um gemido, forcei meu corpo fraco a sair da cama, o suporte do soro balançando ao meu lado. Eu tinha que conseguir ajuda. Tropecei até a porta e empurrei, mas ela não se moveu. Algo a estava bloqueando do lado de fora.
O pânico arranhou minha garganta. Bati na porta, minha voz rouca. "Olá? Tem alguém aí? Socorro!"
Meus gritos foram respondidos não por uma enfermeira, mas por um som do quarto ao lado. O gemido ofegante de uma mulher, seguido pelo grunhido baixo de um homem.
Os sons eram nauseantemente familiares.
Caio. E Fabiana.
Eles estavam no quarto ao lado. Ele me deixou, com meu soro correndo ao contrário e o botão de chamada quebrado, para ficar com ela. Ele me trancou.
Caí no chão, de costas para a porta, e escutei. Chamei por ajuda a noite toda, minha garganta ficando em carne viva, meus punhos se machucando contra a madeira inflexível. E a noite toda, os sons do quarto ao lado continuaram, uma trilha sonora grotesca para minha desolação absoluta.
Assim que os primeiros raios do amanhecer pintaram o céu, a obstrução do lado de fora da minha porta foi movida. Caio entrou, parecendo revigorado e satisfeito, uma presunção em seus olhos que ele não se preocupou em esconder.
Então ele viu o sangue nas costas da minha mão, as trilhas de lágrimas secas no meu rosto. Sua expressão mudou instantaneamente para uma de profunda preocupação. "Alina! Meu Deus, o que aconteceu? Por que você não chamou uma enfermeira?"
Eu apenas o encarei, meu coração uma coisa morta e pesada no meu peito. Eu não tinha mais energia para sentir raiva, apenas um vazio profundo e oco.
Enquanto ele se inclinava sobre mim, fingindo preocupação, senti o cheiro dela nele - o mesmo perfume caro e enjoativo que Fabiana sempre usava. O cheiro encheu meus pulmões, e eu vomitei, virando a cabeça para ter ânsias secas no chão frio de linóleo.
Ignorando meu óbvio desconforto, ele se apressou, chamando por médicos, interpretando o papel do noivo devotado com uma perfeição doentia.
Assim que uma enfermeira chegou, meu celular, que estava na mesa de cabeceira, começou a tocar. Era o síndico do prédio da minha mãe. Sua voz estava frenética.
"Sra. Oliveira? Você precisa vir aqui imediatamente. É a sua mãe. Houve um acidente."