Eu reencarnei com uma doença terminal, presa a um sistema: para viver, eu precisava conquistar afeto.
Aos 18 anos, descobri a cruel verdade: meus pais, marido e até o cachorro só tinham olhos para minha irmã gêmea, Clara, que recebia todo o amor e carinho que eu, Sofia, jamais tive.
Eles usufruíram de cada benefício que minhas "habilidades" traziam – a beleza da minha mãe, a fortuna do meu pai, as vitórias do meu marido Regente Henrique – enquanto me usavam, me feriam e me culpavam por tudo, inclusive por um crime que Clara cometeu.
Exausta e traída, entreguei-me à morte, mas a dor só piorou. Fui envenenada e abandonada à própria sorte, para que Clara pudesse ser a "Santa".
Quando achei que tudo terminaria, o Sistema revelou uma nova missão: sobreviver, mas somente se aqueles que me machucaram sentissem remorso.
Reencarnei como Princesa Isadora e testemunhei a verdade lentamente se desvelar, enquanto meu passado assombrava aqueles que me feriram.
Eu reencarnei neste mundo com uma doença terminal, presa a um sistema que me deu uma única condição para viver, eu precisava conquistar o afeto de alguém.
No Brasil colonial, uma terra estranha e por vezes brutal, essa era minha única esperança.
Aos três anos, meus pais, o Senhor e a Senhora Silva, nunca me olharam com o carinho que davam à minha irmã gêmea, Clara. Seus abraços eram para ela, seus sorrisos eram para ela. Para mim, havia apenas um olhar distante.
O sistema mostrava o medidor de afeto deles por mim, um zero frio e imutável.
Aos quinze anos, me casei com o Regente Henrique, um homem de poder e status. Achei que talvez ele, um estranho, pudesse me dar o que minha família não deu. Mas seus olhos também só viam Clara. Ele era meu marido no papel, mas seu coração pertencia a ela.
O medidor de afeto de Henrique, zero.
Aos dezoito, até o cachorro da casa, que eu alimentava e cuidava todos os dias, rosnava para mim e abanava o rabo para Clara.
O medidor de afeto do cachorro, zero.
Eu estava cansada. Cansada de tentar, de me esforçar, de dar tudo de mim e não receber nada em troca. A exaustão era um peso constante em meus ombros, mais pesado que a própria doença.
Naquela tarde fria, eu me sentei no jardim e olhei para o céu cinzento.
"Sistema, eu desisto."
A voz mecânica soou na minha mente, sem emoção.
[A anfitriã tem certeza de que deseja desistir da missão de conquistar afeto?]
"Sim", respondi, minha voz um sussurro rouco.
[Aviso: Ao desistir da missão, o programa de doença terminal será reativado em seu corpo. Todos os itens e habilidades fornecidos pelo sistema serão recolhidos. Confirma a desistência?]
Uma pequena parte de mim hesitou, mas a lembrança de dezoito anos de rejeição foi mais forte.
"Confirmo."
[Comando recebido. Ativando o programa de doença terminal. Recolhendo todos os itens do sistema.]
No instante seguinte, uma dor aguda e familiar perfurou meu peito, me fazendo dobrar. Era a dor da minha vida passada, a dor que me levou à morte. O calor constante que o sistema me proporcionava, a beleza que ele dava ao meu rosto, a vitalidade em meu corpo, tudo desapareceu. Um frio cortante me invadiu, vindo de dentro para fora.
Minha visão ficou turva e eu caí no chão, tremendo incontrolavelmente. A grama úmida grudava na minha pele, mas eu mal sentia. A dor era tudo.
Foi quando ouvi passos apressados. A figura alta de Henrique, o Regente, meu marido, apareceu sobre mim. Seu rosto estava contorcido de raiva, não de preocupação.
"Sofia! O que você está fazendo aí no chão? Levante-se!"
Ele me agarrou pelo braço com força, me forçando a ficar de pé. Meu corpo fraco mal se sustentava.
"Sua irmã Clara está doente, tossindo sem parar, e você está aqui se espojando na lama? Você não tem vergonha?" ele gritou, sua voz cheia de desprezo.
Clara estava doente. Sempre era Clara.
Forcei-me a olhar para ele, a dor me roubando o fôlego. "Eu...", tentei falar, mas as palavras não saíam.
"Não me venha com desculpas! Você vai sair agora e buscar esmolas para a saúde de Clara. Talvez a piedade dos outros possa curar a indiferença do seu coração!" ele ordenou, me empurrando em direção ao portão.
Naquele momento, a verdade me atingiu com a força de um soco. Eu usei o sistema para dar beleza à minha mãe, para que ela fosse a dama mais admirada da corte. Usei o sistema para dar riqueza ao meu pai, garantindo contratos e negócios lucrativos. Usei o sistema para dar vitórias militares a Henrique, consolidando seu poder como Regente.
Eles pegaram tudo. E todo o amor, todo o carinho, toda a preocupação que eles tinham, era para Clara.
Eu era a fonte de suas fortunas, mas para eles, eu não era nada. Pior que nada. Eu era a culpada por qualquer infortúnio que acontecesse com a irmã perfeita deles. Uma vez, quando Clara caiu e torceu o tornozelo, fui acusada de tê-la empurrado e forçada a viver em um convento por três anos.
Eu olhei para Henrique, para o homem a quem dediquei meus últimos três anos, e pela primeira vez, recusei.
"Não", eu disse, minha voz fraca, mas firme.
A surpresa cruzou seu rosto, seguida por uma fúria ainda maior. "Como ousa me desobedecer?"
Ele me arrastou para fora da propriedade, me levou montanha acima, onde o vento era mais frio e a noite se aproximava. Ele me jogou no chão pedregoso.
"Fique aqui e pense na sua crueldade. Quando aprender a ser uma esposa e irmã devotada, talvez eu a deixe voltar."
Ele se virou e me abandonou na escuridão crescente da montanha. O frio era insuportável, e a dor no meu peito só piorava.
No dia seguinte, o sol mal havia nascido quando ouvi uma voz zombeteira. Era Clara, envolta em um casaco de pele caro, com um sorriso de escárnio no rosto.
"Olhe para você, irmã. Parece um rato afogado. Henrique estava certo, você realmente precisa de uma lição."
Eu não respondi, apenas a observei. Ela se aproximou, sua expressão mudando de desprezo para malícia.
"Sabe, Henrique me disse ontem à noite que ele só se casou com você porque o pai insistiu. Ele disse que o seu rosto o enoja."
Ela se deleitava com minha dor. De repente, seus olhos se arregalaram. Ela olhou para além de mim, para a trilha abaixo. Vi Henrique e meu pai se aproximando.
Num piscar de olhos, Clara rasgou o próprio vestido e se jogou no chão, gritando.
"Socorro! Sofia está tentando me matar! Ela me atacou!"
Henrique e meu pai correram até nós. Eles não perguntaram nada. Não hesitaram. Meu pai me deu um tapa no rosto com tanta força que caí no chão. Henrique me chutou nas costelas.
"Monstro! Como você se atreve a machucar sua irmã?" meu pai gritou.
"Ajoelhe-se na neve! Peça perdão a Clara até que ela se sinta melhor!" Henrique ordenou, sua voz fria como o gelo sob meus joelhos.
Eles me forçaram a ajoelhar na neve derretida, enquanto confortavam Clara, tratando-a como uma vítima frágil. A dor física era imensa, mas a dor no meu coração era ainda maior.
A voz do sistema soou novamente, um arauto da minha morte.
[A anfitriã tem seis dias de vida restantes.]
Seis dias. Era tudo o que me restava.
O frio da neve penetrava em meus ossos, mas o frio que eu sentia por dentro era muito pior. Henrique e meu pai levaram Clara de volta para a casa, tratando-a com uma delicadeza que eu nunca conheci. Meu pai a carregou nos braços, enquanto Henrique a cobria com seu próprio casaco, sussurrando palavras de conforto.
Eu fiquei ali, ajoelhada, observando-os se afastar. Ninguém olhou para trás. A dor nas minhas costelas era aguda, e cada respiração era um esforço. O mundo começou a girar e a escuridão me engoliu.
Quando acordei, estava de volta ao meu quarto frio e úmido no convento. Uma freira me olhava com pena.
"A febre está alta", ela murmurou.
A voz do sistema confirmou meu estado.
[A condição física da anfitriã está se deteriorando rapidamente. Contagem regressiva de vida: seis dias. As habilidades de cura do sistema foram recolhidas. A anfitriã deve suportar a dor por conta própria.]
Suportar a dor. Era o que eu tinha feito por dezoito anos. O que eram mais seis dias?
Mais tarde, uma ordem chegou. Eu deveria cozinhar para Clara, como um pedido de desculpas. Fui arrastada para a cozinha da casa principal, meu corpo protestando a cada movimento.
Preparei a sopa favorita dela, a mesma que eu fazia quando ela estava doente na infância. Minhas mãos tremiam tanto que quase derrubei a panela.
Na sala de jantar, a cena era de pura felicidade doméstica. Henrique segurava a mão de Clara, sorrindo para ela. Meus pais a olhavam com adoração. Ninguém notou minha presença, exceto para pegar a tigela de sopa da minha mão.
"Sofia, sua irmã tem um pedido", disse meu pai, sem me olhar.
Clara sorriu, um sorriso malicioso disfarçado de doçura. "Henrique e eu queremos fazer uma prece especial na árvore sagrada. Precisamos de uma ficha de destino para garantir nossa felicidade. A tradição diz que deve ser escrita com o sangue de um parente próximo, como um sacrifício de amor."
Meu estômago se revirou. Ela estava pedindo meu sangue.
"Isso é... um sacrifício muito grande", eu disse, minha voz fraca.
"É para a felicidade da sua irmã e do seu marido! Qual o problema?" minha mãe interveio, sua voz irritada. "É o mínimo que você pode fazer depois de atacá-la."
Eu olhei para Henrique, esperando que ele dissesse algo, que pusesse um fim a essa loucura. Mas ele apenas me olhou com frieza.
"Sofia, é apenas um pouco de sangue. Não seja dramática. Se você fizer isso, eu prometo que vou esquecer seu comportamento horrível e te tratarei melhor."
Uma promessa vazia. Eu já tinha ouvido tantas. Mas eu estava cansada de lutar. O que importava? Eu ia morrer de qualquer maneira.
"Tudo bem", eu sussurrei.
Eles me levaram para uma pequena sala. Uma freira trouxe uma faca afiada e um pedaço de pergaminho. Henrique segurou meu braço com força enquanto a freira fazia um corte profundo na minha palma. O sangue escorreu, vermelho e quente, sobre o pergaminho.
Com a outra mão, usei uma pena para escrever seus nomes e seus desejos de felicidade eterna, meu próprio sangue manchando as palavras. A dor era intensa, e a perda de sangue me deixou tonta.
Quando terminei, o mundo escureceu novamente.
Acordei na minha cama no convento, a dor no meu peito mais forte do que nunca. Um médico, chamado por uma das freiras mais gentis, estava ao meu lado. Ele tinha um olhar grave.
"Minha senhora", ele disse, sua voz baixa e cheia de pesar. "Seus pulmões... estão falhando. Receio que você tenha poucos dias de vida."
Poucos dias. O sistema não estava mentindo.
Henrique foi informado. Ele invadiu meu quarto mais tarde, seu rosto uma máscara de raiva e incredulidade.
"O que é essa história de que você está morrendo?" ele exigiu. "É mais um de seus truques para chamar a atenção? Para ofuscar a recuperação de Clara?"
Eu o encarei da cama, a fraqueza me consumindo. "Não é um truque, Henrique."
"Não acredito em você!", ele gritou. "Você é forte! Você sempre se cura! Está fazendo isso para nos fazer sentir culpados, não é? Bem, não vai funcionar! Clara precisa de mim. Ela é a única que importa!"
Ele se virou e saiu, batendo a porta com força.
Naquele momento, eu percebi. Mesmo que eu morresse na frente deles, eles não se importariam. Eles provavelmente me culpariam por estragar o dia deles. A última centelha de esperança que eu tinha se apagou.
A liberdade, eu entendi, não viria de seu afeto. Viria da minha própria morte.