O cheiro do perfume dela de repente me sufocou, um aroma doce e enjoativo que me transportou para um pesadelo já vivido.
Minha vida perfeita, prestes a ser selada com Lucas, o homem que eu amava, desmoronou diante dos meus olhos na joalheria onde escolhemos nossas alianças.
Lá estavam eles, Lucas e Patrícia, rindo, com meu noivo a abraçando, sussurrando segredos em seu ouvido enquanto a risada dela ecoava pela loja.
Eu senti o gosto amargo do choque e da traição, mas o que me atingiu mais forte foi a memória brutal de um futuro que eu já havia suportado.
Na minha vida passada, eu os confrontei, gritei a verdade sobre a doença dela para proteger Lucas, mas minha intervenção só selou meu destino.
Patrícia, humilhada, tirou a própria vida.
E Lucas, o "homem" que eu tentei salvar, me culpou por isso.
Ele me torturou, me trancou em um porão úmido e mofado, e sua dor se transformou em uma crueldade inimaginável, terminando em uma morte lenta e agonizante pelas mãos dele.
A última coisa que vi foram seus olhos, frios e vazios de remorso.
Mas então, eu renasci.
Acordei meses antes, no dia em que Lucas me pediu em casamento, com a chance de reescrever meu destino.
Desta vez, vendo os dois na joalheria, eu não atravessei a rua.
Desta vez, meu coração batia com a pulsação fria e constante da vingança.
Desta vez, eu não seria a vítima.
O cheiro do perfume dela me atingiu primeiro, um aroma doce e enjoativo que eu conhecia bem demais.
Era o perfume favorito de Patrícia, a amiga de infância do meu noivo, Lucas.
Eu estava parada do outro lado da rua, em frente à joalheria onde havíamos escolhido nossas alianças de casamento.
Eles estavam lá dentro, rindo.
Lucas passava o braço pela cintura de Patrícia, inclinando-se para sussurrar algo em seu ouvido, e a risada dela ecoou até mesmo através do vidro grosso da vitrine.
Meu estômago se revirou, mas não pela traição.
Não, a traição eu já esperava.
O que me atingiu foi a memória, nítida e brutal, de um futuro que eu já tinha vivido.
Nesta mesma cena, em minha vida anterior, eu atravessei a rua, entrei na loja e confrontei os dois.
Eu gritei.
Eu chorei.
Eu revelei o que eu sabia sobre a doença de Patrícia, uma doença sexualmente transmissível grave que ela escondia de todos.
Meu aviso, nascido de um desespero tolo, era para proteger Lucas.
Mas essa intervenção selou meu destino.
Naquela noite, Patrícia, humilhada e exposta, jogou seu carro contra um pilar de uma ponte.
Ela não sobreviveu.
E Lucas, o homem que eu tentei salvar, me culpou.
Ele me trancou.
Ele me torturou.
Sua dor se transformou em uma crueldade que eu jamais poderia imaginar, e cada dia que se seguiu foi um inferno.
Ele dizia que eu tinha tirado dele a única pessoa que realmente importava.
Minha morte em suas mãos foi lenta e agonizante.
A última coisa que vi foram seus olhos, frios e sem um pingo de remorso.
Mas então, eu acordei.
Acordei meses antes, no dia em que Lucas me pediu em casamento.
O renascimento me deu uma segunda chance, e com ela, um conhecimento terrível do que estava por vir.
Então, desta vez, vendo os dois na joalheria, eu não atravessei a rua.
Eu apenas observei.
Meu coração não batia de dor, mas com a pulsação fria e constante da vingança.
O choque inicial deu lugar a uma calma gelada.
A náusea que subiu pela minha garganta não era de tristeza, mas de repulsa física.
O cheiro daquele perfume parecia impregnar o ar, trazendo consigo o fedor metálico de sangue e o cheiro de mofo do porão onde passei meus últimos dias.
Eu me virei bruscamente, o som da risada deles ainda ecoando em minha mente.
Caminhei para casa, minhas pernas tremendo, não de fraqueza, mas de uma raiva contida que fazia meu corpo vibrar.
Cada passo na calçada era uma afirmação.
Desta vez, eu não seria a vítima.
Desta vez, eu seria a espectadora da ruína deles.
Quando cheguei em casa, meus pais estavam na sala de estar, assistindo a um programa de TV qualquer.
Minha mãe olhou para mim, seu sorriso se desfazendo ao ver a expressão no meu rosto.
"Sofia? O que aconteceu, minha filha? Você está pálida."
Meu pai se levantou imediatamente, a preocupação gravada em sua testa.
Mas agora eles estavam aqui, vivos e bem.
A visão deles, inteiros e seguros, quebrou a barreira de gelo que eu havia construído ao redor do meu coração.
As lágrimas que eu não derramei por Lucas, eu derramei por eles.
Corri para os braços da minha mãe e chorei, um choro convulso, liberando a dor e o terror de uma vida inteira de sofrimento que só eu me lembrava.
"Mãe... pai..." eu solucei, incapaz de formar palavras.
Eles me abraçaram, confusos, mas oferecendo o conforto que eu precisava desesperadamente.
Depois que as lágrimas pararam e eu consegui respirar de novo, eu me afastei.
Olhei para os dois, meus protetores, meus únicos aliados verdadeiros.
"Eu vou cancelar o casamento" , eu disse, minha voz firme, apesar do choro recente.
Minha mãe piscou, chocada. "O quê? Mas por quê? Vocês pareciam tão felizes."
"Lucas está me traindo" , eu disse, a frase curta e direta. "Com a Patrícia."
O choque no rosto deles era palpável. Meu pai cerrou os punhos, sua expressão escurecendo.
"Aquele desgraçado" , ele rosnou. "Eu nunca confiei nele."
Minha mãe, sempre mais gentil, colocou a mão no meu braço. "Você tem certeza, querida?"
"Absoluta" , respondi. "Eu os vi juntos. Não há dúvida."
Foi meu pai quem falou em seguida, e suas palavras me surpreenderam.
"Então é isso. Cancele tudo. Não quero aquele homem ou sua família perto de nós nunca mais."
Não houve perguntas, nem hesitação. Apenas um apoio inabalável que aqueceu meu coração gelado.
Naquele momento, olhando para meus pais, uma nova decisão se formou.
Não era suficiente apenas sobreviver.
Não era suficiente apenas deixá-los se destruírem.
Eu precisava garantir que a justiça fosse feita. Por mim e pelos meus pais, que sofreram tanto por minha causa.
"É exatamente o que eu vou fazer" , eu disse, e pela primeira vez desde que renasci, um sentimento de poder, e não de medo, começou a tomar conta de mim.
A caçada estava prestes a começar.
No dia seguinte, a primeira coisa que fiz foi ligar para o gerente do local que havíamos reservado para a festa de casamento.
Era um salão de luxo, caro, e o contrato estava no meu nome.
"Gostaria de cancelar a reserva para o casamento de Sofia e Lucas" , eu disse ao telefone, minha voz soando profissional e desinteressada.
Houve uma pausa do outro lado da linha.
"Senhora, o cancelamento a menos de dois meses do evento incorre em uma multa de setenta por cento do valor total."
"Eu sei" , respondi calmamente. "Pode cobrar. Apenas cancele."
O dinheiro não importava. O que importava era o ato.
Era o primeiro tijolo que eu retirava da construção da vida perfeita de Lucas.
Ele contava com o prestígio daquele local, financiado principalmente pela minha família, para impressionar seus contatos de negócios.
Duas horas depois, meu telefone tocou.
Era ele.
Ver o nome "Lucas" brilhando na tela enviou uma onda de pânico gelado pelo meu corpo.
Minhas mãos começaram a suar.
Meu coração disparou.
Por um instante, eu não era a Sofia renascida e vingativa, eu era a prisioneira no porão, ouvindo seus passos se aproximando da porta.
Respirei fundo, forçando a imagem para longe.
Eu não era mais aquela mulher.
Atendi a chamada.
"Sofia? Que porra é essa? O gerente do salão me ligou dizendo que você cancelou tudo! Que brincadeira é essa?"
Sua voz, cheia de raiva e arrogância, era exatamente como eu me lembrava.
Respirei fundo mais uma vez, moldando minha voz para soar trêmula e magoada.
"Lucas... eu não podia..." eu comecei, fingindo um soluço.
"Não podia o quê? Falar comigo primeiro? O que deu em você?"
"Eu... eu tive um sonho horrível na noite passada" , eu disse, a mentira vindo facilmente. E então, uma ideia maliciosa surgiu. "Foi tão real. Você estava... você morria em um acidente de carro. Com a Patrícia."
Silêncio do outro lado.
Um silêncio longo e pesado.
Quando ele finalmente falou, sua voz era diferente. Havia um tom de choque, de estranheza.
"Como... como você sabe disso?" ele sussurrou.
Meu coração parou por um segundo. O que ele queria dizer com isso?
"Saber o quê? Foi só um pesadelo, Lucas, mas foi tão assustador que eu..."
"Eu tive o mesmo sonho" , ele me interrompeu, sua voz baixa e tensa. "Exatamente o mesmo. Eu não contei a ninguém. Eu e Patrícia... em um carro... batendo em uma ponte."
Eu quase deixei o telefone cair.
Ele também se lembrava?
Não, isso era impossível. Se ele se lembrasse, ele não estaria com Patrícia. Ele saberia da doença dela. Ele saberia de tudo.
Talvez fosse apenas um eco. Um fragmento de memória de uma vida passada, se manifestando como um pesadelo.
Isso era ainda melhor.
Isso o deixaria desequilibrado, paranóico.
Eu usei isso a meu favor.
"Oh meu Deus, Lucas!" Eu forcei um grito de espanto. "Isso é um sinal! Um aviso! Nós não podemos nos casar. É... é amaldiçoado!"
Eu me entreguei ao papel da noiva histérica e supersticiosa.
Chorei, implorei, falei sobre presságios e destino.
Eu sabia exatamente quais botões apertar. Lucas odiava dramas emocionais. Ele os via como uma fraqueza a ser contornada, não confrontada.
"Sofia, se acalme" , ele disse, a irritação voltando à sua voz. "Isso é ridículo. É só uma coincidência."
"Não é uma coincidência! Eu não posso, Lucas! Eu não posso arriscar perder você!" Eu soluçava dramaticamente. "Por favor, vamos adiar. Só por um tempo. Até eu me sentir segura de novo."
Ele suspirou, um som longo e cansado.
Eu podia imaginá-lo revirando os olhos, massageando a testa.
Ele queria o casamento, queria o status e o dinheiro da minha família, mas não queria lidar com uma noiva "instável".
"Tudo bem" , ele finalmente cedeu, exatamente como eu previ. "Tudo bem, Sofia. Vamos adiar. Apenas... pare de chorar, ok? Fale com seus pais. Eu ligo para os meus. A gente resolve isso."
"Obrigada, Lucas" , eu sussurrei, soando grata e aliviada. "Você é o melhor."
Desliguei o telefone e um sorriso frio se espalhou pelo meu rosto.
Ele era tão previsível.
Tão fácil de manipular quando você sabia o que o movia: seu próprio egoísmo e sua aversão a complicações.
Ele pensou que estava me acalmando, me concedendo um capricho.
Na realidade, ele tinha acabado de me dar exatamente o que eu queria: tempo.
Tempo para desmantelar sua vida, peça por peça, sem que ele suspeitasse de nada.
Três dias depois, a prova de que meu plano estava funcionando apareceu na minha timeline do Instagram.
Patrícia postou uma foto.
Ela e Lucas, sorrindo para a câmera, com taças de champanhe nas mãos.
A legenda dizia: "Às vezes, o que você procura está bem na sua frente o tempo todo. Brindando a novos começos com meu amor, Lucas."
A postagem foi feita exatamente na data original do nosso casamento cancelado.
Uma provocação clara. Uma declaração pública.
Eles não perderam tempo.
Amigos em comum começaram a me ligar, a mandar mensagens, perguntando se eu estava bem, o que tinha acontecido.
Eu não respondi a nenhuma delas.
Apenas salvei a foto no meu celular.
A raiva deles, a humilhação pública que eles achavam que estavam me infligindo, era apenas mais um prego no caixão que eu estava construindo para eles.
Eles achavam que estavam no controle.
Mal sabiam eles que estavam apenas dançando conforme a minha música.