Eu tinha morrido uma vez, traída pelo meu noivo Cauã e pela minha meia-irmã Heloísa. Eles me humilharam, roubaram meu filho e me deixaram para morrer em um hospital.
Mas o destino me deu uma segunda chance.
Eu renasci, voltando ao dia em que tudo começou a desmoronar.
Desta vez, a dor não me cegaria. Meu coração, antes cheio de amor, agora estava frio como gelo. Meu único plano era simples: uni-los e me libertar para sempre.
No entanto, ao encará-lo na festa, percebi algo terrível: Cauã também havia renascido. Mas sua arrogância o impedia de ver a verdade, e ele continuou a me tratar com o mesmo desprezo cruel.
"Silvana, você está atrasada. Ou sua obsessão por mim te fez perder a noção do tempo de novo?", ele zombou, enquanto Heloísa, a víbora disfarçada de anjo, exibia um colar de diamantes que deveria ter sido meu.
Eles achavam que eu era a mesma tola do passado, a que chorava e implorava.
Mal sabiam eles que a Silvana que eles conheciam estava morta.
E a nova Silvana não estava aqui para implorar. Eu estava aqui para tomar tudo o que era meu por direito, começando com o império do Avô Afonso. Minha vingança seria a minha felicidade, e a ruína deles estava apenas começando.
Capítulo 1
Silvana Neves POV:
Eu tinha morrido uma vez, e isso mudou tudo. Não haveria uma segunda vez para cometer os mesmos erros. A dor daquele hospital, o vazio do meu último suspiro, tudo isso ainda estava fresco na minha memória, como uma tatuagem invisível na minha alma. Agora, de volta, no meu próprio corpo, mas com a mente afiada pelas lembranças de uma vida que deveria ter sido minha, eu sabia exatamente o que fazer. Meu coração, antes um emaranhado de paixão e submissão por Cauã Pessoa, estava agora frio. Uma estratégia fria, calculada. Eu o uniria a Heloísa Assunção, minha meia-irmã, e então me libertaria. Era o meu novo plano, e nada me desviaria dele.
Mas então eu o vi. Cauã. E o ar gelou nos meus pulmões. Não era possível. Pensei que era a única abençoada, ou talvez amaldiçoada, com uma segunda chance. Mas ele estava ali, com o mesmo sorriso arrogante, a mesma postura de dono do mundo que eu conhecia tão bem. Seus olhos, que antes me faziam tremer de amor, agora pareciam carregar a mesma sombra de lembranças que os meus. Ele também tinha renascido. A ficha caiu como um bloco de gelo no estômago. Aquele homem, a personificação da minha desgraça passada, estava aqui de novo. Mas havia uma diferença crucial: ele não parecia ter a menor ideia. Sua prepotência era uma barreira que o impedia de ver a verdade, de reconhecer o milagre ou a maldição que nos havia sido concedida.
Eu estava no salão de festas da mansão dos Pessoa, um lugar que antes me parecia um conto de fadas, agora apenas um palco para a minha farsa. As vozes ecoavam, risadas falsas preenchiam o espaço, e o cheiro doce e enjoativo de flores caras me sufocava. No centro de um grupo, como um rei no seu trono, estava Cauã, rodeado por bajuladores. Heloísa, minha 'doce' meia-irmã, pendia do seu braço, a imagem da inocência, vestida de um branco angelical. Parecia um quadro perfeito de felicidade, forjado na minha desgraça.
Quando meus olhos encontraram os dele, um silêncio estranho desceu sobre o grupo. Os sorrisos nos rostos dos bajuladores murcharam, e eles, um a um, começaram a se dispersar, como folhas secas levadas pelo vento. O burburinho cessou, e eu senti os olhares pesados caindo sobre mim, cheios de curiosidade e desprezo. O ar ficou pesado, quase palpável, e eu me senti como uma intrusa em um lugar onde, por direito, eu deveria ser a anfitriã. Mas eu já conhecia essa sensação. Não doía mais.
Uma das primas de Cauã, uma mulher com um sorriso afiado e olhos de cobra, soltou uma risada abafada. "Olhem só quem resolveu aparecer. Pensei que a Silvana tinha se perdido no caminho da própria insignificância", ela murmurou, alto o suficiente para que todos ouvissem. Outros se juntaram, sussurros maldosos se espalhando como fogo. "Ainda tentando agarrar o Cauã?", "Pobre coitada, não percebe que ele a largou?" Era um coro familiar de desdém, ecos de uma vida passada que agora só serviam para reforçar a minha determinação.
Cauã, no entanto, não se moveu. Ele apenas me encarou, com um olhar que, para mim, já não tinha o poder de me quebrar. Seus lábios se curvaram em um sorriso cruel. "Silvana, você está atrasada. Ou sua obsessão por mim te fez perder a noção do tempo de novo?" Sua voz era suave, mas cortante como vidro quebrado. Na vida passada, aquelas palavras teriam me atingido como um soco no estômago, tirando-me o ar. Agora, eu apenas as ouvia, vazias, insignificantes.
Ele deu um passo à frente, soltando Heloísa, que parecia uma boneca assustada. "Todos esses anos, você se arrastando aos meus pés, achando que seu 'amor' me comoveria. É patético, Silvana. Eu nunca te quis nesse nível, você sabe disso. Seu papel era outro, e você falhou miseravelmente em entender." Suas palavras eram uma bala. Antes, teriam explodido meu mundo, reduzindo a cinzas toda a minha dedicação. Agora, eram apenas o vento soprando sobre um deserto que eu já havia atravessado.
Ele parou na minha frente, perto o suficiente para que eu sentisse o cheiro do seu perfume caro, mas longe demais para qualquer intimidade. Um breve silêncio se instalou, pesado. Seus olhos varreram meu rosto, e por um instante, um relance de algo que parecia desprezo puro brilhou neles. Ele soltou um suspiro lento, como se eu fosse um fardo incômodo, um problema a ser resolvido. Aquele olhar, antes, teria me feito questionar minha própria existência. Hoje, só me dava a certeza de que eu estava no caminho certo para a minha liberdade.
"Olhe para você, Silvana", ele continuou, a voz gotejando veneno. "Ainda com essa face de mártir, esperando que eu me arrependa? Deixe-me deixar claro: você é um obstáculo. E obstáculos são removidos. Eu não vou permitir que você estrague meus planos de novo, ou tente se agarrar a algo que nunca foi seu." Ele terminou com um aviso frio. "Entendeu?". Era uma ameaça velada, uma promessa de destruição. Ele ainda achava que eu era a Silvana do passado, a que chorava e implorava. Mal sabia ele que eu era a Silvana do futuro, e que as regras do jogo tinham mudado.
Uma pontada de memória me atingiu. A Silvana antiga, cega de amor, que via em cada gesto rude de Cauã uma prova de sua "difícil" personalidade, que interpretava seu desprezo como um desafio a ser superado pelo seu amor incondicional. Eu me via, como um fantasma, correndo atrás dele, ignorando as humilhações, acreditando em contos de fadas onde o amor tudo vencia. A memória era dolorosa, mas distante, como uma cicatriz antiga que não coça mais. Eu havia morrido por aquele amor, literalmente. E não voltaria a fazê-lo.
Levantei meu queixo, sentindo a força recém-descoberta em cada fibra do meu ser. "Entendi perfeitamente, Cauã", eu disse, minha voz calma e controlada, sem um traço da fragilidade que ele esperava. Não havia tremor, nem súplica. Apenas uma clareza gelada. "Na verdade, eu entendi muito antes do que você pode imaginar."
Os olhos de Cauã estreitaram-se, surpresos pela minha inesperada compostura. "E o que isso significa?", ele perguntou, sua confiança vacilando um pouco. Eu dei um pequeno sorriso, um que não alcançou meus olhos, mas que era o suficiente para perturbar a sua paz. "Significa que a reunião com o vovô Afonso, marcada para hoje à noite, será mais interessante do que você pensa. Não é mesmo?"
A menção ao nome de Afonso Carrara e a uma 'reunião' fez um choque percorrer a espinha dorsal dos presentes. Os poucos bajuladores que ainda estavam por perto trocaram olhares assustados. "Reunião? Que reunião?", alguém sussurrou. Seus olhares se voltaram para Cauã, que agora parecia tão confuso quanto eles. Ele não sabia. Ele havia renascido, mas sua arrogância o cegava para o que realmente importava. A informação que eu acabara de soltar era um míssil no meio da sua festa.
Eu entendi o choque deles. Na vida passada, Cauã sempre controlava as informações, especialmente as que diziam respeito ao Avô Afonso e sua vasta fortuna. Ele se certificava de que ninguém mais soubesse dos detalhes do testamento, dos acordos antigos. Ele me mantinha no escuro, na esperança de que eu fosse apenas uma peça no seu jogo de poder. Mas agora, eu sabia de tudo. Eu tinha a vantagem da memória, e ele, a maldição da sua própria presunção.
Lembrei-me das palavras do Avô Afonso, ditas a mim em segredo, anos atrás. Um acordo selado com o meu próprio avô, um herói de guerra que havia salvado a vida de Afonso. "Minha neta, você é a chave para o futuro desta família. Meu testamento é claro: apenas aquele que se casar com você, Silvana, terá acesso total à minha fortuna e à sucessão do império Carrara. É uma prova de caráter, de lealdade. Não é sobre o dinheiro, mas sobre quem você escolhe para estar ao seu lado." Eu havia esquecido a importância daquilo na minha vida passada, cega pelo amor. Agora, era a minha arma.
O Avô Afonso não era um homem de meias palavras. Seu testamento era uma obra de arte em si, uma armadilha para os ambiciosos e um teste para os verdadeiros. Ele havia estipulado que apenas o neto que se casasse comigo herdaria o controle total do seu império. Não apenas uma parte, mas TUDO. E ele tinha deixado claro: "Não quero parasitas no meu legado. Quero alguém que valorize o caráter e a parceria, não o status e o dinheiro fácil." Cauã, em sua mente arrogante, sempre presumiu que seria ele, que eu seria sua noiva obediente. Ele nunca sequer considerou que eu pudesse ter uma escolha real.
De repente, todos os olhares estavam firmemente fixados em Cauã. Os sussurros se transformaram em frases rápidas, quase inaudíveis. As pessoas começaram a se aproximar dele novamente, com um brilho diferente nos olhos. Não era mais desprezo por mim, mas um interesse renovado no 'rei' que poderia, afinal, não ser tão inabalável como pensavam. Eles buscavam uma migalha, uma garantia de que, com Cauã no controle, seus próprios pequenos interesses estariam seguros.
Cauã, recuperando a compostura, soltou uma risada seca e forçada. "Ah, a reunião. Sim, claro. Vovô sempre com as suas excentricidades, não é? Não se preocupem, é apenas uma formalidade. Silvana ainda será minha noiva, e o império Carrara continuará nas mãos certas." Ele me lançou um olhar que misturava triunfo e um escárnio mal disfarçado. Ele ainda pensava que me manipularia, que eu era a mesma tola fácil de controlar.
Ele se aproximou de mim novamente, seu sorriso se alargando, revelando um brilho predatório em seus olhos. Não era um sorriso de afeto, mas de posse, de um caçador que encurrala sua presa. Eu senti um arrepio, mas não de medo, e sim de antecipação. Ele ainda estava jogando o jogo antigo, e eu mal podia esperar para ver a sua queda.
"Silvana", ele disse, a voz sedosa, mas com uma ameaça subjacente. "Vamos facilitar as coisas. Que tal você parar com esse joguinho de garota difícil? Volte para mim, como a noiva que você deveria ser. Mas desta vez, sem exigências. Sem opiniões. Apenas obediência. E, claro, você terá que se livrar da sua meia-irmã. Heloísa é um... detalhe desnecessário, agora que o vovô decidiu acelerar o processo. Você não quer perder tudo, quer?" Ele estava tão convencido do meu amor, da minha dependência, que ousava me propor uma subjugação completa.
A ideia de que ele também tinha renascido, mas estava cego pela sua própria arrogância, me atingiu com força. Era uma revelação perturbadora, tingida de ironia. Ele estava de volta, mas não havia aprendido nada. E isso, de alguma forma, me dava uma vantagem ainda maior.
Enquanto eu processava essa nova e complexa informação, uma voz melíflua e alta cortou o ar, como um sino de igreja em um funeral. "Cauã, querido, o que está acontecendo aqui? Eu ouvi alguns gritos... Silvana, você está bem?" Era Heloísa, minha meia-irmã, surgindo do corredor adjacente como uma visão. Seus olhos, grandes e inocentes, pareciam inundados de preocupação, mas eu podia ver a sombra de cálculo por trás daquela fachada.
Heloísa estava deslumbrante, como sempre. Vestia um vestido de seda azul-claro que realçava sua pele pálida e seus cabelos dourados. Sua postura era a de uma flor frágil, ligeiramente curvada, como se o mundo fosse grande demais para ela. Ela piscou os olhos, longos cílios tremulando, e colocou uma mão delicada sobre o peito, como se estivesse com o coração apertado. A imagem era perfeita, a atuação impecável. A Heloísa do passado, que eu amava e protegia, teria engolido essa encenação. A Silvana renascida via a víbora rastejando sob a pele de cordeiro.
No instante em que Heloísa apareceu, o foco de Cauã se desviou de mim. Seus olhos, antes frios e calculistas, suavizaram-se com uma preocupação quase paternal. "Heloísa, querida, não é nada. Apenas Silvana causando o drama de sempre. Você não deveria ter vindo aqui, está fraca." Ele deu um passo em sua direção, a mão estendida, como se fosse protegê-la de um predador invisível.
Heloísa se encolheu ligeiramente, mas não se afastou. "Eu estava apenas vindo procurar por você, Cauã. Senti um pouco de tontura e pensei que um ar fresco pudesse ajudar. Mas então ouvi as vozes e fiquei preocupada. Silvana, você não deveria brigar. É tão feio", ela disse, sua voz um sussurro frágil, como se a simples ideia de uma discussão fosse demais para seus nervos delicados. Era a sua tática clássica: fazer-se de vítima, virar a situação contra mim.
Cauã pegou a mão de Heloísa, apertando-a com uma possessividade que me revirou o estômago. Seu olhar voltou para mim, mas agora era tingido de uma raiva protetora. "Veja o que você fez, Silvana. Assustou a Heloísa. Ela é delicada, não como você, que parece feita de rocha."
"Você sempre foi assim", ele continuou, a voz subindo um tom. "Mimada, egoísta, só pensa em si mesma. Nunca se importou com os sentimentos dos outros. Heloísa, ao contrário, é pura de coração. Ela se preocupa com todos, mesmo com você, que a trata tão mal." Ele gesticulava com a mão livre, como se estivesse me julgando em um tribunal. A ironia era tão densa que eu podia quase saboreá-la. Ele, o egoísta, me chamando de egoísta.
Ele virou as costas para mim, puxando Heloísa suavemente pelo braço. Ela olhou para mim por cima do ombro dele, um pequeno sorriso sutil e vitorioso dançando em seus lábios antes de desaparecer. Eles começaram a caminhar, deixando-me ali, sozinha no centro do salão agora quase vazio, com os poucos curiosos ainda me observando de longe.
Antes de desaparecerem completamente pela porta, Cauã parou e olhou para mim uma última vez. "Não se preocupe, Silvana. Eu vou lidar com o vovô. E você, você vai se arrepender de ter tentado jogar comigo." Sua voz era um sussurro, mas carregava a promessa de uma tempestade. Eu sorri para as costas dele, um sorriso que ele nunca veria, um sorriso que guardava a promessa de uma ruína que ele ainda não podia sequer imaginar. Minha vingança estava apenas começando.
Silvana Neves POV:
A porta se fechou atrás deles, e o silêncio caiu pesado. O salão, que antes parecia cheio de fofocas e olhares de julgamento, agora estava vazio, parecia que eu era a única ali, mas eu não me sentia sozinha. Uma risada amarga borbulhou na minha garganta. "Arrependida?" Eu sussurrei para o ar. "Você mal faz ideia, Cauã." Não havia desespero, nem tristeza. Apenas uma sensação de alívio, de que a farsa estava finalmente começando a desmoronar. Eu havia aguentado demais na vida passada. Eu tinha a chance de reescrever o meu próprio destino, e não a desperdiçaria novamente.
Duas horas depois, a mansão dos Pessoa estava irreconhecível. As luzes eram mais brilhantes, a música mais alta, e os convidados, um mar de rostos sorridentes e curiosos. Era o jantar de aniversário do Avô Afonso, um evento anual que sempre terminava em alguma revelação bombástica. Este ano, eu me certificaria de que seria ainda mais explosivo. As mesas estavam postas com porcelana fina e cristais cintilantes. O cheiro de comida gourmet pairava no ar, misturado ao perfume caro dos convidados. Tudo estava pronto para o espetáculo.
O relógio marcava a hora exata em que o Avô Afonso deveria fazer seu discurso, mas eles ainda não haviam chegado. A tensão era palpável no salão, todos se perguntando onde estaria Cauã. Então, a grande porta da frente se abriu com um estrondo, e eles entraram. Cauã e Heloísa. Lado a lado, como se estivessem reencenando sua entrada triunfal de amantes proibidos. Todos os olhos se voltaram para eles, e o burburinho cresceu. Eles haviam planejado a entrada dramática, claro. Queriam ser o centro das atenções, como sempre.
Heloísa estava deslumbrante em um vestido vermelho-paixão, que contrastava com a sua pele pálida, mas suas bochechas estavam coradas, quase febris. Seus olhos, normalmente tão calculistas, tinham um brilho de euforia. Meu olhar, no entanto, foi atraído para o pescoço de Cauã. Ali, escondidos sob a gola da camisa, mas visíveis para quem soubesse o que procurar, estavam marcas avermelhadas. Mordidas. Ou, mais provavelmente, chupões. A raiva subiu pela minha garganta como um ácido. Não pela traição em si, que já não me importava, mas pela ousadia, pela desfaçatez de aparecerem assim, na frente de todos, no aniversário do próprio avô, a quem eles deveriam ao menos demonstrar respeito.
Na vida passada, uma cena como essa teria me feito engasgar. Eu teria sentido meu coração se despedaçar em mil pedacinhos, a humilhação queimando meu rosto, as lágrimas brotando nos meus olhos. Eu teria fugido do salão, chorando, enquanto eles riam nas minhas costas. A dor teria sido física, dilacerante. Eu me lembro da impotência, da sensação de que meu amor não era suficiente, de que eu era uma falha. Mas essa Silvana estava morta.
Agora, enquanto os olhares indiscretos dos convidados se fixavam nas marcas no pescoço de Cauã, eu apenas ergui uma sobrancelha. Um sorriso frio e quase imperceptível tocou meus lábios. Não havia dor, apenas um cálculo distante. Eu os observava, como um cientista observa uma amostra sob um microscópio. Era um jogo, e eles estavam jogando exatamente como eu previra. A previsibilidade deles era a minha maior arma.
Cauã, com sua percepção aguçada para o meu olhar, percebeu o meu breve foco em seu pescoço. Seus olhos encontraram os meus, e eu vi um lampejo de surpresa, seguido por uma pontada de irritação. Ele esperava ver a dor, o ciúme, a humilhação. Mas encontrou apenas um olhar vazio, quase divertido. Ele engoliu em seco, e eu senti que o meu desinteresse o incomodava mais do que qualquer explosão de raiva poderia fazer.
Ele puxou Heloísa um pouco para mais perto, quase a encobrindo com seu corpo, como se quisesse esconder as provas do seu hedonismo. "Não dê ouvidos a essa gente, querida", ele murmurou para ela, alto o suficiente para que alguns ouvissem. "Eles são invejosos. Não entendem o nosso amor." Era uma tentativa patética de desviar a atenção, de criar uma narrativa romântica para o seu escândalo. Mas eu já sabia demais para cair nisso.
A falta de resposta da minha parte parecia desestabilizá-lo mais do que ele esperava. Seu sorriso presunçoso começou a vacilar. Ele esperava um confronto, um drama. Minha quietude, meu desinteresse, eram um veneno lento que o estava corroendo por dentro. Ele não sabia como reagir a uma Silvana que não ligava para ele. Eu podia sentir a confusão em sua mente, a frustração crescendo.
Com um esforço visível, Cauã recompôs a sua máscara de arrogância. Ele forçou um sorriso que não chegava aos seus olhos, e se aproximou de mim, arrastando Heloísa consigo. "Silvana, querida", ele disse, a voz cheia de um falso carinho. "Pensei que não viria. Afinal, um dia tão importante para a família... para nós." Era uma provocação, uma tentativa de me atrair para o jogo dele. Mas eu já havia aprendido a não dançar conforme a música dele.
Ele estendeu uma pequena caixa de veludo vermelho. "Para você", ele disse, com um tom de quem faz um favor. "Um pequeno gesto de... reconciliação. Não queremos estragar a festa do vovô com desentendimentos, não é?" O gesto era tão visivelmente forçado, tão vazio de qualquer sentimento genuíno, que me deu náuseas. Ele estava me oferecendo uma migalha, esperando que eu a aceitasse com gratidão.
Mas antes que eu pudesse sequer pensar em recusar, Heloísa deu um pulo. Com um grito de alegria, ela arrancou a caixa da mão de Cauã. "Ai, que lindo! É para mim, Cauã? Você é tão doce!" Seus olhos brilhavam de cobiça, e a máscara de inocência que ela usava momentos antes desmoronou completamente. Ela nem sequer se preocupou em manter as aparências.
Ela abriu a caixa com dedos ágeis, revelando um colar de diamantes que cintilava sob as luzes do salão. "Oh, Cauã! É ainda mais lindo do que eu imaginava! Você se lembrou do que eu queria! Obrigada, obrigada!" Ela se jogou nos braços dele, beijando-o ruidosamente na bochecha, enquanto o colar brilhava em suas mãos. A cena era patética, mas eficaz em me humilhar.
Cauã riu, um som oco e orgulhoso. Ele acariciou o cabelo de Heloísa, com um olhar de pura adoração que ele nunca havia dirigido a mim. "Claro que é para você, meu amor. Sempre soube o que te agrada. Silvana... bom, Silvana tem seus próprios gostos, não é?" Ele me lançou um olhar condescendente, como se eu fosse um animal de estimação indesejado. A mensagem era clara: Heloísa era a escolhida, a que merecia os presentes e a atenção.
Heloísa fez um pequeno bico, fingindo modéstia. "Ah, Cauã, você não deveria! É muito caro... Mas é tão lindo, como eu posso recusar?" Ela falou, mas seus olhos brilhavam de desafio enquanto ela me lançava um olhar vitorioso. A pose de vítima frágil havia sido completamente substituída pela de uma rainha triunfante.
"Não se preocupe com a Silvana", Cauã disse, sua voz desdenhosa. "Ela nunca se importou com joias, apenas com poder e controle. Este colar seria desperdiçado nela. Mas em você, Heloísa... Em você, ele brilha. Como você brilha para mim." Ele me encarou, como se suas palavras fossem facas, destinadas a me dilacerar. Mas eu já estava morta para ele, e suas lâminas não encontravam mais carne.
Um pequeno grupo de convidados, atraídos pela comoção, começou a rir. Risadas abafadas, olhares de escárnio. "Pobre Silvana", uma mulher sussurrou, "sempre o segundo prêmio." Outro murmurou, "Ela realmente achou que ele iria voltar para ela?" As palavras eram dardos, mas eu havia construído um escudo impenetrável. Elas não me tocavam mais.
A memória me trouxe de volta a uma noite, há anos, quando Cauã me prometeu uma aliança de diamantes, a mesma que ele havia dado à sua ex-namorada. Ele disse que seria um símbolo do nosso 'amor eterno'. Eu, tola, acreditei. Ele nunca me deu. E agora, ele dava um colar ainda mais luxuoso para Heloísa, zombando abertamente de mim. A dor daquela lembrança me fez apertar os punhos. Não era a joia, mas a humilhação, a promessa quebrada, o desrespeito.
Houve uma vez em que eu confiei a Cauã um diário, onde eu escrevia todos os meus sonhos e medos. Ele o leu, e depois, em uma briga, usou minhas palavras contra mim, revelando meus segredos mais íntimos para seus amigos, que riram da minha ingenuidade. "Silvana, você realmente pensa que é uma princesa encantada? Acorda!", ele gritou, enquanto todos gargalhavam. Aquele momento me quebrou. Foi um ponto sem retorno para a minha dignidade na vida passada.
Aquele desprezo nos olhos de Cauã, a risada de Heloísa, os sussurros dos convidados. Tudo isso se fundiu em uma única e avassaladora onda de nojo. Não por mim, mas por eles. Eu não precisava mais aguentar aquilo. Eu havia renascido para viver, não para ser um fantoche nas mãos deles. Meus pés se moveram por conta própria, e eu me virei para sair, com a intenção de nunca mais olhar para trás.
Mas Cauã não me deixaria ir tão facilmente. Em um movimento rápido, ele se colocou na minha frente, bloqueando a minha saída. "Onde você pensa que vai, Silvana?", ele rosnou, o sorriso arrogante substituído por uma expressão de raiva controlada. "Você não vai estragar a festa do vovô com a sua fuga dramática. Você fica aqui e aguenta as consequências das suas escolhas."
"Você pensa que mudou, não é?", ele zombou, os olhos faiscando. "Essa sua pose de mulher madura e indiferente é ridícula. Você ainda é a mesma Silvana desesperada por atenção, que chora pelos cantos e se agarra a qualquer migalha de afeto. Não tente me enganar com essa sua nova fachada."
Ele estendeu a mão e agarrou meu pulso com força, seus dedos apertando minha pele. A dor física era mínima comparada à raiva que borbulhava dentro de mim. Era um ato de possessão, uma tentativa de me subjugar. Ele ainda pensava que podia controlar meu corpo, minhas ações.
Minha mente estava clara. Meu corpo, treinado por anos, reagiu por instinto. Com um movimento rápido e inesperado, eu girei meu pulso, usando a força do meu corpo contra a dele. Ele não esperava resistência. Me libertei de seu aperto com uma força que o fez cambalear para trás, o choque evidente em seu rosto. "Nunca mais me toque, Cauã", eu disse, minha voz baixa, mas fria como gelo.
"Eu exijo respeito", eu continuei, meus olhos fixos nos dele, sem desviar. "Eu não sou sua propriedade. Não sou sua marionete. E não sou mais a Silvana que você pensa que conhece. Acostume-se a isso, porque essa é a nova realidade."
Os olhos de Cauã se arregalaram. Ele se recuperou rapidamente, mas a surpresa ainda estava gravada em seu rosto. Ele não esperava essa reação. Ele esperava lágrimas, súplicas, talvez até uma briga histérica. Mas não essa calma controlada, essa determinação férrea. Aquilo o desorientou.
"Respeito? Você exige respeito?", ele riu, uma risada sem humor. "Você acha que merece respeito depois de anos tentando me prender com esse seu 'amor'? E agora, o que você vai fazer? Fugir? Se casar com algum pobretão para me provocar? Você realmente pensa que pode me substituir?" Ele estava furioso, a fachada de controle desmoronando.
Eu o encarei. Minha voz era um chicote. "Não, Cauã. Eu não vou me casar com você. Nunca mais." Aquelas palavras ecoaram pelo salão, silenciando os poucos murmúrios restantes. Era uma declaração, uma quebra de um contrato não apenas para ele, mas para todos que esperavam o meu retorno aos braços dele. O rosto de Cauã empalideceu, e por um breve momento, eu vi um lampejo de pânico em seus olhos.
O salão mergulhou em um silêncio atordoado. Aquelas palavras, "Nunca mais", caíram como uma bomba. Mas o silêncio durou apenas um instante, antes que uma nova onda de risadas e sussurros irrompesse, mais altos e mais cruéis do que antes. "Ela está louca!" "Quem ela pensa que é?" "Ela acabou de jogar a fortuna do Afonso no lixo!"
"Com quem ela vai se casar, então? Com um mendigo?", uma voz zombou do fundo do salão. "Quem aceitaria uma mulher rejeitada como ela?" Outra acrescentou, "Ela vai terminar sozinha e pobre, como sempre esteve destinada a ser." As palavras eram venenosas, destinadas a me derrubar. Mas eu tinha um plano. E eles ainda não sabiam.
De repente, uma comoção à margem do salão chamou a atenção de todos. Alguém esbarrou em um garçom, derrubando uma bandeja de taças, e no meio da confusão, um homem foi empurrado para o centro do salão. Ele cambaleou, quase caindo, e todos os olhos se voltaram para ele. Era Hugo Da Mata. O primo recluso de Cauã.
Ele era alto, mas sua estrutura era magra, quase frágil. Seus cabelos escuros caíam sobre os olhos, e a palidez de sua pele era acentuada pelos óculos de aros finos que descansavam em seu nariz. Ele vestia um terno bem cortado, mas parecia quase engoli-lo, tornando sua figura ainda mais esguia. Seus olhos, normalmente escondidos por trás de uma cortina de introspecção, estavam arregalados de surpresa, um pouco perdidos no brilho do salão. Hugo tinha superado uma doença grave na juventude, o que o havia deixado com uma aura de fragilidade que o tornava um alvo fácil para a zombaria. Ele era o oposto polar de Cauã, e por isso, completamente subestimado.
Um silêncio momentâneo seguiu a aparição de Hugo, antes que os sussurros começassem novamente, desta vez direcionados a ele. "Olha só quem saiu da toca!", "O recluso do Hugo. Ele nem aguenta um aperto de mão!", "Pobre Hugo, sempre tão frágil. Espero que não desmaie de emoção." As risadas eram mais cruéis, mais abertamente desdenhosas. Eles viam Hugo como uma piada, um homem fraco e sem importância. Mas eu, eu via a minha oportunidade. E o meu verdadeiro aliado.
Silvana Neves POV:
O caos aumentou, mas eu não ouvia mais os insultos. Minha mente já estava trabalhando, formando a próxima peça do meu tabuleiro. Minha boca abriu-se, pronta para soltar as palavras que chocariam a todos, que selariam o meu destino e, ironicamente, o deles. Eu iria anunciar. Iria dizer a todos que minha escolha não era Cauã. Que minha escolha... era Hugo.
Mas então, as palavras do Avô Afonso ecoaram na minha mente, claras como cristal. Ele havia me procurado secretamente, antes mesmo de eu renascer, antes de Heloísa e Cauã ousarem me humilhar novamente. "Silvana, há algo que você precisa saber sobre o meu testamento. É um segredo que deve ser guardado até o momento certo. Ninguém deve saber da sua decisão antes da hora. Especialmente não Cauã. Ele é astuto, mas previsível. Se ele souber, ele tentará sabotar. Espere o momento certo, e eu te darei o sinal."
Afonso Carrara havia me alertado sobre a voracidade da família, sobre a forma como eles se voltariam uns contra os outros por migalhas de poder. "Minha querida, a família é um ninho de cobras. E Cauã é a mais venenosa de todas. Não jogue suas cartas abertamente. Deixe-os subestimar você. Deixe-os rir. A risada deles se transformará em choro. Guarde a sua escolha, Silvana. É a sua maior arma."
Meu olhar passou de Hugo, ainda cambaleando no centro do salão, para Cauã e Heloísa, que agora o encaravam com um desprezo aberto. As palavras ficaram presas na minha garganta. Minha mão, que eu havia levantado instintivamente, baixou lentamente. A frustração me atingiu, mas eu sabia que o Avô Afonso estava certo. Eu tinha que ser paciente. Eu tinha que jogar o jogo deles, mas com as minhas próprias regras, e a minha própria linha do tempo. Eu não poderia estragar tudo agora.
Hugo, que havia fixado os olhos em mim com uma intensidade que eu nunca tinha notado antes, pareceu perceber minha hesitação. Um pequeno sinal de decepção cruzou seu rosto pálido antes que seus olhos voltassem para o chão. Ele esperava que eu o defendesse, ou talvez, que eu fizesse algo. Mas eu não podia. Não ainda.
Eu entendi a cautela do Avô Afonso. Ele não queria uma guerra aberta agora. Queria que Cauã e Heloísa caíssem por suas próprias mãos, por suas próprias falhas. Queria que o mundo visse a verdade sobre eles, não que eu simplesmente os derrubasse de uma vez. Era uma vingança mais sutil, mais devastadora. Uma que faria com que eles perdessem tudo, não apenas a fortuna, mas também a reputação, a dignidade. E eu era a peça central desse plano.
Eles não se importavam com a Silvana que amava e era humilhada. Eles só se importavam com a Silvana que era a chave para a fortuna Carrara. A herança era o único deus deles, e eu era apenas o portal. A cada risada, a cada insulto, eles reforçavam minha convicção de que não havia lugar para o amor incondicional nessa família. Apenas para o poder.
Eu respirei fundo, sentindo o ar frio preencher meus pulmões. Não adiantava discutir. Não adiantava tentar defender Hugo, ou a mim mesma. Eles já tinham suas narrativas prontas, suas conclusões tiradas. Minhas palavras seriam apenas mais munição para o desdém deles. Era hora de recuar, de deixar que eles continuassem a cavar suas próprias covas.
Com um aceno imperceptível da cabeça, eu me permiti ser o alvo de seus olhares zombeteiros, de seus sussurros cruéis. Eu permiti que rissem, que apontassem, que me chamassem de louca. Eu os deixei acreditar que haviam me quebrado, que haviam vencido. Porque a verdadeira vitória não seria gritada, mas sentida, quando o chão sob seus pés desmoronasse.
Minhas costas estavam retas, minha cabeça erguida. Eu dei um passo, depois outro, ignorando os olhares. Meus pés me levaram para fora do salão, para longe daquele circo cruel. Deixei para trás as risadas, os insultos, o cheiro de falsidade. Eu não me virei. Não olhei para trás. Eu estava saindo daquela cena, mas não daquele jogo. Eu estava apenas mudando o palco.
Para minha surpresa, quando o motorista abriu a porta do carro que me levaria de volta para casa, Heloísa já estava sentada no banco traseiro, sorrindo docemente. "Silvana, querida! Que bom que você veio. Fiquei preocupada em te deixar sozinha. Você sabe, as estradas à noite... e você estava tão chateada." Sua voz era um mel pegajoso, que me dava arrepios. Ela queria um acerto de contas, mais humilhação. Eu me sentei ao lado dela, mantendo uma distância segura, e o carro partiu.
Heloísa não perdeu tempo. Ela ergueu a mão, o colar de diamantes de Cauã brilhando em seu pescoço. "Olha só, Silvana! Não é lindo? Cauã me deu. Ele disse que me amava demais para não me dar o que eu queria. Você não acha que é a coisa mais linda que você já viu?" Sua voz era cheia de um orgulho mal disfarçado, de uma alegria infantil e cruel.
Os diamantes cintilavam sob a luz da rua que entrava pela janela do carro, quase me cegando com seu brilho excessivo. Cada faceta daquelas pedras parecia gritar a vitória de Heloísa, a minha derrota. Era um símbolo da sua usurpação, da sua conquista. Mas para mim, era apenas uma joia. Uma joia manchada de mentiras.
"Você sabe, Silvana", ela continuou, sua voz suave e doce, mas com um fio de aço por baixo. "Cauã sempre disse que eu era a única que realmente o entendia. Que meu amor era puro, diferente do seu, que era... bem, um pouco obsessivo, não acha? Ele me disse que nunca te amou daquele jeito. Que você era apenas um... acordo. Uma obrigação. Não deve ter sido fácil ouvir isso, não é?" Ela estava se deleitando com a minha suposta dor, tentando me esfaquear com palavras.
A lembrança me atingiu como um raio. O dia em que eu encontrei as mensagens de Heloísa no celular de Cauã. Mensagens cheias de palavras de amor, de planos de fuga. Eu estava grávida de dois meses, e ele havia me prometido um futuro juntos. Naquele dia, ele me disse que eu estava louca, que Heloísa era apenas uma amiga. Ele me fez sentir como se eu fosse a vilã, a louca ciumenta. E eu acreditei nele. E perdi tudo.
Heloísa havia orquestrado tudo. Ela sabia da minha gravidez. Ela sabia que eu era vulnerável. Ela havia se insinuado na vida de Cauã, sussurrando veneno no ouvido dele, pintando-me como a mulher obsessiva e controladora. Ela havia roubado meu futuro, meu bebê, minha sanidade. E agora, ela estava ali, sorrindo, exibindo seu prêmio, como se nada tivesse acontecido.
Eu lembro daquele dia, da dor lancinante no meu ventre, do sangue escorrendo entre minhas pernas. Eu liguei para Cauã, chorando, implorando para que ele viesse. Ele estava com Heloísa, claro. Ele disse que eu estava sendo dramática, que eu 'provavelmente inventei' a gravidez para prendê-lo. Naquele dia, eu perdi o meu filho. Naquele dia, eu morri por dentro.
Enquanto eu me afogava em luto e desespero, Heloísa florescia. Ela se tornou a 'amiga leal' de Cauã, a confidente, a mulher que o 'entendia'. Ela se mudou para a mansão dos Pessoa, sob o pretexto de 'cuidar' de mim, enquanto na verdade, ela consolidava sua posição ao lado de Cauã. Ela viveu uma vida de luxo e privilégios, enquanto eu definhava, presa na minha dor e na minha obsessão por um homem que nunca me amou.
Mas agora, tudo era diferente. Não havia mais dor, apenas uma fria clareza. Heloísa seria a primeira a cair. Ela havia cavado a própria cova com suas mentiras e sua crueldade. E eu, Silvana, seria a pá que a enterraria. Eu não a odiava. Eu a via como um inseto irritante, um problema a ser eliminado. Sem emoção, apenas estratégia.
Eu me virei para ela, um pequeno sorriso pousando nos meus lábios. Não era um sorriso de felicidade, mas sim um de pura ironia, de um predador que brinca com sua presa. Ela não entendeu. Seus olhos ainda brilhavam com a alegria da vitória. Sua presunção era infinita.
"Heloísa, querida", eu disse, minha voz suave, mas com uma borda afiada. "Você está certa. Cauã nunca me amou 'daquele jeito'. E você sabe por quê? Porque ele não sabe amar de verdade. Ele só ama o que pode controlar, o que pode possuir. E eu nunca fui nenhuma das duas coisas."
"Mas você, Heloísa", eu continuei, mantendo meu sorriso inabalável. "Você é perfeita para ele. Vocês dois se merecem. Eu realmente espero que vocês sejam muito felizes juntos. De verdade." Minhas palavras foram um veneno adocicado, uma bênção que era, na verdade, uma maldição disfarçada. Eu estava lhes dando a vitória que eles tanto ansiavam, sem perceber que era o primeiro passo para a sua ruína.
O sorriso de Heloísa vacilou por um segundo. Uma sombra de confusão passou por seus olhos. Ela esperava raiva, lágrimas, talvez uma tentativa de me agarrar a Cauã. Mas não essa calma, essa aceitação. Minhas palavras a desorientaram. Ela não sabia como reagir a uma Silvana que não lutava mais por Cauã.
Mas ela se recompôs rapidamente, seu sorriso voltando com força total. "Ah, Silvana, você é tão fofa quando tenta fingir que não se importa. Mas eu sei a verdade. Você está morrendo de inveja de mim, não está? De ter o Cauã, de ter tudo o que você sempre quis." Sua voz era um riso vitorioso, e ela ergueu o colar novamente, como um troféu.
Ela se inclinou para mim, seus olhos brilhando de malícia. "Cauã me disse que ele nunca se arrependeu de ter te deixado. E que ele mal pode esperar para me fazer a esposa dos seus sonhos. Você é passado, Silvana. Eu sou o futuro. E eu tenho o anel para provar isso. Literalmente."