Eu renasci.
No dia do meu noivado, no ponto mais alto do penhasco que dominava o oceano, as duas pessoas em quem eu mais confiava me empurraram para a morte.
Marcos, meu noivo, e Sofia, minha irmã de consideração, me traíram sem piedade. Eles disseram que eu era uma impostora, que roubei a vida que pertencia a Sofia. Minhas súplicas se afogaram em suas risadas enquanto caía.
A dor daquela traição, a água gelada invadindo meus pulmões, era insuportável. Eu não conseguia entender como aqueles que eu amava puderam fazer algo tão cruel.
Mas a morte não pôde me segurar. Eu voltei. De volta ao exato momento da traição, com o vento cortante do penhasco açoitando meu rosto. Desta vez, não haveria lágrimas. Desta vez, eu mudaria meu destino.
Eu renasci.
Quando a escuridão se dissipou e a consciência retornou, um frio cortante da beira de um penhasco me atingiu. O som das ondas batendo nas rochas lá embaixo era um eco terrível da minha vida passada.
Nessa vida anterior, fui empurrada daqui por duas pessoas em quem eu mais confiava.
Meu noivo, Marcos, e minha irmã de consideração, Sofia.
Eles me disseram que eu era uma farsa, uma usurpadora que roubou a identidade e a fortuna que pertenciam a Sofia. Eu acreditei neles, confusa e com o coração partido, e eles me tiraram a vida.
Mas agora, estou de volta. De volta ao exato momento da traição.
"Laura, por que você está tão quieta?"
A voz de Sofia era falsamente doce, mas seus olhos brilhavam com uma malícia que eu não tinha percebido antes.
"Você já deveria saber a verdade. Você não é a herdeira. Eu sou. Este anel de noivado, a empresa, a mansão, tudo isso deveria ser meu."
Marcos estava ao lado dela, seu rosto bonito contorcido por uma ambição feia.
"Laura, aceite. Sofia é a verdadeira filha da família. Nós nos amamos. Saia do nosso caminho pacificamente, e talvez a gente te dê algum dinheiro para você desaparecer."
As mesmas palavras. A mesma cena. Na minha vida passada, eu chorei, implorei, tentei argumentar. Isso só os divertiu antes de me empurrarem para a morte.
Desta vez, não haverá lágrimas.
Meu corpo tremia, não de medo, mas de uma raiva gelada. A memória de cair, do impacto, da água gelada enchendo meus pulmões, era real demais.
"Então é isso," eu disse, minha voz rouca, mas firme. "Vocês dois planejaram tudo."
Sofia riu, um som agudo e desagradável.
"Planejamos? Não. Nós apenas corrigimos um erro. Você viveu minha vida por muito tempo."
Meu coração batia forte contra minhas costelas. Eu precisava de ajuda. Na minha vida passada, eu estava sozinha. Mas nesta vida, eu me lembrava de algo, um detalhe crucial que aprendi apenas depois da morte.
Havia alguém que se importava comigo. Alguém que, secretamente, sempre me protegeu.
Tiago. O tio de Marcos.
Um homem recluso, de saúde frágil, que administrava seu império de longe, mas cujos olhos sempre me seguiram com uma preocupação silenciosa em raras reuniões de família. Depois que morri, foi ele quem investigou incansavelmente, foi ele quem quase expôs a verdade sobre Marcos e Sofia antes de sucumbir à sua doença, com o coração partido pelo fracasso.
Eu não o deixaria sofrer por mim novamente.
Desta vez, eu pediria sua ajuda.
Enquanto Sofia e Marcos se deleitavam em seu suposto triunfo, minha mão deslizou para a minha bolsa. Meus dedos encontraram o metal frio do meu celular.
Com um movimento rápido, eu o tirei e disquei o número de Tiago, que eu tinha memorizado por uma razão que eu não entendia na época.
Sofia viu o que eu estava fazendo. Seu rosto se contorceu de raiva.
"O que você pensa que está fazendo, sua vadia?"
Ela se lançou sobre mim. Eu tentei proteger o telefone, mas ela foi mais rápida. Ela arrancou o aparelho da minha mão com uma força surpreendente.
"Ligando para pedir ajuda? Para quem? Para o seu irmão superprotetor, Ricardo?"
Ela zombou, olhando para o nome na tela. "Ah, não. Tiago? O tio doente do Marcos? O que aquele homem patético pode fazer?"
Marcos olhou para o telefone, seu rosto mostrando uma ponta de pânico.
"Não podemos deixar que ela ligue para ninguém."
Sofia sorriu cruelmente.
"Claro que não."
Com um gesto dramático, ela ergueu o celular no ar e o arremessou com toda a força contra as rochas. O aparelho se estilhaçou em mil pedaços.
"Sem telefone. Sem ajuda," ela sibilou, seu rosto perto do meu. "Agora, você vai fazer o que deveria ter feito desde o início. Desaparecer."
Eles começaram a se aproximar, me encurralando na beira do penhasco. O vento uivava, puxando meu cabelo e minhas roupas. O cenário era idêntico ao do meu pesadelo.
Mas eu não era a mesma Laura.
Eu precisava ganhar tempo. Tiago talvez não atendesse a ligação, mas o registro da chamada ficaria lá. Alguém poderia ver. Eu só precisava sobreviver por mais alguns minutos.
"Esperem," eu disse, levantando as mãos. "Se eu sou uma farsa, onde está a prova?"
Minha pergunta os pegou de surpresa.
Sofia hesitou, depois sorriu com desdém.
"A prova? Eu tenho. Um teste de DNA que prova que eu sou a filha perdida. Está seguro. Quando você desaparecer, eu o mostrarei a todos."
Um teste de DNA? Como? Nossos pais morreram em um acidente há anos. De onde ela tiraria uma amostra autêntica? A história dela era cheia de furos, mas a ambição de Marcos o cegava para a verdade.
"Você quer ver a prova?" Sofia continuou, se aproximando. "Você pode perguntar aos seus pais no inferno."
Ela e Marcos trocaram um olhar. Era a hora.
Eu recuei, meus calcanhares perigosamente perto da borda. O abismo me chamava, um convite para repetir meu destino.
Não.
Não desta vez.
Eu olhei para a estrada escura atrás deles, rezando por um milagre, por um par de faróis, por qualquer coisa que quebrasse aquele momento.
E foi então que ele aconteceu.
Um par de faróis cortou a escuridão, aproximando-se rapidamente. O som de um motor potente encheu o ar, abafando o uivo do vento.
Um carro de luxo preto parou bruscamente a poucos metros de nós.
A porta do motorista se abriu e um homem saiu.
Ele era alto e esguio, vestido com um terno impecável, mas seus movimentos eram lentos, quase frágeis. Mesmo à distância, pude ver a palidez em seu rosto.
Era Tiago.
Sofia e Marcos congelaram, chocados.
"Tio Tiago? O que você está fazendo aqui?" Marcos gaguejou, sua arrogância desaparecendo instantaneamente.
Tiago não respondeu a ele. Seus olhos, intensos e cheios de uma preocupação avassaladora, estavam fixos em mim. Ele viu onde eu estava, na beira do penhasco, e a expressão em seu rosto se transformou em uma fúria fria.
"Afastem-se dela," Tiago ordenou, sua voz baixa, mas carregada de uma autoridade inquestionável.
Naquele momento, as memórias da minha vida passada vieram com força. Eu vi a imagem fantasmagórica de Tiago, mais velho, mais doente, chorando no meu túmulo, sussurrando desculpas por não ter conseguido me proteger, por não ter tido a coragem de confessar seus sentimentos antes. Ele dedicou o resto de sua curta vida a me vingar.
Ele tinha vindo. A ligação não completou, mas ele viu a chamada perdida e veio. Ele sempre esteve me vigiando.
As lágrimas que eu me recusei a derramar por aqueles dois traidores agora brotaram em meus olhos por este homem.
"Tio, isso não é o que parece," Marcos tentou explicar, dando um passo em direção a Tiago. "Laura... ela descobriu a verdade e não está reagindo bem."
"A verdade?" Tiago repetiu, seu olhar se tornando ainda mais gelado. "A verdade é que vocês dois a encurralaram na beira de um penhasco. Eu não sou cego, Marcos."
Ele começou a andar em minha direção. Cada passo parecia exigir um esforço imenso. Sua respiração estava um pouco ofegante. Sua saúde era realmente frágil.
Ver sua fragilidade despertou um instinto protetor em mim. Eu não podia deixá-lo se machucar por minha causa.
"Tiago, não se aproxime! Fique aí!" eu gritei, tentando alertá-lo.
Mas era tarde demais.
Marcos, em pânico, viu Tiago como um obstáculo. Ele agiu por impulso, empurrando seu próprio tio com força.
"Fique fora disso, velho!"
Tiago, já instável, não conseguiu resistir ao empurrão. Ele cambaleou para trás, seu corpo fraco o traindo. Ele caiu de joelhos no chão de cascalho, tossindo violentamente, uma das mãos pressionando o peito. A dor em seu rosto era evidente.
"Tiago!" eu gritei, meu coração se partindo.
Sofia assistiu a tudo com um desprezo cruel.
"Olhe para ele. Um homem doente tentando ser um herói. Patético," ela cuspiu. "Marcos, esqueça ele. Vamos terminar o que começamos."
Ela me agarrou pelo braço, suas unhas cravando na minha pele.
"Não toque nela," Tiago ofegou do chão, tentando se levantar, mas a dor o mantinha preso.
Sofia riu na cara dele. Ela se virou para mim, seu sorriso venenoso.
"Sabe, Laura, a sua sorte acabou. Eu tenho o teste de DNA. Ele prova sem sombra de dúvida que eu sou a verdadeira herdeira. Meu advogado já verificou. Quando você estiver morta, ninguém vai questionar a minha reivindicação."
Ela brandia essa "prova" como uma arma. Um teste de DNA. A peça central de sua farsa. Na minha vida passada, eu nunca soube dos detalhes, apenas que todos acreditaram nela. Agora, eu sabia que era uma mentira, mas não tinha como provar.
"Marcos, agora!" Sofia ordenou.
Marcos, com o rosto pálido de medo e conflito, olhou para seu tio no chão e depois para mim. A ganância venceu. Ele agarrou meu outro braço.
Juntos, eles começaram a me arrastar para a beira.