Passei vinte e um anos tentando ser a Princesa da Máfia perfeita, tratando minha meia-irmã ilegítima, Mila, com nada além de gentileza.
Essa bondade foi exatamente o que me matou.
Meu marido, Lucas, não me levou para uma lua de mel. Ele me arrastou para o porão à prova de som da nossa mansão.
Mila também estava lá. Não para me ajudar, mas para se vangloriar.
Ela riu enquanto admitia ter envenenado nossa mãe com arsênico, observando com alegria doentia enquanto Lucas aproximava uma faca serrilhada do meu peito.
"Você sempre foi boazinha demais, Sera", ele debochou, rasgando minha pele enquanto eu implorava por misericórdia.
Eu morri naquela sala fria e escura, engasgando com meu próprio sangue e com o gosto amargo da traição.
Mas eu não continuei morta.
Acordei ofegante, agarrando um peito que estava liso e sem cicatrizes.
O calendário na minha mesa de cabeceira marcava 12 de maio de 2018.
Cinco anos atrás. A mesma manhã em que eu deveria assinar o contrato de casamento que selaria meu destino.
Olhei para o papel sobre a penteadeira.
Na minha vida passada, eu o assinei com a mão trêmula.
Desta vez, abri meu Zippo de prata e observei as chamas devorarem o nome de Lucas.
Eu não fiz uma mala com vestidos. Fiz uma mala com uma pistola e uma pilha de dinheiro.
Eu estava indo para o Rio de Janeiro.
Havia apenas um homem perigoso o suficiente para me ajudar a destruir as famílias de São Paulo.
Entrei no clube de luta clandestino, cruzei o olhar com o homem mais letal da sala e sorri.
"Dante Castilho", eu disse.
"Estou aqui para fazer de você um Rei."
Capítulo 1
Serafina POV
A sensação fantasma de uma faca serrilhada rasgando minha pele me acordou aos gritos, embora o som tenha morrido na minha garganta.
Meus pulmões se esforçavam, desesperados por um ar que não cheirasse a mofo e sangue seco. Arranhei meu peito, esperando encontrar o corte que Lucas havia deixado ali, mas meus dedos encontraram uma pele lisa e intacta.
A seda cara da minha camisola grudava no meu corpo encharcado de suor.
Eu não estava no porão. Eu não estava morta.
Tateei em busca do celular na mesa de cabeceira. A luz me cegou por um segundo antes que os números entrassem em foco.
12 de maio de 2018.
Cinco anos atrás. Cinco anos antes de Mila envenenar minha mãe. Cinco anos antes de Lucas Veiga, o homem com quem eu deveria me casar, ver seus homens me arrastarem para a escuridão.
Sentei-me na beira da cama, minhas mãos tremendo. O silêncio da mansão Monteiro era pesado, sufocante. Lá embaixo, eu sabia que meu pai provavelmente estava bebendo um uísque caro em seu escritório, orgulhoso por ter garantido uma união com a família Veiga.
Sobre a penteadeira estava o contrato. O papel era grosso, cor de creme e irrevogável. Um casamento arranjado com Lucas Veiga, um chefe em ascensão que eventualmente se tornaria um monstro.
Levantei-me. Minhas pernas pareciam fracas, mas minha mente se aguçava a cada segundo. O pavor da câmara de tortura estava desaparecendo, substituído por uma pedra fria e dura no centro do meu peito.
Caminhei até a penteadeira e encarei o espelho. A garota que me olhava de volta tinha vinte e um anos, era linda e ingênua. Mas seus olhos eram antigos. Eram os olhos de uma mulher que tinha visto o próprio túmulo.
Peguei o contrato.
Na minha vida passada, eu o assinei. Tentei ser a Princesa da Máfia perfeita. Tentei ser gentil com Mila, a filha ilegítima do meu pai, mesmo quando ela me olhava com uma inveja que podia descascar a pintura da parede.
Essa bondade me matou.
Caminhei até a lareira. Não me preocupei em procurar um fósforo. Usei o isqueiro que Lucas me deu de presente de noivado, um Zippo de prata gravado com nossas iniciais.
Acendi a chama. Ela dançou, faminta e brilhante.
Segurei a ponta do contrato de casamento contra o fogo. O papel se curvou, ficando preto, depois cinza. Observei as chamas devorarem meu nome. Observei-as devorarem o nome de Lucas.
Parecia a primeira respiração profunda que eu dava em anos.
Não fiz mala de roupas. Roupas eram pesadas. Fiz uma mala de dinheiro. Abri o cofre atrás do quadro da Virgem Maria - um cofre que meu pai achava que só ele sabia a combinação. Peguei cada maço de notas lá dentro.
Peguei meu passaporte.
Fui até a escrivaninha e puxei uma folha de papel timbrado. Não escrevi um adeus choroso. Não implorei por perdão.
*Eu me demito.*
Duas palavras. Era tudo o que eles mereciam.
Deslizei uma pequena pistola com cabo de madrepérola para dentro da minha bolsa. Era uma peça decorativa, feita para uma dama, mas ainda podia fazer um buraco em um homem se ele chegasse perto demais.
Saí pela porta do meu quarto e não olhei para trás. O corredor estava escuro. Movi-me como um fantasma, do jeito que aprendi a me mover quando tentava evitar o temperamento de Lucas no futuro.
Saí pela entrada de serviço. O ar da noite estava frio contra minha pele quente.
Um sedã preto esperava no final da entrada de carros. Eu havia chamado o serviço três minutos depois de acordar.
"Para onde, senhorita?", perguntou o motorista, seus olhos me analisando pelo retrovisor.
"Para o aeroporto", eu disse.
"E depois?"
"Rio de Janeiro", sussurrei.
São Paulo era uma jaula. O Rio era uma selva. E na selva, você não precisava de pedigree. Você só precisava de dentes.
Serafina POV
O Rio de Janeiro era uma cicatriz de neon rasgada na escuridão do asfalto. Cheirava a desespero, perfume barato e dinheiro velho sendo lavado como novo.
Eu amei imediatamente.
Tia Sofia estava me esperando na área VIP do Cassino Inferno Carioca. Ela havia sido banida para cá anos atrás pelo meu pai - uma sentença pelo crime de possuir ambição demais em um corpo feito para o silêncio.
Ela me olhou por cima da borda de sua taça de martini. Seus olhos eram afiados, avaliadores. Ela não parecia uma mulher que havia sido exilada. Parecia uma rainha reinando no inferno.
"Você tem a aparência de uma mulher que acabou de queimar uma igreja, Serafina", disse ela, sua voz se enrolando como fumaça.
"Eu queimei um casamento", corrigi. "Preciso de um trabalho, Sofia. E preciso de proteção."
Ela riu, um som seco e quebradiço. "Você é uma Monteiro. Você é frágil. Você foi feita para lençóis de seda e canções de ninar."
Retirei a pistola com cabo de madrepérola da minha bolsa e a coloquei sobre a mesa. O metal encontrou o mármore com um baque pesado e deliberado.
"Eu não sou frágil", eu disse. "Não mais."
Sofia encarou a arma, depois voltou a me olhar. Um sorriso lento se espalhou por seus lábios vermelhos.
"Então você deveria conhecer meu sobrinho."
Ela me guiou para as entranhas arquitetônicas do cassino. O ar ficou mais quente, pesado de suor e agressão. O som das máquinas caça-níqueis desapareceu, substituído pelo baque úmido de punhos contra carne e o rugido de uma multidão sedenta por sangue.
Um clube de luta clandestino.
No centro do ringue, um homem estava sistematicamente desmontando um oponente com o dobro do seu tamanho. Ele se movia com uma graça letal, eficiente e brutal. Ele não lutava com raiva; lutava com uma indiferença aterrorizante.
Ele se esquivou de um golpe pesado e cravou o cotovelo na têmpora do outro homem. O estalo ecoou pela sala. O oponente caiu como uma pedra.
O vencedor ficou sobre o corpo, seu peito subindo e descendo levemente. Ele estava coberto de suor e tatuagens que pareciam avisos.
"Aquele é Dante Castilho", disse Sofia. "A Ovelha Negra. O homem de quem São Paulo tem pavor."
Dante olhou para cima. Seus olhos se fixaram nos meus do outro lado da sala lotada. Eram poços escuros e sem fim. Ele não desviou o olhar. Ele não sorriu. Ele me olhou como se eu fosse um problema que ele precisava resolver, ou um prêmio que ele pretendia tomar.
Ele saiu do ringue, as cordas gemendo sob seu peso, e ignorou a toalha que um assistente lhe ofereceu. Ele caminhou direto até nós. De perto, ele irradiava calor e violência. Cheirava a ferro e sabonete caro.
"Quem é essa?", ele perguntou a Sofia, embora seu olhar permanecesse fixo em mim, sem piscar.
"Serafina Monteiro", respondi por mim mesma.
"A noiva em fuga", Dante ponderou. Sua voz era profunda, um trovão subterrâneo que vibrou no meu peito. "Ouvi dizer que você deixou Lucas Veiga no altar. Ou melhor, antes mesmo de chegar lá."
"Ele mereceu", eu disse.
Dante se aproximou. Ele era imenso sobre mim, usando seu tamanho para intimidar. Era um teste.
"Você tem mãos macias, Princesa", disse ele, estendendo a mão para roçar os nós dos dedos na minha bochecha. Seu toque era áspero, calejado - uma lixa contra cetim. "Você não dura uma semana nesta cidade."
Agarrei seu pulso. Não me afastei. Cravei minhas unhas na pele sensível do interior de seu braço, com força suficiente para ser registrada como uma ameaça.
"Eu tenho informações, Dante. Sei sobre a carga vindo do Paraguai na semana que vem. Sei que o federal na sua folha de pagamento virou a casaca. E sei que, sem mim, você será um cadáver até sexta-feira."
Os olhos de Dante se estreitaram. A indiferença desapareceu, substituída pelo foco de um predador. Ele não afastou a mão. Ele se inclinou, seus lábios roçando minha orelha.
"Se você estiver mentindo para mim, Serafina, eu mesmo vou te dar de comer aos urubus."
"Eu não estou mentindo", sussurrei de volta.
"Ótimo", disse ele, recuando para me olhar. "Então, bem-vinda à matilha."
Serafina POV
A Via Dutra era uma longa fita preta se estendendo para um nada impiedoso. O calor tremeluzia no asfalto, criando miragens que distorciam o horizonte.
Eu estava no banco do passageiro do SUV blindado de Dante. Ele dirigia, uma mão casual no volante, a outra descansando no console central a centímetros de sua arma.
Estávamos trabalhando juntos há três meses. Nesse tempo, tomamos três cassinos rivais e desmantelamos uma rede de tráfico humano que ousou se instalar em seu território.
Ele ainda não confiava em mim completamente. Mas ele me queria. Eu podia sentir no jeito que seus olhos me seguiam quando eu atravessava uma sala, no jeito que ele ficava um pouco perto demais, sua presença um peso pesado e magnético.
"Você está quieta hoje", disse Dante, sua voz quebrando o silêncio.
"Estou pensando", respondi.
"Sobre o quê?"
"Sobre o atirador."
Dante franziu a testa, olhando de soslaio para mim. "Que atirador?"
Na minha vida passada, eu li o relatório da polícia até as palavras queimarem em minhas retinas. *Dante Castilho, assassinado na Rodovia Presidente Dutra, cinco quilômetros após a divisa.* Um único tiro na cabeça. Foi o evento que mergulhou as famílias da costa no caos e permitiu que Lucas expandisse seu poder.
"Encosta o carro", eu disse, minha voz tensa.
Dante não diminuiu a velocidade. "Estamos atrasados para a reunião com o Cartel, Serafina. Pare de brincadeira."
"Eu não estou brincando!", gritei. "Encosta o carro agora!"
Quando ele não reagiu rápido o suficiente, agarrei o volante. Dante praguejou violentamente e pisou no freio. O SUV pesado derrapou até parar no acostamento de cascalho, a poeira subindo ao nosso redor como uma nuvem sufocante.
"Você enlouqueceu?", ele rosnou, virando-se para mim. Seu rosto estava contorcido em fúria e incredulidade.
"Abaixa!", gritei.
Não esperei que ele reagisse. Soltei meu cinto de segurança и me joguei sobre o console central, derrubando-o. Meu corpo cobriu o dele, pressionando-o com força contra a porta do motorista.
O vidro se estilhaçou um instante depois.
Um som como um trovão rasgou o ar. Senti uma dor quente e lancinante explodir no meu ombro esquerdo. O impacto me jogou com mais força contra Dante.
Outro tiro ricocheteou na lataria blindada do carro.
Dante se moveu instantaneamente. Ele me empurrou para o chão do carro, seu corpo agora cobrindo o meu, um escudo humano. Ele sacou a arma antes que eu pudesse processar a dor.
"Fica aí", ele ordenou. Sua voz era gelo puro.
Ele chutou a porta para abri-la e rolou para o asfalto. Ouvi três tiros rápidos. Depois, silêncio.
Apertei meu ombro. O sangue escorria pela minha blusa branca, quente e pegajoso contra meus dedos.
Dante apareceu na porta aberta um momento depois. Ele olhou para o sangue em minhas mãos. Seu rosto ficou pálido, uma expressão de horror genuíno que eu nunca tinha visto nele antes.
"Você levou um tiro", disse ele. Não era uma pergunta; era uma constatação devastadora.
"Eu te avisei", disse eu, com os dentes cerrados, lutando contra a tontura. "Eu te avisei sobre o atirador."
Ele se esticou e me puxou para fora do carro, levantando-me em seus braços como se eu não pesasse nada. Ele não olhou para o assassino morto na colina. Ele só olhava para mim.
"Por quê?", ele perguntou, a voz rouca. "Por que você fez isso?"
"Porque", eu ofeguei, a dor começando a fazer o mundo girar. "Eu preciso de você vivo, Dante. Temos um império para construir."
Ele pressionou a testa contra a minha. Sua pele queimava como se estivesse com febre.
"Você é minha, Serafina", ele rosnou contra minha pele, as palavras vibrando através de mim. "Está me ouvindo? Você não morre. Você não vai embora. Você me pertence agora."
Sorri fracamente antes que a escuridão me levasse.
Eu sabia. Esse era o plano o tempo todo.