Minha cabeça latejava, um martelo batendo em meu crânio, enquanto a luz do sol invadia o quarto de hotel desconhecido.
Lá estava ele, Ricardo, impecável em seu terno caro, me olhando com desprezo, como se eu fosse um objeto indesejável. Sua voz, fria como mármore, sentenciou: "Não se faça de desentendida, Maria Eduarda. Você conseguiu o que queria."
Ele zombou, acusando-me de persegui-lo e armar para um casamento forçado. A humilhação queimou em meu rosto, mas não por ele, e sim pela minha burrice de ter cedido.
Ele propôs casamento como uma punição, afirmando que eu era a culpada. Isabela, o nome na tela de seu celular, virou seu rosto de frieza para a mais pura doçura, me ignorando por completo.
A antiga Maria Eduarda teria chorado de alegria, agarrando-se a qualquer migalha. Mas eu, renascida, senti apenas nojo. "Não" , eu disse, a voz firme e clara. "Eu não vou me casar com você."
A dor de cabeça latejava com força, um martelo batendo dentro do meu crânio.
Abri os olhos lentamente e a luz do sol que entrava pela fresta da cortina grossa feriu minha visão. O quarto era desconhecido, luxuoso demais, com móveis escuros e um cheiro de sândalo e dinheiro.
Então, eu o vi.
Ricardo estava parado ao lado da cama, já vestido em um terno caro, perfeitamente alinhado. Ele me olhava de cima, a expressão em seu rosto era uma mistura de desprezo e irritação.
"Finalmente acordou" , ele disse, a voz fria como o mármore do chão.
Sentei-me na cama, puxando o lençol de seda para cobrir meu corpo. A memória da noite passada era um borrão de música alta, champanhe e uma dor antiga que me levou a cometer um erro estúpido. Um erro que eu tinha jurado a mim mesma, nesta nova vida, que nunca mais cometeria.
"O que aconteceu?" , perguntei, minha voz saindo rouca.
Ele soltou uma risada curta, sem humor algum.
"Não se faça de desentendida, Maria Eduarda. Você conseguiu o que queria."
Franzi a testa, a confusão genuína. Na minha vida passada, eu teria ficado em êxtase, analisando cada palavra dele em busca de um pingo de afeto. Mas agora, eu só sentia um cansaço profundo.
"Eu não queria nada" , afirmei, olhando diretamente para ele.
"Claro que não" , ele zombou. "Você me seguiu até aquela festa, se embebedou e se jogou nos meus braços. Um plano bem executado."
Ele se inclinou, sua presença era esmagadora.
"Já que a situação chegou a este ponto, e para evitar um escândalo que não beneficiaria nenhuma de nossas famílias, eu vou me casar com você. Considere isso uma conveniência. Mas não espere nada de mim. Você é a culpada por isso."
Eu o encarei, atônita. Casamento? Ele estava me propondo casamento como se estivesse me sentenciando a uma punição. A antiga Maria Eduarda teria chorado de alegria, teria aceitado a migalha que ele oferecia.
Mas eu não era mais ela.
"Não" , eu disse, a palavra saindo firme e clara.
Ele pareceu surpreso pela primeira vez.
"O que você disse?"
"Eu disse não. Eu não vou me casar com você."
Ele me olhou como se eu tivesse enlouquecido. Ele não conseguia entender. Para ele, eu ainda era a garota boba e obcecada que o perseguia por toda parte.
"Pare de fingir, Maria Eduarda. Você passou anos sonhando com isso."
"As pessoas mudam, Ricardo."
Ele ignorou minha negação completamente. Sua mão agarrou meu ombro e ele puxou o lençol para baixo, expondo minha pele. Havia marcas vermelhas no meu pescoço e clavícula, provas físicas da noite anterior.
"Isso aqui diz o contrário" , ele disse, a voz dura, apontando para as marcas. "Você planejou isso. Você me encurralou."
A humilhação queimou em meu rosto, mas não pelas razões que ele pensava. Era pela minha estupidez de ter cedido a um momento de fraqueza, de ter permitido que ele me tocasse.
"Isso não significa nada" , falei, tentando me cobrir novamente.
Ele segurou meu pulso, sua força era inquestionável.
"Significa tudo. Significa que você vai arcar com as consequências dos seus atos."
A arrogância dele era sufocante. Ele realmente acreditava que eu ainda estava a seus pés, que um casamento sem amor com ele era o prêmio máximo que eu poderia desejar. Ele não via a mulher renascida na sua frente, apenas o fantasma da que ele sempre desprezou.
"Você não enten..."
Minha tentativa de explicar foi cortada pelo som agudo de um celular tocando. O dele.
Ricardo me soltou imediatamente, como se meu toque o queimasse. Ele pegou o aparelho na mesa de cabeceira. O nome na tela brilhava: "Isabela" .
A expressão dele mudou no mesmo instante. A dureza em seus olhos derreteu, sendo substituída por uma suavidade que eu nunca tinha visto direcionada a mim. Ele atendeu a chamada, a voz era outra.
"Bom dia, meu amor. Dormiu bem?"
Uma pausa. Ele ouvia o que a mulher do outro lado da linha dizia, e um pequeno sorriso se formou em seus lábios.
"Claro que senti sua falta. O tempo todo."
Ele se virou de costas para mim, andando pelo quarto enquanto falava com ela, me tratando como se eu fosse invisível, um objeto sem importância no cenário. A indiferença dele era mais dolorosa do que qualquer insulto.
Eu aproveitei a distração para levantar e procurar minhas roupas, espalhadas pelo chão. Vesti-me rapidamente, o corpo tremendo um pouco, não de frio, mas de uma raiva gelada. Ele continuava a conversa, a voz cheia de um carinho que me era completamente estranho.
"Não se preocupe com nada. Vou resolver um pequeno problema aqui e já estou a caminho para te buscar. Sim, vamos tomar café da manhã no nosso lugar preferido."
Ele desligou e se virou para mim. O calor em seu rosto desapareceu, a máscara de frieza voltou.
"Vista-se e saia" , ele ordenou, o tom ríspido. "Tenho mais o que fazer."
Eu já estava vestida. Faltava apenas encontrar minha bolsa e meus sapatos.
"Não se preocupe" , respondi, a voz neutra. "Já estou de saída."
Ele me observou por um segundo, talvez esperando lágrimas, um escândalo, qualquer reação que confirmasse sua visão sobre mim. Mas eu apenas o encarei com indiferença.
Ele se abaixou, pegou minha bolsa do chão e a jogou sobre a cama. Um pequeno grampo de cabelo caiu dela. Ele o pegou com dois dedos, como se pegasse algo sujo, e o jogou junto com a bolsa.
"Leve tudo. Não quero vestígios seus aqui."
Enquanto seus lábios pronunciavam essas palavras cruéis, minha mente ainda processava a ternura em sua voz quando falava com Isabela. Aquele contraste era a confirmação final. O amor que eu senti por ele na minha vida passada era uma piada, uma obsessão unilateral por um homem que nunca me enxergou.
Meu celular vibrou dentro da bolsa. Eu o peguei. Era uma mensagem da minha mãe.
"Filha, fiz seu bolo de cenoura preferido. Estamos te esperando para o café. Com amor, mamãe."
Aquele simples texto foi como um farol na escuridão. Um lembrete de onde estava o amor verdadeiro, o porto seguro.
Olhei para Ricardo uma última vez. Ele já estava me dando as costas novamente, ajustando a gravata no espelho, impaciente para que eu fosse embora e ele pudesse correr para sua verdadeira amada.
Não disse mais nada. Peguei minha bolsa, segurei meus sapatos de salto alto na mão e saí do quarto. Caminhei descalça pelo corredor imenso, o mármore gelado sob meus pés era um choque bem-vindo, me ajudando a despertar completamente deste pesadelo.
Ao fechar a porta daquele apartamento atrás de mim, eu não senti tristeza.
Senti liberdade.
E uma sede de vingança começou a brotar em meu peito. Ele pagaria pelo desprezo. Ele pagaria por tudo.
Cheguei em casa e o cheiro de café fresco e bolo de cenoura encheu o ar. Minha mãe veio correndo me abraçar assim que entrei.
"Minha filha! Onde você estava? Fiquei tão preocupada!"
"Eu estou bem, mãe. Só precisei de um tempo" , menti, retribuindo o abraço com força.
Meu pai apareceu na sala, o jornal na mão e um sorriso aliviado no rosto.
"Duda! Que bom que chegou. Temos uma surpresa para você."
Ele me entregou uma caixa de presente pequena e elegante. Abri com curiosidade. Dentro, havia um par de ingressos para a ópera. Não qualquer ópera, mas a favorita de Ricardo. Na minha vida passada, eu vivia comentando como queria ir com ele.
Meus pais me olhavam com expectativa, cúmplices da minha antiga obsessão. Eles sempre me apoiaram, mesmo quando minha felicidade dependia inteiramente de um homem que mal me notava. Um nó se formou na minha garganta.
"É... lindo, pai. Obrigada."
"Sabemos o quanto você queria ir. Talvez seja uma boa oportunidade para convidar o Ricardo" , minha mãe sugeriu, com um brilho de esperança nos olhos.
Respirei fundo. Era a hora.
"Mãe, pai... eu não vou convidar o Ricardo."
Eles se entreolharam, confusos.
"Eu não quero mais nada com ele. Acabou."
O queixo da minha mãe caiu. Meu pai franziu a testa.
"Como assim, acabou?" , ele perguntou. "Vocês nem começaram direito. Pensei que você o amasse."
"Eu também pensava" , respondi, sentindo um peso sair dos meus ombros. "Mas eu estava errada. Eu não o amo mais. E não quero mais que o nome dele seja mencionado nesta casa."
O choque no rosto deles era palpável. Por anos, toda a minha vida girou em torno de Ricardo. Minhas conversas, meus planos, minhas tristezas. Vê-los assim, tão perdidos com a minha mudança repentina, me fez perceber o quão profundo era o buraco em que eu me encontrava.
"Mas, filha... o que aconteceu?" , minha mãe perguntou, a voz cheia de preocupação.
Antes que eu pudesse responder, meu celular tocou. Olhei para a tela. Era ele. Ricardo.
Pedi licença aos meus pais e atendi no jardim.
"O que você quer?" , perguntei, sem rodeios.
"Só ligando para ser responsável" , disse a voz arrogante dele. "Já agendei uma consulta para você na clínica de um colega. Para a pílula do dia seguinte. A secretária dele vai te ligar com os detalhes. Não se atrase."
Ele falava como se estivesse organizando a limpeza de um carpete. Frio, prático, impessoal.
"Tudo bem" , respondi com calma.
Houve uma pausa do outro lado. Ele provavelmente esperava que eu protestasse, que dissesse que nosso filho seria uma bênção.
"É só isso?" , perguntei, querendo desligar.
"Não. Você esqueceu uma coisa aqui. Um diário, ou algo assim. Rosa, com um cadeado."
Meu antigo diário. Onde eu derramei todas as minhas fantasias e sofrimentos por ele. Um monumento à minha antiga estupidez.
"Pode jogar no lixo" , eu disse.
"O quê? Tem certeza? Parece importante para você."
"Não é mais. Jogue fora."
E, sem esperar por uma resposta, desliguei o telefone. Senti como se tivesse cortado a última âncora que me prendia ao passado.
Algumas semanas depois, eu estava em um evento de caridade com meus pais. Era um leilão para um hospital infantil. Eu estava conversando com um antigo amigo da família quando o vi entrar.
Ricardo.
E ele não estava sozinho. Estava com um grupo de amigos, todos com a mesma aura de arrogância e privilégio. Nossos olhares se cruzaram por um instante. Vi a irritação tomar conta do rosto dele.
Ele se desculpou com os amigos e veio direto na minha direção.
"O que você está fazendo aqui?" , ele sibilou, parando na minha frente.
"O mesmo que você, eu imagino. Apoiando uma causa."
"Não minta para mim, Maria Eduarda. Você me seguiu. Você descobriu que eu viria e veio atrás."
A acusação era tão absurda que eu quase ri.
"O mundo não gira ao seu redor, Ricardo. Meus pais são patronos deste evento há anos."
Ele parecia não acreditar em uma palavra. Antes que pudesse continuar seu interrogatório, um de seus amigos, um playboy chamado Felipe, se aproximou.
"Ricardo, quem é sua amiga?" , ele perguntou, me olhando de cima a baixo com um sorriso nojento.
"Ninguém importante" , Ricardo respondeu friamente.
Felipe riu. "Ah, vamos lá. Ela não parece 'ninguém' . Ela parece o tipo de garota que faz qualquer coisa para conseguir o que quer. Quanto custa uma noite, querida?"
A ofensa me atingiu como um tapa. Meu sangue ferveu. Olhei para Ricardo, esperando que ele, por um mínimo de decência, defendesse a honra de uma mulher que estava sendo insultada na sua frente.
Ele fez algo. Ele colocou a mão no ombro de Felipe.
"Felipe, já chega" , ele disse. Mas não havia raiva em sua voz. Era quase um tédio.
Então, ele se virou para mim, e o que ele disse em seguida foi pior do que o insulto de Felipe.
"Já que você está aqui e quer tanto chamar a atenção, por que não faz algo útil? O pianista do evento cancelou. Eu sei que você toca. Vá lá. Toque alguma coisa para nós. Nos entretenha."
Ele não estava me defendendo. Ele estava se juntando à humilhação, me rebaixando ao papel de uma atração de circo para divertir seus amigos ricos e entediados.
O desprezo em seus olhos era transparente. Naquele momento, qualquer resquício de dúvida que eu pudesse ter sobre minha decisão desapareceu.
A vingança não era mais um desejo.
Era uma necessidade.