No porão úmido e frio, a escuridão era minha única companhia, e a dor rasgava meu corpo enquanto eu trazia ao mundo o filho do homem que me arrastou para esse inferno. Oito meses de cativeiro, desde o dia em que Pedro, meu noivo por uma década, me vendeu para quinze de seus "amigos" na nossa noite de núpcias. As risadas deles, as perguntas sobre a paternidade do meu filho ecoavam na minha mente, cada palavra, uma facada.
"Não vá embora tão rápido, eu e meus irmãos ainda estamos apostando de quem é esse bastardo!" O choro fraco do meu bebê durou pouco, assim como minha própria vida, tirada pelo ódio e pela traição.
Morri desejando vingança contra Pedro, Ana-a amante pela qual ele me humilhou-e todos que me causaram essa dor indizível.
Então, abri os olhos novamente.
A luz do sol forte me cegou, e eu estava na sala de estar luxuosa da mansão da família Silva, meu pai à minha frente, preocupado, e lá estava ele: Pedro. Ele e seus pais estavam novamente propondo o investimento de cem milhões da minha família, usando o casamento como pretexto. Era o dia em que minha desgraça começou na vida passada. Mas agora, eu sabia. Não era um pesadelo; era uma segunda chance.
Meu ódio explodiu em chamas.
"Pai, eu não vou me casar com Pedro", declarei, chocando a todos. O sorriso de Pedro congelou, sua irritação mal contida. Ele achou que eu estava brincando, tentando fazê-lo ciumento. Mal sabia ele que eu preferia mil vezes me casar com seu irmão supostamente "inválido", Artur, um homem de quem eu havia mal percebido a bondade silenciosa na minha vida passada.
"Eu prefiro ele. Cem milhões de vezes", eu disse, olhando diretamente nos olhos furiosos de Pedro. Ele ia pagar. Desta vez, as lágrimas seriam dele.
A escuridão do porão era úmida e fria, e o cheiro de mofo e sangue se misturava no ar.
Lívia sentia uma dor excruciante rasgando seu corpo. O parto era difícil, e ela estava sozinha.
Oito meses. Oito meses presa naquele inferno, desde o dia em que Pedro a arrastou para cá.
As últimas palavras dele ainda ecoavam em sua mente, frias e cruéis. "Não vá embora tão rápido, eu e meus irmãos ainda estamos apostando de quem é esse bastardo!"
Bastardo. Era assim que ele chamava o filho em seu ventre.
A dor se intensificou, uma onda violenta que a fez gritar. Mas ninguém ouviu. Ninguém viria.
Com um último esforço, ela sentiu o bebê sair. Um choro fraco cortou o silêncio do porão, mas durou pouco. Assim como a vida de Lívia, a pequena vida se extinguiu quase que instantaneamente.
Seus olhos perderam o foco, o rosto de Pedro surgindo em sua mente. O homem que ela amou por dez anos. O homem que a vendeu para quinze de seus amigos na noite de núpcias.
Ela se lembrou da felicidade estúpida que sentiu um mês depois, quando levou o relatório de gravidez para ele, pensando que um filho poderia consertar tudo.
Encontrou-o em um bar, rindo com os amigos.
"Vocês acham que a Lívia foi usada por quinze homens, de quem é o filho na barriga dela?"
A risada geral foi sua resposta.
"Pedro, eu só fiz três vezes, não pode ser meu, certo?"
"Eu acho que o João foi o mais selvagem naquela noite, a Lívia quase enlouqueceu, aposto cem mil! É dele!"
O mundo de Lívia desmoronou. Não era Pedro. Nunca foi Pedro naquela noite. Foram os amigos dele. Quinze deles.
Ela correu para confrontá-lo, com o coração em pedaços.
Ele a olhou com indiferença. "Por que chorar? Se não fosse pela sua família me ameaçando com o investimento, forçando a Ana a ir embora, eu faria isso com você?"
"Eu te digo, quando a Ana me perdoar, eu te deixo em paz."
O divórcio foi sua única saída, mas ele a ameaçou com o vídeo daquela noite e a trancou no porão.
Agora, morrendo no chão frio, o ódio era a única coisa que a mantinha consciente. Um ódio profundo por Pedro, por Ana, por todos eles.
Ela fechou os olhos, levando consigo seu bebê e seu ódio.
"Lívia? Filha, você está bem? Você está pálida."
Uma voz familiar a chamou, cheia de preocupação.
Lívia abriu os olhos lentamente. A luz do sol forte a fez piscar. Ela não estava no porão escuro. Estava na sala de estar luxuosa da mansão da família Silva.
Seu pai estava sentado à sua frente, com o rosto vincado de preocupação. Ao lado dele, o Sr. e a Sra. Mendes sorriam de forma bajuladora.
E ali, no sofá oposto, estava ele.
Pedro.
Ele a olhava com uma expressão de falsa ternura, a mesma que a enganou por dez anos.
"Lívia, querida, meu pai está propondo que usemos o investimento de cem milhões da sua família como nosso fundo de casamento. O que você acha?", ele disse, com a voz suave que agora a enojava.
A cena era terrivelmente familiar.
Era o dia. O dia em que os Mendes vieram pedir o investimento para salvar sua empresa da falência, usando o casamento como pretexto. O dia em que sua vida de desgraça começou.
Ela tinha renascido.
Uma onda de náusea a atingiu ao se lembrar do porão, do sangue, da dor, do choro fraco de seu bebê. Aquele inferno não tinha sido um pesadelo. Foi sua vida passada.
O ódio, antes uma brasa moribunda, explodiu em uma fogueira dentro dela.
Seu pai, vendo seu silêncio, interveio. "Lívia ama o Pedro há tanto tempo. Claro que ela concorda. Eu faço o investimento. A única condição é que vocês tratem bem a minha filha."
O coração de seu pai se partia por ela, ele sabia que ela amava Pedro. E por isso, ele estava disposto a dar cem milhões para garantir a felicidade dela. Uma felicidade que ela agora sabia ser uma mentira.
Na sua vida passada, ela teria corado e concordado timidamente, cega de amor.
Mas não desta vez.
Lívia respirou fundo, a calma em sua voz assustando a si mesma.
"Pai."
Todos os olhos se voltaram para ela.
"Eu não vou me casar com o Pedro."
O silêncio na sala foi absoluto. O sorriso dos Mendes congelou. O pai dela a olhou, chocado. Pedro franziu a testa, a irritação aparecendo em seu rosto perfeitamente controlado.
"Lívia, do que você está falando?", Pedro perguntou, forçando um sorriso. "Não faça brincadeiras. Nós nos amamos."
Lívia soltou uma risada curta e sem humor.
"Nós? Não, Pedro. Você nunca me amou. Você ama a Ana. Todo mundo sabe disso."
O nome de Ana pairou no ar como uma maldição. O rosto de Pedro escureceu.
"Não mencione o nome dela!", ele rosnou.
"Por que não? Porque sua família a forçou a ir embora para que você pudesse se casar comigo e com o dinheiro da minha família?", Lívia continuou, cada palavra uma facada na hipocrisia deles. "A verdade te incomoda, Pedro?"
O pai de Lívia olhou de sua filha para Pedro, a confusão e a suspeita crescendo em seus olhos.
"O que está acontecendo aqui?", ele perguntou com firmeza.
Antes que alguém pudesse responder, Lívia se levantou. Ela olhou para os Mendes, depois para Pedro, e então para seu pai.
"Eu não vou me casar com Pedro Mendes", ela repetiu, com uma clareza de aço. "Mas a família Silva ainda fará o investimento. E o casamento ainda acontecerá."
O Sr. Mendes pareceu aliviado por um segundo, antes da confusão voltar. "Mas... se não é com o Pedro, então com quem?"
Lívia olhou para a porta, como se esperasse alguém. Então, ela se virou e chocou a todos na sala.
"Eu vou me casar com o outro filho da família Mendes."
Pedro riu alto, um som debochado. "O quê? Meu irmão? O Artur? Você está louca, Lívia? Ele é um inválido, um doente que mal sai do quarto. Você prefere um aleijado a mim?"
Naquele momento, uma memória da vida passada brilhou na mente de Lívia. Um dia chuvoso, quando Pedro a humilhou na frente de seus amigos por um erro bobo. Ela correu para o jardim, chorando. Foi Artur quem apareceu, mancando um pouco, e lhe ofereceu um guarda-chuva e um lenço, sem dizer uma palavra, apenas com um olhar de profunda tristeza e preocupação. Ele a protegeu silenciosamente, um gesto que ela, em sua obsessão por Pedro, mal notou na época. Ele sempre esteve lá, nas sombras, um protetor silencioso.
Aquele homem doente e "inválido" tinha mais humanidade em seu dedo mínimo do que Pedro em todo o seu corpo.
"Sim", disse Lívia, olhando diretamente nos olhos furiosos de Pedro. "Eu prefiro ele. Cem milhões de vezes."
Ela se virou para seu pai, sua voz suavizando pela primeira vez.
"Pai, essa é a minha condição. O investimento e o casamento são para Artur Mendes. Não Pedro."
Seu pai, embora chocado e confuso com a mudança repentina de sua filha, viu a determinação inabalável em seus olhos. Era uma força que ele nunca tinha visto nela antes. Ele amava sua filha acima de tudo. Se era isso que ela queria, ele a apoiaria.
Ele assentiu lentamente. "Que assim seja."
A expressão no rosto de Pedro era uma mistura de choque, fúria e humilhação. Ele não conseguia acreditar no que estava ouvindo. A mulher que o perseguia como um cachorrinho por uma década o estava rejeitando publicamente por seu irmão doente.
Desta vez, a noite de núpcias seria muito diferente. E as lágrimas, desta vez, seriam de Pedro.
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No dia seguinte, Lívia decidiu ir ao seu ateliê de vestidos de noiva favorito para cancelar o pedido que havia feito em sua vida anterior. Era um passo simbólico, cortar os últimos laços com aquele passado doloroso.
Ela estava examinando os tecidos quando a porta da loja se abriu, e um casal entrou.
Era Pedro e Ana.
Ana se agarrava ao braço de Pedro, com um olhar presunçoso no rosto. Ela usava um vestido branco simples, tentando parecer inocente e pura.
Pedro viu Lívia e seu rosto se contorceu em uma carranca. Ele marchou até ela.
"Lívia, o que você está fazendo aqui?", ele perguntou com arrogância, como se ela não tivesse o direito de estar ali. "Você veio rastejando de volta? Percebeu o erro estúpido que cometeu?"
Lívia nem sequer ergueu os olhos do catálogo de rendas em suas mãos.
"Estou ocupada, Pedro. Se me der licença."
Sua frieza o irritou. Ele estava acostumado com a adoração dela, não com essa indiferença gelada.
Ana se aproximou, sua voz doce e venenosa. "Lívia, não seja assim. Pedro está preocupado com você. Nós estamos. A decisão que você tomou ontem... foi tão impulsiva. Casar-se com Artur? Por favor, todos sabem da condição dele. Você está se jogando fora por um capricho?"
"Minha vida, minhas decisões", respondeu Lívia, finalmente olhando para eles. Seu olhar era vazio, desprovido de qualquer emoção que eles esperavam ver. "Isso não diz respeito a vocês."
Pedro riu, um som desagradável. "Não diz respeito a nós? Você me amou por dez anos, Lívia. Você realmente acha que pode simplesmente me descartar e se casar com meu irmão inútil? Você está fazendo isso para me atingir, não é? Para me fazer sentir ciúmes."
Ele parecia tão convencido de sua própria importância que era quase patético.
"Ciúmes?", Lívia repetiu a palavra como se fosse uma piada. "Pedro, você se superestima. Eu não sinto nada por você, exceto talvez um leve nojo."
A máscara de Pedro finalmente caiu. A raiva brilhou em seus olhos. "Você vai se arrepender disso, sua..."
"Pedro, querido, não se exalte", Ana o interrompeu, colocando a mão em seu peito e olhando para Lívia com olhos marejados. "Lívia, eu sei que você está chateada comigo. Eu sinto muito por ter causado problemas entre vocês. Eu vou embora, eu juro. Por favor, não destrua seu futuro com Pedro por minha causa. Ele te ama."
A atuação era digna de um prêmio. Lívia quase teve que se conter para não aplaudir.
"Ana, guarde seu teatro para outra pessoa", disse Lívia, entediada. "Eu já tomei minha decisão. E só para deixar claro para os dois, já que parecem ter dificuldade de entender."
Ela se virou para a gerente da loja, que observava a cena com desconforto.
"Gostaria de cancelar o pedido do vestido de noiva em nome de Pedro Mendes. E, por favor, agende uma nova consulta para mim e meu noivo."
A gerente assentiu, confusa. "Claro, Sra. Silva. E quem é o noivo?"
Lívia sorriu, um sorriso genuíno e afiado que não alcançou seus olhos. Ela olhou diretamente para Pedro.
"Artur Mendes."
O queixo de Pedro caiu. Ana parou de fingir chorar, o choque estampado em seu rosto. Eles realmente pensaram que ela estava blefando.
"Você não pode estar falando sério", Pedro sibilou, a voz baixa e ameaçadora.
"Eu nunca falei tão sério em toda a minha vida", disse Lívia.
A raiva de Pedro explodiu. "Você acha que isso é um jogo? Você acha que pode simplesmente me humilhar assim? Eu vou fazer você se arrepender do dia em que nasceu, Lívia. Você e aquele aleijado imprestável."
Lívia o olhou de cima a baixo, um desprezo claro em seu rosto.
"Ameaças, Pedro? Que original. Agora, se me dão licença, eu tenho um casamento para planejar."
Ela se virou e caminhou em direção à saída, sem lhes dar um segundo olhar. Deixou-os para trás, parados no meio da loja, a fúria e a incredulidade estampadas em seus rostos.
Pela primeira vez em muito tempo, Lívia sentiu uma pontada de satisfação. A vingança estava apenas começando.
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