Grávida de sete meses, estava sentada num banco de plástico duro, sufocada pelo cheiro a desinfetante.
O meu pai lutava pela vida na sala de cirurgia após um ataque cardíaco fulminante.
Desesperada, liguei 18 vezes ao meu marido, Miguel.
Ele finalmente atendeu, a sua voz irritada, vinda de um ambiente barulhento com música e risos.
Estava com a "amiga de infância", Sofia.
"O pai teve um ataque cardíaco. É grave", disse eu, a voz a tremer.
Ele desvalorizou, perguntou se eu estava a exagerar e, sem mais, desligou.
Horas depois, o médico confirmou o inevitável: o meu pai morreu.
A dor intensa causou-me um choque, e perdi também o nosso bebé.
No mesmo dia, perdi tudo o que tinha.
Miguel chegou ao hospital, mas os seus olhos não mostravam remorso, apenas irritação.
Olhou para a minha barriga lisa e um alívio cruel tomou conta dele.
"Clara, talvez tenha sido para melhor. Um bebé agora seria complicado."
O homem que jurei amar virava-me as costas, e a sua mãe ligou, acusando-me de egoísmo.
Como puderam ser tão cruéis?
Como podiam duvidar da minha dor, da minha perda, e ainda assim me culpar?
A injustiça era esmagadora.
Mas então, enquanto ele gritava que eu era "dramática", a minha voz saiu, fria como gelo:
"Acabou, Miguel. Quero o divórcio."
Eles pensavam que iriam esmagar-me.
Eles iriam pagar por cada lágrima.
O cheiro de desinfetante enchia as minhas narinas, forte e avassalador. Eu estava sentada num banco de plástico duro do lado de fora da sala de cirurgia, com o telemóvel pressionado contra a orelha. A luz vermelha por cima da porta parecia queimar os meus olhos.
O meu pai estava lá dentro, a lutar pela vida após um ataque cardíaco fulminante.
Eu estava grávida de sete meses, e a cada toque do telemóvel, uma onda de náusea subia pela minha garganta. Liguei para o meu marido, Miguel, dezassete vezes. Na décima oitava, ele finalmente atendeu.
O som do outro lado era barulhento, com música e risos.
"Clara? O que foi agora? Estou super ocupado." A voz dele soava irritada, impaciente.
"Miguel, é o pai", a minha voz tremia. "Ele teve um ataque cardíaco. Está na sala de cirurgia. O médico disse que é grave. Podes vir para o hospital?"
Houve uma pausa. Ouvi a voz de uma mulher ao fundo, abafada mas clara.
"Miguelito, preciso de ajuda com esta caixa, é pesada!"
Era a Sofia, a sua amiga de infância. A amiga que ele sempre colocava em primeiro lugar.
"Um ataque cardíaco?", Miguel repetiu, o tom dele desprovido de qualquer urgência. "Ele não estava bem esta manhã? Tens a certeza que não estás a exagerar? Ele provavelmente só comeu algo que não lhe caiu bem."
"Miguel, o médico disse que é grave", insisti, as lágrimas a começarem a formar-se. "Eu preciso de ti aqui."
"Olha, Clara, eu não posso simplesmente largar tudo", ele suspirou, o som da sua frustração a atravessar o telefone. "Estou a ajudar a Sofia com as mudanças dela. Ela não pode fazer isto sozinha. Sê razoável. Liga-me quando tiveres notícias a sério."
Antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele desligou.
O som do "tu-tu-tu" ecoou no corredor vazio do hospital.
Olhei para a porta da sala de cirurgia, depois para a minha barriga proeminente. O bebé mexeu-se, como se sentisse a minha angústia.
Senti-me completamente sozinha.
Passaram-se horas. O corredor ficou mais silencioso, o ar mais frio. Eu não me mexi do banco. Finalmente, a luz vermelha apagou-se e a porta abriu-se.
O médico saiu, a sua expressão era sombria. Ele tirou a máscara.
"Lamento muito", disse ele, com a voz baixa e cansada. "Fizemos tudo o que podíamos."
O mundo parou. O som desapareceu. As palavras dele não faziam sentido, mas eu sabia exatamente o que significavam.
O meu pai tinha morrido.
Uma dor aguda atravessou o meu peito, tão intensa que me tirou o fôlego. O meu corpo inteiro contraiu-se. Olhei para o médico, tentei falar, mas nenhum som saiu.
Depois, uma dor ainda mais forte atingiu o meu baixo-ventre. Uma cãibra violenta que me fez dobrar.
Olhei para baixo. Havia sangue a manchar o meu vestido.
A última coisa que vi antes de tudo ficar preto foi o rosto chocado do médico a gritar por uma enfermeira.
Acordei com o mesmo cheiro de desinfetante, mas agora eu estava numa cama de hospital. Uma luz suave entrava pela janela. A minha mão foi instintivamente para a minha barriga.
Estava vazia. Lisa.
O peso que carreguei durante sete meses tinha desaparecido.
Uma enfermeira entrou no quarto, o seu sorriso era gentil, mas os seus olhos estavam cheios de pena.
"Que bom que acordou, Sra. Alves", disse ela suavemente. "Teve um grande choque. Devido ao stress e à queda, infelizmente..."
Ela não precisou de terminar a frase. Eu já sabia.
As lágrimas que eu não tinha chorado pelo meu pai começaram a rolar pelo meu rosto, silenciosas e quentes. Perdi o meu pai e o meu filho no mesmo dia.
A porta do quarto abriu-se de rompante. Era o Miguel. Atrás dele, hesitante, estava a Sofia.
"Clara! O que aconteceu? A minha mãe ligou-me a gritar. Disse que desmaiaste."
Ele não parecia preocupado. Parecia irritado por ter sido arrastado para ali.
Olhei para ele, para o homem que prometeu amar-me e proteger-me. Não havia um pingo de remorso no seu rosto.
"O pai morreu", disse eu, a minha voz era um sussurro rouco.
Ele franziu o sobrolho. "Eu sei. É triste, mas ele já era velho e tinha problemas de saúde. Não era razão para teres um colapso assim."
Depois, os olhos dele foram para a minha barriga lisa. Uma expressão de compreensão passou pelo seu rosto, rapidamente substituída por... alívio?
"E o bebé...", ele começou.
"Também o perdi", completei, a voz a quebrar-se.
Sofia, atrás dele, levou a mão à boca, num gesto de choque falso.
Miguel ficou em silêncio por um momento. Depois, aproximou-se da cama.
"Olha, Clara, eu sei que é difícil", disse ele, num tom que pretendia ser reconfortante, mas que só soava condescendente. "Mas talvez tenha sido para melhor. Um bebé agora... seria complicado."
Foi como se ele me tivesse dado um estalo.
"Para melhor?", repeti, incrédula. "Eu liguei-te. Eu pedi-te para vires. Onde é que tu estavas, Miguel?"
"Eu já te disse! Estava a ajudar a Sofia!", ele elevou a voz, defensivo. "Ela precisava de mim! Não podes ser sempre o centro do universo! As pessoas têm problemas!"
"O problema dela era uma caixa de cartão", a minha voz saiu fria como gelo. "O meu problema era o meu pai a morrer e o nosso filho em risco."
"Não sejas dramática!", ele gritou.
"Acabou, Miguel", disse eu, com uma clareza que me surpreendeu. "Quero o divórcio."
O rosto dele mudou de raiva para choque puro.
"Divórcio? Estás a brincar? Por causa disto? Depois de tudo o que passámos?"
"O que é que nós passámos, Miguel? Tu passaste o dia a ajudar a tua amiga a mudar de casa. Eu passei o dia a perder a minha família."
O meu telemóvel, pousado na mesa de cabeceira, começou a tocar. Era a minha sogra. Atendi, colocando em alta-voz.
"Clara! Que vergonha! O Miguel acabou de me contar que queres o divórcio!", a voz dela era estridente. "Não tens coração? O teu pai acaba de morrer e já estás a causar mais problemas? Devias estar a apoiar o meu filho, não a atacá-lo! Ele esteve a ajudar uma amiga necessitada, isso é ser um bom homem! Tu é que és egoísta!"
Desliguei a chamada. Olhei para o rosto chocado de Miguel.
"Saiam", disse eu, calmamente. "Os dois."