O cheiro de mofo e poeira invadia minhas narinas enquanto eu estava amarrada em um armazém abandonado.
Minha captora, Larissa, a garota que minha família patrocinava, sorria vitoriosa, revelando seu delírio perturbador: ela se convenceu de que é a verdadeira filha da minha família, trocada no nascimento.
Meus pulsos doíam, o pano em minha boca tinha gosto de sujeira, e o terror se misturava à confusão.
Ela me ofereceu uma última ligação. Meu coração se encheu de esperança: Pedro, meu noivo, me salvaria.
Mas a voz dele, do outro lado da linha, era fria e impaciente.
"Ana Clara, você roubou a vida da Larissa, este é o preço que você deve pagar."
A linha ficou muda.
Traída, eu fui arrastada para a beira do rio, pronta para o fim.
Gabriel, tio de Pedro, surgiu das sombras e pulou na água gelada para me salvar, pagando com a própria vida em minha vida passada.
De repente, acordei novamente no armazém, o cheiro de mofo e poeira ainda presente, meus pulsos amarrados e Larissa ainda sorrindo.
Eu estava de volta.
Desta vez, não haveria lágrimas, nem esperança em um traidor.
O capanga tirou a mordaça da minha boca.
Olhando diretamente nos olhos de Larissa, minha voz firme e clara, sem um pingo de medo, eu disse: "Eu quero ligar para o meu irmão. Fernando."
O cheiro de mofo e poeira enchia minhas narinas, a escuridão do armazém abandonado era quase total, quebrada apenas por uma única lâmpada fraca que balançava no teto.
Meus pulsos doíam, amarrados com força atrás das costas, e o pano áspero em minha boca tinha gosto de sujeira.
Dois homens robustos, capangas, me observavam com olhares vazios, mas a verdadeira fonte do meu terror estava parada na minha frente, sorrindo.
Larissa.
A estudante carente que minha família patrocinava, a garota que meu irmão, Fernando, descreveu uma vez com um comentário inocente.
"Que coincidência, você e minha irmã nasceram no mesmo dia, até a hora é a mesma."
Essa frase, dita de forma casual, plantou uma semente de delírio na mente dela.
Ela se convenceu de que era a verdadeira filha da minha família, trocada na maternidade, e que eu, Ana Clara, era a impostora que havia roubado sua vida.
Agora, ela estava aqui para tomar o que acreditava ser seu por direito.
"Você deve estar se perguntando por que está aqui, não é, Ana Clara?" , a voz dela era doce, mas carregada de um veneno que eu nunca tinha percebido antes.
Eu a encarei, o medo se misturando com a confusão.
"É simples. Vou pegar de volta o que é meu. A vida que você roubou."
Ela se agachou na minha frente, o rosto dela perto do meu.
"Mas antes de você morrer, vou ser generosa. Vou deixar você fazer uma última ligação. Quem você vai escolher? Mamãe? Papai? Ou talvez... seu noivo, Pedro?"
O nome dele me deu um pingo de esperança. Pedro. Meu noivo, o homem que eu amava. Ele me salvaria.
Um dos capangas tirou a mordaça da minha boca. Minha voz saiu trêmula.
"Pedro... eu quero ligar para o Pedro."
Larissa sorriu, um sorriso vitorioso, e fez um sinal para o capanga. Ele discou o número e colocou o telefone no meu ouvido.
O telefone chamou uma, duas, três vezes. Finalmente, ele atendeu.
"Ana Clara? O que foi agora? Estou ocupado."
A voz dele era impaciente, fria. Não havia preocupação, apenas irritação.
"Pedro, socorro! Fui sequestrada! Estou em um armazém abandonado, eu não sei onde..." , minha voz era um fio de desespero.
Houve um silêncio do outro lado da linha, e então eu ouvi a voz de Larissa rindo ao fundo, perto do telefone.
O coração de Pedro se tornou gelo. A voz dele, quando voltou, era desprovida de qualquer emoção que eu conhecia.
"Ana Clara, você roubou a vida da Larissa, este é o preço que você deve pagar."
A linha ficou muda.
O telefone caiu da mão do capanga e bateu no chão de concreto. O som ecoou no armazém e no meu coração partido.
Traição.
A dor foi mais aguda do que qualquer faca.
Larissa riu alto. "Parece que seu amado noivo fez a escolha dele."
Os capangas me levantaram e me arrastaram para fora, em direção ao rio escuro que corria atrás do armazém. A água fria da noite batia contra as margens.
Eles me empurraram para a beirada. Eu fechei os olhos, esperando o fim.
"Parem!"
Uma voz gritou na escuridão.
Nós todos nos viramos. Gabriel, o tio de Pedro, estava lá, ofegante, o rosto pálido sob a luz da lua.
Ele correu em nossa direção, mas os capangas eram mais fortes. Eles me empurraram.
A água gelada me engoliu. Eu me debati, a água enchendo meus pulmões.
Então, senti braços fortes ao meu redor. Gabriel. Ele tinha pulado atrás de mim.
Ele lutou para nos manter na superfície, mas sua saúde sempre foi frágil. Ele tossia, exausto.
"Ana... Clara..."
Ele sussurrou meu nome antes que a força o abandonasse completamente.
Afundamos juntos na escuridão fria do rio.
...
Eu acordei com um solavanco, ofegante.
Estava de volta ao armazém abandonado.
Meus pulsos ainda estavam amarrados. O pano ainda estava na minha boca.
Larissa estava na minha frente, com o mesmo sorriso venenoso.
"Mas antes de você morrer, vou ser generosa. Vou deixar você fazer uma última ligação. Quem você vai escolher?"
Eu estava de volta. Tinha voltado no tempo.
Desta vez, não haveria lágrimas. Não haveria esperança em um traidor.
O capanga tirou a mordaça.
Eu olhei diretamente nos olhos de Larissa, minha voz firme e clara, sem um pingo de medo.
"Eu quero ligar para o meu irmão. Fernando."
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O sorriso de Larissa vacilou por um instante, uma sombra de surpresa passando por seus olhos.
Ela provavelmente esperava que eu escolhesse Pedro de novo, que eu me agarrasse àquela falsa esperança até o fim.
Mas a Ana Clara que tinha se afogado no rio não existia mais.
"Seu irmão?" , ela zombou, recuperando a compostura. "Acha que ele pode te salvar? Ele nem sabe onde você está."
Ela se aproximou, o tecido barato de seu vestido roçando no meu rosto enquanto ela se inclinava.
"Não importa. De qualquer forma, é apenas uma formalidade."
Ela fez um sinal para o capanga, que discou o número de Fernando. Enquanto o telefone chamava, Larissa começou a se divertir. Ela puxou meu cabelo com força, me forçando a olhar para ela.
"Sabe, eu sempre odiei você" , ela sussurrou. "Com suas roupas caras, seus carros, sua vida perfeita. Tudo isso deveria ter sido meu."
Ela agarrou a gola do meu vestido de grife e começou a rasgá-la. O som do tecido se partindo ecoou no silêncio.
"Este vestido... aposto que custa mais do que minha família ganha em um ano. Você não merece nada disso."
Eu a encarei, deixando-a ver a calma em meus olhos. Ela queria me ver chorar, implorar. Eu não lhe daria essa satisfação.
Na minha vida passada, eu teria entrado em pânico. Teria gritado e chorado, tornando tudo mais fácil para ela.
Mas agora, eu sabia exatamente o que estava acontecendo. Eu sabia da traição de Pedro. Eu sabia da loucura de Larissa.
E eu sabia que minha única chance era meu irmão.
A ligação foi atendida. A voz preocupada de Fernando encheu a linha.
"Ana? Onde você está? Seus guarda-costas disseram que você desapareceu!"
Larissa sorriu com maldade e colocou o telefone perto da minha boca. "Diga adeus, 'irmãzinha'."
Eu respirei fundo. Precisava ser rápida. Precisa ser clara.
"Fernando! Armazém, rio, Larissa!" , gritei as palavras-chave o mais rápido que pude.
A expressão de Larissa mudou de presunção para pânico.
Ela não esperava isso.
Ela arrancou o telefone da mão do capanga e o jogou contra a parede com toda a força. O aparelho se espatifou em mil pedaços.
"Sua vadia esperta!" , ela gritou, o rosto contorcido de raiva. "Você acha que isso vai te salvar? Quando ele chegar aqui, você já será comida de peixe!"
Eu a encarei em silêncio.
Eu sabia que meu irmão entenderia. Ele era inteligente e tinha recursos. As palavras que eu disse eram suficientes. Ele saberia o que fazer.
Larissa, em sua obsessão, não conseguia entender o vínculo que eu tinha com minha família. Ela estava presa em sua fantasia de ter sido trocada na maternidade, uma ideia ridícula que nasceu de um comentário inocente.
Meu irmão uma vez mencionou que meu pai mandou construir uma ala de maternidade particular na nossa casa de campo só para o meu nascimento, porque minha mãe queria o máximo de privacidade e conforto. Nós nunca pisamos em um hospital público. A ideia de uma troca era impossível.
Mas Larissa estava determinada a acreditar em sua própria mentira.
"Você sabe, o Pedro me ajudou a planejar tudo isso" , disse Larissa, tentando me provocar. "Ele nunca te amou. Ele só estava interessado no seu dinheiro. Ele me disse que assim que você morresse, ele se casaria comigo, a verdadeira herdeira."
Eu não reagi. A dor da traição de Pedro já tinha me matado uma vez. Desta vez, era apenas um fato frio e duro. Ele era um tolo oportunista, e teria o que merecia.
Meu irmão, Fernando, não era um homem com quem se brincava. Ele protegia nossa família com uma ferocidade implacável. Se alguém tocasse em um fio de cabelo meu, ele moveria céus e terra para fazê-los pagar.
Larissa e Pedro não tinham ideia do inferno que estavam prestes a desencadear.
"Levem-na!" , Larissa ordenou aos capangas, a paciência dela se esgotando. "Joguem-na no rio agora!"
Eles me agarraram pelos braços e começaram a me arrastar para fora.
Desta vez, eu não lutei fisicamente. Eu estava salvando minha energia, esperando.
Eu sabia que a ajuda estava a caminho. A questão era se chegaria a tempo.
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