Eu tinha cancro do estômago terminal, e a culpa pela morte da minha amiga Clara era um fardo mais pesado que a doença. Eu merecia o tormento que Tiago, o irmão dela, me infligia; era a minha penitência.
Um dia, exausta de humilhações e dores, o meu corpo desabou sob um carro. "Finalmente," pensei, enquanto o sangue manchava o asfalto.
Mas João, meu amigo médico, recusou-se a deixar-me ir. Ele forjou a minha morte, tirando-me do abismo de culpa e do domínio de Tiago. No Alentejo, em segredo, tentei reconstruir-me. A pequena Alice, sobrinha órfã de João, surgiu, e com ela, uma chama de esperança. Ela e João tornaram-se a minha salvação.
Eu acreditava que só na morte encontraria paz. Conseguiria eu, afinal, livrar-me da autodepreciação e do peso esmagador do passado, aceitando a inesperada felicidade que a vida me oferecia?
Anos depois, Tiago, atormentado pela culpa da minha "morte", descobriu-me viva no hospital. Ele suplicou por perdão e um recomeço. Mas a mulher à sua frente já não era a Sofia de antes. A minha resposta, tão fria e definitiva quanto o seu desprezo passado, selaria o destino de todos nós, garantindo a liberdade que eu tanto ansiava.
Sofia olhou para o médico à sua frente, o seu amigo de longa data, João.
"Eu quero doar todos os meus órgãos, João. Cancro do estômago em fase terminal, lembras-te?"
A sua voz era calma, quase leve, mas os seus olhos carregavam o peso do mundo.
"A morte para mim não é uma tragédia, é uma libertação. E uma última oportunidade de fazer algo que preste."
João suspirou, a sua expressão era uma mistura de tristeza e frustração profissional.
"Sofia, ainda há tratamentos experimentais, protocolos que podemos tentar. Não desistas assim."
Ela abanou a cabeça, um sorriso fraco nos lábios.
"Não, João. Já decidi. É o meu último ato de altruísmo, e talvez uma forma de pagar o que devo."
Ele sabia que ela se referia a Clara.
O telemóvel dela vibrou na mesa de cabeceira. O nome "Tiago" brilhou no ecrã.
Sofia estremeceu ligeiramente antes de atender.
"Sofia, onde estás? O evento no Douro começa em três horas e os investidores chegam em duas. Espero que não estejas a pensar em faltar."
A voz dele era fria, cortante, como sempre.
"Estou a caminho, Tiago."
"É bom que estejas."
Ele desligou.
Sofia levantou-se, a dor no estômago era uma companheira constante. "Tenho de ir. O dever chama."
João observou-a sair, o coração apertado. Ele sabia o que a esperava.
Na quinta histórica no Douro, o ambiente era de luxo e negócios. Sofia, pálida mas composta, coordenava tudo com uma eficiência que desmentia o seu sofrimento.
Tiago aproximou-se dela, um copo de vinho tinto na mão.
"Os nossos convidados estão a adorar o vinho. Tu provaste, claro?"
Ele sabia da sua condição, das suas restrições.
"Sim, Tiago. Excelente escolha." Mentiu ela.
Mais tarde, um grupo de associados de Tiago, já alegres pelo álcool, cercou-a.
"Então, Sofia, o Tiago diz que és a alma da festa! Mostra-nos lá como se bebe um Porto como deve ser!"
Eles empurraram-lhe um cálice cheio. Tiago observava de longe, um sorriso frio nos lábios.
Ela bebeu, sentindo o álcool queimar-lhe o estômago já fragilizado. Depois outro, e outro. Cada gole era uma tortura, mas ela aguentou, os olhos fixos em Tiago, que não movia um músculo para a ajudar. A humilhação era palpável, mas ela aceitava-a como parte da sua penitência.
Um dos associados mais velhos, talvez com um pingo de compaixão, afastou-a discretamente.
"Minha querida, não tens de fazer isto. Posso arranjar-te uma desculpa, dizer que te sentiste mal."
Sofia sorriu-lhe, um sorriso cansado.
"Agradeço, mas tenho uma dívida a pagar. E esta é apenas uma pequena parte dela."
O homem olhou-a com pena, sem compreender.
Quando o evento terminou e os convidados se foram embora, Tiago seguiu Sofia até ao pequeno quarto que lhe fora designado.
Ele agarrou-a pelo braço, encostando-a à parede.
"Gostaste do espetáculo, Sofia? De te fazeres de vítima?"
O seu hálito cheirava a vinho caro.
Ele beijou-a à força, um beijo carregado de raiva e ressentimento. Sofia não reagiu.
Ele afastou-se, frustrado pela sua passividade, e deu um soco na parede ao lado da cabeça dela.
"Tu manipulas todos, não é? Com essa tua cara de santa sofredora. Achas que me enganas?"
"Eu só quero expiar o meu pecado, Tiago. Só isso." A voz dela era um fio.
A menção do pecado pareceu enfurecê-lo ainda mais.
"Pecado? Tu és o pecado! Se queres tanto expiar, então morre de uma vez! Faz-nos a todos um favor!"
As palavras dele eram cruéis, mas Sofia sentiu uma estranha ironia. Ele não sabia o quão perto estava o seu desejo de se realizar.
O telemóvel dele tocou. Era Beatriz, a sua noiva.
A expressão de Tiago suavizou-se instantaneamente.
"Olá, meu amor. Sim, o evento correu lindamente. Estou a caminho."
Ele desligou e olhou para Sofia com desprezo.
"Não penses que isto acabou."
E saiu, deixando-a sozinha na penumbra do quarto.
Sofia sentiu uma onda de náusea e uma dor aguda no estômago.
Correu para a casa de banho, ajoelhou-se em frente à sanita e vomitou.
Sangue. Vermelho vivo, a manchar a porcelana branca.
A dor intensificou-se, e o mundo começou a girar.
Ela caiu no chão frio, o som do seu corpo a embater nas lajes a ecoar no silêncio, antes de a escuridão a engolir.
Sofia acordou com o som da sua própria respiração ofegante.
Um pesadelo. Sempre o mesmo. A viela escura no Bairro Alto, os gritos, o brilho da faca, o corpo de Clara a cair.
Abriu os olhos. Estava no seu pequeno apartamento em Lisboa, não no Douro.
João estava sentado numa cadeira ao seu lado, a expressão carregada de preocupação.
"Como é que eu vim aqui parar?" perguntou ela, a voz rouca.
"Desmaiaste. Tive de te trazer. Sofia... eu vi os teus exames. Os que fizeste às escondidas. O cancro está a piorar muito rapidamente por causa disto tudo. Por causa dele."
A raiva brilhou nos olhos de João.
"Como é que permites que ele te trate assim? Tens de te afastar dele, Sofia! Tens de lutar, de te tratar!"
Ela desviou o olhar.
"Eu não posso. Não enquanto não pagar a minha dívida."
João passou as mãos pelo cabelo, exasperado.
"Ainda te culpas pela morte da Clara, não é? Achas que suportar a crueldade do Tiago vai trazer a Clara de volta? Ou aliviar a tua culpa?"
Sofia não respondeu. O silêncio dela era uma confissão.
Ele suspirou, derrotado por momentos. "Ele não merece o teu sacrifício, Sofia."
Apesar do seu estado, Sofia sabia que tinha de ir trabalhar. Havia um evento de gala essa noite, um dos mais importantes do ano para a empresa de Tiago.
Ela escolheu um vestido simples, escuro. Sabia que Beatriz, a noiva elegante e socialite de Tiago, estaria lá, deslumbrante. O seu papel era ser invisível.
Quando chegou ao local do evento, um palacete antigo, Beatriz já lá estava, a dar ordens aos empregados.
Viu Sofia e sorriu com superioridade.
"Ah, Sofia. Chegaste. O Tiago ainda não apareceu. Certifica-te de que o champanhe está gelado. E não fiques muito à vista, querida. Não queremos assustar os convidados."
Sofia anuiu, ignorando a provocação.
Tiago chegou pouco depois. Passou por Sofia como se ela não existisse, beijou Beatriz na face e disse em voz alta:
"Espera lá fora, Sofia. Preciso de ti mais tarde."
Não era um pedido, era uma ordem.
Sofia obedeceu. A noite estava fria, e o vento cortante atravessava o tecido fino do seu vestido.
Um empregado da organização, vendo-a tremer, aproximou-se.
"Menina, quer um casaco? Ou entrar um pouco?"
"Não, obrigada. Estou bem."
Ela sabia que aquilo era parte da punição. Tiago queria que ela sentisse o frio, a solidão.
Horas mais tarde, o evento estava no auge. Sofia foi chamada ao interior.
Beatriz aproximou-se dela, fingindo desequilibrar-se e entornando deliberadamente um copo de vinho tinto no seu próprio vestido de alta costura.
"Oh, meu Deus! Sofia, olha o que fizeste! Este vestido custou uma fortuna!"
Tiago surgiu imediatamente.
"O que se passa aqui?"
"A Sofia entornou-me vinho em cima! E pior, o meu alfinete de diamantes, uma herança de família, desapareceu! Deve ter caído quando ela me empurrou!" Beatriz choramingou.
Sofia sabia que era mentira. Não tinha tocado em Beatriz.
"Eu não..."
"Cala-te!" ordenou Tiago. "Beatriz, onde achas que pode ter caído?"
"Talvez ali, perto do lago ornamental," disse Beatriz, apontando para o jardim escuro e gelado. "Eu estava a admirar os nenúfares."
Tiago virou-se para Sofia, os olhos faiscando.
"Vai buscá-lo. E não voltes sem ele."
Beatriz e Tiago voltaram para a festa, deixando Sofia sozinha à beira do lago escuro e gelado.
A água parecia negra e ameaçadora.
"Se não o encontrares, estás despedida," gritou Tiago por cima do ombro, antes de desaparecer porta adentro.
Sofia olhou para a água. A ideia de mergulhar naquele frio era aterradora. Mas a ameaça de Tiago, e a sua própria necessidade de punição, eram mais fortes.
Ela respirou fundo e começou a procurar à volta do lago, a dor no estômago a intensificar-se com o frio e o stress.