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Renascido da Fria Traição Deles

Renascido da Fria Traição Deles

Autor:: Seraphina
Gênero: Romance
O contrato de casamento que uniria nossos dois impérios corporativos estava sobre a mesa, bem na minha frente. Eu deveria assinar e entregar minha vida a Caio Medeiros, o homem que eu amava desde que éramos crianças. Mas meu amor foi reduzido a cinzas na noite em que o lustre caiu. Quando a estrutura de cristal veio abaixo, meu noivo não me puxou para um lugar seguro. Ele me empurrou para o lado para proteger minha prima, Carla, com o próprio corpo. Ele a escolheu. Instintivamente. Minha própria mãe correu para o lado dela e, mais tarde, me disse que eu precisava ser mais compreensiva. "A Carla sempre foi tão frágil, Elisa. O Caio fez o que era certo." Foi então que eu me lembrei de tudo. Na minha vida passada, eu morri sozinha no quarto frio de um hospital, por causa de um câncer que descobriram tarde demais. Caio estava em uma viagem romântica para Fernando de Noronha com a Carla. Minha mãe estava em um almoço de caridade. Meu último pensamento foi um arrependimento tão profundo que poderia rasgar a própria realidade. Eu tinha desperdiçado minha única e preciosa vida com pessoas que me viam apenas como um degrau. Mas agora, eu estava de volta. A caneta em minha mão, o contrato sobre a mesa. Caio queria a Carla. Minha mãe a adorava. Ótimo. Que ficassem um com o outro. Com a mão firme, tracei uma única linha limpa sobre o meu nome na linha da assinatura e escrevi um novo por cima: CARLA VASCONCELOS. Desta vez, eu viveria por mim mesma.

Capítulo 1

O contrato de casamento que uniria nossos dois impérios corporativos estava sobre a mesa, bem na minha frente. Eu deveria assinar e entregar minha vida a Caio Medeiros, o homem que eu amava desde que éramos crianças.

Mas meu amor foi reduzido a cinzas na noite em que o lustre caiu. Quando a estrutura de cristal veio abaixo, meu noivo não me puxou para um lugar seguro. Ele me empurrou para o lado para proteger minha prima, Carla, com o próprio corpo.

Ele a escolheu. Instintivamente.

Minha própria mãe correu para o lado dela e, mais tarde, me disse que eu precisava ser mais compreensiva. "A Carla sempre foi tão frágil, Elisa. O Caio fez o que era certo."

Foi então que eu me lembrei de tudo. Na minha vida passada, eu morri sozinha no quarto frio de um hospital, por causa de um câncer que descobriram tarde demais. Caio estava em uma viagem romântica para Fernando de Noronha com a Carla. Minha mãe estava em um almoço de caridade.

Meu último pensamento foi um arrependimento tão profundo que poderia rasgar a própria realidade. Eu tinha desperdiçado minha única e preciosa vida com pessoas que me viam apenas como um degrau.

Mas agora, eu estava de volta. A caneta em minha mão, o contrato sobre a mesa. Caio queria a Carla. Minha mãe a adorava. Ótimo. Que ficassem um com o outro.

Com a mão firme, tracei uma única linha limpa sobre o meu nome na linha da assinatura e escrevi um novo por cima: CARLA VASCONCELOS.

Desta vez, eu viveria por mim mesma.

Capítulo 1

Ponto de Vista de Elisa Monteiro:

O contrato que selava o fim da minha vida também deveria ser minha certidão de casamento.

"Elisa, pelo amor de Deus, assine logo isso", disse minha mãe, Jocelyn Monteiro, com a voz tão fria e cortante quanto o linho branco engomado da mesa de jantar. "O Caio está a caminho. A família Medeiros espera a confirmação em menos de uma hora."

Seus dedos, adornados com anéis que poderiam financiar um pequeno país, batiam um ritmo impaciente na madeira de mogno polida. O som ecoava a batida frenética do relógio de pêndulo no corredor, cada tique-taque uma contagem regressiva para o fim da minha autonomia.

Eu encarei o documento. Estava impresso em papel grosso e cremoso, do tipo que parecia importante, permanente. Cheirava a dinheiro e advogados. Meus dedos traçaram o selo em relevo do Grupo Medeiros entrelaçado com o das Indústrias Monteiro. Uma fusão. Um casamento. Para eles, era a mesma coisa.

Uma vida atrás - ou talvez apenas no ano passado - eu teria tratado este momento com uma reverência que ele não merecia. Teria imaginado minha mão tremendo de alegria, meu coração acelerado com a ideia de unir minha vida à de Caio Medeiros. Eu o amei, ou pelo menos, amei a ideia dele. Amei o garoto que prometeu me proteger, o homem que eu achava que via por baixo da fachada polida de herdeiro corporativo.

Mas o amor foi arrancado de mim, cauterizado por mil pequenas traições que culminaram em um momento de clareza ofuscante. O Gala Anual da Fundação Monteiro. Uma noite de champanhe, sorrisos falsos e uma experiência de quase morte que serviu como meu despertar final e brutal.

"Estou esperando, Elisa", minha mãe insistiu, seu tom se tornando mais afiado.

Peguei a pesada caneta-tinteiro banhada a ouro deixada para mim. Parecia fria contra minha pele. Não olhei para ela. Não precisava. Eu conhecia o tom exato de decepção que estaria nublando seu rosto perfeitamente maquiado.

Caio chegou naquele momento, seus passos firmes no piso de mármore. Ele não me cumprimentou. Apenas caminhou direto para a mesa, os olhos fixos no contrato.

"Já está assinado?", ele perguntou à minha mãe, afrouxando o nó de sua gravata de seda como se o ar na sala o estivesse sufocando. Ele estava tenso. Eu podia ver no leve tremor de sua mão enquanto a passava por seu cabelo escuro perfeitamente penteado.

Ele era lindo, devastadoramente lindo. O tipo de beleza que fazia as pessoas virarem a cabeça, que estampava as páginas de revistas de negócios sob manchetes como "O Bilionário Mais Cobiçado do Brasil". Ele tinha um maxilar forte, olhos da cor de um mar tempestuoso e um sorriso que poderia desarmar qualquer um.

Qualquer um, menos eu. Não mais.

Lembro-me de Carla suspirando dramaticamente sempre que Caio entrava em uma sala, a mão esvoaçando até o peito. "Ah, Elisa, esse maxilar poderia cortar vidro. Você é a garota mais sortuda do mundo", ela dizia, seus olhos não em mim, mas grudados nele.

Olhei para Caio, meu noivo, o homem que deveria ser meu parceiro para a vida toda. "Preciso de um minuto para ler isso com calma", eu disse, minha voz surpreendentemente firme. "Pode esperar lá fora, Caio. Tenho certeza de que você tem coisas mais importantes para fazer."

Eu sabia que ele tinha. Ou melhor, alguém mais importante. Carla provavelmente estava esperando ao telefone, ansiosa pela notícia de que o acordo - que eu - era oficialmente dele.

Um brilho de alívio cruzou seu rosto, tão rápido que eu poderia ter perdido se não tivesse passado anos estudando cada microexpressão sua. "Certo. Boa ideia", disse ele, já se afastando. "Não demore muito."

Ele parou na porta, seu olhar se voltando para minha mãe. "E garanta que ela não faça nada... criativo. A Carla não está se sentindo bem. O estresse de tudo isso está acabando com ela."

A crueldade casual daquilo, a maneira como ele invocou o nome da minha prima como se ela fosse a frágil, a que estava fazendo um sacrifício, trouxe um gosto amargo e familiar à minha boca. Eu não respondi. Apenas mantive meus olhos no papel. Discutir era inútil.

Passei minha vida inteira discutindo, defendendo, explicando. Nunca funcionou. Eles só ouviam o que queriam ouvir.

Caio saiu, seus passos se apressando pelo corredor, e a sala ficou em silêncio novamente, exceto pelo tique-taque do relógio e pela respiração superficial da minha mãe.

Segurei a caneta, os nós dos meus dedos brancos. Minha mão tremia, não de medo, mas de uma raiva tão profunda que parecia uma doença física. A memória do gala me inundou, nítida e vívida.

O enorme lustre de cristal, uma obra-prima de vidro veneziano, começou a balançar. Houve um gemido de metal sob tensão, depois um suspiro coletivo da multidão. Eu estava bem ao lado de Caio, minha mão em seu braço. Carla estava a alguns metros de distância, de costas para nós.

Quando o primeiro caco de cristal caiu, Caio não me puxou para um lugar seguro. Ele nem sequer olhou para mim. Ele se moveu como um raio, me empurrando com tanta força que eu cambaleei para trás, e se jogou sobre Carla, protegendo-a com seu corpo enquanto o lustre desabava.

Ele a protegeu. Instintivamente. Sem um único pensamento por mim, sua noiva, que foi deixada no caminho do vidro estilhaçado.

Eu não me machuquei gravemente, apenas alguns cortes de detritos voadores, mas a ferida emocional foi mortal. Naquela fração de segundo, eu vi a verdade. Ele não me amava. Ele nunca me escolheria. Ele a amava.

Minha mãe correu para o lado de Carla, cuidando dela, verificando ferimentos que ela não tinha, enquanto um estranho me ajudava a levantar. Mais tarde, no hospital, minha própria mãe me disse que eu precisava ser mais compreensiva. "A Carla sempre foi tão frágil, Elisa. O Caio fez o que era certo."

Mesmo quando eu estava morrendo, cheia de um câncer que descobriram tarde demais, eles não estavam lá. Caio estava em uma viagem de negócios, uma viagem que mais tarde descobri ser uma escapada romântica com Carla para Fernando de Noronha. Minha mãe estava em um almoço de caridade.

Eu morri sozinha em um quarto de hospital frio e estéril, o bipe das máquinas minha única companhia. Meu último pensamento coerente foi um arrependimento tão profundo que parecia poder rasgar o universo. Eu tinha desperdiçado minha única e preciosa vida com pessoas que me viam apenas como um degrau.

Uma única lágrima quente escapou e caiu sobre o contrato, borrando a tinta do primeiro parágrafo. Eu a observei se espalhar pelo papel.

Não. Desta vez, não.

A ponta afiada da caneta-tinteiro cravou na carne macia da minha palma. A dor me trouxe de volta à realidade, uma âncora feroz e brilhante em um mar de memórias sufocantes. Desta vez seria diferente.

Meu olhar caiu sobre a linha de assinatura designada para a noiva. "Elisa Monteiro".

Com a mão firme, tracei uma única linha limpa sobre o meu nome. A tinta preta era definitiva, um corte brutal em um futuro que eu me recusava a aceitar. Então, no espaço acima, escrevi um novo nome em letras de forma nítidas e deliberadas.

CARLA VASCONCELOS.

Um pequeno sorriso sem humor tocou meus lábios. Caio queria a Carla. Ele a amava. Minha mãe a adorava, tratava-a mais como filha do que jamais me tratou. Eles a viam como o prêmio. Ótimo. Que ficassem um com o outro. Que ficassem presos um ao outro, não apenas por seu caso sórdido, mas por todo o peso da fusão Monteiro-Medeiros. Este contrato não era apenas uma certidão de casamento; era um documento financeiro que vinculava o cônjuge a responsabilidades corporativas específicas e cláusulas de participação nos lucros.

Assinei meu próprio nome onde era necessário - como testemunha da família Monteiro. Então, tampei a caneta, colocando-a cuidadosamente ao lado do documento alterado.

Levantei-me, minha cadeira não fazendo som no grosso tapete persa. Minha mãe estava ao telefone no corredor, de costas para mim, sua voz um murmúrio baixo.

Saí da sala de jantar, passei pela minha mãe, pelo relógio, e saí pela porta da frente para o ar fresco do outono. Eu não tinha uma mala pronta. Eu não tinha um plano.

Mas, pela primeira vez na minha vida, eu estava livre. E não olhei para trás.

Capítulo 2

Ponto de Vista de Elisa Monteiro:

Carla, é claro, nunca quis as responsabilidades que vinham com o título de noiva Medeiros, apenas o glamour. Ela queria o sobrenome, as joias, a posição social. Ela não queria as reuniões trimestrais do conselho, o planejamento de eventos de caridade ou os jantares intermináveis com executivos engomados que o contrato detalhava explicitamente. Ela queria ser uma esposa mimada, não um ativo corporativo.

Que pena. Agora ela era os dois.

Minha primeira parada foi o banco. Esvaziei sistematicamente meu fundo fiduciário, uma conta que meu avô materno havia criado para mim, intocável pela minha mãe ou pela máquina corporativa dos Monteiro. Não era uma fortuna para os padrões deles, mas era o suficiente. O suficiente para um novo começo.

Comprei um Honda Civic usado com dinheiro vivo, um carro simples e anônimo que não atrairia um segundo olhar. Então eu dirigi. Não tinha um destino em mente, apenas uma direção: para longe.

Horas depois, me vi parando em um motel barato na beira de uma rodovia a centenas de quilômetros de São Paulo. O quarto cheirava a cigarro velho e desinfetante de pinho. Era sujo e deprimente, mas também era um santuário. Era um lugar onde ninguém sabia meu nome.

Naquela noite, deitada no colchão irregular, ouvi o som dos caminhões passando na estrada. O barulho deveria ser irritante, mas era uma canção de ninar da fuga. Quando estava prestes a adormecer, ouvi vozes do quarto ao lado, abafadas pelas paredes finas. Um homem e uma mulher, seus tons sussurrados, mas cheios de afeto. Não consegui entender as palavras, mas o sentimento era inconfundível.

Uma pontada aguda de algo - inveja, talvez - me atingiu. Eu rapidamente a afastei. Eu não estava correndo em direção ao amor; estava fugindo da imitação tóxica dele que havia definido toda a minha vida.

Adormeci e sonhei com campus universitários, com bibliotecas cheias do cheiro de livros antigos, com uma vida que eu havia abandonado por Caio.

Na manhã seguinte, dirigi até a cidade mais próxima, Curitiba, e encontrei um pequeno apartamento para alugar. Passei o dia comprando móveis de segunda mão e itens básicos. Enquanto desempacotava uma caixa de pratos baratos, ouvi uma conversa da janela aberta do apartamento de baixo.

Era um jovem casal, discutindo. Suas vozes eram altas, cheias de frustração.

"Você disse que estaria em casa! Eu fiz o jantar!", a mulher gritou.

"Apareceu um imprevisto no trabalho, amor, não tive culpa!", o homem retrucou.

A briga escalou, pratos se quebraram, portas bateram. Era feio e cru, mas de uma forma estranha, era mais real do que qualquer conversa que eu já tive com Caio. A raiva deles nascia da expectativa, de uma vida compartilhada passando por um momento difícil. Meu relacionamento com Caio era uma performance, uma peça cuidadosamente roteirizada onde todos sabiam suas falas e ninguém falava com o coração.

Fechei minha janela, bloqueando o barulho. Eu não precisava do drama deles. Já tinha o suficiente do meu.

Alguns dias depois, minha nova vida anônima estava tomando forma. Eu me matriculei em aulas na universidade local, começando o MBA que havia adiado por Caio. O trabalho era desafiador, consumia meu tempo, e eu o recebi de braços abertos. Não deixava espaço para olhar para trás.

Uma tarde, eu estava voltando para meu apartamento da biblioteca do campus, meus braços carregados de livros. Ao virar a esquina da minha rua, vi um carro preto de luxo, com motorista, estacionado no meio-fio. Meu sangue gelou. Era um carro da família Medeiros.

E encostado nele, parecendo completamente fora de lugar no meu bairro decadente, estava Caio.

Ele me viu e seu rosto endureceu. Ele se afastou do carro e veio em minha direção, seu terno caro um contraste gritante com a calçada rachada.

"Elisa." Sua voz era baixa, furiosa. "Que diabos você pensa que está fazendo?"

O peso dos livros em meus braços de repente pareceu imenso. Eu os apertei com mais força, um escudo patético contra a tempestade que eu sabia que estava vindo.

"Estou indo para a aula", eu disse, minha voz neutra.

"Aula?" Ele riu, um som áspero e sem humor. "Você acha que isso é um jogo? Você fugiu. Você me humilhou. Você humilhou minha família."

"Acho que te fiz um favor", respondi, desviando dele para continuar em direção ao meu prédio. "Eu te dei o que você sempre quis. Você está legalmente ligado à Carla agora. Parabéns."

Ele agarrou meu braço, seu aperto surpreendentemente forte. "Não seja ridícula. Você sabe que aquele contrato era para você. A Carla... a Carla foi um erro."

Suas palavras deveriam acalmar, apaziguar, mas apenas alimentaram meu nojo. Um erro. Ele havia arruinado minha vida, meu coração, por um "erro".

Puxei meu braço com força. "Ela é um erro com quem você vai ter um filho, Caio. Ou isso escapou da sua mente?" Eu tinha visto o anúncio online, uma foto cuidadosamente produzida dele e de uma Carla radiante, a mão dela repousando sobre uma barriga pequena, mas visível. A legenda era uma ode nauseante à sua "bênção inesperada".

Seu rosto ficou pálido. Ele estava claramente chocado por eu saber. "Como você... Não importa. Podemos consertar isso. Conseguimos uma anulação. A Carla será amparada. Você e eu, podemos voltar a ser como antes."

"Como antes?" Eu o encarei, vendo-o de verdade pela primeira vez. Não como o garoto que um dia amei, ou o homem poderoso que ele se tornou, mas como uma criança fraca e mimada que achava que podia rearranjar a vida das pessoas como peças em um tabuleiro de xadrez. "O 'como antes' era uma mentira. Eu não vou voltar."

Virei-me e me afastei, sem esperar por uma resposta. Podia sentir seus olhos nas minhas costas, queimando com uma mistura de raiva e incredulidade.

"Você vai se arrepender disso, Elisa!", ele gritou atrás de mim. "Você não consegue sobreviver sem mim! Sem sua família! Eu vou garantir isso!"

A ameaça pairou no ar, pesada e sinistra. Eu não vacilei. Apenas continuei andando, destranquei a porta do meu prédio e a deixei bater atrás de mim, o som um ponto final definitivo no último capítulo da minha antiga vida. O confronto me deixou abalada, mas enquanto subia as escadas para meu pequeno e silencioso apartamento, um novo sentimento começou a criar raízes em meu peito. Não era medo.

Era determinação.

Capítulo 3

Ponto de Vista de Elisa Monteiro:

Caio cumpriu sua palavra. No dia seguinte, fui convocada à sala da Reitora.

A Reitora Albuquerque era uma mulher severa e pragmática, na casa dos cinquenta anos, com olhos penetrantes que pareciam ver através de você. Caio estava sentado na cadeira em frente à sua mesa, parecendo calmo e composto, como se fosse o dono do lugar. Ele provavelmente achava que era. A família Medeiros era uma grande doadora da universidade.

"Senhorita Monteiro", começou a Reitora, sua voz neutra. "O Sr. Medeiros trouxe algumas... informações preocupantes à minha atenção. Ele alega que você está aqui sob falsas pretensões."

Encarei seu olhar diretamente, recusando-me a ser intimidada. "Com todo o respeito, Reitora, minha admissão foi baseada no meu histórico acadêmico e minhas mensalidades estão pagas em dia. O que o Sr. Medeiros alega é um assunto pessoal, não universitário."

Caio zombou. "Um assunto pessoal? Elisa, você abandonou nosso casamento. Você quebrou um contrato legalmente vinculativo entre duas das famílias mais poderosas do estado. Você acha que pode simplesmente se esconder em uma sala de aula e fingir que isso não aconteceu?"

"Não é uma sala de aula, Caio. É a minha vida", eu disse, minha voz baixa e firme. "Uma vida que finalmente estou escolhendo para mim. E, para constar, o contrato não foi quebrado. Foi cumprido. Você está casado com a Carla. Ela é sua esposa."

A palavra "esposa" o atingiu como um golpe físico. Sua compostura rachou, e um lampejo de raiva crua cruzou seu rosto. "Aquilo foi um truque. Um truque infantil e rancoroso. Você sabe que ela nunca deveria ser..."

"Ela nunca deveria ser sua amante? Ela nunca deveria ser a pessoa que você amava enquanto estava noivo de mim? Ela nunca deveria ser a pessoa que você salvou enquanto me deixava ser ferida?" As palavras saíram, mais frias e afiadas do que eu pretendia.

Caio ficou em silêncio, o maxilar travado.

A Reitora Albuquerque olhou de mim para ele, sua expressão indecifrável. Ela uniu os dedos sobre a mesa. "Sr. Medeiros, embora as contribuições de sua família para esta universidade sejam muito apreciadas, não nos envolvemos nas disputas domésticas de nossos alunos. O desempenho acadêmico da Senhorita Monteiro é impecável. A menos que você possa fornecer provas de má conduta acadêmica, não há nada que eu possa fazer."

"Eu posso cortar nosso financiamento", ameaçou Caio, sua voz baixando para um sussurro perigoso.

Os olhos da Reitora se estreitaram. "Você poderia. E então a imprensa teria uma história muito interessante para relatar: 'Herdeiro Bilionário Caio Medeiros Tenta Expulsar Ex-Noiva da Universidade Após Casar-se com a Prima Dela'. Como você acha que o conselho de diretores reagiria a essa manchete?"

O rosto de Caio ficou branco de fúria. Ele estava encurralado, seu poder tornado inútil pela lógica simples e pela ameaça de uma péssima publicidade. Ele se levantou tão abruptamente que sua cadeira arranhou o chão.

Ele me fuzilou com o olhar, seus olhos prometendo retaliação. "Isso não acabou."

Então ele saiu da sala, batendo a porta atrás de si.

Soltei um suspiro que não percebi que estava segurando. Minhas mãos tremiam.

"Obrigada, Reitora Albuquerque", eu disse, minha voz um pouco trêmula.

Ela me deu um sorriso pequeno e raro. "Concentre-se em seus estudos, Senhorita Monteiro. Parece que você tem um futuro brilhante pela frente, com ou sem o nome Medeiros."

Caio não desistiu. Ele não podia usar sua influência para me expulsar, então recorreu ao assédio. Começou a aparecer no campus, esperando por mim do lado de fora das minhas aulas. Ele tentava falar comigo, seu tom mudando descontroladamente de suplicante para exigente. Ele enviava buquês de flores extravagantes para o meu apartamento com bilhetes implorando para que eu voltasse. Ele até fez minha mãe me ligar, a voz dela um coquetel de decepção e ameaças veladas sobre me cortar financeiramente.

Eu ignorei tudo. Mudei meu caminho, joguei as flores no lixo e bloqueei o número da minha mãe. Despejei toda a minha energia nos estudos, encontrando consolo no mundo limpo e previsível das teorias econômicas e estudos de caso.

Foi no meu seminário avançado de microeconomia que conheci Felipe Campos.

Ele não era como Caio. Não era chamativo ou esmagadoramente bonito daquela forma polida e corporativa. Ele era quieto, centrado, com olhos quentes e inteligentes e um sorriso que sempre os alcançava. Ele era um estudante de doutorado, o monitor da turma, e era brilhante. Ele conseguia explicar a complexa teoria de precificação por arbitragem de uma forma que a fazia parecer simples, intuitiva.

Ele começou a me notar, não pelo meu sobrenome, que ele não conhecia, mas pelas perguntas que eu fazia na aula. Ele ficava por perto depois do seminário, e nós entrávamos em conversas fáceis sobre tudo, desde teoria dos jogos até o café horrível da biblioteca da universidade.

Ele vinha de uma família modesta, filho de um professor de história do ensino médio e de uma bibliotecária. Ele tinha três empregos para pagar seu doutorado. Ele era gentil, genuinamente gentil, sem nenhum motivo oculto. Ele me via, apenas Elisa, uma estudante que amava aprender. Era uma sensação nova.

Uma noite, eu estava saindo do meu trabalho de meio período como garçonete em uma lanchonete perto do campus. Eu estava exausta, meus pés doíam e eu tinha uma prova para estudar. Ao sair para o ar frio da noite, eu o vi sentado em um banco do outro lado da rua, um livro no colo.

Era o Felipe.

Ele ergueu os olhos quando eu saí, e um sorriso lento se espalhou por seu rosto. Ele fechou o livro e atravessou a rua.

"Eu estava só passando por aqui", disse ele, embora ambos soubéssemos que era mentira. A lanchonete ficava a quilômetros do apartamento dele.

"Perseguindo sua aluna favorita, Campos?", brinquei, um sorriso genuíno tocando meus lábios pela primeira vez em semanas.

"Culpado", ele admitiu sem vergonha. "Imaginei que você estaria com fome. E eu não queria comer sozinho." Ele apontou para a lanchonete de onde eu acabara de sair. "Ouvi dizer que a torta deles é horrível, mas a companhia é excelente."

Meu estômago roncou na hora, um protesto alto e embaraçoso. Senti minhas bochechas corarem.

Felipe apenas riu, um som quente e gentil. "Vou interpretar isso como um sim."

Hesitei por apenas um segundo. A sombra de Caio ainda pairava, uma ameaça constante de caos. Mas olhando para Felipe, para seu rosto aberto e honesto, senti uma sensação de paz que não percebia que estava faltando.

"Tudo bem, Campos", eu disse, minha voz mais suave do que eu esperava. "Mas você paga. Acabei de passar oito horas servindo gente como você."

Seu sorriso se alargou. "Fechado."

Voltamos para dentro e nos sentamos em uma cabine perto da janela. A lanchonete estava quieta, na calmaria da madrugada. Conversamos por horas, muito depois de a torta ter acabado. Ele me contou sobre seu sonho de se tornar professor, de tornar a economia acessível a todos. Eu lhe contei sobre minha paixão por estratégia de negócios, omitindo cuidadosamente as partes sobre minha família.

Com ele, eu não era Elisa Monteiro, a herdeira fugitiva. Eu era apenas Elisa. E era mais do que suficiente. Quando ele me acompanhou até em casa mais tarde naquela noite, um silêncio confortável se instalou entre nós. Na porta do meu prédio, ele parou.

"Eu sei que você está passando por... alguma coisa", disse ele, seu olhar sério. "Você não precisa me contar o que é. Mas quero que saiba que você não está sozinha nisso."

Suas simples palavras de apoio, oferecidas sem expectativa de nada em troca, eram mais valiosas do que todo o dinheiro dos Medeiros no mundo. Eram uma tábua de salvação.

Antes que eu pudesse me impedir, inclinei-me e dei um beijo rápido e suave em sua bochecha. "Obrigada, Felipe."

Entrei correndo antes que ele pudesse ver o rubor subindo pelo meu pescoço, meu coração batendo um pouco mais rápido do que tinha o direito.

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