Na minha primeira vida, Sofia Pereira tinha tudo, exceto a sensibilidade para o amor verdadeiro.
Minha arrogância e frieza levaram Rafael, o homem que me amava incondicionalmente, à morte trágica, e só depois do seu fim doloroso compreendi a dimensão do meu erro.
Renascida, jurei redimir-me.
Mas um tormento ainda maior aguardava: Rafael, também renascido, tratava-me com uma crueldade gelada, usando uma mulher idêntica a mim, Isabella, como sua nova "esposa".
Ele humilhava-me publicamente, enquanto eu observava todo o meu esforço para mudar se esvair.
Num confronto decisivo, ele me abandonou, escolhendo a outra.
Minha dor foi avassaladora, e eu morri novamente, chocada com a inexplicável frieza de quem um dia me adorou.
Por que Rafael, o homem que conheci e amei, se tornara tão implacável?
Ele se lembrava?
Seria apenas vingança?
Estava eu condenada a reviver o sofrimento, presa num ciclo eterno de dor e sacrifício?
Quando abri os olhos novamente, uma luz diferente me saudou em um passado ainda mais distante.
Era minha terceira chance.
Desta vez, entendi: não seria apenas sobre Rafael, seria sobre reescrever nosso destino.
Começaria por proteger minha família e reconquistar o coração que eu mesma quebrei.
Sofia Pereira sentiu o cheiro de desinfetante e abriu os olhos lentamente.
A luz branca do hospital feria sua vista.
Lágrimas escorriam sem parar pelo seu rosto. Rafael estava morto.
Seu Rafael.
Morto por causa dela.
Na vida passada, ela o tratou com frieza e desprezo.
Ele a amava profundamente, mas ela só tinha olhos para Tiago Alves, um playboy que só queria o status de sua família.
A imagem da noite da festa da alta sociedade invadiu sua mente.
Rafael foi drogado.
Para não ceder aos efeitos da droga, para não traí-la, ele se trancou na câmara fria de um hotel.
Passou a noite inteira lá.
Aquilo comprometeu gravemente sua saúde.
Mas ela não sabia, não se importava.
Só depois da morte dele, quando encontrou o cofre com as cartas, gravações e um diário detalhado, ela entendeu.
Entendeu a profundidade do amor e do sacrifício de Rafael por ela e pela família Pereira.
Ele era um escudo silencioso, protegendo-a de tudo e de todos, inclusive dela mesma.
E ela o destruiu.
A dor em seu peito era insuportável.
"Rafael..." ela sussurrou, a voz rouca.
Se ao menos ela tivesse uma segunda chance.
Uma única chance para consertar tudo.
De repente, uma tontura avassaladora a tomou.
O quarto do hospital girou.
Escuridão.
Sofia piscou, confusa.
O barulho alto de música eletrônica e conversas animadas a ensurdecia.
O cheiro de perfume caro e álcool impregnava o ar.
Ela conhecia aquele lugar.
A festa. A maldita festa.
Ela olhou para as próprias mãos. Jovens, sem as marcas do sofrimento.
Seu coração disparou.
Ela renasceu.
Na noite em que tudo começou a dar errado.
A urgência a dominou. Rafael.
Ela precisava encontrar Rafael.
Lembrou-se vividamente daquela noite.
Rafael, sempre discreto, observando-a de longe com aqueles olhos castanhos cheios de uma tristeza que ela, na época, ignorava.
Ela, por outro lado, estava ocupada demais flertando com Tiago, exibindo sua arrogância como um troféu.
Lembrou-se de ver alguém oferecer uma bebida a Rafael.
Ele hesitou, mas aceitou por educação.
Minutos depois, ele começou a passar mal.
Suor escorrendo pelo rosto pálido, a respiração ofegante.
Ela viu, mas não fez nada. Achou que era fraqueza dele.
A culpa a esmagou como uma tonelada.
Ela precisava agir, e rápido.
Procurou desesperadamente por ele no meio da multidão.
Finalmente, o avistou perto de uma saída de serviço, cambaleando.
Ele estava pálido, os lábios arroxeados.
"Rafael!" ela gritou, correndo em sua direção.
Ele se virou, os olhos arregalados de surpresa ao vê-la.
"Sofia? O que... o que você quer?" a voz dele era fraca, trêmula.
"Você não parece bem. O que aconteceu?" ela perguntou, tentando manter a voz calma.
"Eu... eu não sei. Estou tonto, com calor..." ele murmurou, quase caindo.
Ela o segurou.
Na vida passada, ela o teria empurrado, dito algo cruel.
"Você bebeu demais, seu fraco."
Ou: "Não me envergonhe na frente dos meus amigos."
Lembrou-se de suas palavras exatas, e sentiu o gosto amargo do arrependimento.
A crueldade dela o empurrou para a câmara fria.
Para o início de seu fim.
As consequências daquela noite foram devastadoras.
A saúde frágil dele, as internações constantes, a tosse seca que nunca o abandonava.
Tudo porque ele tentou protegê-la, proteger a honra do casamento deles, mesmo que ela não se importasse.
Ele nunca a culpou. Nunca disse uma palavra.
Sofria em silêncio, enquanto ela continuava sua vida fútil.
Agora, olhando para ele, tão vulnerável, a determinação dela se solidificou.
Não haveria câmara fria desta vez.
Ela não permitiria.
"Vem comigo," ela disse, a voz firme.
Pegou a mão dele, surpresa com o quão fria estava.
Ela o puxou para longe da festa, ignorando os olhares curiosos.
Encontrou um quarto de hotel vazio, provavelmente usado pelos funcionários.
Agradeceu mentalmente por sua família ser dona da rede de comunicação que patrocinava o evento, o que lhe dava certo acesso.
"Deita aqui," ela o ajudou a se sentar na cama estreita.
Correu para o pequeno frigobar, pegou uma garrafa de água.
"Bebe isso. Devagar."
Ele obedeceu, os olhos ainda fixos nela, uma mistura de confusão e algo mais que ela não conseguiu decifrar.
Ela pegou uma toalha pequena no banheiro improvisado, molhou com água fria e começou a limpar o suor do rosto dele.
Ele estremeceu ao toque dela.
"Sofia... por quê?" ele conseguiu perguntar.
Ela parou, olhou nos olhos dele.
"Porque eu fui uma idiota, Rafael. Uma completa idiota."
Sem pensar duas vezes, ela se inclinou e o beijou.
Um beijo hesitante no início, depois urgente.
Ela precisava sentir que ele estava vivo, que ela podia mudar o futuro.
Rafael ficou tenso sob o toque dela, surpreso demais para reagir.
O beijo de Sofia era diferente de tudo que ele esperava dela.
Não havia frieza, nem desdém. Havia... desespero? Paixão?
Ele estava confuso. Seu corpo ainda lutava contra a droga, mas a mente tentava processar a mudança repentina dela.
Ele queria afastá-la, perguntar o que diabos estava acontecendo.
Mas uma parte dele, a parte que a amava há tanto tempo, respondeu ao beijo.
O corpo dele relaxou um pouco, e ele a puxou para mais perto.
A intimidade entre eles foi explosiva, uma mistura de culpa, desejo e uma necessidade desesperada de conexão.
Para Sofia, era uma forma de penitência, de tentar apagar as memGesórias dolorosas.
Para Rafael, era um momento de pura confusão e entrega.
Quando tudo acabou, eles ficaram em silêncio, deitados lado a lado na cama estreita.
Sofia observava o teto, o coração ainda acelerado.
Ela tinha mudado uma coisa. Uma coisa crucial.
Mas e Rafael? Ele também teria renascido?
Se sim, ele se lembraria da crueldade dela? Do sofrimento dele?
Na vida anterior, o amor de Rafael era um segredo bem guardado.
Ela só o descobriu tarde demais, através de suas palavras escritas.
Ele a amava desde o dia em que o pai dela, o Sr. Pereira, o apresentou como o novo talento do jornalismo investigativo do grupo.
Um jovem humilde, brilhante, com uma integridade que o Sr. Pereira admirava.
O casamento deles foi arranjado pelo pai dela.
Sr. Pereira via Rafael como o genro ideal, um pilar para o futuro do império de comunicação da família.
E, secretamente, ele esperava que Rafael pudesse proteger Sofia, talvez até mesmo mudá-la.
O casamento deles foi um desastre.
Discussões constantes, a frieza dela como uma barreira de gelo.
Ela o humilhava em público, o ignorava em particular.
Ele suportava tudo em silêncio.
Continuava trabalhando arduamente, protegendo os interesses do Grupo Pereira, mesmo quando ela o sabotava indiretamente com seus escândalos e indiscrições.
Rafael fazia sacrifícios silenciosos.
Ele cobria as dívidas de jogo de Tiago, para que Sofia não se decepcionasse com o "amigo".
Ele intervinha discretamente para abafar os escândalos que ela causava, protegendo a reputação da família.
Ele até mesmo cuidava da saúde do Sr. Pereira, garantindo que ele tomasse os remédios, algo que Sofia, como filha única, raramente fazia.
Ele fazia tudo isso por amor a ela, e por lealdade ao Sr. Pereira.
O fim da vida anterior foi trágico.
Após a morte de Rafael, a Família Albuquerque, rival no setor de mídia, intensificou seus ataques.
Sem a inteligência e a proteção de Rafael, o Grupo Pereira começou a ruir.
Sr. Pereira adoeceu gravemente com o estresse.
Sofia, sozinha e despreparada, viu o império de sua família desmoronar.
Ela perdeu tudo. O dinheiro, o status, a família.
E o mais importante, perdeu a chance de dizer a Rafael que o amava.
A descoberta do cofre foi o golpe final.
Lá estavam cartas de amor nunca enviadas, gravações de conversas onde ele a defendia de acusações, um diário detalhando cada dia de sofrimento e amor não correspondido.
Havia também um plano meticuloso para proteger o Grupo Pereira, um plano que ele não teve tempo de executar.
Ela chorou por dias, agarrada àquele diário, relendo cada palavra.
A devoção dele era palpável, avassaladora.
Ele sabia que ela gostava de lírios brancos, mesmo que ela nunca tivesse dito. A casa estava sempre cheia deles.
Ele sabia que ela tinha enxaquecas terríveis e sempre deixava um analgésico e um copo d'água na mesa de cabeceira dela, mesmo que ela nunca agradecesse.
Ele sabia que ela tinha medo de escuro e sempre deixava uma pequena luz acesa no corredor, mesmo que ela o chamasse de ridículo por isso.
Detalhes. Pequenos detalhes que demonstravam um cuidado imenso.
Um cuidado que ela pisoteou.
Agora, deitada ao lado dele naquele quarto de hotel, Sofia fez um juramento silencioso.
Desta vez, seria diferente.
Ela o protegeria.
Ela amaria Rafael com todas as suas forças.
Ela não deixaria que o destino cruel se repetisse.
Ela lutaria por ele, por eles, e pela família Pereira.
E, se ele também tivesse renascido, ela faria o impossível para reconquistar a confiança e o amor dele, mesmo que doesse.
Ela estava pronta para pagar qualquer preço.
A manhã seguinte chegou fria e cinzenta, espelhando o humor que se instalou no quarto.
Sofia acordou primeiro, sentindo o corpo dolorido, mas o coração estranhamente leve.
Rafael dormia ao seu lado, o rosto sereno. Por um instante, ela se permitiu a esperança.
Então, ele abriu os olhos.
A confusão da noite anterior havia sumido, substituída por uma frieza calculada que a atingiu como um soco.
"Bom dia," ela disse, a voz um pouco hesitante.
Ele se sentou, afastando-se dela.
"Preciso ir," ele respondeu, a voz desprovida de qualquer emoção. Ele nem sequer olhou para ela.
Sofia sentiu um nó na garganta. Aquele era o Rafael que ela conhecia da vida passada, antes de descobrir seus segredos.
Ou pior, era um Rafael que se lembrava de tudo.
Ela tentou se aproximar, tocou o braço dele.
"Rafael, sobre ontem à noite..."
Ele se esquivou do toque dela como se queimasse.
"Não há nada para falar sobre ontem à noite, Sofia. Foi um erro. Um grande erro."
Aquelas palavras, ditas com tanta indiferença, doeram mais do que qualquer crueldade do passado.
Ele se levantou e começou a se vestir em silêncio.
Ela ficou sentada na cama, nua e vulnerável, observando-o.
A resignação começou a se instalar. Ele se lembrava. Claro que se lembrava.
Ela tentou justificar a frieza dele para si mesma.
Ele estava magoado. Tinha todo o direito de estar.
Ela o fez sofrer tanto na vida anterior. Seria ingênuo esperar que ele a recebesse de braços abertos só por causa de uma noite.
A mudança dela parecia repentina demais, suspeita.
Ele provavelmente pensava que era por culpa, ou pena.
Não importava. Ela teria paciência. Ela provaria a ele que havia mudado.
"Rafael," ela começou, a voz mais firme, "precisamos conversar sobre nós. Sobre o nosso casamento."
Ele parou de abotoar a camisa, finalmente olhando para ela. Havia um brilho de escárnio em seus olhos.
"Nosso casamento? Que casamento, Sofia? Aquele em que você me trata como lixo e eu finjo que não me importo?"
As palavras eram duras, mas justas.
"Eu sei que errei," ela admitiu, engolindo o orgulho. "Mas eu quero consertar as coisas. Quero uma segunda chance."
Rafael riu, um som amargo que não combinava com ele.
"Segunda chance? Você acha que é simples assim? Você me destruiu, Sofia. Destruiu qualquer sentimento bom que eu pudesse ter."
Ele estava mentindo. Ou tentando se convencer disso. O amor dele era forte demais para ser destruído tão facilmente.
Mas a dor dele era real. Palpável.
"Eu sei que palavras não são suficientes," ela disse, levantando-se e se enrolando no lençol. "Mas eu vou te mostrar. Vou te mostrar que mudei."
Sofia sentiu a dor de ser mal interpretada, mas sabia que merecia a desconfiança dele.
Na vida anterior, ela teria explodido, o acusado de ser ingrato, de não reconhecer a "honra" de estar casado com ela.
Agora, ela apenas absorveu a amargura dele, aceitando-a como parte de sua penitência.
Ela não podia culpá-lo por pensar o pior dela.
Afinal, ela lhe dera todos os motivos para isso.
Ela tinha um plano. Um plano para o futuro deles.
Reconstruir a confiança, tijolo por tijolo.
Mostrar a ele, dia após dia, que ela era uma nova Sofia.
Uma Sofia que o amava, que o valorizava.
Seria difícil. Seria doloroso. Mas ela não desistiria.
"Eu não vou desistir de nós, Rafael," ela disse, a voz cheia de uma determinação recém-descoberta.
Ele a encarou por um longo momento, o rosto indecifrável.
Então, ele soltou a bomba.
"Eu já falei com seu pai, Sofia. Sugeri uma separação amigável."
O chão pareceu sumir sob os pés dela.
"O quê? Por quê?" ela gaguejou.
Isso não estava nos planos. Na vida anterior, ele nunca teria sugerido isso, apesar de tudo.
Rafael deu de ombros, a indiferença cortando-a profundamente.
"Porque é o melhor para nós dois. Você não me ama. Eu... eu não posso mais viver assim." A última parte soou quase como uma confissão dolorosa, rapidamente mascarada.
"Você pode ter sua liberdade, Sofia. Ficar com quem quiser. Eu não vou mais ser um empecilho na sua vida."
Ele estava oferecendo a ela exatamente o que ela pensava que queria na vida anterior.
Mas agora, a ideia de perdê-lo era aterrorizante.
O pedido de divórcio a atingiu com a força de um trem.
"Não, Rafael. Por favor. Não faça isso."
As lágrimas que ela segurou por tanto tempo ameaçaram transbordar.
Ela não podia perdê-lo. Não de novo. Não quando ela finalmente entendeu.
"Eu não quero o divórcio," ela disse, a voz embargada. "Eu quero você."
Nesse momento, o celular de Sofia tocou. Era o pai dela.
Ela atendeu, tentando controlar a voz.
"Alô, pai."
"Sofia, querida, onde você está? Rafael me ligou mais cedo, parecia... estranho. Ele mencionou algo sobre separação. O que está acontecendo?"
A voz do Sr. Pereira era uma mistura de preocupação e autoridade.
Alívio temporário a inundou. Seu pai não aprovaria o divórcio.
"Pai, eu e Rafael tivemos uma discussão. Ele está chateado, mas vamos resolver. Não se preocupe."
Rafael a observava, uma sobrancelha arqueada, cético.
"Pai, aproveitando que estou falando com o senhor," Sofia mudou de assunto rapidamente, "precisamos conversar sobre o Grupo. A Família Albuquerque está planejando algo grande. Eles vão tentar nos prejudicar."
Ela tentou alertá-lo, usar seu conhecimento prévio.
Mas o Sr. Pereira desconversou.
"Sofia, querida, não se preocupe com isso agora. Os Albuquerque sempre estão tramando algo. Temos uma equipe para lidar com eles. Concentre-se no seu casamento. Rafael é um bom homem. Não o perca."
Ele desligou antes que ela pudesse insistir.
Impotência. Seu pai não a levaria a sério sobre os negócios, não ainda.
Rafael terminou de se vestir e caminhou até a porta.
Ele não esperou por ela.
Aquele simples ato de abandono doeu profundamente.
Ele estava realmente determinado a se afastar.
O desespero começou a tomar conta dela.
Ela se vestiu às pressas e correu atrás dele.
Alcançou-o no corredor do hotel.
"Rafael, espera!"
Ele parou, mas não se virou.
"Por favor, vamos conversar. Em casa. Eu preparo o café da manhã."
Ele finalmente se virou, e o olhar dele era gélido.
"Não há nada para conversar, Sofia. E eu não vou para casa com você. Pedi para um motorista me buscar."
Ele cortou a comunicação, erguendo uma muralha entre eles.
Sofia ficou parada no corredor, observando-o se afastar.
A mudança nele era gritante.
Na vida anterior, mesmo magoado, ele nunca a trataria com tanto desprezo calculado.
Ele sempre fora gentil, mesmo em sua tristeza.
Agora, ele era um estranho. Um estranho que a conhecia bem demais.
A culpa a corroía. Ela fizera isso com ele.
Ela o transformara nesse homem frio e desconfiado.
Mas a resolução dela não vacilou.
Ela o reconquistaria.
Reconquistaria a confiança dele, mesmo que levasse uma vida inteira.
Desta vez, ela lutaria pelo amor deles.
Ela não o deixaria ir.
Ela voltaria para casa. Para a casa deles. E esperaria por ele.
Ela transformaria aquele lar, antes frio e sem vida, em um refúgio para ele.
Ela provaria que era digna do amor dele.