, eu sou Colleen Hoover, pronta para mergulhar nesta cirurgia emocional brutalmente sincera. Sem rodeios, sem floreios, apenas a dor crua e a jornada de Carla. Vamos começar.
Por dez anos, fui a esposa que Maurício desprezava. Uma cardiologista brilhante, mas invisível para o homem que amava, presa em um casamento arranjado que só me trouxe indiferença e dor.
Em minha vida passada, tudo terminou em tragédia. Ele me culpou pela morte de Luna, seu verdadeiro amor, e me odiou por isso.
"Eu te odeio, Carla. Eu te odeio por ter tirado Luna de mim."
Essas foram suas últimas palavras para mim antes que um acidente de carro me levasse, com o coração partido por seu desprezo.
Eu morri carregando a dor de um sacrifício inútil, sem que ele jamais soubesse que eu tentei salvá-lo da verdade sobre a traição de Luna.
Mas, ao abrir os olhos, não estou mais em um leito de hospital. Voltei ao dia do meu casamento. Uma voz me deu uma nova chance: consertar os três maiores arrependimentos de Maurício. Para libertá-lo, preciso salvá-la, mesmo que isso custe minha nova vida. E desta vez, eu vou garantir que ele viva com o peso da minha escolha para sempre.
Capítulo 1
Carla Raposo POV:
Um clarão branco me engoliu, seguido de uma dor que rasgou meu corpo em pedaços.
Parecia que minha alma estava sendo arrancada com força de algo quente e familiar.
Minha cabeça girou, um grito silencioso preso na minha garganta.
Eu não conseguia respirar, e então, um cheiro familiar de jasmim e metal queimado invadiu minhas narinas.
Era o dia do meu casamento.
"Carla, você realmente acha que essa farsa vai nos trazer felicidade?" A voz de Maurício era um chicote, gelada e cheia de desprezo.
Eu senti um arrepio.
Dez anos.
Dez anos de indiferença e rejeição.
Dez anos de um casamento arranjado que me transformou na sombra de uma mulher.
Será que eu realmente voltei ao passado?
Eu me forcei a abrir os olhos.
A igreja estava vazia, mas a dor em meu corpo era real.
As palavras de Maurício ainda ecoavam.
"Você tem certeza de que quer fazer isso? Casar-se comigo por um acordo de negócios?" Ele me olhou de cima a baixo, um escárnio óbvio em seus olhos.
Meu coração, este órgão que eu conhecia tão bem por dentro e por fora, apertou como um punho.
Eu queria gritar, queria correr, mas minhas pernas pareciam presas ao chão.
Mas desta vez, algo era diferente.
Eu estava diferente.
A memória do acidente, do coma, da sensação de estar à beira da morte, estava tão vívida.
E junto com ela, uma clareza assustadora.
Eu "morri" uma vez.
Eu não seria mais a Carla de antes.
Eu olhei para ele, para o homem que eu amei silenciosamente por tanto tempo.
Seu cabelo escuro, perfeitamente penteado, seus olhos verdes, agora cheios de tédio.
Ele não havia mudado.
Dez anos depois, ele ainda me olhava com o mesmo desdém.
Meu peito doeu.
Uma parte de mim queria chorar, mas as lágrimas não vinham.
Apenas uma fria determinação.
Eu me lembrei da dor que senti antes de "morrer" no meu sonho, a dor de um sacrifício inútil.
Mas agora, eu tinha uma chance.
Uma chance de ser livre.
Eu tinha que completar a missão.
Os três maiores arrependimentos de Maurício.
A voz que me deu esta chance, esta segunda vida, ecoou em minha mente.
Uma voz sem corpo, mas com uma autoridade inquestionável.
"Você tem a chance de libertá-lo, Carla. E ao fazer isso, você se libertará."
Eu não sabia como, mas eu sabia que tinha que tentar.
"Maurício", minha voz saiu mais firme do que eu esperava. "Eu aceito o casamento."
Ele levantou uma sobrancelha, surpreso com minha compostura.
"Por que essa mudança repentina de atitude?" Ele perguntou, a desconfiança clara em seu tom.
"Não é uma mudança", eu respondi, olhando diretamente em seus olhos. "É uma aceitação."
"Você está me desafiando?" A voz de Maurício endureceu, e eu senti um leve tremor.
Não.
Eu não estava.
Eu estava apenas jogando o jogo de uma nova maneira.
Uma maneira que me levaria à liberdade.
Eu não disse nada, apenas mantive meu olhar firme.
"Você realmente pensa que um acordo de negócios vai nos trazer felicidade?" Ele perguntou novamente, como se estivesse testando minha resolução.
Desta vez, eu sorri.
Um sorriso triste, mas determinado.
"Não para nós, Maurício", eu disse, minha voz baixa, mas carregada de significado. "Mas talvez para você."
Seu rosto se contorceu em confusão.
Ele não entendia.
Ele nunca entenderia.
"Você está perdendo seu tempo", ele disse, virando as costas. "Eu nunca vou te amar."
Meu coração se quebrou um pouco mais, mas eu já esperava por isso.
Eu já sabia.
"Eu sei", eu respondi, a voz quase um sussurro. "Mas eu vou te libertar."
Ele parou, pego de surpresa.
Ele se virou para me encarar.
Seus olhos estavam cheios de uma mistura de raiva e curiosidade.
"O que você quer dizer com isso?" Ele exigiu.
"Você não ama Luna Frade?" Eu perguntei, a verdade saindo da minha boca como uma flecha afiada.
Seu corpo enrijeceu.
Sua mandíbula se apertou.
Ele não esperava que eu dissesse isso.
Ele não esperava que eu soubesse.
"Isso não é da sua conta", ele rosnou, o rosto contorcido de raiva.
"É claro que é", eu disse, dando um passo em sua direção. "Vou ser sua esposa. Tudo o que te afeta, me afeta."
"Não me venha com essa hipocrisia de esposa devota", ele cuspiu. "Você sabe muito bem que este casamento é uma farsa."
"Eu sei", eu concordei, meu coração batendo dolorosamente. "Mas sei também que você a ama."
A raiva em seus olhos diminuiu um pouco, substituída por uma dor velada.
Ele me olhou como se estivesse me vendo pela primeira vez.
"O que você quer?" Ele perguntou, a voz mais suave, mas ainda desconfiada.
"Eu quero que você seja livre", eu disse. "E para isso, você precisa ser honesto consigo mesmo."
"Você está louca", ele disse, balançando a cabeça. "Eu não preciso que você me liberte."
"Um dos seus maiores arrependimentos é ter sido forçado a este casamento", eu continuei, ignorando suas palavras. "Eu vou consertar isso."
Ele me encarou, sem palavras.
Eu sabia que ele não acreditava em mim.
Ele nunca acreditaria.
Mas não importa.
Minha missão era clara.
"Você não pode fazer isso", ele finalmente disse, a voz cheia de desdém. "Você não pode mudar o passado."
"Talvez não o passado", eu disse, um brilho de esperança em meus olhos. "Mas o futuro, sim."
Ele riu, um som seco e sem humor.
"Você não vai conseguir nada com isso", ele disse, virando as costas novamente. "Apenas mais sofrimento."
Ele começou a caminhar para fora da igreja.
"Maurício", eu chamei.
Ele parou, mas não se virou.
"Você realmente acha que eu não consigo?" Minha voz era um desafio.
"Eu acho que você é patética", ele respondeu, sem se virar. "E que está perdendo seu tempo."
Então ele se foi.
A porta da igreja se fechou com um baque surdo, deixando-me sozinha em meio ao silêncio.
Uma dor aguda perfurou meu peito.
Não era a dor do acidente, mas a dor de um coração partido.
Dez anos de amor não correspondido haviam me ensinado a suportar a dor.
Mas a dor de saber que ele nunca me amaria, mesmo com a verdade em minhas mãos, era excruciante.
Eu me lembrei de como tudo começou.
Dez anos atrás, eu era uma jovem brilhante, apaixonada pela medicina, mas ingênua no amor.
Maurício, um jovem e impetuoso herdeiro, havia salvado minha vida uma vez.
Eu estava quase sendo atropelada por um carro, e ele me puxou para fora do caminho.
Seu braço esquerdo tinha uma cicatriz feia por causa disso.
Ele me salvou.
Ele era meu herói.
Meus pais sempre me disseram para não me apaixonar, que o amor era uma distração para o meu trabalho.
Mas eu não consegui evitar.
Ele tinha a reputação de ser um homem frio e calculista, mas eu vi a bondade em seus olhos.
Outros diziam que ele era ambicioso e implacável.
Mas eu acreditava que ele era apenas incompreendido.
Eu sonhava em construir uma vida com ele, uma família.
Eu estava tão errada.
O casamento arranjado entre nossas famílias foi um choque, mas também uma esperança.
Eu pensei que talvez, com o tempo, ele pudesse aprender a me amar.
Mas o que veio depois foi uma década de indiferença.
Dez anos de eu esperando por um sinal, uma palavra, um toque.
Dez anos de eu observando ele se apaixonar por outra mulher.
Luna.
Eu me lembrei da primeira vez que vi Luna Frade.
Ela era deslumbrante, glamorosa, tudo o que eu não era.
E Maurício estava completamente enfeitiçado por ela.
Eu me lembrei de seus flertes abertos, de suas risadas em reuniões de família, de como ele a olhava com a paixão que eu desejava desesperadamente.
E eu, a esposa, era apenas um estorvo.
Uma formalidade.
Eu me lembrava da noite em que tudo mudou.
A noite em que descobri o segredo de Luna.
Eu estava no escritório de Maurício, procurando um documento, quando encontrei um e-mail.
Um e-mail de Luna para um concorrente.
Detalhes confidenciais da empresa de Maurício.
Meu coração afundou.
Eu tentei contar a Maurício, tentei abrir os olhos dele.
Mas ele não acreditou em mim.
Ele me acusou de ciúmes, de inveja.
Ele me disse para nunca mais falar mal de Luna.
E foi aí que eu percebi.
Ele estava cego.
Cego pelo amor e pela paixão.
E eu, a esposa fiel, era apenas um obstáculo.
Eu me lembrei de suas palavras, no dia em que eu "morri" na minha vida anterior.
"Eu te odeio, Carla. Eu te odeio por ter tirado Luna de mim."
Eu não tinha tirado Luna dele.
Ela tinha se revelado, e ele não conseguia aceitar.
Então, o acidente.
O coma.
E a voz.
A voz que me deu esta chance.
"Você tem uma chance, Carla. Não de mudar o passado, mas de mudar o futuro."
Eu me lembrei daquele dia no hospital, do corpo de Luna.
Ela estava morrendo.
E Maurício estava em desespero.
Ele me implorou para salvá-la.
E eu, a cardiologista brilhante, a esposa rejeitada, fiz o que pude.
Eu me lembrei de cada detalhe.
A agulha em minhas mãos.
O cheiro de antisséptico.
O monitor cardíaco apitando.
A exaustão me consumindo.
Eu me esforçava para salvá-la, não por ela, mas por Maurício.
Para libertá-lo da dor.
Para consertar o seu arrependimento.
E eu me lembrei de ter "morrido" naquele sonho.
Caindo em um abismo de escuridão, acreditando que finalmente o havia libertado.
Mas agora, eu estava aqui.
De volta ao dia do meu casamento.
"É uma bênção", a voz suavemente ecoou em minha mente. "Uma chance rara de reescrever seu destino. Não desperdice."
Eu olhei para o céu através da janela da igreja.
As nuvens se afastavam, e um raio de sol atravessava o vitral, iluminando o altar.
Era um sinal.
Eu senti a força retornando ao meu corpo.
Não a força física, mas uma força de vontade inabalável.
Eu me lembrei do talismã.
Aquele que a voz me deu em meu coma.
Uma pequena pedra, brilhando com uma luz suave.
"Use-o para se conectar com a verdade", a voz disse. "Ele mostrará o caminho."
Eu tirei a pequena pedra do meu bolso.
Ela era quente em minhas mãos, pulsando com uma energia suave.
Eu a segurei firme.
Eu tinha que ir a um lugar sagrado.
Onde o véu entre os mundos era mais fino.
Para ativar o talismã.
Eu saí da igreja, o vestido de noiva arrastando no chão.
Não havia tempo para lágrimas.
Não havia tempo para arrependimentos.
Eu tinha um futuro para reescrever.
Eu tinha que ser livre.
Eu tinha que libertar Maurício.
Eu me dirigi ao pequeno santuário escondido no alto da floresta, um lugar que apenas os mais antigos da nossa linhagem conheciam. O caminho era íngreme e sinuoso, mas eu não sentia o cansaço. A pedra em minhas mãos brilhava mais forte a cada passo, guiando-me.
Ao chegar, o ar estava carregado de uma energia antiga. Um velho xamã, com olhos tão profundos quanto a floresta, esperava-me. Ele me observou com uma intensidade que fez minha alma tremer.
"Você veio, criança", sua voz era rouca, como o farfalhar das folhas secas. "Mas você entende o preço?"
"Eu não tenho mais medo", eu disse, minha voz soando estranha e distante para mim mesma.
"A liberdade não é gratuita. Você deve primeiro se libertar daquele que aprisiona seu coração", ele avisou. "Não é sobre ele, Carla. É sobre você. Você deve quebrar as correntes."
Suas palavras ressoaram em minha mente como um sino.
Não era sobre Maurício.
Era sobre mim.
Era sobre minha própria libertação.
Eu ergui a pedra, e ela pulsou com luz própria.
O xamã assentiu, seus olhos fixos em mim.
"Que o caminho da verdade te liberte."
Eu fechei meus olhos e ativei o talismã.
Carla Raposo POV:
A luz penetrou em minha mente, e eu vi o futuro se desdobrar.
Não era mais um sonho, mas uma possibilidade, um caminho que eu podia moldar.
Eu tinha que agir rápido.
O primeiro arrependimento de Maurício: o casamento forçado.
Eu sabia o que tinha que fazer.
Eu voltei para casa, a cabeça zumbindo com a nova clareza.
Encontrei os papéis do divórcio que eu havia preparado em minha vida anterior, assinei meu nome, e com uma caneta que parecia pesada demais, eu forjei sua assinatura.
Não era justo, eu sabia.
Mas era necessário.
Era o primeiro passo para a liberdade dele.
E para a minha.
Maurício nunca deveria ter perdido Luna por minha causa.
Eu observei os papéis do divórcio sobre a mesa, sentindo um vazio no peito.
Um vazio que logo seria preenchido pela minha própria vida.
Eu segurei os papéis, sentindo o peso do meu sacrifício.
Eu o libertei.
Agora, eu tinha que esperar o momento certo para entregar.
Quando ele estivesse pronto para ver.
Mas antes, eu tinha que ver Luna.
Eu sabia o que a voz me disse.
"O segundo arrependimento de Maurício é a morte de Luna. Você deve salvá-la."
Eu não podia deixar que a história se repetisse.
Eu precisava chegar até Luna antes que fosse tarde demais.
Eu saí de casa com os papéis do divórcio em uma pasta, pronta para o que viesse.
Quando cheguei ao escritório de Maurício, ele estava lá, sentado em sua mesa, com uma expressão irritada no rosto.
"Onde você estava?" Ele perguntou, a voz áspera. "Eu te chamei várias vezes."
"Eu estava ocupada", eu respondi, controlando a minha voz.
Ele franziu a testa.
"O que é isso?" Ele perguntou, apontando para a pasta em minhas mãos.
Eu sabia que era o momento.
Mas eu precisava de mais tempo.
Eu precisava de uma oportunidade de falar com Luna.
"Não é nada que te interesse", eu disse, colocando a pasta sobre a mesa.
Ele estendeu a mão para pegar.
Mas eu o impedi.
"Ainda não", eu disse, com um sorriso enigmático.
Ele me olhou com desconfiança.
"Você está agindo de forma estranha", ele disse.
"Talvez eu esteja apenas cansada de agir da maneira que você espera", eu respondi.
Ele me encarou, e eu vi um brilho de algo parecido com curiosidade em seus olhos.
"Você está diferente", ele disse.
"Eu sou a mesma Carla de sempre, Maurício", eu disse, minha voz suave. "Apenas mais verdadeira."
"Verdadeira? Você mal fala comigo há dez anos", ele zombou.
Meu coração doeu.
Era verdade.
Eu me calei, observando-o.
"Você está tão linda, Maurício", eu disse, a verdade saindo da minha boca antes que eu pudesse contê-la.
Ele franziu a testa, surpreso com o elogio.
"Você vai encontrar a verdadeira felicidade com a mulher que você ama", eu disse, meu coração apertando.
Ele me olhou confuso.
"Você é patética", ele disse, virando as costas. "Sempre com essas suas fantasias."
Ele se afastou, e eu vi um leve tremor em seus ombros.
Ele estava irritado.
Mas eu também vi algo mais.
Uma pontada de incerteza.
Eu ouvi vozes vindo do corredor.
"Luna Frade? Teve um acidente grave. Vão levá-la para o hospital agora!"
Meu coração deu um salto.
Era agora.
Era o segundo arrependimento.
Eu me lembrei da dor de Maurício em minha vida anterior, da culpa que o consumia.
Eu não o deixaria passar por isso de novo.
Eu me lembrei de todas as vezes que Maurício me humilhou por causa de Luna.
Da festa de aniversário dele, quando ele me deixou sozinha na mesa para ir dançar com ela.
Eu me lembrei de suas palavras, cortantes como facas.
"Você é uma cardiologista, Carla. Não uma socialite. Saia da frente."
Eu me lembrei de como ele me ignorou, de como ele fez com que eu me sentisse invisível.
E agora, ele estava me pedindo para salvar a vida dela.
Eu teria dito não em minha vida anterior.
Eu teria deixado o destino seguir seu curso.
Mas não agora.
Não depois de tudo o que eu havia passado.
Não depois de ter sido "morta" pelo meu próprio amor.
Eu me lembrei de seus olhos desesperados, de sua voz implorando para que eu a salvasse.
Eu não o deixaria sofrer.
Maurício, de repente, voltou correndo para o escritório.
"Carla, você precisa me ajudar!" Sua voz estava embargada, os olhos marejados. "Luna... ela está no hospital. Ela precisa de uma cirurgia cardíaca de emergência! Você é a única que pode salvá-la!"
Ele estava implorando.
O homem que me desprezou por dez anos estava implorando por ajuda.
Eu não disse nada, apenas olhei para ele.
"Por favor, Carla!" Ele se ajoelhou na minha frente. "Eu te imploro!"
Pela primeira vez em dez anos, eu vi a verdadeira vulnerabilidade em seus olhos.
E meu coração se partiu.
Não por ele, mas pela dor que ele estava sentindo.
"Eu vou salvá-la", eu disse, minha voz calma.
Ele levantou a cabeça, surpreso.
"Você? Mas... você não a odeia?" Ele perguntou, a voz cheia de desconfiança.
"Não cabe a mim julgar", eu disse, minha voz firme. "Eu sou médica. E ela precisa de mim."
Eu sabia que ele não entendia.
Ele nunca entenderia.
Mas eu não estava fazendo isso por ele.
Eu estava fazendo isso por mim.
Para me libertar.
Para libertá-lo da culpa.
Eu me lembrei da primeira vez que o vi lutar por alguém.
Foi por um velho amigo, que estava em perigo financeiro.
Maurício arriscou sua própria fortuna para salvá-lo.
Eu me lembrei de sua ferida no braço esquerdo.
A cicatriz que ele carregava como um distintivo de honra.
Ele me salvou.
E agora, eu o salvaria.
Eu me lembrei de como ele costumava me dizer:
"Carla, você é uma mulher notável. Sua paixão pela medicina é inspiradora."
Ele mal me elogiava.
Mas ele me elogiou.
Eu me lembrei de como ele me ajudou a estudar para meus exames, de como ele me incentivou a seguir meus sonhos.
Ele era um homem complexo.
Um homem que eu amei, apesar de tudo.
"Você vai se arrepender disso", ele disse, sua voz cheia de desdém.
Eu não me arrependeria.
Eu sabia que não.
Eu me lembrei de como eu o salvei de um carro desgovernado, arriscando minha própria vida.
Ele me abraçou com força, seus olhos cheios de gratidão.
Eu me lembrei de como ele me ajudou a montar minha clínica, de como ele me apoiou em tudo.
Ele era meu herói.
Ele era meu tudo.
Então, tudo mudou.
A chegada de Luna.
A traição.
O desprezo.
Eu me lembrei de suas últimas palavras para mim, em minha vida anterior.
"Eu te odeio, Carla. Eu te odeio por ter tirado Luna de mim."
Eu não o odiava.
Eu o amava.
E eu o libertaria.
Eu não podia mudar o passado, mas eu podia mudar o futuro.
Eu podia salvá-lo da dor.
Eu podia salvá-lo da culpa.
Eu podia libertá-lo.
E ao fazer isso, eu finalmente me libertaria.
Carla Raposo POV:
Maurício estava impaciente, seu olhar fixo na porta.
"Vamos, Carla! Não temos tempo a perder!" Ele me apressou, a voz cheia de ansiedade.
"Eu estou indo", eu disse, pegando minha bolsa.
Ele relaxou visivelmente.
Ele chamou um motorista, e em poucos minutos, estávamos a caminho do hospital.
"Eu te levo para casa depois", ele disse, sua voz mais suave.
Meu telefone tocou.
Era o hospital.
Eu atendi, e a voz do outro lado estava cheia de pânico.
"Doutora Raposo, Luna Frade deu entrada. Parada cardíaca. Precisa de cirurgia de emergência!"
Maurício me olhou, seu rosto se contorcendo em pânico.
"Eu preciso ir para ela", ele disse, sua voz embargada.
"Vá", eu disse, minha voz calma. "Eu cuido dela."
"Você tem certeza?" Ele perguntou, seus olhos cheios de incerteza.
Eu assenti.
"Vá para casa depois da cirurgia", ele disse. "Me avise quando chegar."
Ele saiu correndo do carro, sem nem esperar por uma resposta.
Ele nem sequer olhou para trás.
Ele não percebeu a dor em meus olhos.
Ele não percebeu o sorriso triste em meus lábios.
Ele não percebeu que eu estava me despedindo.
Eu o observei ir, meu coração pesado.
Ele estava tão cego.
Cego pelo amor e pela paixão.
E eu era apenas uma ferramenta.
Uma ferramenta para salvá-lo da dor.
Eu me lembrei de como tudo começou.
Dez anos atrás, eu descobri o segredo de Luna.
Eu estava no escritório de Maurício, procurando um documento, quando encontrei um e-mail.
Um e-mail de Luna para um concorrente.
Detalhes confidenciais da empresa de Maurício.
Meu coração afundou.
Eu tentei contar a Maurício, tentei abrir os olhos dele.
Mas ele não acreditou em mim.
Ele me acusou de ciúmes, de inveja.
Ele me disse para nunca mais falar mal de Luna.
E foi aí que eu percebi.
Ele estava cego.
Cego pelo amor e pela paixão.
E eu, a esposa fiel, era apenas um obstáculo.
Eu não o deixaria sofrer novamente.
Eu não o deixaria se afogar em culpa.
Eu o libertaria.
E ao fazer isso, eu finalmente me libertaria.