A dor aguda no meu peito, a sensação de ser esfaqueada pelas costas por aqueles que eu mais amava, tudo isso desapareceu.
Voltei aos meus vinte e poucos anos, na casa que eu ainda dividia com Pedro, meu marido.
A porta do quarto se abriu e Pedro entrou, com o sorriso charmoso que, na vida passada, se tornaria a máscara de um traidor.
"Lúcia, querida, tenho uma ótima notícia."
Ele me disse que Sofia, sua "amiga de infância" , viria morar conosco.
Ah, Sofia. A "amiga de infância" que se tornou sua amante e, junto com ele, me enganou por décadas.
O filho que eu criei com todo o meu amor era, na verdade, deles.
Eles me fizeram de boba, uma babá gratuita e uma esposa conveniente.
Fui traída, humilhada, e passei décadas sofrendo em silêncio, aguentando olhares de pena e a arrogância deles.
Morri com a agonia de saber que o menino que eu amava como filho era um lembrete constante da mentira em que eu vivia.
Desta vez, as coisas seriam diferentes. Eu renasci para mudar meu destino.
Não haveria amor. Haveria apenas um jogo. E eu seria a jogadora, não a peça.
Eu renasci.
A dor aguda no meu peito, a sensação de ser esfaqueada pelas costas por aqueles que eu mais amava, tudo isso desapareceu, substituído pela luz suave do abajur ao lado da cama. Eu olhei para minhas mãos, elas não eram as mãos enrugadas de uma mulher de cinquenta anos, mas sim lisas e jovens.
Eu estava de volta. De volta aos meus vinte e poucos anos, na casa que eu ainda dividia com Pedro, meu marido.
A porta do quarto se abriu e Pedro entrou, com um sorriso no rosto que, em minha vida passada, eu achava charmoso, mas que agora só me causava náuseas.
"Lúcia, querida, tenho uma ótima notícia."
Eu me sentei na cama, mantendo meu rosto neutro, esperando.
"Lembra da Sofia, minha amiga de infância? A situação dela não está muito boa, ela precisa de um lugar para ficar por um tempo. Pensei que ela poderia vir morar conosco."
Ah, Sofia. A amiga de infância. Na minha vida passada, essa "amiga de infância" se tornou a amante dele, e juntos, eles me enganaram por décadas. O filho que eu criei com todo o meu amor, que eu considerei meu, era na verdade deles. Eles me fizeram de boba, uma babá gratuita e uma esposa conveniente.
Desta vez, as coisas seriam diferentes.
Um sorriso leve surgiu em meus lábios, um sorriso que pegou Pedro de surpresa.
"Claro, querido. Sem problemas."
Ele piscou, confuso.
"Sério? Você não vai... reclamar?"
Na vida passada, eu fiz um escândalo. Gritei que era nossa casa, que não queria uma estranha morando conosco. Minha reação só o fez me chamar de ciumenta e irracional, e ele a trouxe para casa de qualquer maneira. Minha oposição só serviu para fortalecer a imagem de Sofia como uma vítima indefesa aos olhos dele.
"Por que eu reclamaria?" , eu disse, com a voz calma. "Ela é sua amiga, está passando por dificuldades. É natural que você queira ajudar. Podemos arrumar o quarto de hóspedes para ela."
Pedro me olhou como se estivesse vendo um fantasma. Um alívio imenso tomou conta de seu rosto, seguido por um brilho de presunção. Ele obviamente pensou que eu finalmente tinha me tornado a esposa submissa e compreensiva que ele sempre quis.
"Que bom, Lúcia! Eu sabia que você entenderia. Você é a melhor esposa do mundo."
Ele se aproximou para me abraçar, mas eu me levantei da cama, evitando seu toque.
"Vou ver o que precisa ser feito no quarto de hóspedes."
Enquanto eu caminhava para fora do quarto, a memória da minha vida passada me atingiu como uma onda. A dor da traição, a humilhação de descobrir que meu casamento era uma farsa, a agonia de saber que o menino que eu amava como filho era um lembrete constante da mentira em que eu vivia. Eu passei décadas sofrendo em silêncio, aguentando os olhares de pena dos outros, a arrogância de Sofia e a indiferença de Pedro.
Tudo por amor. Um amor que nunca existiu.
Desta vez, não haveria amor. Haveria apenas um jogo. E eu seria a jogadora, não a peça.
Cheguei ao quarto de hóspedes. Estava empoeirado, cheio de caixas velhas. Na minha vida passada, eu me recusei a limpá-lo, e Pedro me forçou a fazê-lo de qualquer maneira, enquanto Sofia assistia com um sorriso vitorioso.
Agora, eu abri as janelas, peguei um pano e comecei a limpar. Cada movimento era metódico, calculado. Eu não estava limpando o quarto para Sofia, eu estava preparando o palco.
Pedro apareceu na porta, observando-me por um momento.
"Ela chega amanhã. Tente deixar tudo pronto até lá."
A casualidade em sua voz era a mesma de sempre, a mesma indiferença com meu esforço e meu tempo. Ele não ofereceu ajuda, apenas deu uma ordem.
Eu me virei e sorri para ele.
"Pode deixar, querido."
Ele sorriu de volta, satisfeito, e saiu.
Sozinha no quarto, eu parei por um momento e olhei para o calendário na parede. A data confirmou minhas suspeitas. Eu havia renascido exatamente um dia antes da chegada de Sofia. O dia em que a minha longa e lenta tortura começou na vida passada.
Desta vez, não seria uma tortura. Seria um espetáculo. E eu queria um lugar na primeira fila para ver se Pedro e sua "amiga de infância" conseguiriam ter um final feliz sem mim como seu obstáculo e bode expiatório.
Eu queria dar a eles tudo o que eles achavam que queriam. E eu ia assistir enquanto eles se destruíam com isso.
No dia seguinte, Sofia chegou.
Ela era exatamente como eu me lembrava: bonita de um jeito delicado, quase frágil, com olhos grandes e expressivos que ela usava com maestria para parecer inocente e vulnerável. Ela usava um vestido simples, mas caro, e carregava uma única mala de grife.
Pedro a recebeu na porta com um abraço caloroso que durou um pouco mais do que o necessário para uma simples "amiga" .
Eu os observei da sala de estar, secando uma xícara de café.
Sofia me viu e seu sorriso vacilou por um segundo antes de se alargar novamente. Ela se virou para Pedro.
"Pedro, você não me disse que tinha contratado uma empregada nova."
A voz dela era doce como mel, mas a ofensa era clara.
Na minha vida passada, essas palavras me encheram de raiva e humilhação. Eu gritei com ela, disse que eu era a esposa, a dona da casa. A briga que se seguiu só fez Pedro me repreender por ser rude com a convidada deles.
Desta vez, eu apenas sorri.
Antes que eu pudesse responder, Pedro, para minha surpresa, pareceu levemente constrangido.
"Sofia, esta é a Ana Lúcia. Minha esposa."
Sofia arregalou os olhos em uma demonstração teatral de choque e vergonha.
"Oh, meu Deus! Me desculpe! Ana Lúcia, por favor, me perdoe. É que você... você estava limpando... eu não quis ofender."
Ela se aproximou de mim, com os olhos já se enchendo de lágrimas. Era uma performance perfeita. A mulher arrependida, a convidada humilde. Eu sabia que cada lágrima era uma mentira. Ela sabia exatamente quem eu era. O insulto foi deliberado, um teste para ver como eu reagiria, para estabelecer seu lugar na casa.
"Tudo bem" , eu disse, com uma calma que a desarmou. "Acontece. Pode me chamar de Lúcia, se preferir."
Ela me olhou, surpresa com a minha falta de reação. As lágrimas em seus olhos secaram tão rápido quanto apareceram.
"Você é tão gentil" , disse ela, forçando um sorriso. "Pedro sempre me disse que você era uma pessoa maravilhosa."
Pedro, que tinha assistido a tudo com uma expressão tensa, finalmente relaxou. Ele se aproximou e colocou a mão no meu ombro.
"Viu? Eu disse que vocês se dariam bem. Lúcia, obrigado por ser tão compreensiva."
Havia uma nota de surpresa genuína em sua voz. Ele realmente esperava uma briga. Ele contava com isso. Minha calma estava estragando o roteiro dele.
"Eu vou para o meu quarto desfazer as malas" , disse Sofia, pegando sua mala.
"Deixa que eu levo para você" , disse Pedro, prontamente.
"Não precisa se incomodar" , eu disse, pegando a alça da mala antes que ele pudesse. "Eu mostro o quarto para ela. Você deve estar cansado do trabalho, querido. Por que não descansa um pouco?"
Eu me virei para Sofia com um sorriso.
"Venha, é por aqui."
Levei-a até o quarto de hóspedes impecavelmente limpo. Ela olhou ao redor, uma ponta de decepção em seu rosto. Provavelmente esperava encontrar um cômodo sujo e bagunçado para poder reclamar com Pedro.
"Espero que goste" , eu disse. "Se precisar de alguma coisa, é só pedir."
"Obrigada, Lúcia" , disse ela, o nome saindo de seus lábios com um esforço visível.
Eu a deixei sozinha e voltei para a sala. Pedro estava sentado no sofá, parecendo pensativo.
"Você está bem?" , ele perguntou.
"Estou ótima. Por que não estaria?"
"É que... você está diferente. Mais calma."
"Estou apenas cansada de brigar por coisas pequenas, Pedro. A vida é muito curta."
Essa resposta pareceu satisfazê-lo. Ele sorriu, aliviado.
"Sofia vai precisar de ajuda com a janta" , ele disse, já voltando ao seu estado normal de egoísmo. "Ela não está acostumada a cozinhar."
"Ah, é mesmo?" , eu disse, pegando minha bolsa. "Que pena. Eu tenho um compromisso agora, preciso sair. O jantar fica por sua conta hoje. Tenho certeza de que você e a Sofia conseguem se virar."
Eu saí de casa antes que ele pudesse protestar, deixando-o sozinho com sua "amiga de infância" e a responsabilidade de alimentá-la. Um pequeno passo, mas foi a primeira vez em anos que eu o deixei com uma tarefa doméstica.
Na rua, respirei fundo o ar fresco da noite. A liberdade tinha um gosto bom. E eu estava apenas começando a saboreá-la.